1 2 MARINA CASTAÑEDA Psicoterapeuta de origem mexicana, Marina Castañeda é especialista em terapia familiar e em hipnose ericksoniana. Formada nos Estados Unidos da América (universidades de Harvard e de Stanford) e na França (Escola Normal Superior), ela apresenta há muito tempo um interesse particular no que diz respeito à questão da homossexualidade em geral e, no modo como ela é abordada aqui, na psicoterapia junto a esta população. Co-diretora do Instituto Milton H. Erickson de Cuernavaca, México, ela se dedica também ao ensino e à escrita. 3 COMPREENDER A HOMOSSEXUALIDADE 4 MARINA CASTAÑEDA COMPREENDER A HOMOSSEXUALIDADE Explicações, conselhos para os homossexuais, suas famílias, seus terapeutas 5 A Patrícia 6 O que não temos que decifrar, que esclarecer pelo nosso esforço pessoal, o que era claro antes de nós, não nos pertence. [Ce que nous n’avons pas eu à déchiffrer, à éclaircir par notre effort personnel, ce qui était clair avant nous, n’est pas à nous] MARCEL PROUST 7 Prefácio A homossexualidade não se limita mais aos homossexuais. Não é mais, como se pensava outrora, uma tragédia pessoal que afligia alguns desafortunados mas que, felizmente, não afetava outras pessoas. Hoje, a homossexualidade diz respeito a todo mundo, porque ela nos obriga a confrontar questões que se tornaram centrais para todos nós. Não há dúvidas que as instituições tradicionais do casamento e da família estão em crise, assim como as relações entre os sexos e a própria definição do amor. Muitas pessoas procuram modelos alternativos para o casal. E muitos dentre nós exploraram formas diferentes de comunicação e de engajamento, que possam nos oferecer relações mais íntimas e mais igualitárias ao mesmo tempo em que preservamos nossa liberdade individual. Quais formas podem assumir o casal quando o casamento não é mais o único modelo possível? Podemos pensar outras escolhas para o amor, amizade e o sexo entre duas pessoas? Da mesma forma, todos nós nos perguntamos sobre a natureza da masculinidade e da feminilidade em nossa época. Como são os homens quando não têm mulheres com eles? Como são as mulheres quando vivem sem homens? Nos dois casos, como evolui a relação de casal, quando ela não é mais determinada pelas exigências da heterossexualidade? A homossexualidade atual nos oferece algumas respostas. Mostra-nos modelos alternativos de casal, de comunicação e de sexualidade. Revela-nos algumas características profundas das mulheres e dos homens quando se tornam independentes do outro sexo. Os homossexuais ilustram traços, condutas e formas de relação que vão além dos papéis tradicionais ditados pela sociedade. Mas a homossexualidade não é somente uma orientação sexual nem um modo de ser puramente íntimo. Representa também uma posição frente à vida e à sociedade. Os homossexuais são ainda, quase por toda a parte, uma minoria discriminada e marginalizada. Ao mesmo tempo, fazem parte da sociedade heterossexual: pertencem a todas as raças, todas as classes sociais, todas as religiões e profissões e todos os países. O que significa, hoje, fazer parte da sociedade ao mesmo tempo em que se rejeita as suas normas mais essenciais? Se refletirmos sobre os grandes debates de nossa época que dizem respeito à integração e à marginalização, aos direitos civis das minorias, à possibilidade de um pluralismo inclusivo, veremos que as questões colocadas pela homossexualidade dizem respeito a todos nós. Tentarei nesse livro apresentar as pesquisas atuais sobre o assunto completando-as pela minha própria experiência, pessoal e clínica. Tentei, antes de tudo, expor a dimensão psicológica da homossexualidade e de descrever a experiência subjetiva dos homossexuais. Não pretendo apresentar um estudo sociológico, literário ou histórico — esses temas foram e continuarão a serem tratados em profundidade por especialistas nesses assuntos. Também não quis escrever um tratado sobre o Movimento de Liberação Guei. Isso já foi feito por pessoas muito mais gabaritadas do que eu, por terem participado diretamente desse grande movimento social. Enfim, o leitor encontrará apenas poucas 8 referências à AIDS, apesar de seus efeitos indubitáveis sobre a homossexualidade contemporânea — mas o vírus não faz parte, no final das contas, da identidade homossexual. Meu assunto é antes a Psicologia da Homossexualidade enquanto tal — um campo de conhecimentos que se desenvolveu graças justamente à evolução social e cultural dos últimos trinta anos. Tentei também transcender as fronteiras na medida do possível: seguramente, não é a mesma coisa ser homossexual nos Estados Unidos, no México ou na França, mas, certos aspectos da subjetividade homossexual são, contudo, generalizáveis, e são esses que eu tentei isolar. Finalmente, eu não pretendo apresentar um tratado para especialistas, mas antes um texto acessível e útil destinado aos homossexuais, as suas famílias e seus terapeutas. Portanto, o leitor encontrará aqui exemplos e narrativas extraídas da experiência vivida das pessoas entrevistadas, assim como numerosas recomendações práticas para os terapeutas e temas de reflexão para os próprios homossexuais. Assim, examinarei as diferentes definições e explicações da homossexualidade e a maneira pela qual se constrói a identidade homossexual do ponto de vista subjetivo e social. Estudarei a infância, a adolescência e a idade adulta no homossexual, e o papel particular que ele desenvolve na sua família de origem, enquanto a única criança a não se casar e não ter filhos. Analisarei as vicissitudes da clandestinidade (ou do “armário”, segundo o termo consagrado) com suas vantagens e desvantagens, e apresentarei estratégias para dele sair. Em seguida, examinarei as inúmeras manifestações da homofobia interiorizada que afeta em tantos níveis o funcionamento psicológico e social dos homossexuais e dá à sua experiência subjetiva uma tonalidade totalmente específica. Abordarei também as dinâmicas particulares do casal homossexual, tanto masculino quanto feminino, destacando as profundas diferenças que distinguem um do outro. Irei me debruçar igualmente sobre o papel central da amizade na vida homossexual. Analisarei as interpretações atuais da bissexualidade e questionarei em que medida essa pode constituir uma orientação sexual propriamente dita. Finalmente, apresentarei algumas reflexões sobre o papel que a homossexualidade desenvolve na cultura e na sociedade contemporânea, sobre as vantagens e desvantagens de ser homossexual em nossa época, e sobre as perspectivas para o futuro. Esse livro não é e não poderia ser o fruto de um esforço puramente pessoal. Apóia-se sobre o trabalho de gerações de pesquisadores, de criadores e de militantes que lutaram contra a ignorância e o preconceito para libertar não somente os homossexuais, mas todo mundo. É a eles que eu dedico essa contribuição. Sumário Prefácio..................................................................................................................................7 Sumário..................................................................................................................................9 CAPÍTULO I.........................................................................................................................13 UMA IDENTIDADE MUTANTE............................................................................................13 CAPÍTULO 2........................................................................................................................25 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS..........................25 Práticas, desejos e sentimentos............................................................................26 As práticas.............................................................................................................26 Amor e desejo........................................................................................................27 A identidade homossexual....................................................................................28 Quem é homossexual?..........................................................................................29 Diferentes concepções da homossexualidade......................................................30 Será que estão percebendo?................................................................................31 Uma questão de hormônios?................................................................................32 Em busca do gene perdido....................................................................................33 A teoria social da homossexualidade....................................................................35 A dimensão subjetiva.............................................................................................36 Escolher a homossexualidade?.............................................................................36 A identidade guei...................................................................................................37 Recomendações para o trabalho terapêutico....................................................38 CAPÍTULO 3........................................................................................................................39 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL:..........................................................................................39 Gênero e orientação sexual..................................................................................39 Uma infância típica dos homossexuais?...............................................................40 A teoria psicanalítica..............................................................................................41 Não uma, mas muitas causas possíveis...............................................................42 A construção da homossexualidade.....................................................................43 Os tempos da homossexualidade.........................................................................44 Teorias do desenvolvimento homossexual...........................................................44 Os riscos da adolescência.....................................................................................46 Uma adolescência diferente para os homens e para as mulheres.......................47 O luto da heterossexualidade................................................................................48 A reconstrução da história pessoal.......................................................................49 Identidade e comunidade......................................................................................50 A descoberta tardia da homossexualidade...........................................................50 A adolescência bifásica dos homossexuais..........................................................51 Uma identidade feliz ou infeliz?.............................................................................51 A terceira idade......................................................................................................52 Escolher sua própria homossexualidade..............................................................52 Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico ..................53 Exploração da orientação sexual nos adolescentes.............................................53 Exploração da história pessoal..............................................................................54 O luto da heterossexualidade................................................................................54 CAPÍTULO 4........................................................................................................................55 AS VICISSITUDES DO ARMÁRIO......................................................................................55 10 Por que dizê-lo?.....................................................................................................56 Dizer-se homossexual...........................................................................................56 O preço da clandestinidade...................................................................................57 Sair do armário nem sempre é possível nem desejável.......................................58 A comunicação na família.....................................................................................59 Sair do armário: um processo familiar...................................................................59 Como fazer?..........................................................................................................61 Deve-se contar isso a seus pais?..........................................................................61 O tabu familiar.......................................................................................................61 O preço da mentira................................................................................................63 A culpabilidade nos pais........................................................................................64 O papel do homossexual na família......................................................................65 O outro armário: a orientação sexual do terapeuta...............................................65 Será que é preciso ser homossexual para trabalhar com homossexuais?..........66 Os terapeutas gueis devem revelar sua orientação?............................................69 Ajudar melhor os seus pacientes homossexuais..................................................70 Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico...................71 Recomendações gerais para o terapeuta que trabalha com homossexuais....73 CAPÍTULO 5........................................................................................................................74 HOMOFOBIA INTERIORIZADA..........................................................................................74 Homofobia e confusão dos gêneros......................................................................74 A homofobia nos heterossexuais..........................................................................75 Os homossexuais são sempre os outros..............................................................76 A homofobia nos homossexuais............................................................................76 A sensação de estar em desvantagem.................................................................78 Outras manifestações da homofobia interiorizada................................................79 “Não sou homossexual como os outros”...............................................................80 A promiscuidade dos últimos decênios.................................................................81 As “perversões” sexuais........................................................................................82 Homens violentos, mulheres delicadas.................................................................83 Diferentes modos de ser homossexual.................................................................84 Estereótipos globalizados e locais........................................................................84 A homofobia aprendida ........................................................................................85 O questionamento dos estereótipos......................................................................85 A homofobia no terapeuta.....................................................................................87 CAPÍTULO 6........................................................................................................................90 O CASAL HOMOSSEXUAL EM GERAL.............................................................................90 Uma razão de ser diferente...................................................................................90 Os estereótipos e a homofobia interiorizada.........................................................90 O casal invisível.....................................................................................................91 O isolamento social do casal homossexual..........................................................92 A família de eleição...............................................................................................93 O ciclo vital.............................................................................................................93 A dimensão do futuro.............................................................................................94 A semelhança…....................................................................................................94 … E a diferença.....................................................................................................96 Inveja e ciúmes......................................................................................................97 “Mas” e “menos” homossexual..............................................................................97 Mas o que eles têm em comum?..........................................................................99 Mais ou menos saído do armário..........................................................................99 11 Os pontos fortes da relação homossexual..........................................................100 Uma outra modalidade de comunicação.............................................................101 Sexo, amor e amizade.........................................................................................102 A amizade entre homens e mulheres..................................................................103 Os riscos da inovação.........................................................................................104 Reinventar o casal...............................................................................................104 A aceitação social do casal homossexual...........................................................105 Temas de reflexão para consolidar o casal homossexual..............................106 CAPÍTULO 7......................................................................................................................107 O casal homossexual feminino..........................................................................................107 A dimensão social e ideológica...........................................................................107 A recusa da dominação masculina.....................................................................108 A escolha da lesbianidade...................................................................................108 A intensidade afetiva...........................................................................................109 Gênero e modalidades de relação......................................................................110 A empatia e a superproteção..............................................................................111 A identificação perfeita........................................................................................112 A tendência à fusão.............................................................................................112 Mãe e filha...........................................................................................................113 Autonomia e intimidade.......................................................................................114 O declínio da relação sexual...............................................................................115 Uma sexualidade feminina menos “sexual”?......................................................115 A dinâmica sexual do casal.................................................................................116 Amor e sexualidade.............................................................................................116 Fusão e sexualidade............................................................................................117 As ligações fora do casal.....................................................................................118 A rotina sexual.....................................................................................................119 Mais o que elas fazem na cama?........................................................................119 Lésbicas masculinas e femininas........................................................................120 Os papéis na vida cotidiana................................................................................120 É preciso discordar..............................................................................................121 O desafio da lesbianidade...................................................................................122 Temas de reflexão para consolidar o casal lésbico.........................................122 CAPÍTULO 8......................................................................................................................124 O casal homossexual masculino.......................................................................................124 A revolução sexual..............................................................................................124 O marketing do corpo..........................................................................................124 A nova homossexualidade..................................................................................125 Homossexualidade “negra” e “branca”................................................................126 A comercialização da homossexualidade...........................................................126 A AIDS.................................................................................................................127 A sexualidade homossexual masculina..............................................................128 Em que consiste o casal masculino?..................................................................129 Características do casal masculino.....................................................................130 A comunicação entre homens.............................................................................130 A autonomia na relação.......................................................................................132 As decisões no casal...........................................................................................133 Relação e multiparceria.......................................................................................134 O ciúme................................................................................................................135 Sexualidade e amor.............................................................................................136 12 As diferenças no casal........................................................................................136 Uma grande variedade de casais........................................................................137 Modelos alternativos?..........................................................................................138 CAPÍTULO 9......................................................................................................................140 A MIRAGEM DA BISEXUALIDADE...................................................................................140 O que a bissexualidade não é.............................................................................140 O conceito de bissexualidade..............................................................................142 Uma orientação sexual variável..........................................................................142 Interpretações tradicionais..................................................................................144 A dimensão ideológica........................................................................................146 A bissexualidade nas mulheres...........................................................................146 A bissexualidade nos homens.............................................................................148 Diferentes tipos de bissexualidade......................................................................148 Limites da bissexualidade...................................................................................149 Problemas da identidade bissexual.....................................................................151 Bissexualidade e liberdade..................................................................................152 RECOMENDAÇÕES PARA O BISSEXUAL....................................................153 RECOMENDAÇÕES PARA O TERAPEUTA..................................................153 Conclusão..........................................................................................................................155 UMA NOVA HOMOSSEXUALIDADE................................................................................155 Bibliografia.........................................................................................................................163 ÍNDICE REMISSIVO..........................................................................................................167 13 CAPÍTULO I UMA IDENTIDADE MUTANTE Começamos com um paradoxo: homossexual nem sempre é homossexual. O heterossexual sim. Em todas as suas relações sociais, profissionais e familiares, a sua orientação sexual é sempre uma parte de sua identidade essencial. O homem heterossexual entra em relação com os homens e as mulheres de um certo modo, que exprime abertamente sua orientação e que é globalmente invariável. A mulher heterossexual tem gestos, condutas e maneiras de falar que refletem não somente sua feminilidade, mas também sua heterossexualidade. Nos dois casos, sexo biológico, orientação sexual e papéis sociais tendem a convergir, e formar uma identidade relativamente estável. Em contrapartida, o homossexual não se desloca no mundo com uma identidade constante. Suas atitudes, seus gestos, seu modo de entrar em relações com os outros mudam conforme as circunstâncias. Ele pode parecer heterossexual no escritório, assexuado na sua família, e expressar sua orientação sexual somente na presença de alguns amigos. Ou então, durante longos períodos de sua vida, pode negar completamente sua homossexualidade e parecer exatamente o contrário: um Don Juan ou uma mulher fatal sempre à procura de novas conquistas. Além do mais, o heterossexual foi educado para sê-lo; desde a sua mais tenra infância, foi formado para um papel e um lugar no mundo heterossexual. Este não é o caso para o homossexual, que freqüentemente só toma consciência de sua orientação no decorrer da adolescência ou da idade adulta. Portanto, ele não cresceu em seu papel; não foi educado para ser homossexual. Falta-lhe todo o tipo de habilidades e de códigos sociais dos quais necessitará num mundo homossexual que será o seu. Quando descobrem, enfim, sua orientação sexual, deve reaprender todas as regras do amor, da amizade e da sociabilidade. Não é surpreendente o fato de que podemos ler, na literatura psicológica tradicional que os homossexuais são “pouco maduros” em suas relações sociais e de casal. Contudo, não se trata de uma falta de maturidade, mas sim de carência de aprendizagem. A identidade homossexual não é dada. Constrói-se aos poucos e nem sempre se expressa da mesma maneira: muda de acordo com o contexto imediato e os momentos da vida. O homossexual, portanto, não é homossexual do mesmo modo que o heterossexual é heterossexual. Suas relações com os outros e com ele próprio são muito diferentes; nesse sentido, poderíamos dizer que o homossexual vive num universo interior muito diferente, o qual, na maior do tempo, não se vê do lado de fora. Muitos homossexuais tentam, de fato, se tornarem invisíveis e passarem por heterossexuais aos olhos da sociedade, de sua família e de seus amigos. Isso afeta inevitavelmente seu modo de ser no mundo. Acostumados a esconder uma parte essencial de seus desejos e de suas necessidades afetivas, mostram freqüentemente apenas um aspecto superficial deles mesmos. Muitos deles têm dificuldade de expressar, e até mesmo identificar, seus sentimentos; podem parecer superficiais ou pouco interessados pelos outros. Escondem, às vezes, sua realidade cotidiana: assim ouvem-se homossexuais que vivem há anos com alguém falarem como se estivessem sozinhos. Pode-se facilmente concluir que são pessoas solitárias, pouco sociáveis ou sinceras. E esta impressão pode lhes causar dificuldades, tanto na vida social quanto na esfera íntima. Entretanto, o problema não é que eles rejeitam a sociedade, mas sim que a sociedade os rejeita. 14 Desde a Revolução Homossexual e o Movimento de Liberação Guei dos anos 70 e 80, existem nos países “desenvolvidos” uma atitude muito mais aberta e tolerante em relação à homossexualidade. Essa não é mais considerada um crime e nem uma doença, e cada vez mais homossexuais “saem do armário”, tanto na vida pública quanto na vida privada. Sem dúvida essa evolução foi positiva para os homossexuais e para suas famílias. Mas ela também engendrou uma série de mal-entendidos. Em especial, espalhou-se a idéia de que o homossexual e o casal homossexual são “normais” e, portanto, essencialmente “iguais” aos heterossexuais, e tendemos a percebê-los e julgá-los segundo os critérios sociais aplicados a estes últimos. Ora, o indivíduo homossexual não é como o heterossexual, e o casal guei ou lésbico não é como o casal heterossexual: apresentam dinâmicas, etapas, problemas e recursos específicos. Um terapeuta não deve tratar seus pacientes gueis como se fossem heterossexuais nem aplicar os mesmos critérios diagnósticos. A homossexualidade — em suas práticas e suas dinâmicas — não é uma cópia malfeita de um original que seria a heterossexualidade; e tampouco um fenômeno equivalente. O fato de “normalizar” a homossexualidade reduziua, na verdade, a seus aspectos mais simples, e constitui por isso mesmo uma distorção. Esse livro, portanto, não tentará “inocentar” a homossexualidade nem demonstrar que é um modo de vida “normal” parecido com a heterossexualidade. Ao contrário, irá se esforçar em detectar, explicitar e explicar suas particularidades: a diferença, e não a semelhança. Um outro mal-entendido que tentaremos dissipar é a tendência, por parte de muitos heterossexuais, para amalgamar a experiência das mulheres e dos homens homossexuais. Embora compartilhem uma marginalização social similar, suas formas de vida e de casal são essencialmente diferentes. Historicamente falando a relação entre a população homossexual masculina e a feminina sempre foi problemática. Desde as primeiras associações homófilas na Inglaterra do século XIX que não aceitavam as mulheres, até os setores mais radicais do feminismo atual, que rejeitam qualquer cooperação com os homens gueis, as relações entre mulheres e homens homossexuais foram marcadas por uma certa desconfiança. Foi apenas há aproximadamente 20 anos (na época da Liberação Guei) que as duas comunidades forjaram uma aliança em favor dos direitos civis dos homossexuais. Mas essa convergência estratégica foi minada pela AIDS que dizimou a população masculina, e não a das mulheres. Apesar da implicação da comunidade lésbica na luta contra a AIDS, muitas mulheres se afastaram diante de um fenômeno que elas percebiam como o resultado de uma promiscuidade tipicamente masculina. Portanto, poderíamos dizer, de um ponto de vista histórico, sociológico, político e psicológico, que a experiência homossexual é profundamente diferente para os homens e para as mulheres. Novamente, esse livro procurará apontar precisamente as diferenças, além das semelhanças. Esses mal-entendidos, bastante generalizados, produzem hoje seus frutos. Enquanto a pesquisa e a organização social, política e jurídica avançam rapidamente nas comunidades gueis e lésbicas dos países industrializados, a maior parte das pessoas está sempre presa a certos estereótipos — tanto novos quanto antigos. Apesar dos grandes progressos do conhecimento e dos direitos civis, o homossexual permanece uma figura misteriosa: risível para uns, ameaçadora para outros. Apesar de ele ser cada vez mais visível na cultura, cada vez mais presente na sociedade, permanece, contudo, uma personagem radicalmente desconhecida. O preço dessa marginalização está cada vez mais alto. Quando a homossexualidade era um fenômeno isolado e escondido, era fácil pô-la de lado. Não trazia muitos problemas para as famílias, nem para as instituições, nem para as autoridades. Não se falava quase dela, e era razoável pensar que ela não existia — em 15 todo o caso, não entre as pessoas honestas. Nossos pais e avós podiam dizer, com toda a franqueza, que eles nunca tinham conhecido homossexuais. Esse desconhecimento, às vezes trágico para os homossexuais, não trazia problemas para a sociedade em geral. Não é mais o caso. Hoje, os homossexuais estão cada vez mais visíveis nas famílias, nos locais de trabalho e na sociedade em geral. Os heterossexuais são obrigados a enfrentar os problemas que a homossexualidade pode lhes causar em todos os domínios: eles não podem mais se dar ao luxo de ignorá-la. Ademais, se a homossexualidade se define em relação à heterossexualidade, o inverso também é verdadeiro. A homossexualidade nos obriga a requestionar nossos preconceitos que dizem respeito ao amor, às relações entre homens e mulheres, e à natureza da amizade. Os homossexuais apresentam um novo tipo de casal, outras regras do jogo, que podem ajudar os heterossexuais a renovar suas relações humanas. Em uma palavra, os heterossexuais poderão conhecer melhor e desenvolver sua própria sexualidade na medida em que entenderem melhor a orientação homossexual, libertandose assim de preconceitos e de estereótipos que os afetam igualmente. Vários autores, entre os quais Michel Foucault em sua Histoire de la Sexualité1, observaram que a identidade homossexual é um fenômeno relativamente recente. Antes do século XIX, havia práticas homoeróticas (mais ou menos toleradas em diferentes sociedades), mas não pessoas homossexuais. Aqueles que tinham práticas homoeróticas não eram considerados nem por eles mesmos nem pela sociedade como seres à parte: não se concebia a existência de uma identidade fundamentalmente diferente. Isso mudou na era moderna, com a penalização da homossexualidade pelos Estados e sua patologização pelos médicos. Assim, apareceu pela primeira vez a figura do homossexual cuja identidade essencial está definida pelo seu comportamento sexual. Essa categorização deu lugar, por sua vez, ao nascimento de uma comunidade — e, portanto, numa cultura —, especificamente homossexual nas grandes cidades. Portanto, pode-se dizer que historicamente também a identidade homossexual constrói-se aos poucos: os processos sociais e individuais, sociológicos e psicológicos, são paralelos e se nutrem reciprocamente. A pergunta “quem é homossexual?” suscita sempre grandes debates. Nos anos 70 e 80, o Movimento de Liberação Guei propôs a liberação não somente de uma população específica, mas do homossexual em cada um de nós. Estipulou a existência de uma bissexualidade natural e inerente a todos os seres humanos. Bissexualidade que é depois circunscrita e reprimida pela socialização heterossexual. O objetivo era, portanto, libertar não somente os homossexuais, mas a sociedade em seu conjunto. Esse programa foi modificado ao longo dos anos 90. As associações gueis nos países desenvolvidos fixaram-se um objetivo muito mais restrito, ao adotar um modelo étnico da homossexualidade: nessa perspectiva, os homossexuais constituem uma comunidade, que como toda a minoria oprimida, deve ter os mesmos direitos que a maioria, mantendo ao mesmo tempo uma identidade cultural própria. Mais recentemente, o Movimento Queer propôs a abolição de todas essas categorias, argumentando que qualquer classificação fundamentada sobre a sexualidade ou até mesmo o gênero deriva de um discurso social essencialmente repressivo. A pergunta “o que define a homossexualidade?” nem sempre tem resposta certa. Um grande número de pessoas tem práticas homoeróticas, sem por isso se considerar homossexuais, outras se acreditam homossexuais sem nunca ter tido relações sexuais com alguém do seu próprio sexo. Existem homens para quem o ato sexual em si não é importante — mas que recusariam veementemente beijar um homem na boca, porque seria uma prova de homossexualidade. Em certos países do Terceiro mundo, um homem 1 Os três volumes desta obra de Foucault foram traduzidos pela Editora Graal, Rio de Janeiro. 16 que penetra um outro homem não se considera um homossexual: se desenvolver um papel ativo (seja com homens ou mulheres) significa que ele é um homem “de verdade” e, certamente, não um homossexual. Nessa ótica só é homossexual aquele que é penetrado. E como definir as pessoas que têm relações heterossexuais, mas fantasias homoeróticas? Ou vice-versa? O que dizer das pessoas que, vivendo há anos com alguém do mesmo sexo, negam categoricamente serem homossexuais? Devemos concluir que elas estão mentindo ou que elas mentem para si mesmas? Para complicar as coisas, o que acontece quando uma lésbica tem uma relação com um homem? Ela ainda é lésbica? A identidade sexual é um atributo fixo das pessoas ou muda conforme a relação do momento? Se um homem homossexual e uma lésbica tem relação sexual, é um ato homo — ou heterossexual? E o que dizer se, durante essa relação, os dois alimentam fantasias homoeróticas? Certos teóricos diriam que se trata de uma relação essencialmente homossexual, mesmo que fisicamente ela implique um homem e uma mulher. A pergunta se torna então: a homossexualidade se refere ao domínio físico ou afetivo? Às práticas ou ao pensamento? Ás reações fisiológicas ou às emoções? E o que acontece se os dois níveis não coincidem, o que acontece freqüentemente tanto nos hetero quanto nos homossexuais? A essas perguntas é preciso acrescentar outras que podem parecer mais simples até mesmo absurdas, mas que foram longamente debatidas e continuam a ser problemáticas para a maioria das pessoas. Um homem que tem relações homoeróticas é sempre um homem? Uma mulher que tem relações sexuais com outra mulher é realmente uma mulher? Muitos heterossexuais diriam que não — mas a maioria dos homossexuais não hesitaria em afirmar o contrário. Isso reflete em parte um problema de definição: pelo menos na cultura popular ser homossexual significa ser “menos homem” ou “menos mulher”. Trata-se aqui de uma confusão muito presente entre gênero e sexualidade — que, como veremos mais adiante, são duas coisas muito diferentes. Em certas sociedades, considera-se que a homossexualidade “feminiza” o homem: ela o torna como as mulheres. E, portanto, o rebaixa. Mas, em outras culturas pensa-se que a homossexualidade “masculiniza” o homem. Assim, certos povos das Ilhas do Pacífico acreditam que os meninos devem ingerir sêmen para tornarem-se homens; e que, mesmo casados, os homens devem manter relações com outros homens para lhes dar força e coragem. Esses exemplos mostram que não tem relação estável entre homossexualidade, masculinidade e feminilidade: as significações mudam de acordo com o contexto social e cultural. Até mesmo no mundo ocidental, a relação exata entre gênero e orientação sexual se tornou cada vez mais complexa. Antes, era fácil pensar (e muitos ainda pensam assim) que o homossexual era um homem efeminado, e a lésbica uma mulher masculinizada — do ponto de visto da anatomia, dos hormônios, da personalidade ou mesmo da “alma”. Nessa perspectiva a homossexualidade era um problema de gênero: o homossexual não era um “homem de verdade”, nem a lésbica uma “mulher de verdade”. Faltava-lhes algo. Na realidade, durante muito tempo, uma escola de pensamento psicanalítico afirmou que a homossexualidade se devia a uma série de falhas, de lapsos no desenvolvimento. Por exemplo, no homem ela podia se explicar por uma relação deficiente com o pai, pela ausência de um modelo masculino com o qual se identificar. Sabe-se atualmente que as coisas não são assim tão simples. Por um lado, não se conseguiu evidenciar diferenças sensíveis entre a infância ou a dinâmica familiar de homossexuais ou de heterossexuais: crianças que “tendiam” à homossexualidade não se tornaram homossexuais quando adultos, e muitos homossexuais tiveram, em contrapartida, uma infância e uma vida familiar tediosamente “normais”. Por outro lado, existem homens muito masculinos, e mulheres muito femininas, que são homossexuais. E 17 os anos 80 e 90 viram surgir uma sensibilidade e um modo de vida que se poderia qualificar de andrógenos. As diferenças que permitiam outrora falar de comportamentos ou de temperamentos propriamente masculinos ou femininos se apagaram. Não estamos mais na época na qual um eminente psiquiatra pôde escrever: “Podemos sempre suspeitar a homossexualidade nas mulheres que têm os cabelos curtos, se vestem de acordo com a moda masculina ou que cultuam os esportes ou os lazeres masculinos2.” Os limites entre homossexualidade e heterossexualidade tornaram-se também cada vez mais obscuros. Desde a Revolução Sexual dos anos 70 falou-se muito da bissexualidade como sendo uma característica inata, um estado natural, do ser humano. Nesta ótica, a orientação sexual não é dada pela Biologia, mas construída por meio da história social e pessoal. Essa idéia, embora sedutora, deu também lugar a uma série de mal-entendidos. Pois se todos nós temos a possibilidade ou o potencial de ser hetero — ou homossexuais, isso não explica porque somente algumas pessoas se tornam homossexuais, nem como a orientação sexual pode mudar num dado momento. Em outras palavras, se todos nós somos bissexuais, não o somos com certeza do mesmo modo. Em um sentido, o conceito da bissexualidade (que é extremamente complexo, como o veremos mais adiante) se tornou uma fórmula fácil, uma explicação válida para qualquer situação, permitindo enfrentar fenômenos que vão muito além das etiquetas que podemos lhes aplicar. Paralelamente, nossa época viu uma proliferação de explicações relativamente simplistas da homossexualidade. No decorrer dos últimos anos, os estudiosos procuraram características hormonais ou genéticas próprias da homossexualidade. Descobriram, por exemplo, que, se um homem homossexual tiver um irmão gêmeo idêntico, existem fortes chances para que esse irmão seja também homossexual — essas chances diminuem se se tratar de gêmeos diferentes ou de um irmão que não seja gêmeo. Portanto, existem indícios (nem muito precisos nem muito conclusivos), a favor de uma dimensão genética da homossexualidade. Os pesquisadores também descobriram algumas diferenças em nível hormonal e até mesmo cerebral entre homo — heterossexuais —, mas nem sempre elas estão presentes. Algumas dentre elas são aplicáveis aos homens, mas não às mulheres. Outras, detectadas em certos níveis hormonais pré-natais não são conclusivas: se elas parecem ter desenvolvido um papel em certos casos, elas não estão presentes em todos os casos estudados. E não se descobriu ainda nenhum traço genético “homossexual” que seja comum às lésbicas e aos homossexuais de uma mesma família. Nenhuma das teorias da homossexualidade existente até o momento — sejam elas de ordem psicanalítica ou hormonal — é suficiente para explicar porque certas pessoas são homossexuais e outras não. Tudo isso sugere que não existe uma só explicação, mas várias, que agem conjuntamente: biológicas, sociais, culturais, familiais e pessoais. Entretanto, para muitos homossexuais e suas famílias a questão permanece crucial. Contudo, devemos nos perguntar por que é tão importante conhecer as causas da homossexualidade. Afinal de contas, os heterossexuais nunca se perguntam por que eles são heterossexuais. E nenhum psicólogo ou psicanalista, ao explorar a história de um paciente, terá a idéia de procurar as causas históricas de sua heterossexualidade. Essa questão se torna pertinente somente quando a orientação sexual é percebida como anormal, ou como um déficit. Uma pessoa sã não se pergunta por que ela está bem; uma pessoa doente se interroga sem cessar sobre as causas de sua doença. Isso significa que a própria pergunta apresenta um problema: ela carrega pressupostos sobre a homossexualidade que devem ser explicitados e examinados para saber se ela é ou não legítima nestes termos. Não é de se estranhar o fato de que o próprio Freud tenha escrito: 2 Richard von Krafft-Ebbing, Psychopathia Sexualis, citado em Francis Mark Mondimore (1996). A Natural History of Homosexuality. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, p. 62. Todas as citações no texto e nas notas de rodapé foram traduzidas em francês pela autora do original e traduzidas em português pelos autores da tradução. 18 ”O estudo desse aspecto nos mostrará até onde essa questão [se se tratava de um caso de homossexualismo congênito ou adquirido] é estéril e despropositada3.” Mesmo o vocabulário associado à homossexualidade é cheio de controvérsias. É bom lembrar que, durante a Idade Média, a palavra “sodomia” referia-se a toda uma série de práticas sexuais consideradas pecaminosas que incluíam a masturbação, a felação, o coito anal, a bestialidade e o coito-interrompido — em suma, todas as práticas sexuais que não tinham como objetivo a procriação. Alguns teólogos consideravam também como sodomia o fato de um cristão ter relações com um judeu ou um mulçumano: estes últimos sendo vistos como animais, qualquer contato sexual com eles dizia respeito à bestialidade. Na era moderna, os Estados substituíram a Igreja para regulamentar, julgar e penalizar o comportamento sexual. A homossexualidade masculina tornou-se punível de castração, exílio ou de morte na maior parte da Europa, muito depois das outras práticas sexuais terem sido descriminalizadas. Foi no século XIX que apareceram os primeiros recursos para despenalizar as práticas homoeróticas — o que não impediu que Oscar Wilde tivesse sido condenado a dois anos de trabalhos forçados em 1895, por causa de sua relação com Lord Alfred Douglas. As associações homofílicas da Inglaterra e da Alemanha procuraram redefinir a homossexualidade como um fenômeno “natural” (e, portanto, não “contra-natura”), mas ainda não “normal”. A psiquiatria nascente considerou a homossexualidade como um sintoma de “degenerescência” (algumas vezes agravada pela masturbação), no mesmo plano das doenças tais como o alcoolismo ou a alienação mental — uma idéia ainda comum em nossos dias, em certos meios especialmente conservadores. Freud teve o enorme mérito de rejeitar a teoria da degenerescência neste campo como em outros. Se ele via a homossexualidade como um déficit na maturação psicossexual ela não constituía para ele uma doença. Como escreveu em Trois essais sur la théorie de la sexualité: “Vários fatores permitem ver que os invertidos não são degenerados nesse sentido legítimo da palavra: (1) Encontra-se a inversão em pessoas que não exibem nenhum outro desvio grave da norma; (2) Do mesmo modo, encontramola em pessoas cuja eficiência não está prejudicada e que inclusive se destacam por um desenvolvimento intelectual e uma cultura ética particularmente elevados. (…) (a) É preciso considerar que nos povos antigos, no auge de sua cultura, a inversão era um fenômeno freqüente, quase que uma instituição dotada de importantes funções4.” No decorrer do século XX o movimento homofílico encontrou importantes aliados entre os intelectuais. Em países como a França e a Inglaterra, pensadores, escritores e artistas renomados eram homossexuais, e personalidades tão eminentes quanto Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir deram seu apoio ao movimento em favor dos Direitos Civis para os homossexuais. Aliás, esse movimento desenvolveu-se paralelamente às grandes campanhas contra o racismo e o anti-semitismo. Estima-se que dezenas de milhares de homossexuais e lésbicas foram presos na época de Hitler; muitos dentre eles morreram nos campos de concentração. (Na verdade, a Lei alemã contra a homossexualidade que permitiu essa perseguição foi extinta em 19695.) 3 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão, Vol. XVIII. 4 Sigmund Freud (1905). As aberrações sexuais. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 5 Mondimore, p. 218. Na verdade, apenas a Alemanha Ocidental, em 1968, suaviza as incumbências do parágrafo 175 que outorgava penas severas às práticas homoeróticas. Entretanto, foi apenas em 1994 que a Alemanha já unificada descriminalizou os relacionamentos sexuais entre homens retirando o Parágrafo 175. Para maiores detalhes da “Cronologia dos Direitos alcançados pelos Homossexuais”, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_dos_direitos_homossexuais#1990-1999 . [Nota dos tradutores] 19 Até mais ou menos vinte anos atrás, a psiquiatria também violou os Direitos Civis dos homossexuais, ao lhes infligir (com ou sem seu consentimento) diversos tratamentos para os “curar”. O método mais aberrante, usado nos anos cinqüenta e sessenta, era baseado no condicionamento aversivo: mostrava-se ao homossexual imagens de homens nus, ao mesmo tempo em que se aplicava um choque elétrico toda vez que aparecia uma imagem suscetível de despertar seu desejo. Mas também se tentou a castração, histerectomia, a lobotomia, e diversas drogas6. Claro, os “tratamentos” desse tipo fracassaram, e não são mais praticados atualmente. Todas as pesquisas recentes mostram que é quase impossível mudar a orientação sexual, mesmo quando uma pessoa assim o quer. Ademais, as tentativas desse tipo podem ter conseqüências graves: o homossexual que procura “ser curado” e não consegue acaba por se sentir ainda mais doente e culpado do que antes. Como explicou a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos no final de 1998, ao condenar formalmente qualquer terapia visando “curar” a homossexualidade, “a terapia reparadora pode trazer danos aos pacientes, provocando depressão, ansiedade e condutas autodestrutivas7.” O grande salto em favor da liberação homossexual deu-se a partir dos anos 60, essencialmente nos Estados Unidos e com o pano de fundo das manifestações contra a guerra do Vietnã. O catalisador foi um confronto de homossexuais com a polícia em Christopher Street em Greenwich Village, em Nova Iorque em junho de 1969. Foi a partir desse momento que começou a se difundir o uso do termo “guei” (que na Idade Média significava comediante, e no século XIX prostituto), ao invés de “homossexual”. A adoção deste termo representou um esforço para se afastar do modelo médico, e para constituir uma identidade baseada sobre o orgulho da diferença (a palavra “guei” em inglês significa “alegre”). Hoje muitos autores fazem uma distinção entre pessoas homossexuais e gueis: as primeiras têm condutas homossexuais, mas não se assumem como tais, enquanto as últimas assumem plena e orgulhosamente sua orientação. Em outros termos, se todos os gueis são homossexuais, todos os homossexuais não são gueis. A distinção é interessante, pois esclarece uma fase na construção da identidade homossexual, tanto no plano individual quanto no social. Portanto, ela tem importantes ressonâncias psicológicas, sociológicas e históricas. O debate sobre a homossexualidade permanece aberto. Não é de um interesse puramente teórico: a luta pelos Direitos Civis da população guei, as alianças que podem surgir entre essa e outras causas, a evolução da AIDS e outras questões sociais dependem da definição dada à homossexualidade. Muitos aspectos da vida pessoal estão também em jogo: como todos nós — homo ou heterossexuais — construímos nossa identidade sexual e social, como estabelecemos nossas relações amorosas e eróticas, como vivemos a amizade, como entendemos o mundo atual, tudo isso pode variar segundo a percepção que cada um de nós tem da homossexualidade. Essa percepção não deveria mais basear-se em preconceitos nem na experiência que cada um de nós pode ter, mas no conhecimento. Existe atualmente uma vasta literatura psicológica e sociológica sobre esse tema — o que não era o caso há apenas vinte anos atrás. Antes, o que se podia “saber“ sobre a homossexualidade derivava principalmente de romances ou de confissões pessoais relativamente escabrosas ou da teoria psicanalítica. E essa se baseava por sua vez em casos isolados, ou em pura especulação. O conhecimento da homossexualidade, como o da sexualidade em geral, foi revolucionado pelos estudos de Alfred Kinsey nos anos 40 e 50. Ao estudar as práticas 6 Ver John D’Emilio (1983). Sexual politics, sexual communities: The making of a homosexual minority in the United States, 1940-1970. Chicago: University of Chicago Press. 7 Decisão da American Psychiatric Association, relatada por Reuters em 15 de dezembro de 1998. 20 sexuais da população americana a partir de enquetes8 e de métodos estatísticos, ele inaugurou uma nova era nas pesquisas sobre a sexualidade. Pela primeira vez, conseguiu-se saber o que as pessoas faziam na vida real, graças a questionários precisos e não mais a interpretações ou a suposições. Como o próprio Kinsey observou na introdução à sua obra Sexual Behavior in the Human Male (1948), “antes de poder pensar cientificamente a qualquer um dos temas [associados à sexualidade], é necessário saber mais acerca do comportamento real das pessoas9.” Para estudar a homossexualidade, Kinsey desenvolveu a famosa escala que leva o seu nome. Essa contém sete categorias, indo de “exclusivamente heterossexual” até “exclusivamente homossexual” com cinco categorias intermediárias, para medir a experiência vivida dos sujeitos. Entre outras coisas, as pesquisas de Kinsey mostraram que, se há relativamente poucas pessoas nos dois extremos, há muitas, em contrapartida, nos valores intermediários. Kinsey estabeleceu que as condutas homossexuais não são de forma alguma limitadas às pessoas exclusivamente homossexuais, e que elas não podem ser consideradas “anormais”. Nessa lógica, não existe “homossexual” como tipo peculiar de pessoa, mas somente práticas homoeróticas que se encontram tanto nos heterossexuais quanto nos homossexuais. Graças à sua escala, Kinsey demonstrou que as práticas homoeróticas são, de fato, muito mais freqüentes do que se imaginava. Suas pesquisas revelaram que 37% dos homens americanos e 13% das mulheres tiveram tido pelo menos uma experiência homossexual chegando ao orgasmo. Esses números puseram fim à antiga concepção da homossexualidade segundo a qual apenas indivíduos perversos, doentes ou criminosos podiam ter relações eróticas com pessoas do mesmo sexo. Outros estudos americanos, mais recentes, chegam a números que vão de 6% da população até 17% das mulheres e 22% dos homens, para a porcentagem da população tendo tido relações homossexuais na idade adulta10. Por exemplo, uma enquête de 1994 sobre os costumes sexuais dos americanos estabeleceu que 7,1% dos homens estudados e 3,8% das mulheres tiveram pelo menos uma experiência homossexual desde a puberdade. Mas somente 2,7% dos homens e 1,3% das mulheres tiveram esses contatos no decorrer do ano anterior — isto é, em relações homossexuais relativamente atuais ou estáveis. Esses dados coincidem com o número de pessoas que se definem explicitamente homossexuais: 2,8% dos homens e 1,4% das mulheres11. São as porcentagens geralmente aceitas atualmente sobre a incidência da homossexualidade nos Estados Unidos. Mas os dados variam segundo o país: na França, por exemplo, somente 1,1% dos homens e 0,3% das mulheres tiveram relações sexuais com pessoas do mesmo sexo ao longo dos últimos doze meses12. E somente 4,1% dos homens e 2,6% das mulheres relatam pelo menos um contato sexual com alguém do mesmo sexo no decorrer de sua vida13. Os últimos três decênios viram proliferar esse tipo de estudos quantitativos, cada vez mais precisos. Os pesquisadores nesse assunto estudaram vastas amostras de homossexuais para saber como vivem e como evoluem seus casais, tanto nas suas relações cotidianas quanto nas diferentes etapas da vida. Existem atualmente livros sobre a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice dos homossexuais; sobre os casais que formam; sobre as suas condições socioeconômicas e sua saúde; sobre suas famílias de origem e até mesmo sobre suas preferências eleitorais. Os pesquisadores têm 8 Em português, a palavra 'enquete' geralmente se refere à pesquisa realizada pela mídia. Entretanto, em francês, a mesma palavra pode ser utilizada para descrever a pesquisa científica realizada a partir de questionários. [Nota dos tradutores] 9 Alfred Kinsey, Wardell Pomeroy e Clyde Martin (1948). Sexual behavior in the human male. Philadelphia: W. B. Saunders, p. 9. 10 Ver Edward O. Lauman, John H. Gagnon, Robert T. Michael e Stuart Michaels (1994). The social organization of sexuality: Sexual practices in the United States. Chicago: University of Chicago Press. E, Samule S. Janus e Cynthia L. Janus (1993) The Janus report on sexual behavior. New York: John Wiley and Sons. 11 Ver Lauman et al., op. cit. 12 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993) Les comportements sexuels en France. Paris : La Documentation française, p. 138. 13 Ibid., p. 136. 21 igualmente transcrito e reunido milhares de relatos de vida, nos quais os homossexuais falam de sua experiência pessoal, familiar e social. Todo esse corpus de pesquisas nos oferece atualmente um conhecimento da homossexualidade ao mesmo tempo vasto, preciso e confiável. Uma parte dessas pesquisas confirmou uma idéia que nasceu inicialmente no século XIX, e que foi adotada por Freud e retomada por diversas associações médicas, psicológicas e psiquiátricas de nossa época, segundo a qual a homossexualidade não é uma patologia. Essa idéia foi inicialmente demonstrada por uma psicóloga americana Evelyn Hooker em 1958. Ela aplicou uma bateria de testes psicológicos em duas amostras de homens homossexuais e heterossexuais, e mandou os resultados para vários especialistas a fim de que avaliassem a saúde mental de cada indivíduo e depois o classificassem como homo ou heterossexual. Os resultados foram surpreendentes. Os especialistas se mostraram incapazes de diferenciar os homo dos heterossexuais, e não encontraram nenhuma patologia que pudesse indicar a homossexualidade. Ademais, o nível de saúde mental é quase idêntico nos dois grupos, com uma leve vantagem para os homossexuais. Hooker concluiu que, entre outras coisas, os homossexuais eram tão “normais” quanto os heterossexuais, e que a homossexualidade, portanto, não podia ser considerada uma categoria clínica. Foi graças a estudos desse tipo, chegando sempre à mesma conclusão, e aos esforços de um número crescente de psiquiatras e psicólogos homossexuais que a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos riscou a homossexualidade de sua lista das patologias em 1973. Foi seguida pela Associação de Psicologia do mesmo país em 1974, e pela Organização Mundial de Saúde em 1992.14. Contudo, essas organizações reconheceram, em seus respectivos manuais de diagnóstico, que a pessoa que não aceita a sua homossexualidade pode sofrer de depressão, ansiedade e outros problemas psicológicos — mas que esses derivam de pressões familiares e sociais e de conotações negativas geralmente associadas à homossexualidade. A homossexualidade, portanto, não é mais considerada uma doença. Mas isso não quer dizer que os homossexuais não apresentam problemas psicológicos particulares. Vários estudos levantaram (pelo menos nos Estados Unidos) uma taxa de suicídio elevada entre os homossexuais, comparada com a da população heterossexual. Estimase que um terço dos adolescentes que se suicidam são jovens homossexuais. E de cada três adolescentes homossexuais, um relata ter tentado se autodestruir15. É importante destacar, contudo, que quase todas essas tentativas ocorreram entre a idade de dezesseis e vinte e um anos. Isso indica claramente que a adolescência é um período particularmente perigoso para os homossexuais: não é fácil admitir que somos diferentes nessa idade, sobretudo se essa diferença for condenada pela sociedade. Mas isso não significa que a homossexualidade seja patológica em si mesma: o problema reside na dificuldade de assumi-la frente a si mesmo e aos outros. Portanto, poderíamos dizer que a homossexualidade provoca, em certas condições, conflitos psicológicos — um pouco 14 No Brasil, em janeiro de 1985, tendo como base o parecer do Conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé, sob o pleito requerido pelo Grupo Gay da Bahia que motivou a consulta do Ministério da Saúde do Brasil ao Conselho Federal de Medicina, esse deliberou que: “Enquanto estiver em vigor o CID-9, os casos cujo motivo do atendimento médico for a homossexualidade podem ser codificados na Categoria V 62: "Outras Circunstâncias Psicossociais"; 2) Quando o comportamento homossexual for condicionado patologicamente, o enquadramento diagnóstico deve ser feito pela condições posológicas básicas”. Anos mais tarde, e também por pressão de Associações GLBTT, o Conselho Federal de Psicologia, em 22 de março de 1999, lançou a resolução 01/99 que “estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual”, deliberando que, por exemplo, a partir do Artigo 3º “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”. [Nota dos tradutores] 15 P. Gibson (1989). Gay male and lesbian youth suicide. Em U.S. Department of Health and Human Services, Report of the Secretary’s Task Force on Youth Suicide. Washington, D.C., U.S. Government Printing Office. 22 como pode ser difícil ser negro ou judeu, ou pertencer a uma religião minoritária, em certos países. No que concerne ao alcoolismo nos homossexuais, chega-se a conclusões parecidas. Se, de fato, há uma incidência mais elevada de alcoolismo entre a população homossexual em geral, estudos recentes mostram que os homossexuais com menos de trinta anos apresentam taxas semelhantes à dos heterossexuais de sua idade16. Isso quer dizer que os jovens homossexuais bebem menos do que os homossexuais mais velhos, o que não seria o caso se o alcoolismo fosse de algum modo inerente à homossexualidade. Uma explicação possível é que os homossexuais criados antes da liberação guei sofreram muito mais com as pressões familiares e sociais. Portanto, aqueles que hoje estão com mais de trinta anos tiveram uma juventude mais difícil. Além do mais, durante muito tempo os únicos lugares onde os homossexuais podiam se encontrar eram os bares — o que não é mais o caso hoje, pelo menos nos países industrializados. Atualmente, existem nos Estados Unidos e na Europa, associações gueis em quase todas as grandes cidades. Novamente, constatamos a enorme importância do contexto social quando analisamos comportamentos problemáticos entre a população homossexual. É interessante ver também como o campo semântico da homossexualidade (e a sexualidade em geral) deslocou-se no decorrer da era moderna. Antes do século XVIII, a sexualidade era examinada e julgada quase exclusivamente pela Igreja. Mas o debate se estendeu aos poucos para incluir os filósofos, os cientistas, os médicos e, claro, o Estado. A homossexualidade, que ainda no início do século passado era uma questão puramente moral e judicial, tornou-se um objeto de estudo para a medicina, a antropologia, a sociologia, a história, a psicanálise, a psicologia e, enfim, a sexologia. Hoje, ela adquiriu igualmente uma significação política — e não somente para os homossexuais. A homossexualidade foi discutida nas Nações Unidas pela primeira vez na Conferência sobre a mulher em Pequim em 1995. Durante um debate caloroso que durou até quatro horas da manhã, as delegadas do mundo industrializado defenderam a livre escolha das mulheres quanto à sua orientação sexual, os representantes dos países islâmicos e católicos conservadores adotaram a posição oposta. Esses últimos sustentaram, entre outros, que era ridículo perder tempo para discutir um caso que só podia interessar a uma ínfima minoria de mulheres. As delegadas dos Estados Unidos e da União Européia retrucaram que a possibilidade de exercer livremente a sua orientação sexual era crucial para todos os Direitos da mulher. Sem o direito ao lesbianismo (isto é, a uma sexualidade independente dos homens e da procriação), as mulheres, na verdade, não teriam nenhum controle sobre sua sexualidade, e portanto sobre seu próprio corpo. Essa discussão — finalmente vencida pelos conservadores — demonstrou muito claramente o papel que a homossexualidade pode ter no debate político e social de nossa época. Atualmente, quase todas as discussões sérias sobre os Direitos Civis, a liberdade individual, a tolerância ou o pluralismo passam, em algum momento, pelo debate sobre a homossexualidade. Essa não é mais apenas uma questão de teólogos ou de padres, de juízes ou de médicos: ela é um tema de reflexão para cada um de nós. Pode-se legitimamente se perguntar por que a imensa maioria dos estudos sobre a homossexualidade se refere quase exclusivamente aos homens. Há várias explicações possíveis. Em primeiro lugar, quase todos os textos que mencionam a sodomia ou a homossexualidade — sejam eles literários, filosóficos, históricos ou científicos —, desde a Idade Média passando pelo Renascimento até a era moderna, foram escritos por homens. Não esqueçamos o fato de que a palavra escrita foi desde sempre (e continua a sê-la, em 16 D. J. McKirnan e P. L. Peterson (1989). Alcohol and drug use among homosexual men and women: epidemiology and population characteristics. Em Addictive Behaviors, 14, 545. 23 muitas sociedades) o domínio exclusivo dos homens. Historicamente, são eles que tiveram acesso à esfera pública e política, ao mundo eclesiástico e, claro, à educação. Em segundo lugar, quase todas as proibições eclesiásticas e as Leis penais contra a homossexualidade tiveram como objeto os homens. Por quê? Até uma época recente (com certeza até a época de Freud), era impensável que as mulheres tivessem uma sexualidade própria, isto é, independente dos homens. Antes dos estudos de sexólogos como Master & Johnson nos anos 60, pensava-se que o orgasmo na mulher era exclusivamente vaginal — e que, portanto, dependia da penetração. Foi apenas muito recentemente que se reconheceu a realidade do orgasmo clitoriano, e portanto de um prazer sexual feminino sem penetração. Isso ajudou a iniciar um imenso campo de pesquisas sobre a sexualidade especificamente feminina, e portanto sobre o lesbianidade enquanto categoria que vale por si mesma — e não mais como um pobre substituto do prazer “verdadeiro”. Claro, muitas pessoas vêem ainda a lesbianidade como algo que fazem as mulheres quando não têm mais alternativas ou quando ainda não encontraram um homem de “verdade” que pudesse lhes ensinar a sexualidade “adulta”. Mesmo a Rainha Victória da Inglaterra (uma mulher extremamente apaixonada, como mostram sua correspondência e seus diários íntimos, publicados há pouco tempo) recusou, diz-se, assinar um decreto de Lei contra as práticas sexuais entre mulheres, argüindo que não podia haver relações entre duas mulheres e que, portanto, não havia necessidade de proibi-la. Não hesitou, em contrapartida, em assinar uma Lei punindo duramente as práticas sexuais entre homens. Portanto, se as práticas sexuais entre os homens sempre foi mais condenada do que para as mulheres, é porque em boa parte se considerava que a sexualidade em seu conjunto era uma questão masculina. Em terceiro lugar, durante todo o século XIX e uma boa parte do século XX (quando começa o estudo científico da homossexualidade), a amizade entre mulheres foi vista como uma forma de relação normal entre seres frágeis e inocentes possuindo uma grande sensibilidade, mas desprovidos de sexualidade. Ninguém se surpreendia com relações amorosas entre mulheres, pois ninguém imaginava que essas pudessem ser sexuais. Portanto, mesmo apaixonadas, essas amizades não eram percebidas como carnais — e elas talvez não o fossem. No final das contas, muitas mulheres pensavam elas mesmas serem incapazes de uma sexualidade própria. E durante uma boa parte do século XX, enquanto a sociedade tinha aceitado a possibilidade de relações sexuais entre mulheres, supôs-se que a lésbica era apenas uma mulher “masculina”. E sempre, e ainda, a sexualidade permanecia uma prerrogativa do homem. Em quarto lugar, o feminismo (que promoveu tantas pesquisas sobre a mulher em psicologia, em sociologia e em história) guardou suas distâncias com o lesbianismo por muito tempo. Algumas figuras centrais do feminismo moderado, até hoje, consideraram (talvez com razão) que sua causa seria desqualificada se fosse identificada com o lesbianismo. Na verdade, apesar dessa distância bastante marcada, a sociedade em seu conjunto repudiou o feminismo durante longos anos, ao considerar que partia de uma rejeição do homem e, portanto, de um lesbianismo relativamente camuflado. Isto explica o porquê as autoras feministas heterossexuais tenham escrito pouco sobre a homossexualidade. Enfim, a crise da AIDS levou muitos pesquisadores, em matéria de homossexualidade, a dar a prioridade aos homens e à dinâmica do casal masculino, em detrimento da mulher e da relação lésbica. A necessidade imperiosa de entender melhor os comportamentos e a psicologia do homossexual masculino com finalidades epidemiológicas relegou ao segundo plano os estudos sobre o lesbianismo. Aliás, era esperado. As lésbicas constituem a população menos afetada pela AIDS: com efeito, a 24 natureza da relação física entre duas mulheres torna mais difícil a transmissão do vírus por via sexual. Tudo isso explica porque existe uma enorme desproporção entre as pesquisas sobre a homossexualidade masculina e feminina. Esse desequilíbrio começou a se atenuar, contudo, ao longo dos últimos anos. Pelo menos nos Estados Unidos existe hoje uma vasta bibliografia sobre a mulher e a relação lésbica. Esse corpus de observações e de pesquisas revelou, entre outras coisas, que a experiência e a significação da homossexualidade variam consideravelmente entre homens e mulheres. A dinâmica do casal é também muito diferente de acordo com o sexo. Qualquer discurso ou estudo relacionado com a homossexualidade deve, portanto, incluir uma análise de gênero, e fazer as distinções necessárias entre a homossexualidade masculina e feminina. É muito importante que os próprios homossexuais, suas famílias e seus terapeutas, se informem sobre este vasto campo de conhecimento. Em parte por causa da AIDS, em parte graças à evolução cultural de nossa época, os homossexuais tornam-se cada vez mais visíveis em nossas sociedades. Saem cada vez mais da clandestinidade e estão mais presentes na vida familiar, cultural e social. Igualmente, cada vez mais os homossexuais têm procurado uma ajuda psicoterapêutica ao invés de sofrerem em silêncio. Infelizmente, até mesmo nos países industrializados, há poucos psiquiatras, psicólogos ou psicanalistas que conhecem bem o assunto. Isto se explica, em parte, pelo fato de que muitos livros escritos em inglês não são traduzidos. Mas é preciso dizer também que todos os textos estariam longe de ser pertinentes ou aplicáveis a todos os países. Pois a homossexualidade é vivida e percebida de maneira radicalmente diferente na Ásia, na Europa, na América Latina… As estruturas e as relações familiares, os conceitos de masculinidade e feminilidade, e até mesmo as definições de homossexualidade variam imensamente. Os estudos sobre a homossexualidade, portanto, não são necessariamente exportáveis, e cabe aos psicólogos, sociólogos e pensadores de cada país levar mais adiante as observações e as pesquisas nesse domínio. Nesse ínterim, a homossexualidade continuará a ser muito mais estudada nos Estados Unidos do que em outra parte: esse país foi o lugar de nascimento da liberação guei, e continua o centro desse tipo de estudos. É a razão pela qual muitas referências desse livro são tiradas da bibliografia americana — com certeza uma limitação, mas a qual espero que encoraje os psicólogos e os sociólogos de outros países a se questionar de forma semelhante e avançar as pesquisas em suas próprias sociedades. Esse esforço no conhecimento deverá ser feito paralelamente à luta pelos Direitos Civis dos homossexuais. O empenho político dos militantes gueis deverá ser acompanhado de um vasto trabalho de pesquisa e de divulgação. Resta muito a fazer. Espero que esse livro contribua para a tarefa, ajudando as pessoas homossexuais, suas famílias e seus terapeutas a entender melhor a sua vida cotidiana e a sua psicologia. O passo seguinte será o de ampliar as redes de apoio, centros de pesquisa e de ensino e listas de especialistas para que as pessoas homossexuais possam ter acesso a profissionais competentes e sem preconceitos, nos campos da medicina, do direito e da psicologia. Como qualquer população específica, os homossexuais deveriam poder consultar profissionais que conheçam a fundo seus problemas e suas necessidades. Exatamente como as crianças, os adolescentes, as mulheres ou as pessoas da terceira idade, os homossexuais apresentam toda uma série de traços e dinâmicas específicas que merecem toda a atenção, o conhecimento e o respeito daqueles que trabalham com eles. Os homossexuais diferem dos heterossexuais em muitos pontos, e eles têm o direito de serem reconhecidos em sua diferença. 25 CAPÍTULO 2 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS “Será que eu sou homossexual?” É uma pergunta que se faz quase sempre com angústia. Ela tem enormes implicações em todos os domínios da vida, e para sempre. Conforme a resposta, uma pessoa se casará e terá filhos, ou não. Manterá boas relações com sua família, ou não; viverá em seu lugar de origem, ou não. A vida daquele que responde afirmativamente a esta pergunta não será mais a mesma. E é uma pergunta que não tem equivalente no mundo da heterossexualidade. Quando uma pessoa descobre ou aceita nela mesma uma identidade minoritária, ela o faz geralmente no espírito de pertencimento: quando um judeu, um negro, um árabe, se assumem (segundo o país) como membros de uma minoria, provavelmente eles conhecem o custo desta identidade — mas também seus benefícios. Podem se sentir marginalizados, mal compreendidos ou até mesmo excluídos da sociedade em seu conjunto — mas eles se integram igualmente em uma coletividade e adquirem um sentimento de pertencimento. A identidade minoritária implica, na maior parte do tempo, em um sentido de comunidade, é freqüentemente, até mesmo, motivo de orgulho. Até agora, não foi o caso para os homossexuais. Quando uma pessoa se reconhece como homossexual, não existem benefícios visíveis. Ao contrário: abra-se diante dela um futuro isolado e marginalizado que trará provavelmente conflitos com a família e a sociedade. Assumir-se homossexual não parece uma volta ao lar, mas, antes, um exílio. Além do mais, a identidade homossexual não corresponde com nenhuma experiência anterior. O negro sempre foi negro, e fez parte de uma comunidade negra; o judeu foi judeu e o armênio, armênio. Eles têm um passado familiar e social que lhes ensinou o que significa pertencer a uma minoria, e quais são as regras desse jogo. Existe neles uma certa lealdade em relação à sua coletividade, porque fazem parte dela desde sempre. Em contrapartida, o homossexual que se assume como tal não tem nem modelos, nem experiência, nem aprendizagem anteriores; desconhece as regras e não fala a língua. Descobre que ele entra subitamente em um país desconhecido, sem mapa nem indicações, no qual ele precisará viver. Mesmo se isso não é mais tão verdadeiro quanto no passado, os homossexuais que estão hoje com mais de trinta anos provavelmente viveram desse modo a descoberta de sua homossexualidade. Uma lésbica de quarenta e três anos lembra-se: “quando eu tinha dezesseis anos, procurava desesperadamente conhecer pessoas como eu. Perguntava-me: "como eles fazem para se reconhecer entre eles"?” Tinha certeza que devia haver signos ou palavras, como códigos, ou pontos de cassação específicos, para eles poderem se encontrar. Então, procurava encontrar indícios em livros ou filmes como se eu estivesse aprendendo uma língua estrangeira. E depois demorei a aprender como funcionava o mundo homossexual, quais eram as regras para paquerar e iniciar relações.” 26 Práticas, desejos e sentimentos Como se chega a se fazer esta pergunta, e em que momento? Ela surge geralmente durante a adolescência, e às vezes na idade adulta. Mas não é uma pergunta simples. Muitos meninos adolescentes têm condutas homoeróticas sem nunca se perguntarem se são homossexuais. Outros jovens de ambos os sexos, não têm essas condutas mas se fazem constantemente a pergunta. Finalmente, há adultos que nunca duvidaram de sua orientação sexual, até o dia em que se encontram numa relação homossexual que lhes parece literalmente inexplicável. Eis a razão pela qual as pesquisas contemporâneas fazem uma distinção entre as práticas, o desejo, o amor e, finalmente, a identidade ou a autodefinição guei. Examinaremos sucessivamente estes diferentes elementos da homossexualidade. As práticas No que diz respeito às práticas, é difícil definir precisamente quais são ou não as características da homossexualidade. Assim, pensou-se durante muito tempo que a sodomia (quer dizer, o coito anal) era o ato homossexual por excelência. Mas os homossexuais nem sempre a praticam, em contrapartida, ela é bastante freqüente nos heterossexuais. Por exemplo, na França 30% dos homens e 24% das mulheres dizem ter praticado pelo menos uma vez o coito anal e 15% dos homens e 13% das mulheres praticam-no regularmente17 . Além do mais, um homem que sodomiza um outro homem não se considera necessariamente homossexual. Nos países latinos, somente o homem que se deixa penetrar é homossexual; aquele que o sodomiza não se vê, e não é considerado como tal. As coisas ainda ficam mais complicadas: para muitos homens, sodomizar um outro homem não é uma prática homossexual — mas beijá-lo na boca, sim. Nessa perspectiva, só é homossexual o homem que se parece com uma mulher (seja porque ele se deixa penetrar, seja porque forma uma ligação afetiva). Contudo, esse tipo de distinção não tem importância em outras regiões do mundo. É por causa dessa variedade de critérios que alguns sociólogos distinguem dois modos de definição da homossexualidade. Partindo de uma diferença estabelecida por Freud em Trois essais sur la théorie de la sexualité, eles fazem uma distinção entre o objeto sexual e a finalidade sexual. O primeiro termo se refere ao parceiro que pode ser um homem ou uma mulher. O segundo se refere à atividade sexual que se pratica, independentemente do sexo do parceiro. Se, por exemplo, é o ato da penetração que conta, pouco importa que ele seja praticado com um homem ou com uma mulher. É o que acontece na América Latina, onde o próprio ato sexual da masculinidade é penetrar, e onde o sexo da outra pessoa é secundário. Em contrapartida, o ato característico da feminilidade é o de ser penetrado; portanto, qualquer homem que se deixa sodomizar se iguala (ou se rebaixa) automaticamente ao estatuto da mulher. E, além disso, nesse sistema, o homossexual é um homem feminino por definição, assim, o homem penetrado é logicamente homossexual, enquanto aquele que penetra permanece heterossexual. Nessa abordagem, o que define a orientação sexual é a natureza da prática sexual, e não o sexo do parceiro. Em contrapartida, nos Estados Unidos e na Europa, é o sexo biológico da outra pessoa que conta, independentemente da prática. Qualquer pessoa que tem relações eróticas com alguém do mesmo sexo é considerada homossexual; pouco importa as suas 17 Maryse Jaspard (1997). La sexualité en France. Paris : Éditions La Découverte, p. 99 27 práticas sexuais. Do mesmo modo, se se tem relações com pessoas do sexo oposto, se é heterossexual; e se se as tem com ambos os sexos, se é bissexual. O que importa, é com quem se tem relação, e não o que se faz18. Amor e desejo Vemos, portanto, que as práticas não são por elas mesmas, um critério de homossexualidade, já que não tem em todo o lugar a mesma significação. Examinemos agora outros critérios, como o amor e o desejo. Esses trazem também numerosos problemas. Em primeiro lugar, nem sempre estamos conscientes de nossos sentimentos. Será que é possível desejar ou amar alguém sem percebê-lo? Isso parece incrível, mas muitas pessoas (sobretudo mulheres) descobrem apenas no momento de sua primeira relação homossexual que elas sempre tiveram esse desejo – mas não o sabiam. Ouvimos uma delas, uma mulher que, após dois casamentos, iniciou sua primeira relação lésbica aos quarenta e três anos: “A primeira vez que dormimos juntas, soube que sempre desejara isso. Mas nunca tinha pensado nisso. Foi somente na primeira vez que eu pensei: “Então, era isso que eu estava procurando.” E depois, isso me pareceu tão natural, tão autêntico, que nunca mais tive dúvida.” Essa descrição, aparentemente simples, esconde, entretanto, um enigma profundo. Poderíamos nos perguntar se essa mulher sempre tivera desejos homossexuais sem se dar conta deles, ou se surgiram nela de repente. Ou talvez, ela tivesse uma predisposição em relação à homossexualidade que nunca se manifestara, até o momento em que a pessoa indicada apareceu? Ou ainda, foi a ocasião que faltou? Poderíamos também nos perguntar se essa história não é simplesmente fictícia, um modo inconsciente de contornar uma verdade dolorosa… Em uma palavra, nem sempre temos consciência de nossos desejos ou de nossos sentimentos; às vezes, por incapacidade em reconhecê-los, não sabemos necessariamente em que momento apareceram. Uma pessoa pode se sentir fortemente atraída por uma outra, sem ter consciência disso. E essa atração pode tomar muitas formas; sua natureza sexual pode se esconder sob outros nomes. Por exemplo, o contato físico entre homens pode ser “justificar” em certos contextos permitidos, como em certos esportes. Assim, os membros de um time de futebol podem se olhar e se tocar de um modo que seria totalmente proibido, até mesmo inconcebível, em outras situações. Pode surgir entre duas mulheres uma ligação afetiva intensa, que as levam a se ver ou a se falar todos os dias, uma intimidade muito maior que aquela que elas têm com os seus maridos. Mas se lhes perguntar por que elas se procuram tão freqüentemente, elas mencionarão alguma circunstância exterior como o fato de serem vizinhas ou amigas de colégio… duas pessoas do mesmo sexo podem dividir tudo e se tornarem indispensáveis uma para a outra, sem nunca suspeitar (e muito menos assumir) que sua relação parece, ainda que estranhamente, com o amor. O elemento que falta, e que parece ser decisivo para a maioria das pessoas, é a presença ou não da atração sexual. É ela que marca a diferença entre a amizade e o amor erótico — pelo menos em teoria. Mas como podemos saber se há, ou não, atração sexual? Um componente da atração sexual é, claro, a excitação especificamente genital. E essa não é tão evidente para as mulheres quanto para os homens, nos quais o desejo é geralmente mais localizado nos órgãos genitais; nas mulheres, ele é mais difuso e assimila-se às vezes à outras emoções. É mais fácil para os homens reconhecer que seu 18 Ver Tomás Almaguer (1991) Chicano men: A cartography of homossexual identity and behavior. Em Differences, vol. 3, n˚2; Joseph Carrier (1989). Gay liberation and coming out in Mexico. Em Gilbert Herdt [ed.] Gay and lesbian youth. New York, Haworth Press; e Annick Prieur (1998) Mema’s house, Mexico city: On transvestites, queens and machos. Chicago, University of Chicago Press. 28 desejo de contato físico é de ordem sexual; as mulheres podem confundi-lo com outras coisas. Por causa da passividade e do pudor que lhes foram inculcados desde sempre, muitas mulheres acham difícil identificar em si mesmas o desejo sexual, sobretudo se esse for proibido. É muito mais provável que elas confundirão com ternura ou até mesmo com um sentimento materno, sua atração física por uma outra mulher. Portanto, é possível que uma pessoa esteja apaixonada por uma outra, ou sinta a necessidade de tocá-la, sem perceber uma excitação genital. Pode até mesmo não ter nenhuma consciência da natureza de seus sentimentos que aparecerão sob outras formas. O amor pode se manifestar como dependência, pensamentos obsessivos, ciúme ou até mesmo como irritação ou ódio. Eis a razão pela qual os psicólogos falam da negação ou da repressão dos sentimentos proibidos: por exemplo, o amor homossexual. É perfeitamente possível que uma pessoa ame uma outra até mesmo durante muito tempo, sem se dar conta disso. Na realidade, é o que acontece geralmente com as atrações proibidas, como o desejo homossexual, incestuoso, ou adúltero. Freud escreveu, em um de seus textos mais importantes sobre a homossexualidade: “Não posso desprezar a oportunidade de expressar, de passagem, meu espanto de que os seres humanos possam atravessar tão grandes e importantes momentos de sua vida erótica sem notá-los muito; na verdade, às vezes nem mesmo possuir a mais pálida suspeita de sua existência, ou então, havendose dado conta desses momentos, enganar-se a si mesmos tão completamente no julgamento deles. (…) Tem-se de admitir que os poetas estão certos em gostar de retratar pessoas que estão enamoradas sem sabê-lo ou incertas se amam, ou que pensam que odeiam quando na realidade amam. Pareceria que as informações recebidas por nossa consciência acerca de nossa vida erótica são especialmente passíveis de serem incompletas, cheias de lacunas ou falsificadas19.” Parece, portanto, que a percepção que podemos ter de nossos próprios sentimentos ou desejos não é necessariamente confiável. Assim, nem as práticas, nem os sentimentos, nem os desejos bastam para julgar se se é homossexual ou não. Além do mais, pode haver práticas homoeróticas sem sentimentos, ou práticas sem desejo, ou sentimentos sem desejo, ou desejo sem práticas… A identidade homossexual Em todos esses casos, falta alguma coisa. Esse algo é a identidade homossexual, que compreende a consciência e a aceitação de todos os elementos já descritos. A identidade implica, portanto, uma convergência de desejos, de sentimentos, de práticas e de consciência, que culminam em uma definição e uma aceitação de si como homossexual. Ora, todos esses elementos não se manifestam ao mesmo tempo, mas geralmente em épocas diferentes da vida. E não aparecem na mesma ordem: em uma pessoa podem surgir primeiramente as práticas, depois o desejo, depois o amor; em uma outra, a ordem pode ser invertida. Não há uma seqüência nem uma progressão no tempo, que seja comum a todos os homossexuais. Ou melhor, talvez devêssemos falar de diferentes fases ou graus na homossexualidade, indo desde experiências ou desejos isolados (tais quais as vivem muitas pessoas), até uma relação amorosa e um estilo de vida abertamente homossexuais. É só quando todos os elementos se conjuminam, que podemos falar de uma identidade homossexual: só “se torna” realmente homossexual quando se atinge essa congruência interna. 19 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão, Vol. XVIII. 29 Hoje, o termo “guei” refere-se justamente à essa coerência e a essa aceitação da homossexualidade20. Mas isso não acontece de um dia para o outro; é o resultado de um longo percurso. É por isso que podemos dizer, com toda a certeza, que as pessoas não nascem homossexuais. A identidade guei constrói-se aos poucos; a homossexualidade não é um estado, mas um processo. Tudo isso significa que a pergunta “será que eu sou homossexual?” não terá necessariamente resposta clara nem imediata. Certas pessoas necessitam de muitos anos para terem certeza de sua orientação sexual; outras a conhecem desde o início de sua vida erótica. A evolução psicológica tem seus próprios ritmos que variam conforme o indivíduo. O mundo da subjetividade é difícil de ser compreendido e de ser expresso, sobretudo no que diz respeito ao continente obscuro da sexualidade. Quem é homossexual? Disso decorrem as dificuldades metodológicas de qualquer pesquisa sobre a homossexualidade. Se se quer, por exemplo, fazer uma enquête sobre esse assunto, a quem iremos interrogar? Àqueles que se dizem homossexuais mesmo que não tenham tido experiências reais? Àqueles que têm praticas homossexuais, mesmo que não as considerem como tais? Àqueles que têm fantasias homossexuais? Àqueles que vivem atualmente uma relação homossexual? Ou somente àqueles que apresentam todos esses elementos ao mesmo tempo? Quem pode dizer com certeza que uma pessoa é homossexual? A pergunta pode parecer simplista, mas ela é de uma importância fundamental. O fato de uma pessoa se dizer homossexual ou ser chamada assim pelos outros, é essencialmente diferente e isso tem implicações muito diversas. Quando se trata de homossexualidade, tudo o que uma pessoa pode dizer sobre ela mesma é suspeito, e tudo que se pode dizer sobre ela também o é21. Não é surpreendente, portanto, que a ciência tenha tentado, há muito tempo, identificar signos externos ou “objetivos” da homossexualidade. No fim das contas, a pergunta “será que eu sou homossexual?” diz respeito somente à experiência interna de uma pessoa. Ela não é suficiente para estabelecer um fato objetivo. Logo, o discurso científico colocou uma outra questão, que seria: “quem é homossexual?”, mas essa suscita também dificuldades enormes. De fato, será que é possível saber objetivamente se uma pessoa é homossexual, independentemente do que ela mesma venha a dizer sobre isso? A questão pode parecer secundária: no fim das contas, qual é o valor daquilo que se pode observar de fora? O importante, atualmente, é saber como uma pessoa se define a si própria. Mas essa pergunta foi, e continua sendo, crucial para certas instituições como o Estado, o status quo médico e psiquiátrico, as companhias de seguros, as escolas, o exército — e claro, para os pais de eventuais homossexuais. Em uma outra época era importante detectar os judeus por signos externos — com as conseqüências que já conhecemos. Hoje, há muitas razões econômicas e políticas para procurar sinais verificáveis da homossexualidade, se existem — por exemplo, um “gene da homossexualidade”. E há muito dinheiro investido nesse tipo de pesquisa, sobretudo nos Estados Unidos. Não é absurdo imaginar que as companhias de seguros poderiam 20 21 Nessa perspectiva, um homossexual que vive no segredo não é guei, porque sua vida pública e sua vida privada não coincidem. No campo da homossexualidade, como em todos aqueles que são condenados pela sociedade, o “quem o diz” é crucial. Os especialistas em alcoolismo, por exemplo, sabem perfeitamente que existe uma diferença enorme entre se reconhecer como alcoólatra e o fato de ser descrito como tal por outro. Acontece muitas vezes que uma esposa considere seu marido alcoólatra enquanto ele acha que bebe pouco ou “socialmente”. Não é por acaso que o tratamento do alcoolismo exige, antes de tudo, que o próprio indivíduo se reconheça como tal — que assuma sua “identidade” de alcoólatra. Nessa perspectiva, não há nenhuma dúvida que o conceito de homossexualidade tem também uma dimensão ideológica. É por isso que as perguntas “quem o diz?” e “Por quê?” são de uma importância fundamental. 30 recusar, em um futuro próximo, de custear a AIDS, argumentando que essa deriva de uma “condição preexistente”, condição objetiva — que seria, simplesmente, a homossexualidade. Além do mais, não devemos esquecer que existem ainda muitos lugares onde a homossexualidade é severamente punida: é ilegal na maioria dos países islâmicos, os antigos países comunistas e as antigas colônias britânicas22. Nessas sociedades, identificam-se os homossexuais por critérios “objetivos” como sua aparência ou suas condutas, e não pela sua autodefinição. Mesmo nos países mais liberais, podemos ainda observar que os meninos “efeminados” ou as meninas “masculinizadas” são algumas vezes estigmatizadas pelos seus amigos ou suas famílias e até mesmo submetidos a tratamentos médicos ou psiquiátricos. Nesses casos, o que está em jogo, com certeza, não é a autodefinição, mas, antes, sinais considerados como indicadores da homossexualidade. Finalmente, esses signos “objetivos” podem ser de um grande interesse para os homossexuais que tentam esconder sua orientação. Todo o homossexual se perguntou, num momento ou outro de sua vida: “será que estão percebendo?”. Diferentes concepções da homossexualidade A pergunta “quem é homossexual?”, portanto, tem enormes implicações econômicas, políticas, jurídicas, médicas e psicológicas. A resposta depende da concepção que se tem da homossexualidade — e houve muitas, desde que se começou o estudo científico da sexualidade, na segunda metade do século passado. Em termos gerais, podemos distinguir historicamente duas grandes concepções da homossexualidade. Na abordagem essencialista, a homossexualidade é biológica, congênita e natural; na perspectiva social, ela é adquirida e se desenvolve no indivíduo segundo seu contexto familiar e social. Examinaremos agora a significação e as implicações de cada um desses dois pontos de vista. Na perspectiva essencialista, a homossexualidade é um traço biológico que aparece em todas as sociedades e em todas as épocas. Nasce-se homossexual e assim se permanece, independentemente da pessoa agir como tal ou não conforme as circunstâncias da vida. Mas ninguém escolhe a homossexualidade. Nessa ótica, que dominou amplamente no decorrer desse século, a homossexualidade é uma condição ou uma patologia congênita, mas com certeza não um crime. O homossexual não é responsável por sua orientação; ele pode ser submetido a tratamento, mas não punido. A idéia de que se nasce homossexual foi adotada por numerosos profissionais da saúde há um século, e ainda predomina na cultura popular. Historicamente ela apareceu no contexto do modelo médico, simplesmente porque foi desenvolvida por médicos e pesquisadores científicos. Não é por acaso que se encontra nessa abordagem termos como “doença”, “predisposição” e “cura”. O homossexual é considerado doente, vítima da biologia que não pode modificar sua natureza porque nasceu assim. Portanto, ele merece nossa compreensão e nossa simpatia — enquanto ele não tenta propagar sua patologia. O homossexual como vítima do destino teve uma longa história nas margens da cultura moderna. Condenado ou ao vício, ou à solidão, aparece sempre nas trevas; arrepende-se de não ser normal para poder se integrar à sociedade. Essa imagem do homossexual, na verdade, predominou no cinema e na literatura até uma época recente; e ainda é válida para muitas pessoas que aceitam os homossexuais, mas que ainda vêem esta orientação sexual como patológica. 22 Colin Spencer (1998). Histoire de l’homosexualité. Paris, Le Pré au Clercs, p. 442. 31 A postura essencialista também foi adotada, em diferentes épocas, por diversos movimentos homófilos. Se a homossexualidade é um fenômeno biológico, ela é natural — como o fato de ser canhoto ou de pertencer a um certo grupo sangüíneo. Portanto, ela não é “contra-natura”, como ela o foi durante tanto tempo aos olhos do Estado, da Igreja e da ciência. Na verdade, a postura essencialista foi o primeiro argumento erguido a favor dos Direitos Civis dos homossexuais. Como escreveu Magnus Hirschfeld, um médico alemão que lutou para a despenalização da homossexualidade: “a homossexualidade não é nem uma doença nem uma degenerescência… outrossim, representa uma parte da ordem natural, uma variação sexual, assim como existem numerosas modificações análogas nos reinos animal e vegetal23.” Portanto, não atenta à ordem natural. Essa perspectiva biológica foi retomada nesses últimos anos pelo movimento guei, em particular nos Estados Unidos. Não se pode “curar” nem mudar a homossexualidade, e não se deve tentar fazê-lo, precisamente porque se trata de um fenômeno biológico tão natural quanto inevitável. A homossexualidade é uma parte essencial da pessoa, exatamente como qualquer outro traço biológico; os homossexuais, apesar de constituírem uma população específica, têm os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. Isso constitui uma visão não mais médica, mas étnica da “naturalidade” da homossexualidade. Assim, o argumento essencialista pode ser usado tanto a favor dos homossexuais quanto contra eles. Isso ilustra, mais uma vez, como qualquer debate sobre a homossexualidade tem um fundo ideológico que muda conforme o contexto, e conforme quem fala dela. Será que estão percebendo? A perspectiva essencialista sempre se baseou no postulado de traços biológicos específicos e detectáveis — na existência de signos objetivos da homossexualidade, de ordem anatômica, hormonal ou genética. A única coisa que falta, é encontrá-los. Assim, desde os meados do século passado, os pesquisadores tentaram provar que os homossexuais têm órgãos genitais anormais (ou hipertrofiados, hipotrofiados ou deformados, como um pênis pontudo nos “pederastas ativos24”), ou então, uma morfologia corporal específica (uma distribuição de gordura feminina nos homossexuais masculinos ou um ânus em forma de funil nos “pederastas passivos25”), ou ainda anomalias na dentição, laringe, nos pés e no crescimento dos cabelos… Mas os cientistas nunca puderam verificar esse tipo de hipóteses. A única coisa que conseguiram provar foi que não existe uma morfologia típica dos homossexuais (nem das lésbicas). Até agora, não se encontrou nem uma forma “objetiva” nem mensurável de diferenciar fisicamente um homossexual de um heterossexual. A homossexualidade não se “percebe”. Mas a idéia permaneceu, sobretudo na cultura popular, exatamente como alguns mitos associados a outras minorias (por exemplo, que os negros têm pênis enormes). Os clichês, segundo os quais o homossexual é um homem efeminado, ou a lésbica uma mulher masculinizada, são tão comuns hoje no imaginário social quanto há cinqüenta anos. Ora, esses estereótipos não afetam apenas os homossexuais: prejudicam também os heterossexuais que não respeitam as aparências e os papéis ditados pela sociedade. Ainda hoje, em muitos países, os homens com cabelos compridos, os homens e as mulheres em certas profissões são automaticamente suspeitos de serem homossexuais. 23 Magnus Hirschfeld (1914). Die homosexualität des Mannes und des Weibes. Berlin, Louis Marcus. Citado em James D. Steakley (1997). Per scientiam ad justitiam : Magnus Hirschfeld and the sexual politics of innate homosexuality. Em Vernon A. Rosario [ed]. Science and homosexualities. New York, Routledge, p. 142. 24 Magnus Hirschfeld ([1922-1923], 1986). Von einst bis jetzt. Geschichte einer homosexuellen Bewegung 1897-1922. Manfred Herzer, Berlin, Verlag Rosa Winkel, p. 162-163. Citado em Steakley, op.cit., p. 136. 25 Idem. 32 Uma questão de hormônios? Uma outra variação sobre o tema da homossexualidade de origem biológica é o fator hormonal. Desde o início deste século, numerosos cientistas procuraram combinações anormais de hormônios masculinos e femininos nos homossexuais. Essa pesquisa acentuou-se depois de 1927, quando se descobriu (para a consternação de muitas pessoas) que os homens e as mulheres produzem hormônios dos dois tipos — ao mesmo tempo masculinos e femininos. Logo surgiu a idéia de uma bissexualidade hormonal, na qual é a proporção de hormônios masculinos e femininos que determinaria a orientação sexual, assim como certas condutas e certos traços de personalidade. Como o explicou um eminente endocrinologista americano, Clifford Wright: A pulsão sexual, uma das influências mais poderosas da vida… depende, provavelmente, muito, senão totalmente, dos hormônios sexuais e da atração hormonal. A atração sexual comum entre um macho normal e uma fêmea normal é provavelmente provocado pela predominância do hormônio masculino no primeiro, e do hormônio feminino na última26. Nessa perspectiva, era lógico pensar que os homens homossexuais tinham um excesso de hormônios femininos e as lésbicas um excesso de hormônios masculinos. Essa idéia sedutora por sua simplicidade, apresentava ainda outras vantagens: em particular, podia servir para provar a homossexualidade em uma pessoa independentemente de sua própria opinião. Assim, o mesmo Clifford Wright escreveu em 1939: “(…) os exames hormonais da urina são importantes para descartar [a hipótese de] a homossexualidade em um indivíduo normal, quando esse foi detido por uma ato indecente ou outra razão importante27”. Uma outra vantagem da teoria hormonal é que, enfim, oferecia um tratamento da homossexualidade. Doravante podia se curá-la, com ou sem o consentimento das pessoas: bastava ajustar seus níveis de hormônios, claro. (Teve muitas variações sobre esse tema. Assim, um médico vienense Eugen Steinach, tentou curar a homossexualidade substituindo os testículos dos homossexuais por testículos de heterossexuais28 .) Essa teoria, que nunca foi demonstrada de modo convincente, enraizou-se, ela também, na cultura popular: a homossexualidade é um caso de hormônios. Essa abordagem inscreve-se em uma outra idéia, também muito difundida, segundo a qual toda a sexualidade é um caso de hormônios. Mas esses não podem por si mesmos, produzir nem o desejo, nem as fantasias, nem as condutas e nem os prazeres sexuais. O elemento psicológico desenvolve um papel central na sexualidade como dizem os sexólogos, o órgão sexual mais importante no ser humano, é a cabeça. Em uma extrapolação um pouco extravagante da teoria hormonal, postulou-se também que os homossexuais sofrem de um “hermafroditismo psíquico”, ou ainda que formam parte de um suposto “terceiro sexo” que nem é masculino nem feminino. Cientistas também sugeriram que um homossexual pode apresentar um corpo normal, mas ter “pulsões femininas” que lhe fazem desejar outros homens (visto que o próprio da mulher é desejar o homem). Todas essas formulações se revelaram como sendo pura especulação. 26 Clifford Wright (1935). Endocrine aspects of homosexuality: A preliminary report. Em Medical Record, 154, pp.60-61. Citado em Stephanie H. Kenen. Who counts when you’re counting homosexuals? Hormones and homosexuality in mid-twentieth century America. Em Rosario, op. cit., p. 201. 27 Clifford Wright (1939). The sex offender’s endocrines. Em Medical Record, 149, pp. 399-402. Citado em Erin G. Carlston. Female homosexuality and the American medical community. Em Rosario, op. cit., p. 187. 28 Steakley, op. cit., p. 147. 33 Em busca do gene perdido É importante destacar, entretanto, que o fracasso dessas teorias não significa que não se possa encontrar um dia um componente biológico da homossexualidade. De fato, no decorrer dos últimos quinze anos apareceram vários estudos sobre possíveis aspectos genéticos da homossexualidade. Demonstrou-se, por exemplo, que os homossexuais têm muito mais chances de ter um irmão homossexual do que os heterossexuais. As lésbicas também tendem a ter mais irmãs lésbicas; mas não se achou ainda uma correlação entre os homens gueis e suas irmãs lésbicas29. Claro, o fato de que irmãos ou irmãs tenham a mesma orientação sexual não provam a existência de um traço genético comum; afinal, eles também cresceram juntos no seio da mesma família, e isto bastaria para explicar algumas semelhanças. Eis a razão pela qual a prova mais conclusiva para procurar traços genéticos comuns reside no estudo dos gêmeos. Se dois gêmeos “univitelinos”, que foram criados por pais diferentes em lugares diferentes são ambos homossexuais, então, há fortes probabilidades para que isso derive de uma herança genética comum, e não de seu meio ambiente. Pesquisas recentes sugerem que a homossexualidade pode, de fato, ter elementos genéticos importantes. Segundo um estudo de 199130 comparando cinqüenta e seis pares de gêmeos “verdadeiros” (monozigóticos) com cinqüenta e quatro pares de gêmeos “falsos” (dizigóticos) e cinqüenta e sete pares de irmãos adotivos, se um homem é homossexual e tem um gêmeo idêntico, existe 52% de chances para que esse gêmeo seja também homossexual; se tiver um “falso” gêmeo, existe 22% de chances. E se tiver um irmão adotivo (com os mesmos pais, mas não os mesmos genes), a concordância cai para 11%. Em contrapartida, um heterossexual só tem 4% de chances de ter um irmão homossexual31. A correlação entre gêmeos está, portanto, muito elevada, e parece indicar que existe um componente genético na homossexualidade. Contudo, a interpretação é essencial neste tipo de estudo. Por exemplo: se na metade dos casos o gêmeo idêntico de um homossexual é também homossexual, na outra metade não é o caso. Se a homossexualidade fosse um traço inteiramente genético, todos os gêmeos verdadeiros de todos os homens gueis seriam gueis — isso não é nem um pouco o caso, longe disso. Entre irmãos que têm genes idênticos, apenas a metade desenvolve a mesma orientação sexual. Também é importante notar que, até agora, não se estabeleceu nenhuma concordância genética para o lesbianidade, no caso de irmãs gêmeas. Claro, é possível que a homossexualidade masculina seja essencialmente diferente da feminina — mas até agora, isso também não foi provado. Existem também problemas de interpretação ou de metodologia nos estudos recentes que procuraram traços genéticos ou anatômicos próprios aos indivíduos homossexuais, independentemente de suas famílias. Assim, o pesquisador americano Dean Hamer encontrou em 1993 uma correlação entre uma certa característica genética no cromossomo X e a homossexualidade masculina32. Contudo, como o destaca um crítico do estudo, Hamer cometeu vários erros metodológicos que fazem duvidar de suas conclusões: por exemplo, encontrou a característica genética em pares de irmãos homossexuais, mas não controlou se existia também em seus irmãos heterossexuais. Portanto, é possível que todos os irmãos a tenham tido, e não somente os homossexuais. Além disso, Hamer escolheu homens que se autodenominaram homossexuais, o que 29 30 Richard C. Pillard, The search for a genetic influence on sexual orientation. Em Rosario, p. 233-237. J. Michael Bailey e Richard C. Pillard, 1991, A genetic study of male sexual orientation. Em Archives of General Psychiatry, 48, 10891096. 31 Garland E. Allen, The politics of genetic determinism. Em Rosario, p.251-252. 32 Dean Hamer, Stelle Hu, Victoria L. Manguson, Nan Hu, e Ângela M. L. Pattattucci (1993). A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Em Science, 261, 321-327. 34 torna difícil saber exatamente o que estava sendo medido pelo estudo: desejos, condutas, autodefinição33? Em um outro estudo, que teve muita repercussão em sua época, o pesquisador americano Simon LeVay, encontrou em homens supostamente homossexuais e heterossexuais uma diferença no volume de uma parte do hipotálamo (órgão que governa certos aspectos da sexualidade). Quando publicou suas conclusões em 199134, a imprensa americana anunciou a descoberta de um “cérebro guei”, em uma descrição simplista e sensacionalista. Mas o próprio LeVay, assim como outros pesquisadores, expressou reservas tanto no que diz respeito aos métodos quanto às conclusões de seu estudo. Por exemplo, a maioria desses sujeitos (todos os homossexuais e alguns heterossexuais) tinham morrido de AIDS. Aqueles que tinham sido contaminados durante um encontro sexual com um outro homem foram classificados como homossexuais. Os outros, que tinham contraído o vírus por outros meios (por transfusão de sangue, por exemplo), ou que morreram por outras razões, foram considerados heterossexuais, em uma simplificação bastante arriscada35. Novamente, falta um critério claro e validado para distinguir as duas populações. Da mesma maneira, é possível que o próprio vírus tenha afetado a neuroanatomia dos sujeitos. Enfim, LeVay não pôde estudar os tecidos correspondentes nas lésbicas. Portanto, poderíamos dizer, como LeVay o fez ele mesmo, que seus trabalhos não trouxeram conclusões definitivas; levantaram, ao invés disso, novas questões e abriram outras possibilidades de investigação. Mais uma vez, a pesquisa de uma diferença física entre homo e heterossexuais revelou-se ilusória. Em suma, é preciso interpretar todos esses estudos com muita prudência. As pesquisas em genética foram popularizadas de um modo extremamente simplista, enquanto se trata de uma ciência muito complexa, que, mesmo se ela puder explicar ou predizer traços como a cor dos olhos ou o tipo sanguíneo, não podem se aplicar a um fenômeno tão multidimensional quanto a orientação sexual. A biologia não é suficiente para explicar nem para predizer a homossexualidade. Os fatores sociais, familiares e psicológicos têm um peso certamente igual, senão superior, a qualquer componente físico encontrado até agora. É preciso também se lembrar do papel que desenvolveram na história as pesquisas genéticas desse tipo, e às quais populações elas foram aplicadas. Não é por acaso que os primeiros esforços, no século XIX, para encontrar explicações genéticas da conduta tenham tido como objeto a criminalidade. De fato, o psiquiatra italiano Cesare Lombroso (1836-1909) dedicou sua vida aos atributos físicos que supostamente existem nos delinqüentes, procurando neles malformações do crânio ou do esqueleto, ou ainda problemas de ordem neurológica. A ciência moderna refutou completamente esta teoria. Não existe nenhum meio de distinguir fisicamente um “matador em série” (serial killer) do vizinho ao lado. Mas a idéia que existam características biológicas próprias da criminalidade (ou da homossexualidade) ainda está muito difundida. Além disso, atualmente, ela se nutre de uma grande quantidade de investigações que procuram as causas genéticas de todos os tipos de traços e de condutas. É muito importante lembrar-se que esse tipo de pesquisa foi utilizado, por demasiadas vezes, para identificar, classificar e, se possível, erradicar pessoas e condutas “indesejáveis”. Portanto, devemos abordar com muito cuidado 33 34 Allen, p.254-259. Simon LeVay, 1991, “A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men”, em Science, 253, 10341037. 35 Jennifer Terry, “The seductive power of science in the making of deviant subjectivity”, em Rosario, p.284. 35 qualquer estudo que postule a existência de uma homossexualidade biologicamente dada36. A teoria essencialista não é, nem de longe, a única maneira de explicar a homossexualidade. Mas é importante (seja ela verdadeira ou falsa) porque faz parte de nosso imaginário social. Atualmente, a idéia de que se nasce homossexual, e que a homossexualidade é um atributo essencial e permanente da pessoa, generalizou-se muito além de seus méritos científicos. Tornou-se uma crença implícita, não somente para a sociedade em geral, mas para os próprios homossexuais. De fato, muitos homossexuais pensam isso, e com certeza essa idéia não lhes é benéfica. De um certo modo, o fato de dizer: “eu nasci assim, e não posso fazer nada”, simplifica e limita demais um fenômeno que é provavelmente muito mais complicado. Como vimos, o processo de construção de uma identidade homossexual é longo e difícil; dizer, no fim das contas que se nasceu assim desvaloriza o trabalho que isso implica. É como se disséssemos, depois de anos de estudos universitários: “é porque eu nasci inteligente”. O fato de que esse posicionamento tenha sido adotado por muitos homossexuais nos Estados Unidos, no decorrer dos últimos anos, talvez deva estar relacionado com a ideologia da vitimização que conheceu uma grande evolução nesse país. Nessa perspectiva, que inclui uma crença profunda na herança genética, as pessoas são amplamente determinadas por forças que ficam além de seu controle: os genes, os pais, os traumatismos… em uma contínua influência do passado sobre o presente. Incluir a homossexualidade nesse esquema, e explicá-la pela biologia, só prolonga essa ideologia fatalista e reducionista. Por outro lado, a descoberta de “genes da homossexualidade” seria extremamente reconfortante para os heterossexuais homofóbicos do mundo inteiro. Confirmaria a idéia de que os homossexuais são essencialmente diferentes deles, e que a sociedade é, de fato, dividida em dois grupos distintos: os heterossexuais, “normais”, e depois os homossexuais, “anormais”. E é muito mais reconfortante aprisionar a homossexualidade em um gene do que pensar em um potencial homossexual em todos os seres humanos. Enfim, a teoria essencialista não saberia explicar por que tantas pessoas mudam de orientação sexual no decorrer de sua vida. Se se nasce heterossexual, como se pode “tornar-se” homossexual aos quarenta anos? E se se é “naturalmente” homossexual, como se pode cair na heterossexualidade, como acontece em muitos casos? Concluindo, a teoria essencialista da homossexualidade tem implicações muito importantes, independentemente de sua exatidão científica. Mas, verdadeira ou não, só diz respeito a uma camada na arqueologia da homossexualidade. Existem outras camadas que também devemos considerar. Essas não se referem mais ao corpo, mas aos fatores sociais, familiares e psicológicos que podem afetar a orientação sexual. A teoria social da homossexualidade Isso nos leva para a teoria social da homossexualidade. Nessas perspectivas, a homossexualidade é um fenômeno histórico, tanto no plano pessoal quanto no social. Ela não constitui apenas um fato, mas uma idéia que tem sua base ideológica como outra qualquer; e só aparecem em certos contextos. Para autores como Michel Foucault, se sempre houve práticas homoeróticas, o conceito de homossexualidade aparece somente na era moderna e no mundo ocidental. É somente a partir do século XIX que indivíduos se 36 Poderíamos, claro, dizer a mesma coisa da heterossexualidade. De fato, alguns autores, postularam que a noção de uma sexualidade “natural” entre homens e mulheres não tem nada natural, nem universal, nem automático. O primeiro autor que questionou a “naturalidade” da heterossexualidade foi o próprio Freud, como veremos no capítulo sobre a bissexualidade. Ver também Jonathan Ned Katz (1995). The invention of heterosexuality. New York, Penguin Books U.S.A. 36 identificam, e são identificados pela sociedade, como seres essencialmente diferentes por conta de suas práticas sexuais. Como escreveu Foucault: “o sodomita era um relapso, o homossexual, agora é uma espécie37”. Surge assim uma homossexualidade que não é mais dada pela Biologia, mas que se constrói e se expressa por meio de um discurso, um estilo de vida, uma sensibilidade e uma comunidade que está cada vez mais consciente dela mesma. Do mesmo modo que o indivíduo reconhece e assume pouco a pouco a sua orientação, a cultura ocidental reconheceu aos poucos e, enfim, assumiu a existência de uma homossexualidade que não é uma simples referência pessoal, mas também uma identidade social: não um indivíduo, mas uma comunidade. Foi assim que se desenvolveu uma identidade guei que se traduz não somente por uma orientação sexual, mas por uma série de gostos, modos, maneiras de pensar e de viver — em uma palavra, por uma cultura — que hoje são perfeitamente identificáveis no mundo ocidental. Nessa perspectiva, a homossexualidade não é dada, mas construída, e não tem uma forma única, mas muda segundo a sociedade e o indivíduo. É determinada pelo contexto histórico, mas também pelo desenvolvimento pessoal, como veremos no capítulo seguinte. Ela é moldada aos poucos pelas relações e pelos papéis na família, durante a infância e a adolescência; e pela imagem e consciência que se tem de si mesmo como homem ou como mulher. A dimensão subjetiva Desse ponto de vista, o que conta na identidade, é o fator subjetivo: não as práticas nem os genes, mas o desejo e a aceitação desse desejo — em uma palavra, a orientação sexual propriamente dita. O homossexual não obedece cegamente à sua biologia; existe também nele uma liberdade de ação e uma busca afetiva. Entramos aqui em uma linguagem que é radicalmente diferente do discurso científico. Aqui, não há nem provas objetivas, nem signos exteriores, nem explicações biológicas que valham: o que conta é a autodefinição de cada indivíduo segundo os critérios que correspondem à sua história, tanto pessoal quanto social. Nesse nível, o que entra em jogo não é a anatomia nem os hormônios, mas coisas tão intangíveis quanto o desejo, as fantasias, e o amor — toda essa base psíquica da sexualidade humana que nunca provavelmente será explicável pela ciência. Nesse universo subjetivo (que é, diria Proust, o único mundo que nós realmente habitávamos) a homossexualidade não é somente uma questão de condutas. Engaja toda a pessoa, em toda a profundidade de seu ser: traduz-se por sentimentos, modos de pensar e de ver o mundo, gostos, reflexos e atitudes. E, claro por sonhos: há pessoas que “descobriram” sua orientação durante um sonho. Nessa perspectiva, a homossexualidade não é somente o que se faz na cama; é uma experiência total que engloba todos os aspectos da vida. É por isso que a orientação sexual é tão difícil de definir e de estudar. Mesmo em um único indivíduo, os critérios podem variar segundo a época de sua vida ou depois de um acontecimento imprevisto. É neste sentido que uma pessoa pode se considerar homossexual sem nunca ter tido relações homoeróticas. E é também que nesse sentido não se nasce homossexual: tornase. Veremos como acontece essa evolução pessoal no capítulo seguinte. Escolher a homossexualidade? Essa abordagem, que postula uma homossexualidade “cultivada” de alguma forma, é extremamente sedutora para a nossa sociedade que dá tanta importância para a 37 Michell Foucault (1976). Histoire de la sexualité. Tomo I, Paris, Gallimard, p. 59. 37 subjetividade. Em todos os domínios da vida, as pessoas rejeitam cada vez mais qualquer etiqueta que lhe seja imposta pelos outros. Isso, evidentemente não é um acaso. Vimos os horrores que podem advir de qualquer categorização “científica” das pessoas segundo sua ascendência genética, racial ou religiosa, ou segundo as suas condutas sexuais. Todas a minorias sofreram as conseqüências da classificação “objetiva”. Era inevitável que os homossexuais, bem como os negros, os judeus, e outras minorias acabassem por recusar serem classificados segundo critérios impostos pela maioria. É de fato, mais digno e mais justo que as pessoas se identifiquem elas mesmas segundo os seus próprios critérios. Hoje, pelo menos nas sociedades liberais, a idéia (ou a ilusão) de que cada um tem o direito de escolher a sua etiqueta (pessoal, profissional, religiosa e até mesmo racial) é cada vez mais difundida. Mas a orientação sexual não é algo que se possa escolher livremente — mesmo que, durante um certo tempo, muitos homossexuais tenham falado de “opção” ou de “preferência” sexual. Se fosse possível, não há nenhuma dúvida de que muitos homossexuais cessariam de sê-lo. (Existem também heterossexuais que gostariam de poder “se tornar” homossexuais. Ouvi mulheres dizerem que teriam preferido ser lésbicas, para poder prescindir dos homens — como se isso pudesse resolver todos os seus problemas!) Mas, sabe-se que as possibilidades de mudar de orientação sexual são praticamente nulas, mesmo quando os homossexuais se submetem voluntariamente a tratamentos médicos ou psicológicos. Há poucas coisas tão fortemente ancoradas na vida do que a orientação sexual. Muitas pessoas tentaram durante anos ou decênios inteiros negar ou extirpar a sua homossexualidade, sem nunca conseguir apagar o desejo físico e a necessidade afetiva de uma pessoa de mesmo sexo biológico. Essa resistência à mudança nos revela que há na homossexualidade algo mais poderoso do que uma simples preferência. A concepção social da homossexualidade, provavelmente, acentua demais os fatores subjetivos e a idéia de uma identidade escolhida ou construída. Entre outras coisas, devemos levar em consideração um fato inegável. A proporção de homossexuais na população é surpreendentemente constante através de diferentes épocas e diferentes países. As taxas de mais de aproximadamente 4% para os homens e 2% para as mulheres tendo relações e condutas exclusivamente homossexuais, praticamente não mudaram desde a época de Kinsey, há cinqüenta anos. Contudo, esse mesmo meio século viu flutuações enormes em todos os outros indicadores sociológicos, como as taxas de casamento, de divórcio, de fertilidade, etc. Apesar das vastas transformações sociais, demográficas e culturais que ocorreram no Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial, os números da homossexualidade permaneceram mais ou menos iguais. Isso sugere que há na orientação sexual algo de irredutível que é independente do contexto histórico e social. Talvez, o mais prudente seria pensar que um dia será encontrado um componente genético ou biológico na homossexualidade, sabendo, contudo, que esse não seria suficiente para explicá-la. Do mesmo modo, parece que certas aptidões musicais são hereditárias — mas todos aqueles que nascem com elas não se tornam necessariamente músicos (e muito menos ainda bons músicos). Isto indica, então, que a predisposição não é suficiente, não garante nada, e não significa muita coisa, se não for conscientemente desenvolvida e cultivada. A identidade guei A idéia de cultivar a homossexualidade está no coração da identidade guei contemporânea. Implica, de alguma forma, o fato de escolher dia-a-dia um estilo de vida; 38 de viver publicamente o que antes era escondido; de enfrentar a discriminação social ao invés de sofrê-la passivamente. Implica também um certo orgulho, o “gay pride”, que é algo totalmente novo na história. Nunca, de fato, os homossexuais haviam assumido sua orientação com orgulho; nunca haviam exigido ser respeitados, ao invés de ser tolerados ou de provocar pena. Para viver assim a homossexualidade, cada pessoa deve desenvolver uma identidade guei passando por todas as etapas, desde a primeira tomada de consciência, a primeira experiência sexual e a primeira relação amorosa, até poder viver sua orientação com plenitude e dignidade. O objetivo não é entrar na homossexualidade como em um país estrangeiro, mas torná-la sua; não adotar, mas inventar sua própria homossexualidade. Recomendações para o trabalho terapêutico Quando se trabalha a identidade homossexual é muito importante pesquisar as razões que cada pessoa fornece a respeito de sua orientação. Essas podem se basear em conhecimentos, preconceitos, ou fantasias; podem ser verdadeiras ou falsas. Isso não importa: não se trata de procurar causas reais, o que seria de qualquer modo ilusório, levaria muito tempo e não serviria para muita coisa. O objetivo é ajudar a pessoa a desenvolver sua própria explicação e a história singular de sua homossexualidade em uma abordagem que não é científica, mas propriamente narrativa. Essa pesquisa serve também para tornar explícitas as crenças, os medos e as dúvidas, as fantasias e os desejos que a pessoa pode ter a respeito da homossexualidade, tanto em geral quanto no seu caso em particular. Permite igualmente abordar aos poucos os grandes temas da responsabilidade e da culpabilidade que examinaremos mais profundamente no capítulo 4. Esse processo permite também ao terapeuta corrigir os erros e preencher as lacunas no conhecimento, tornar explícitos os preconceitos e explorar as fantasias. Por exemplo, é freqüente os homossexuais pensarem que um de seus pais, na verdade, seja ou fosse homossexual. Ouvi coisas assim: “Eu acho que no fundo meu pai era homossexual, mas nunca assumiu”. Ou ainda: “Se minha mãe tivesse vivido em outra época, teria sido lésbica”. Sejam essas apreciações verdadeiras ou falsas, é evidente que elas têm uma enorme incidência sobre o modo pelo qual uma pessoa pensa e vive sua homossexualidade. Em uma palavra, sempre se deve ir além do fato de uma pessoa se dizer homossexual. É preciso lhe perguntar por que, desde quando, como ela sabe… destacamos novamente o fato de que não se trata de descobrir a verdade, mas construir uma narrativa pessoal. O objetivo não é o conhecimento, mas a apropriação da homossexualidade para si. 39 CAPÍTULO 3 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS FAMILIARES E INDIVIDUAIS Vimos que a sexualidade tem muitos níveis, que vão desde o biológico até o social, antes de chegar aos níveis mais pessoais da experiência familiar e individual. É possível que a homossexualidade tenha componentes biológicos, mesmo que ainda não tenham sido encontrados; é certo que ela tem aspectos sociais e culturais; e não há nenhuma dúvida que ela abarca elementos psicológicos, tanto familiares quanto individuais. No nível psicológico, portanto, como nos tornamos homossexual? Em primeiro lugar, é importante fazer uma distinção entre a orientação sexual (o sexo para o qual sentimos amor e desejo) e a identidade sexual (o fato de assumir plenamente esta orientação). Pode haver orientação sexual, mas não identidade; é, de fato, uma situação bastante freqüente. A primeira aparece geralmente durante a infância; a segunda não pode tomar forma antes da adolescência (pois não temos a consciência de si necessária antes dessa etapa), e só pode se desenvolver plenamente na idade adulta — isto é, depois dos 20 anos aproximadamente. Gênero e orientação sexual Mais muito antes da orientação e da identidade sexuais poderem se desenvolver há, primeiramente, a consciência do gênero38: a criança sabe, desde os dois anos, que ela é de um sexo e não de outro, e que isso implica uma série de condutas. Aos três anos, no mais tardar, a criança identifica-se seja como um menino, seja como uma menina, e aprende a se comportar como tal. Isso pode parecer evidente — mas as coisas nem sempre acontecem desse modo. Há meninos que desde a mais tenra idade se sentem mais identificados com as meninas, e que preferem brincar com elas de boneca ao invés de futebol com seus colegas. Esses meninos podem desenvolver condutas, atitudes e gostos que são geralmente associados ao sexo oposto. Logo, são chamados de meninos “efeminados”. Têm uma aparência e condutas que não são as de seus colegas — e esses os identificam como diferentes, e lhes infligem, freqüentemente, todo tipo de gozação e agressões. Essa confusão de gênero não é, em si mesma, um signo precursor de homossexualidade. Mas muitos homossexuais contam que se identificaram muito cedo com o sexo oposto39. Como escreve o psiquiatra americano Richard Isay: “Todos os homossexuais que eu vi contam que eles se sentiam “diferentes” de seus pares a partir dos 3 ou 4 anos de idade. Descrevem essa sensação como o fato de terem sido mais sensíveis, mais chorões, de terem se sentido mais facilmente magoados, de terem tido interesses estéticos e de terem sido menos agressivos do que os outros meninos de sua idade. Essas diferenças fazem com que estas crianças se sintam “estranhos” em relação a seus pares e freqüentemente à sua família40.” 38 Na concepção atual, usa-se o termo “sexo” para designar as características inatas, biológicas e anatômicas do masculino (macho) e feminino (fêmea), e “gênero” para designar os papeis masculino e feminino que a sociedade atribui (e impõe) a cada sexo. O primeiro é natural, o segundo á aprendido. 39 Richard C. Pillard. The search for a genetic influence on sexual orientation. Em Rosario, Vernon A. [ed.] (1997) Science and homosexualities, New York, Routledge, p. 231-232. 40 Richard Isay. Psychoanalytic theory and the therapy of gay men. Em David McWhirter, Stephanie Sanders and June Reinisch [eds] (1990). Homosexuality/Heterosexuality: Concepts of sexual orientation. New York, Oxford University Press, p. 283. 40 Em nossa sociedade, essas condutas e atitudes são consideradas mais “femininas”, e, portanto, poderíamos dizer que houve uma certa confusão de gênero nos homossexuais que Isay descreve. Mas será que podemos dizer que essa confusão é uma característica, ou até mesmo uma causa, da homossexualidade? Será que é verdade que os homossexuais são apenas homens efeminados? Vejamos o estado atual das pesquisas nesse campo. Uma infância típica dos homossexuais? Uma equipe de pesquisadores americanos acompanhou a evolução psicossexual de dois grupos de meninos durante aproximadamente quinze anos, a partir da idade de 7 anos em média. O primeiro grupo tinha quarenta e quatro meninos cujos pais os tinham levado para consulta porque apresentavam condutas “femininas”, como brincar de boneca, preferir a companhia das meninas e se vestir como elas. A equipe também acompanhou um grupo de cinqüenta e seis meninos considerados “normais”, a fim de compará-lo com o primeiro. Ao fim de quinze anos, quase todos os meninos do segundo grupo revelaram ser quase exclusivamente ou exclusivamente heterossexuais (0 ou 1 na escala Kinsey). Em contrapartida, quase a metade dos meninos efeminados tinham se tornado quase exclusivamente ou exclusivamente homossexuais (5 ou 6 na escala Kinsey) 41. Parece assim que os meninos efeminados têm mais chances de se tornarem homossexuais. Portanto, poderíamos dizer, pelo menos em certos casos, que pode haver na homossexualidade uma certa confusão de gêneros. Contudo, é preciso amenizar estas conclusões. Em primeiro lugar, se quase a metade dos meninos efeminados se tornaram homossexuais, mais da metade se tornou heterossexual. Em segundo lugar, a tese do homossexual efeminado se aplicaria somente a alguns homens: aqueles que, ao serem adultos, apresentam atitudes ou condutas efeminadas — e isso com certeza não é o caso para todos os homossexuais. Existe, no final das contas, uma vasta proporção de homossexuais que têm uma aparência e condutas totalmente “masculinas”. Enfim, essa confusão de gênero durante a infância não parece se aplicar às mulheres: até o momento, nenhum estudo mostrou que as “meninasmachos” têm mais chances de se tornarem lésbicas. Há também um outro elemento para ser levado em consideração. Em nossa sociedade, o menino efeminado é muito mais alvo de chacota do que a “menina-macho”, e isso reforça em si um sentimento de diferença. Ele sofre provavelmente mais durante sua infância e sua adolescência: de fato, o menino efeminado se inferioriza por conta de sua semelhança com o sexo “frágil”, enquanto a menina-macho ganha em poder e em prestígio pela sua assimilação com o sexo “forte”. Ela adquire freqüentemente uma posição de autoridade e de predominância em relação às suas amizades, enquanto o menino efeminado sofre o desprezo das suas. Ademais, a menina pode brincar com meninas e meninos, sendo aceita dos dois lados, ao passo que o menino é aceito somente pelas meninas — o que só pode reforçar, mais uma vez, sua confusão e seu sentimento de ser “estranho”. É importante notar, de fato, que as meninas são em geral mais livres de adotarem condutas dos dois gêneros. Pelo menos atualmente, as meninas podem tanto jogar futebol quanto brincar de boneca. Elas podem ter aulas de dança, mas também de karatê. Em contrapartida, não é bem visto o fato dos meninos brincarem de boneca ou terem aula de dança. Como o disse sucintamente um menino de 7 anos: “Realmente não é justo. As meninas podem usar vestido ou calças, e eu só posso usar calças.” 41 Richard Green. Gender identity in childhood and later sexual orientation. Em American Journal of Psychiatry, 142, 1985, 339-341. 41 Esse fenômeno social e cultural tem implicações interessantes. O menino efeminado é estigmatizado desde a sua pequena infância como um ser à parte: seus colegas gozam dele e o rejeitam. Seus pais também o tratam de um modo especial: a mãe tende a superprotegê-lo, e o pai a se afastar dele. Essas atitudes afetarão provavelmente o desenvolvimento psicossexual da criança; será que não poderiam contribuir para a sua eventual homossexualidade? Não seria natural que um menino que só pode brincar com as meninas e que é excluído das atividades de seus colegas, acabasse por se identificar mais com as meninas? Se isso fosse verdade, veríamos como um atributo provavelmente inato (o fato de ter, por exemplo, um temperamento mais tímido, sensível) se transforma, por razões estritamente culturais, em um fator influente sobre a orientação sexual. E isso não por causa de uma homossexualidade inata, mas por causa da classificação (e da divisão) social dos gêneros. Talvez houvesse menos homossexualidade se os papéis masculino e feminino fossem menos rígidos e divididos para as crianças e os adolescentes. É possível que o fato de encorajar esses papéis nas crianças — estimulando os meninos a serem “masculinos” e as meninas a serem “femininas” — justamente para que eles não se tornem homossexuais, desenvolvam neles tendências homossexuais. Curiosamente, essa abordagem “cultural” (e provavelmente parcial) da homossexualidade masculina parece com uma das explicações psicanalíticas da homossexualidade. Segundo essa, o homossexual não teria tido modelo masculino com o qual se identificar, porque teria tido um pai distante e uma mãe superprotetora. No esquema que acabamos de descrever, o menino efeminado é com efeito isolado e afastado da companhia masculina e, inclusive, a de seu pai e de seus irmãos. De fato, certos teóricos da homossexualidade pensam que esse distanciamento ocorre justamente porque a criança é “diferente” desde o princípio; o pai tende a se distanciar justamente porque seu menino não tem as condutas ou o temperamento masculino que ele teria desejado. A teoria psicanalítica A teoria originalmente postulada por Freud é, claro, muito mais complexa. Segundo o fundador da psicanálise, a homossexualidade deriva de um complexo de Édipo mal resolvido, e, portanto, de uma suspensão do desenvolvimento psicossexual normal. Nessa ótica, todas as crianças passam por uma fase na qual estão apaixonados pela figura parental do sexo oposto. O menino, apaixonado pela sua mãe e com ciúmes de seu pai, deseja (inconscientemente) matar este a fim de ter a sua mãe só para si. Mas seu medo de ser punido (castrado) é tal que acaba por renunciar à mãe e orienta seu desejo em direção a outras mulheres. Em alguns casos, as coisas não se passam assim. E o menino se guarda em seu desejo em relação a mãe. Mas, como esse desejo é impossível de se realizar (por causa do tabu do incesto e de seu medo do pai), ele acaba por renunciar a todas as mulheres e se retrai na homossexualidade. Mas, para Freud, nem todos os homossexuais não entram nesse esquema. Em primeiro lugar, ele distingue três tipos de homossexuais ou de “invertidos”: os “absolutos” (que podem somente entrar em relação com pessoas de seu sexo), os “hermafroditas psicossexuais” (que podem ter relações indistintamente com os dois sexos), e os “ocasionais” (que estabelecem relações com pessoas de seu sexo por razões circunstanciais, como a ausência de objetos heterossexuais42). Isso significa que Freud não acredita em um só tipo de homossexualidade nem em uma causa única; seu 42 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 42 pensamento é muito sofisticado para se fechar em uma teoria absoluta, e ele formula diferentes abordagens. Assim, em diversos textos Freud desenvolveu outras teorias parciais, falando, por exemplo, de uma fixação do menino em sua mãe e de uma identificação posterior com ela (escolhendo, portanto objetos sexuais masculinos); de um pai distante e castrador; do narcisismo que faz que uma pessoa procure objetos sexuais idênticos a ela; e de um medo em relação às pessoas do sexo oposto. A experiência clínica e a reflexão teórica mostraram desde então que nenhum desses fatores (por mais convincentes que possam parecer) aparece sistematicamente em todos os homossexuais. Além do mais, se revelaram praticamente inúteis para compreender ou explicar o lesbianidade, como o notaram em várias ocasiões as críticas feministas à psicanálise. Contudo, as teorias psicanalíticas da homossexualidade tiveram uma influência enorme; permitiram o aparecimento de uma concepção da homossexualidade que predominou na cultura ocidental durante mais de meio século. Mas é importante sublinhar aqui que uma grande parte desta concepção tem muito pouco — ou nada — a ver com a visão original de Freud. Depois de sua morte em 1939, outros autores retomaram as idéias formuladas por Freud para reunir uma teoria patológica da homossexualidade, postulando que esta é uma doença mental tão grave que afeta inevitavelmente todos os campos da personalidade e do funcionamento mental. Como escreveu sucintamente um psicanalista eminente em 1956, “Não existem homossexuais sãos43”. Poderíamos também citar um outro psicanalista americano, Irving Bieber, que foi considerado durante muito tempo um especialista no assunto: “A homossexualidade adulta é um estado psicopatológico. […] A heterossexualidade é a norma biológica e, […] se não houver interferências, todos os indivíduos são heterossexuais44.” Esta visão é diametralmente oposta à opinião de Freud que nunca pensou que a heterossexualidade fosse “natural”. Como escreveu em 1915, “Em um sentido psicanalítico, o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher constitui também um problema e não algo muito natural, baseado no fim das contas sob uma atração química45”. Ele acrescenta: “Em todos nós, no decorrer da vida, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos [...] A psicanálise possui uma base comum com a biologia, ao pressupor uma bissexualidade original nos seres humanos (tal como nos animais46).” Não uma, mas muitas causas possíveis Parece, portanto, que não há infância “típica” dos homossexuais. Alguns homossexuais tiveram condutas ou atitudes próprias de um outro gênero, e muitos outros não. Alguns tiveram pais distantes, e outros não; uma relação próxima com sua mãe, e outros não; ou experiências traumatizantes com pessoas do sexo oposto, e outros não. Isso significa que não parece ter explicação que seja válida em todos os casos. Um esclarecimento importante: isso não significa que não exista causas psicológicas da homossexualidade. E não significa também que não se possa encontrar alguma em um 43 Edmund Bergler (1956). Homosexuality: Disease or Way of Life?, New York, Hill and Wang, p. 9. Citado em Francis Mark Mondimore (1996). A Natural History of Homosexuality. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, p. 77. 44 I. Bieber, H. Dain, P. Dince, M. G. Drellich, H. G. Grand, R. H. Grundlach, M. W. Kremer, A. H. Rifkin, C. B. Wilbur e T. B. Bieber (1962). Homosexuality: A Psychoanalytic Study of Male Homosexuals. New York, Basic Books. Citado em Pillard, Richard C. (1997). The search for a genetic influence on sexual orientation. Em Rosario, Vernon A. [ed.] (1997). Science and Homosexualities. New York, Routledge. 45 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 46 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VXII. 43 dado indivíduo: cada um poderá descobrir, em sua história pessoal, um ou vários fatores descritos por Freud e seus seguidores. O que queremos sublinhar aqui, é que estas causas eventuais não são generalizáveis — isto é, não são universais. Por outro lado, a pesquisa de uma causa da homossexualidade, inscreve-se, historicamente, no modelo médico. Na medicina, qualquer doença tem uma explicação e uma evolução. Se a homossexualidade for uma patologia, deve, portanto, ter uma causa. Mas, a partir do momento em que paramos de ver a homossexualidade como uma doença, não é mais necessário procurar uma causa patógena única. Abra-se, então, a possibilidade teórica de uma grande variedade de causas e de modalidades, que não dependem mais de uma evolução patológica determinada, mas da psicologia pessoal, da família, e do contexto social e cultural. Nesse modelo alternativo, cada indivíduo constrói sua orientação sexual: não há uma causa nem uma forma única da homossexualidade. E também não há uma causa da heterossexualidade. Se pensarmos na infinidade de formas que podem assumir as relações entre homens e mulheres, e na maneira como variam segundo os lugares e as épocas históricas, parece difícil imaginar uma teoria única da heterossexualidade. Se colocarmos de lado a procriação (que não é a única razão para se ter uma relação sexual, e que acontece poucas vezes na vida), percebe-se que a relação entre homens e mulheres é infinitamente complexa; não tem um objetivo único nem uma forma típica, nem uma razão de ser universal. A relação sexual entre um homem e uma mulher pode ter como finalidade a procriação — mas pode (com certeza, na maioria das vezes) depender de outras coisas como o amor, a solidão, o poder, ou simplesmente o prazer. Contudo, quis-se que a homossexualidade tivesse uma única causa, uma única forma, e uma única teoria. Está cada vez mais claro, todavia, que ela tem mil formas, mil causas, e que pode ser dificilmente entendida por meio de uma única teoria. A construção da homossexualidade Nesta perspectiva, cada um constrói sua homossexualidade, e faz isso seguindo uma seqüência mais ou menos previsível. Parece ter, grosso modo, dois tipos de evolução. Na primeira, poderíamos dizer que a homossexualidade se desenvolve a partir de experiências objetivas: há primeiramente práticas sexuais, e depois uma consciência da homossexualidade. Essa seqüência é mais freqüente entre os homens que são muitas vezes “iniciados” na homossexualidade por meio das práticas sexuais que lhes são mais ou menos impostas durante sua infância ou sua adolescência. As mulheres, em contrapartida, tendem a “se iniciarem” por meio da subjetividade e dos sentimentos. Nessa segunda evolução (que evidentemente pode acontecer entre os homens também), a pessoa conhece primeiramente os sentimentos e o desejo, e depois põem em prática. Nos dois casos, a pessoa integra aos poucos as dimensões externas e internas, até aceitar sua orientação sexual. Aqui também geralmente há duas fases: em primeiro lugar o homossexual se assume frente a si mesmo, ao tomar consciência de seu desejo, e depois frente à sociedade quando ele se revela como tal. Em resumo, há primeiramente uma integração de práticas, de sentimentos, de desejos e de pensamentos; depois, um processo no qual a pessoa aceita sua homossexualidade para ela mesma, e depois frente à sociedade. No final dessa evolução (sobre a qual retornaremos), há uma experiência, uma afetividade, uma sexualidade e uma identidade homossexuais que vão desde a vida íntima até a esfera social. 44 Os tempos da homossexualidade Quanto tempo dura o processo? De acordo com um estudo americano realizado há vinte anos, mas que permanece revelador, os homens homossexuais tomam consciência de seus desejos homoeróticos em torno dos 13 anos de idade em média, têm sua primeira experiência homossexual em torno dos 15, sua primeira relação de casal em torno dos 22, e acabam por desenvolver uma identidade guei positiva em torno dos 28 anos. As lésbicas tomam consciência de seus desejos aos 14 anos, sua primeira experiência em torno dos 20, sua primeira relação de casal em torno dos 23 e só adquirem uma identidade lésbica positiva em torno dos 30 anos47. A construção da identidade guei dura, portanto, em média, aproximadamente quinze anos. Isso implica um longo período de confusão e de incerteza que, evidentemente, tem um custo afetivo muito elevado. Os anos que muitos homossexuais passam se perguntando e explorando sua sexualidade poderiam explicar seu isolamento e sua imaturidade em certos campos. Em inúmeros casos passaram uma boa parte de sua juventude em conflitos internos ou em relações problemáticas, engajados na difícil tarefa de compreender a sua identidade sexual. Em contrapartida, se se considerar que um heterossexual começa (por exemplo) a sentir desejos sexuais aos 12 anos, tem uma primeira experiência sexual aos 17 ou 18 anos e uma primeira relação amorosa em torno dos 18 — em um processo que dura em média seis anos —, vê-se, imediatamente, a enorme diferença entre o desenvolvimento psicossexual dos homossexuais e dos heterossexuais. Os tempos da vida são, de fato, muito diferentes para as duas populações. Uma outra diferença se deve ao fato de que, na vida dos heterossexuais, a seqüência nas relações amorosas progridem em complexidade e em profundidade, desde as paqueras da adolescência, até os amores da juventude, depois até a coabitação ou até o casamento e a paternidade, e assim por diante. As etapas da vida sucedem-se de uma maneira mais ou menos previsível; e cada uma delas prepara, de alguma forma, a seguinte. Raramente é o caso para os homossexuais. Um menino pode estar apaixonado por um outro sem nunca expressar, dividir, nem consumir seus sentimentos, passando assim ao lado da experiência tão necessária dos amores da adolescência. Uma pessoa pode viver sua primeira paixão homoerótica aos 50 anos sem ter tido a experiência que lhe permitiria situá-la e entendê-la. Duas mulheres podem começar a coabitar depois de algumas semanas sem ter passado pelas etapas anteriores que as teriam preparado para um tal compromisso. Isso significa que as etapas do desenvolvimento heterossexual não se sucedem necessariamente na mesma ordem, nem da mesma forma, entre os homossexuais. Teorias do desenvolvimento homossexual Eis a razão pela qual os teóricos da homossexualidade procuraram modelos alternativos para entender o desenvolvimento da identidade homossexual 48. Apresentarei o essencial desses modelos, acrescentando-lhes alguns elementos que me parecem indispensáveis na tarefa de constituir uma identidade homossexual saudável. Uma primeira etapa no desenvolvimento da identidade homossexual ocorre durante a adolescência, que é muito diferente entre os heterossexuais e os homossexuais. 47 J. D. Kooden, S. F. Morin, D. I. Riddle, M. Rogers, B. E. Sand e F. Strassburger (1979). Removing the stigma: Final report, task force on the status of lesbian and gay male psychologists, American Psychological Association, APA Monitor. 48 Ver sobretudo Vivienne Cass (1979). Homosexual identity formation: A theoretical model. Em Journal of Homosexuality, 4, 219-235; e Eli Coleman. Developmental stages of the coming out process. Em John C. Gonsiorek [ed] (1985). A Guide to Psychotherapy with Gay and Lesbian Clients, New York, Harrington Park Press, Inc., p. 31-43. 45 Teoricamente, essa fase (que vai geralmente dos 12 aos 20 anos) é uma etapa de transição entre a infância e a idade adulta, a qual correspondem certas tarefas do desenvolvimento. A adolescência serve para aprender várias coisas que são indispensáveis para a vida adulta. Assim, durante este período deve-se teoricamente estabelecer uma identidade sexual estável, aprender a dominar e canalizar suas pulsões sexuais e entrar em relação com o sexo oposto, desenvolver uma identidade social independente da família por meio da pertença a um grupo de pares, e começar a assimilar as regras das relações sociais e amorosas. Esse desenvolvimento, que não é nem fácil nem automático para os jovens heterossexuais, contudo, é facilitado pela sociedade. A escola, as atividades extraescolares, as festas e a cultura em geral, levam o adolescente a desenvolver as capacidades e a acumular as experiências requeridas para seu futuro enquanto heterossexual. Não lhe faltam nem as oportunidades nem os exemplos para seguir, nem o contexto social, nem os(as) amigos(as) com quem dividir esta etapa crucial. Tudo é diferente para o jovem homossexual. Em primeiro lugar, descobre aos poucos que seus desejos sexuais não se parecem com aqueles de seus colegas. Pode observar, por exemplo, que não compartilha, o interesse intenso de seus pares pelo sexo oposto. Pode pensar constantemente no seu melhor amigo, e se dar conta que sua obsessão não parece ser compartilhada. Ou pode descobrir, por meio de seus sonhos e fantasias eróticas, que sua sexualidade está tomando uma direção que não tem nada a ver com os livros que lê, os filmes que vê, as músicas que escuta. Quando o adolescente começa a descobrir estes contrastes, várias coisas se produzem que podem determinar o curso de toda a sua vida. Primeiramente, se sente diferente — e de um modo que ele sabe que é visto como ilícito, por conta dos comentários e das chacotas que ouve em relação aos homossexuais (essas falas aliás são freqüentes: 97% dos estudantes do ensino fundamental e/ou médio americanos contam que ouvem regularmente comentários homofóbicos49). Com isso, o adolescente identifica-se cada vez menos com seus colegas e cessa de pertencer verdadeiramente ao grupo. Sabe que não é como os outros. Vai às festas e toma consciência que não sente as mesmas coisas e não têm as mesmas reações que seus amigos. No cinema, sente-se mais atraído pelos atores de seu sexo. Nas aulas de educação física aprende a desviar o olhar dos corpos ao seu redor. Sabe também que não pode dividir nada de tudo isso; muito cedo, dá-se conta de que seus desejos e sentimentos não são permitidos. Começa a se sentir só e incompreendido, talvez até mesmo excluído da sociedade. A vergonha infiltra-se aos poucos em sua mente, afetando inevitavelmente sua auto-estima e sua relação com o mundo. Isola-se aos poucos, retira-se das atividades sociais com seus pares e habitua-se a esconder seus sentimentos. E afasta-se progressivamente de sua família. Se expressa menos e mostra menos de si mesmo do que o jovem heterossexual. Assim, 80% dos adolescentes homossexuais contam que vivem em um “isolamento social extremo 50”. É por conta de toda essa dinâmica que a adolescência é uma etapa particularmente difícil para os homossexuais. Durante esta fase, é possível que o jovem homossexual se apaixone por alguém de seu sexo e que sofra pela primeira vez uma das situações mais difíceis para um homossexual: gostar de um heterossexual. Há poucas coisas tão dolorosas, frustrantes e humilhantes do que desejar alguém que não tem os mesmos sentimentos, que domina a relação e que pode rompê-la a qualquer momento. Enquanto o jovem homossexual se desdobra em atenções para com o outro e sofre em silêncio por causa de sua indiferença, 49 50 Making schools safe for gay and lesbian youth: Report of the Massachusetts Governor’s Comission on gay and lesbian youth, 1993. Hetrick, Emery e Martin, A. Damien (1987). Developmental issues and their resolution for gay and lesbian adolescents. Em Journal of Homosexuality. 46 para esse último aquele não é nada além do que um amigo, pior, uma personagem ridícula. E mesmo quando há reciprocidade na amizade, esta não basta para o jovem homossexual, que deve conter seu desejo, calar seus sentimentos e esconder seu ciúme no dia em que o outro se apaixona, por sua vez, por uma pessoa do sexo oposto. É também possível que o jovem homossexual adote condutas e atitudes heterossexuais exageradas, para mostrar aos outros (e se convencer a si mesmo) de que ele é “normal”. Durante essa fase de negação, o jovem homossexual pode se engajar em relações heterossexuais superficiais e irrefletidas, com todos os riscos que isto implica para a sua saúde física e psicológica. Essas experiências pouco satisfatórias servirão, entre outras, para confirmar que ele não sente nada em relação ao sexo oposto. Na cultura popular, o homossexual é alguém que não teve relações com o sexo oposto; se as tivesse tido, ele não seria homossexual. Ou ainda, acredita-se que os homossexuais têm horror do sexo oposto. Na verdade, muitos homossexuais, homens e mulheres, fizeram um esforço para ter experiências heterossexuais — seja para experimentá-la, seja para negar a sua homossexualidade. Esse tipo de atitude é mais comum do que se imagina, e faz parte da construção da identidade homossexual. Essa tomada de consciência de sua homossexualidade não é simples; e ela é ainda mais complicada pela dificuldade que todos os adolescentes têm para entender e expressar claramente seus sentimentos. A verbalização nunca é um ponto forte entre os jovens, e menos ainda quando a cultura de seu meio não lhes oferece o vocabulário necessário e quando a sociedade censura a expressão de certos desejos e sentimentos. Como escreveu Oscar Wilde, a homossexualidade é o amor que não ousa dizer o seu nome: é imensamente difícil verbalizar e compartilhar sentimentos proibidos. Essa primeira etapa na construção da identidade homossexual é, portanto, impregnada de confusão, de dúvidas, de solidão e, muito freqüentemente, de vergonha. Em uma segunda etapa, o jovem homossexual consegue, enfim, nomear o que sente; começa a reconhecer a possibilidade de que seus desejos, fantasias e sentimentos sejam homossexuais. Começa a explorar essa idéia, e a compartilhá-la, talvez, com um confidente. A homossexualidade pode se tornar para ele uma obsessão, um eterno dilema para ser resolvido ou o tema principal da existência. É possível que procure de modo compulsivo contatos sexuais com pessoas do mesmo sexo, para ter uma noção do que é e sair, enfim, da incerteza. Freqüentemente, essas pessoas são mais velhas do que ele e serão já conhecidas como homossexuais. (geralmente pensa-se que os homossexuais adultos procuram seduzir os adolescentes; e esquecemos que, muitas vezes, são os jovens que procuram desesperadamente serem iniciados à homossexualidade pelos adultos, para aprender “como se faz”.) Ou o jovem homossexual pode iniciar relações com qualquer desconhecido, com todos os perigos que isso implica. (Estima-se, por exemplo, nos Estados Unidos, que um entre cada cinco pessoas vivendo com HIV foi infectada durante a sua adolescência51.) Essa fase de exploração pode ser muito caótica, na maioria das vezes, é atravessada por sentimentos contraditórios, desejos incontroláveis, reações impulsivas, relações curtas e instáveis, promiscuidade, momentos de êxtase seguidos de confusão e de vergonha. Os riscos da adolescência Essa fase de exploração durante a adolescência e a juventude está associada a certos riscos. Os primeiros contatos sociais e sexuais com outros homossexuais acontecem freqüentemente em um contexto que encoraja o consumo de drogas e de álcool. O jovem homossexual é particularmente vulnerável ao uso abusivo dessas 51 Dados dos Centros de Controle de Doenças Infecciosas, 1995. 47 substâncias, considerando a intensidade emocional, a confusão e a angústia que sente. O álcool e as drogas podem se transformar em hábitos devidos, por um lado, à convivência aos bares e casas noturnas GLTTB52, e, por outro lado, à evasão que oferecem. Nos Estados Unidos, estima-se que, 83% das adolescentes lésbicas consomem álcool regularmente, e 56% outras drogas; para os rapazes, os números são de 68% e de 44%, respectivamente53. Existem riscos importantes de depressão durante esta fase. De fato inúmeros estudos mostram que a taxa de suicídios é extremamente elevada entre os adolescentes homossexuais. Nos Estados Unidos, os jovens homossexuais (de ambos os sexos) representam um terço de todos os suicídios juvenis (enquanto os homossexuais constituem no máximo 5 ou 6% da população). Um em cada três homossexuais tentou se suicidar pelo menos uma vez54. É possível que muitos problemas observados entre os adolescentes (alcoolismo, uso abusivo de drogas, condutas delinqüentes, depressão) comportam um elemento de confusão a respeito de sua orientação sexual. Não se deve esquecer que, atualmente, não é fácil ser adolescente. Os jovens não têm mais tão claramente presentes os modelos, ou os papéis masculino e feminino que seus pais conheceram. Pelo menos nas sociedades industrializadas não há mais consenso a respeito das condutas esperadas por parte dos homens e das mulheres. Embora essa evolução social em direção a uma maior flexibilidade nos papéis seja positiva em muitos aspectos, ela também torna mais difícil a passagem pela adolescência (tanto para os heterossexuais quanto para os homossexuais). Mas essa etapa é sempre e ainda mais difícil para o adolescente homossexual, pois ele sabe que sua sexualidade é radicalmente diferente da de suas amizades. Portanto, é indispensável que os professores e os profissionais da saúde mental estejam conscientes dessas dificuldades, e que saibam abordá-las. Irei propor ao fim desse capítulo algumas idéias em relação a isso. Uma adolescência diferente para os homens e para as mulheres É importante notar aqui uma diferença essencial entre homens e mulheres. Os jogos sexuais são muito freqüentes entre os rapazes: olhar, comparar, tocar nos órgãos genitais são atividades comuns entre os rapazes e não são consideradas sinais de homossexualidade. Ao contrário, fazem parte de sua iniciação à masculinidade. Portanto, é permitido se olhar, se tocar e até mesmo se masturbar reciprocamente, em certos países — mas é proibido expressar sentimentos e, claro, se apaixonar, o que se aproximaria perigosamente da homossexualidade. É igualmente proibido se acariciar com carinho ou se beijar na boca, sendo considerada um sinal de homossexualidade qualquer demonstração de ternura entre rapazes. É exatamente o contrário para as moças. Durante sua adolescência, é muito freqüente que desenvolvam ligações afetivas próximas do amor. Duas moças podem passar o tempo inteiro juntas, dormir juntas, se ligar ou se escrever de modo compulsivo quando estão distantes. Mas elas, e seus pares, consideram essa ligação normal: o fato de serem melhores amigas não tem nada de estranho, e com certeza não é um sinal de homossexualidade. Elas podem se abraçar e se beijar abertamente, e até mesmo 52 53 GLTTB – gueis, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Nota dos tradutores. Joyce Hunter et al. (1992) Projeto de pesquisa inédita da Columbia University. H.I.V. Center for Clinical and Behavior Studies. 54 P. Gibson (1989). Gay male and lesbian youth suicide. Em U.S. Department of Health and Human Services. Report of the Secretary’s Task Force on Youth Suicide, Washington, D.C., U.S. Government Printing Office. Ver também Andi O’Conor (1995). Breaking the silence. Em Gerald Unks (ed.). The Gay Teen, Nova Iorque, Routledge, p. 13; Gary Remafedi (1991). Risk factors for attempted suicide in gay and bisexual youth. Em Pediatrics; e Gary Remafedi (1995). Death by Denial: Studies of gay and lesbian youth suicide. Boston, Alyson Publications. 48 fazerem declarações de amor. Em contrapartida, qualquer contato sexual (isto é, genital) entre elas é rigorosamente proibido. Essa diferença crucial entre a adolescência dos homens e das mulheres tem conseqüências importantes para a sua vida amorosa e erótica posterior. É uma das razões pelas quais os homens (tanto hetero quanto homossexuais) procuram muito mais a relação sexual, e as mulheres a relação afetiva. E entre a população homossexual, os homens tendem muito mais ao contato sexual, muitas vezes anônimo; enquanto as mulheres têm tendência para se apaixonarem. Claro, em ambos os casos há uma cisão entre o sexual e o afetivo. O esforço para contornar o proibido e afastar a homossexualidade a qualquer preço tem esse custo (entre outros). E, de fato, como veremos mais adiante, os casais homossexuais masculinos apresentam, muitas vezes, uma falta de intimidade, enquanto os casais femininos apresentam problemas no campo da sexualidade. O luto da heterossexualidade É, portanto, por meio de todo um processo de exploração que o jovem homossexual começa a se identificar como tal. Mas isso implica também um luto da identidade heterossexual que lhe foi inculcada desde sempre. Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar uma família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Darse conta que isso, provavelmente, não acontecerá e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante; e, como em qualquer perda há um trabalho de luto a ser feito. Esse luto compreende todas as fases descritas por Elizabeth Kübler-Ross em On death and dying55. Segundo esse livro, o luto compreende necessariamente uma série de reações que são normais quando nós sofremos uma grande perda afetiva. Assim, passamos pela negação (“não é verdade, não estou acreditando”), a raiva (“como podem ter feito isso comigo”), a barganha mágica (“talvez eu pudesse fazer alguma coisa para evitar”), a depressão (“minha vida não tem mais sentido”), a culpabilidade (“deveria ter agido de outra forma”), enfim, a aceitação (“eu fiz o melhor que pude, e não há mais nada a fazer”). Na pessoa que toma consciência de sua homossexualidade, encontramos, portanto, a negação (“talvez não seja verdade”), a raiva (“por que eu?”), a barganha (“farei tudo para evitar isso”), a depressão (“nunca serei feliz”), e, enfim, se tudo der certo, a aceitação. Quanto tempo dura esse processo? Para certas pessoas, nunca tem fim — e talvez seja a diferença mais importante entre os homossexuais felizes e aqueles que nunca terminam de fazer o luto do casamento, das crianças que poderiam ter tido, e da aceitação familiar e social que nunca terão. Claro, entre esses dois extremos, há muitos homossexuais para os quais estas coisas não são importantes, e que não têm nenhum arrependimento em relação à vida heterossexual — aparentemente. Mas a maioria dos homossexuais passa por um luto da heterossexualidade, mesmo que não seja totalmente consciente. Esse luto desenvolve-se, geralmente, em etapas, e desemboca em uma aceitação da homossexualidade — mas essa aceitação é raramente inteira ou definitiva. Um certo arrependimento surge novamente nos momentos importantes da vida, e o homossexual deve então reexaminar e aceitar em novos termos sua orientação sexual. Assim, uma lésbica pode viver sua homossexualidade sem problemas durante muito tempo e, por 55 Elizabeth Kübler-Ross (1969). On death and dying. New York, Macmillan Publishing Company. [Nota dos tradutores]: Uma versão em português existe deste livro e entitula-se Sobre a morte e o morrer. São Paulo, Martins Fontes, 1992. 49 volta dos 40 ou 50 anos, sentir um arrependimento intenso em relação às crianças que poderia ter tido caso fosse heterossexual. (Esse luto das crianças pode também acontecer, claro, entre os homens.) Pode haver uma recrudescência do luto toda vez que um amigo ou um irmão se casa, ou no nascimento dos sobrinhos, ou na morte dos pais. Mesmo os acontecimentos mais felizes da vida (como os aniversários, o reveillon, as férias, os sucessos profissionais) podem ter um fundo de melancolia, porque o homossexual não pode compartilhá-los com sua família. Ainda que seja profundamente feliz em sua vida pessoal, às vezes, ele se sentirá, triste durante as celebrações mais felizes — e, muitas vezes, sem saber por quê. Portanto, é importante tomar consciência desse luto que pode durar indefinidamente ou ressurgir sob formas diferentes. Isso mudará, provavelmente, à medida que os direitos civis dessa população se estenderem: se os homossexuais pudessem se casar e adotar crianças, se gozassem de todos os direitos que são atualmente reservados aos heterossexuais, a sensação de perda, evidentemente, não seria a mesma. Enquanto isso é muito importante que cada homossexual assuma e entenda esse luto, como uma parte de sua identidade e de sua história. A reconstrução da história pessoal Um outro aspecto importante dessa fase é a reconstrução da história pessoal. É esperado que os adolescentes que descobrem neles mesmos desejos, fantasias ou sentimentos homossexuais, podem se perguntar de onde eles vêm. E ainda que não exista explicação definitiva da homossexualidade, é salutar se perguntar. De fato, a noção de identidade (que implica, no fim das contas, um conhecimento de si) exige que se pergunte a si mesmo, por que e desde quando se é homossexual — mesmo que seja impossível determiná-lo com precisão. O que conta, não é a verdade, mas a revisão da história pessoal. Esse reexame do passado é particularmente difícil para os homossexuais, porque devem procurar origens, explicações e conexões onde os heterossexuais não pensariam em se deter sobre isso. Esses últimos não têm nenhuma pergunta a se fazer a respeito de sua orientação sexual que lhes pareça natural e dada desde sempre. Ao contrário, para os homossexuais, os jogos da infância, a escola, as relações familiares, o primeiro amor, podem ter tido significações muito diferentes. O que um sente como amizade pode se tornar um sofrimento amoroso sem o que o outro perceba. Uma simples partida de futebol, talvez venha a se tornar o marco do dia em que tomaram consciência de sua diferença. Uma reunião de família da qual se sentiram excluídos, pode representar uma lembrança triste, e não alegre. E o primeiro amor tem para os homossexuais um valor significativo, pois foi, para muitos deles, a primeira revelação de sua orientação sexual. É capital identificar essas etapas, fazer as conexões e estabelecer a cronologia nesta busca de si mesmo. Assim, surge uma reconstrução da história pessoal, uma arqueologia do desejo que é muito diferente da dos heterossexuais — e que é um elemento indispensável na formação de uma identidade guei plenamente assumida. Todo mundo precisa contar para si mesmo sua própria vida, que lhe dá um sentido e uma coerência interna. Isso é particularmente importante no caso das minorias, para as quais o passado é a própria liga da comunidade. Como o entenderam muito bem todas as minorias perseguidas: para ter uma identidade é preciso ter uma história. 50 Identidade e comunidade A identidade constrói-se também se conhecendo os seus semelhantes, e nessa etapa de exploração é essencial conhecer outros homossexuais. Assim, aprende-se que não se está só, que há inúmeras maneiras de viver a homossexualidade, e que existem muitos parceiros possíveis. Entende-se também que se pertence a uma comunidade, e isso é indispensável quando se faz o luto da identidade heterossexual. Finalmente, o fato de compartilhar com outros suas primeiras experiências homossexuais é o primeiro passo em um longo trabalho de saída do armário, que analisaremos em detalhes no capítulo seguinte. Após a fase de exploração, o jovem homossexual tenta, geralmente, estabelecer uma relação de casal. Como todas as primeiras relações, essa se caracteriza por sentimentos confusos, sonhos de amor eterno, séries intermináveis de mal-entendidos, uma enorme dependência e muita idealização. Mas as coisas são ainda mais complicadas para os homossexuais. Como não há modelos de casais gueis na cultura, nem regras do jogo predeterminadas, muitas pessoas (sobretudo se antes tiveram relações heterossexuais) entram em sua primeira relação homossexual com expectativas e ilusões totalmente afastadas da realidade. Podem pensar, por exemplo, que o fato de estar com alguém do mesmo sexo fará desaparecer, como num passe de mágica, as dificuldades encontradas nas relações anteriores; ou que isso permitirá resolver todos os problemas e satisfazer todas as necessidades. Se as duas pessoas são principiantes, é provável que vivam a relação totalmente desnorteadas, interrogando-se constantemente sobre as regras do jogo: é “normal” fazer isso ou sentir isso? Nossos problemas são típicos dos casais homossexuais ou comuns a toda relação amorosa? Em certos casos, se essa primeira relação for muito dolorosa ou difícil, as pessoas renunciarão para sempre a homossexualidade, considerando que os problemas que levaram à separação são inerentes a essa. Por todas essas razões, a primeira relação homossexual apresenta muitos riscos e dificuldades e, geralmente, dura pouco tempo. (A maioria das primeiras relações heterossexuais é igualmente efêmera; mas isso não leva os jovens heterossexuais a renunciar a sua orientação sexual e nem a se dizer que a heterossexualidade é fadada ao fracasso.) Positiva ou não, a primeira relação fará avançar a construção da identidade homossexual. Após a confusão, a dúvida e as ilusões, a pessoa que inicia, enfim, uma relação homossexual na prática chega a uma melhor compreensão de seus desejos e de suas necessidades, e (sobretudo se a experiência sexual foi positiva) e sabe que ele voltará a tê-la. Abre-se assim a possibilidade de um futuro homossexual na realidade, e não mais, apenas, na imaginação. A homossexualidade proibida torna-se realizável — e isso já implica uma certa aceitação. A imagem de si começa a mudar, e descobre-se em si mesmo sentimentos e sensações desconhecidas até então. A vida social com outros homossexuais desenvolve-se. Pela primeira vez, há experiências reais e compartilhadas que podem ser elaboradas como tais. Em uma palavra, a nova identidade começa a tomar forma. A descoberta tardia da homossexualidade Essa fase de exploração e a primeira relação homossexual não acontecem necessariamente durante a adolescência. Uma pessoa pode descobrir em si mesma desejos homossexuais, ou se apaixonar por alguém do mesmo sexo a qualquer momento da vida. Uma mulher pode viver a sua primeira relação homossexual com 40 ou 50 anos após décadas de casamento (o que é mais raro entre os homens). Quando isso acontece, a pessoa pode se sentir totalmente desorientada e até mesmo apavorada com o que está 51 lhe acontecendo. Como o descreve uma mulher casada, mãe de duas crianças que aos 40 anos se apaixonou por uma outra mulher (também heterossexual até então): Passei dois meses em uma angústia apavorante. Perguntava-me: “Mas o que está acontecendo comigo? O que eu tenho?” E eu não tinha ninguém com quem falar disso. Não podia falar disso nem com ela nem com mais ninguém. Eu pensava: “Estou ficando louca”. Era uma sensação muito enlouquecedora. “Será que eu sou lésbica?” E era uma interrogação cheia de angústia, sentia que um enorme problema ia cair sob minhas costas. Além do mais, era tão forte, nunca tinha sentido algo tão forte mesmo com os homens que eu tinha amado. Eu pensava: “O que está acontecendo comigo? É terrível. O que eu vou fazer?”. Uma pessoa nessa situação pode perder o controle de si mesma e adotar de repente condutas irrefletidas, irresponsáveis, até mesmo perigosas; pode iniciar uma relação com alguém que não conhece bem, deixar seu casamento ou seu trabalho de modo intempestivo. Seu tormento e suas condutas “irracionais” levariam a muitos profissionais da saúde a diagnosticar uma crise psicótica devida a emergência de desejos homossexuais longamente reprimidos. Mas, sem chegar a falar de doença mental, talvez seja mais útil pensar em termos de “segunda adolescência”. A adolescência bifásica dos homossexuais De fato, vários autores observaram que muitos homossexuais passam por duas adolescências (ou uma adolescência “bifásica56”). Em primeiro lugar atravessam uma adolescência cronológica entre 12 e 20 anos. Mas como já observamos, não aprendem nessa fase o que eles precisariam para uma vida homossexual. Portanto, tangenciam tarefas indispensáveis para seu futuro, como a formação da identidade e a exploração do amor e da sexualidade. Essas tarefas ficam a dever: essas pessoas deverão realizar posteriormente a exploração e a consolidação de sua identidade sexual. Então, quando vivem sua primeira relação homossexual, mesmo que sejam anos ou décadas mais tarde, entram, enfim, na adolescência psicológica (e não mais cronológica), e começam a explorar sua verdadeira identidade sexual, amorosa e social. Trata-se, freqüentemente, de uma etapa de grande felicidade: a pessoa se sente liberta, e descobre uma intensidade afetiva e erótica que ela jamais acreditou ser possível. Em certos momentos sente que está vivendo uma segunda juventude, cheia de vigor e de espontaneidade. Mas ao lado dessa explosão de alegria reaparecem todas as dificuldades da adolescência: a falta de confiança em si, a impulsividade, a incerteza, a irresponsabilidade — sempre alarmantes no adulto. Essa etapa apresenta, de fato, grandes riscos; mas não devemos concluir que a pessoa está perdendo a razão (mesmo ainda que ela acredite nisso). Devemos nos lembrar que se trata de uma fase, e que a pessoa reencontrará seu estatuto de adulto quando tiver acabado de transitar por essa segunda adolescência. Então, se tudo correr bem, aceitará e consolidará aos poucos sua nova identidade homossexual. Uma identidade feliz ou infeliz? É evidente que o processo de construção da identidade guei depende, em grande parte, do contexto social e cultural. Não é praticável em todo o lugar; isso há apenas trinta anos ainda não era possível, mesmo nas sociedades mais “avançadas”. E nos países onde a homossexualidade se vive ainda nos “bas-fonds”, nas ruas e nos parques obscuros ou nas boates sórdidas e impessoais, ilegais e muitas vezes perigosas, onde os homossexuais vivem no medo e na vergonha porque a sociedade não lhes permite outra 56 Alan K. Malyon. Psychotherapeutic implications of internalized homophobia in gay men. Em Gonsiorek, p. 59-69. 52 coisa, o processo de aceitação não poderia prosperar. Então, ao invés de se forjar uma identidade guei, os homossexuais se forjam uma patologia; e tornam-se aos poucos esses seres infelizes, amargos e invejosos que povoam os textos tradicionais da psiquiatria e da psicanálise. De fato, do mesmo modo que se pode se construir uma identidade homossexual feliz, pode-se também viver sua sexualidade de um modo profundamente infeliz — o que acontece também algumas vezes, claro, no mundo heterossexual. Mas, nesse último caso, ninguém dirá que um indivíduo é infeliz porque é heterossexual. Em contrapartida, muitas pessoas consideram que os problemas psicológicos dos homossexuais estão diretamente ligados à sua orientação sexual. Essa visão das coisas é até mesmo difundida entre os profissionais da saúde mental que chegam a deformar seus critérios diagnósticos por causa de um profundo desconhecimento da homossexualidade. Já me aconteceu ouvir psiquiatras e psicanalistas dizerem que um paciente é neurótico ou alcoólatra, deprimido ou angustiado, ou ainda, que tem problemas de casal porque é homossexual — como se a orientação sexual fosse em si mesma uma causa de patologia, e não o modo de viver e de assumir essa sexualidade57. A terceira idade As pesquisas sobre o envelhecimento dos homossexuais, mesmo limitadas em razão do interesse muito recente para o tema, confirmam que a orientação sexual em si não prediz o nível de bem-estar psicológico nas diferenças etapas da vida. Em contrapartida, parece claro que os homossexuais envelhecem melhor na medida em que aceitaram e viveram abertamente sua orientação. Em especial, os pesquisadores nesse campo encontraram menos autocrítica e problemas psicossomáticos, e um nível de bemestar mais elevado entre os homossexuais na terceira idade, na medida em que se deram conta de sua orientação relativamente cedo, pertenceram a um grupo ou a uma comunidade de seus semelhantes, tiveram numerosos amigos e rejeitaram os estereótipos tradicionais concernentes à homossexualidade58. Escolher sua própria homossexualidade Aqui se oferece toda uma gama de possibilidades. Talvez não se possa escolher sua orientação sexual, mas com certeza pode-se decidir o modo como vivê-la. Na vida íntima, uma pessoa pode decidir o tipo de relações que terá: pode escolher construir uma relação de casal estável, monogâmico ou não, ou ainda ter múltiplas relações passageiras. Pode compartilhar sua vida com seu parceiro e um pequeno círculos de amigos, ou então optar pela vida social dos bares e das discotecas ou da comunidade GLBT. Pode reproduzir os papéis ou os estereótipos do casamento heterossexual ou inventar novas modalidades de relação. No aspecto público, o homossexual pode decidir viver na clandestinidade (no famoso “armário”), escondendo sua orientação até mesmo para a sua própria família, ou arriscar-se a se identificar abertamente como tal. Veremos que há, de fato, uma grande variedade de estilos de vida e de relação de casal no mundo da homossexualidade. Justamente porque não há modelos nem regras do jogo pré-estabelecidos que os homossexuais têm uma liberdade menos encontrada nos heterossexuais. Além do mais, como veremos mais adiante, muitos dentre eles afastaram-se de suas famílias de origem, e geralmente não têm crianças. Isso abre possibilidades dificilmente concebíveis no 57 American Psychiatric Association eliminou a homossexualidade de seu Código International de Doenças (CID), ou Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, em 1973. Guardou apenas a categoria de uma homossexualidade mal-assumida, isto é, vivida na vergonha ou na culpabilidade. 58 John Alan Lee (1991) [ed.] Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press. 53 mundo heterossexual. Evidentemente, essa liberdade tem também seus limites: afinal de contas, os homossexuais são obrigados, como todo mundo, a trabalhar e viver em sociedade. Além disso, a sociedade atual não dá muito espaço para a excentricidade e o nãoconformismo. O mundo globalizado do ano 2000 dita maneiras de pensar, de sentir e de viver que influenciam os homossexuais tanto quanto os heterossexuais. Mesmo as populações mais marginalizadas acabam adotando o modelo consumista de uma realização pessoal baseada nas possessões materiais. Assim, assiste-se à “yuppificação” de muitos homossexuais nos Estados Unidos: longe de serem originais ou contestadores, tornaram-se tão conformistas e convencionais quanto todo mundo. Além do mais, muitas atitudes e condutas que eram características da cultura GLBT foram adotadas pela cultura majoritária: poderíamos interpretar nesse sentido a androgenia que predomina atualmente na moda e na publicidade. Estamos muito longe das posições revolucionárias do movimento de liberação guei dos anos 70. Portanto, é nesses limites que os homossexuais de hoje podem inventar novas maneiras de viver, pensar e amar, ou adotar um estilo de vida convencional. Nos capítulos seguintes, examinaremos algumas opções que existem atualmente para os homossexuais e, veremos também os problemas que elas podem acarretar. Mas, é claro que, além da biologia, da sociedade, da história familiar e pessoal, há na homossexualidade um enorme espaço para a liberdade, a criatividade, a realização de si e, claro, a felicidade. Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico Exploração da orientação sexual nos adolescentes É muito comum os adolescentes terem dúvidas sobre sua orientação sexual. Se eles descobrem desejos homossexuais, podem se angustiar ao extremo. Portanto, é importante lhes explicar que a identidade sexual está composta de muitas camadas, como vimos nesses dois capítulos. O desejo não faz o homossexual; mesmo as práticas não bastam para isso. Não se torna homossexual do dia para a noite. Os adolescentes devem entender também que os desejos homossexuais são normais e até mesmo comuns na sua idade. E que a adolescência é feita justamente para explorar e desenvolver sua sexualidade. É primordial destacar que a sexualidade é complexa e que compreende em todos nós muitas facetas. Uma dessas facetas é provavelmente a imaginação que, longe de limitar a sexualidade, só pode enriquecê-la. As fantasias, por mais perversas que possam parecer, são como janelas que nos revelam partes desconhecidas de nossa vida profunda; como mensagens provenientes de terras inexploradas, nos devolvem uma imagem renovada de nós mesmos. Além do mais, podemos decidir o que nós vamos fazer com estas fantasias. Ninguém pode controlar seu inconsciente, mas podemos, com certeza, escolher nossas condutas. Ademais, nesse campo nada é irreversível. É preciso que os adolescentes saibam que podem transitar pela homossexualidade e depois deixá-la — coisa freqüente em inúmeros países, inclusive, claro, a Inglaterra na era moderna, onde as relações homossexuais eram “normais” entre os estudantes dos internatos. O contrário pode também acontecer: pode-se explorar a heterossexualidade, tomando o cuidado para não adquirir obrigações permanentes, e depois deixá-la. E, justamente, porque não tem nada irreversível e irremediável neste campo, nada é urgente. 54 Exploração da história pessoal Para entender um homossexual, é indispensável ver de que maneira ele elabora sua história — como descobriu e assumiu (ou não) sua orientação sexual. O terapeuta deve ajudá-lo a reconstruir todo o processo para que ele possa consolidar sua identidade e também identificar eventuais lacunas em seu desenvolvimento. Um homossexual pode parecer pouco maduro em suas relações interpessoais e limitado em sua comunicação, levando o terapeuta a diagnosticar um transtorno da personalidade (como o narcisismo), por não ter examinado em profundidade sua história individual e interpessoal. O terapeuta poderá até mesmo atribuir esse transtorno à carências ou traumatismos presentes desde a infância — quando, talvez, fosse mais útil procurar a origem do problema na adolescência ou na juventude. Mas a teoria psicanalítica leva muitos terapeutas a procurarem a origem das coisas nos primeiros anos da vida. É fácil esquecer que um homossexual pode ter tido uma infância perfeitamente “normal”, mas uma adolescência e juventude cheias de solidão, de vergonha e de inibição, que, provavelmente, bloquearam seu desenvolvimento psicossexual. Muito freqüentemente, os homossexuais não aprenderam as regras do jogo social e amoroso; não passaram pelas etapas que se seguem automaticamente entre os heterossexuais. É importante explicar ao paciente que não se trata de uma patologia, mas de uma lacuna na aprendizagem à qual se pode remediar. O luto da heterossexualidade Em qualquer fase da vida, a emergência de desejos homossexuais e a formação de uma identidade homossexual implicam a perda da identidade heterossexual. A aceitação da homossexualidade nunca é fácil; compreende sempre uma parte de confusão e de dor. É importante explorar a fundo esses sentimentos e nunca os minimizar. Muitos terapeutas “liberais” tenderão a consolar seus pacientes nesta situação, lhes assegurando que poderão ser tão felizes quanto qualquer um quando tiverem assumido sua orientação. Não é verdade. Quase todos os homossexuais, por mais assumidos que sejam, sofreram de maneira intermitente um luto da heterossexualidade. Trata-se aqui de uma perda importante: a pessoa deve renunciar, no fim das contas, a uma boa parte de seu passado e também de seu futuro, do modo como elas os via antes. Sua vida não seguirá mais o curso previsto; não satisfará mais as expectativas de sua família e da sociedade; e não sabe se poderá contar com a aceitação e o amor de seus amigos e de seus parentes. Além do mais, a pessoa ignora se poderá, um dia, ter uma relação estável e duradoura como teria sido o casamento (pelo menos em teoria); e não terá o apoio da sociedade que é tão importante para manter uma relação de casal. O terapeuta deve explorar todas as fantasias e os medos que estão associados a essas perdas sem nunca os minimizar nem os trivializar. São perdas reais, e é importante as elaborar enquanto tais. É também útil, na medida do possível, ajudar o paciente a se constituir novas redes de apoio (como veremos no capítulo seguinte), e a produzir novas expectativas e projetos de vida alternativos. O que está perdido deverá ser elaborado e eventualmente substituído aos poucos: a família, o casamento, a aprovação social deverão ser reformulados de outro modo. 55 CAPÍTULO 4 AS VICISSITUDES DO ARMÁRIO Os homossexuais se perguntam muitas vezes entre si se “saíram do armário” (do inglês, out of the closet) ou se ficaram “dentro”, isto é, se vivem sua homossexualidade abertamente ou na clandestinidade. É uma pergunta freqüente, pois importante; ela nos revela muito sobre a pessoa e seu modo de viver. Mas é demasiada simples para refletir a grande variedade de respostas possíveis: pode-se estar “fora” com seus amigos e vizinhos, e “dentro” com seus pais; ou “fora” em relação à família e os amigos, mas “dentro” no trabalho. Por outro lado, o que significa viver abertamente a homossexualidade? Afinal de contas, pode-se “dizer” que se é homossexual de muitas maneiras, e pode-se viver publicamente sua homossexualidade sem nunca dizer uma palavra sobre isso. Talvez só haja uma coisa certa em relação à clandestinidade: é que ela não tem fim. Nenhum homossexual, mesmo que tenha perfeitamente assumido a sua homossexualidade, pode dizer que ele saiu definitiva e totalmente do armário. Sempre haverá pessoas ou situações novas, nas quais ele será considerado como heterossexual até provem o contrário. E isto não é uma questão de honestidade e nem de integridade: é simplesmente porque a sociedade pressupõe, automaticamente, que todo mundo é heterossexual. Mesmo quando o homossexual se identifica explicitamente como tal, nem sempre se crê nele. Conheço homossexuais aos quais uns terapeutas asseguraram que não eram homossexuais — e até mesmo que não era possível em seu caso. E muitos homossexuais, homens e mulheres, viveram a experiência muito desagradável de terem sido perseguidos por pessoas do sexo oposto que queriam lhes provar a qualquer preço que eles não eram homossexuais de verdade. Muitos adolescentes, também, escutam de seus professores ou confidentes: “mas não, você não é homossexual”. Isso acontece exatamente como se os heterossexuais tivessem o direito de decidir quem é homossexual e quem não o é — independentemente daquilo que os homossexuais dizem a respeito deles mesmos. E, mesmo quando seus amigos e família sabem perfeitamente que uma pessoa é homossexual, eles continuarão, em muitos casos, a tratá-la como se não fosse nada disso, como se ela fosse heterossexual — mas solteira. Assim, os pais convidarão sua filha lésbica no jantar de Natal, sem convidar, nem mesmo mencionar sua companheira de vários anos. Os colegas de trabalho organizarão a festa do fim de ano sem incluir o parceiro de seu colega, mesmo que saibam da relação há muito tempo. Essa cegueira, mais ou menos consciente, mais ou menos deliberada, por parte da sociedade faz com que o homossexual permaneça fechado na clandestinidade sob muitos pontos de vista, mesmo que não o deseje. Assim, o famoso armário não serve apenas para se esconder, mas também para esconder o que a sociedade se recusa a ver. Portanto, é indispensável que os homossexuais e seus terapeutas pensem de modo profundo e contínuo sobre a realidade e as implicações da pergunta: “você está dentro, ou fora?”. O termo em inglês closet (do latim clausum, particípio presente do verbo claudere que significa “fechar”) teve muitas outras significações antes de se referir à homossexualidade clandestina. Assim, denotou um lugar fechado, privado, no qual se tem conversações secretas, ou um lugar para guardar objetos preciosos. Portanto, representa o privado em oposição ao público; um íntimo em oposição ao social; o que está escondido 56 em oposição ao que está descoberto. Como derivação desses sentidos, a expressão to come out of closet (sair do armário, às vezes reduzida à to come out) refere-se, atualmente, ao fato de assumir plenamente sua homossexualidade, tanto na esfera pública quanto na privada. Há, evidentemente, uma diferença muito grande entre assumir sua orientação sexual em um nível íntimo (com sua família e seus amigos) e fazê-lo no nível social (com seus vizinhos e colegas por exemplo). Nos países industrializados, encontra-se freqüentemente homossexuais cujos vizinhos e colegas conhecem a sua orientação sexual, enquanto a sua própria família a desconhece. Nas sociedades conservadoras (onde a família desempenha ainda um papel central), é mais freqüente que os homossexuais “saiam” na esfera íntima e se escondam na esfera pública. Os homossexuais podem escolher entre muitas opções nestes diferentes níveis, mas esses permanecem sempre ligados de uma certa maneira: como diziam as feministas, o pessoal é político; a vida privada (inclusive a sexualidade) sempre tem implicações públicas; o íntimo não pode estar separado do social. Por que dizê-lo? Por que sair do armário? Em primeiro lugar, muitos homossexuais de agora foram forçados a isso — pela AIDS. Podemos supor que uma grande proporção das vítimas da epidemia — em particular aquelas que se aproximaram de sua família — teve que revelar sua homossexualidade voluntariamente ou não. Uma grande quantidade de obras literárias testemunham o sofrimento que isso pôde implicar, mas também, em muitos casos, a aceitação que muitos homossexuais encontram junto a seus próximos. A importância dessa saída obrigatória do armário não poderia ser superestimada. Em um certo sentido, poderíamos dizer que a AIDS arrancou do armário toda uma geração de homossexuais; tornou público um modo de vida que antes era invisível; e deu o nascimento a uma comunidade inteira. Como diz Frédéric Martel: “A homossexualidade era uma aventura individual. Pela primeira vez, a AIDS deu uma história coletiva aos homossexuais59”. Dito isso, a maioria dos homossexuais não são obrigados a saírem do armário, mas têm a escolha: e trata-se aí de uma decisão que é não somente difícil, mas de uma importância capital. Muitos heterossexuais se perguntam por que seus amigos homossexuais dão tanto valor à sua orientação sexual, já que eles têm o bom senso e a discrição de guardar sua vida íntima para eles mesmos. Muitas vezes, é difícil eles entenderem porque os homossexuais sentem a necessidade de se declararem abertamente: por que eles não podem fazer tudo que eles querem, ser ou não ser, sem fazer alarde? No final das contas, os heterossexuais têm relações e problemas de casal, e não sentem a necessidade de falar interminavelmente de sua orientação sexual. Então, por que os homossexuais têm necessidade de se identificar como tais, de anunciar e explicar a todos a sua orientação, de uma maneira que possa parecer obsessiva, provocadora ou simplesmente adolescente? Essas perguntas contêm, na verdade, todos os elementos de um debate que é central para a identidade homossexual. Dizer-se homossexual De fato, por que é importante que os homossexuais se identifiquem, se nomeiem e se descrevam? Historicamente, a resposta dada pelo movimento de liberação guei sempre foi esta: é para não sermos mais identificados, nomeados e descritos pelos 59 Frédéric Martel. (1996). Le rose et le noir. Paris, éditions du Seuil, p. 355. 57 outros. Tanto a integridade pessoal quanto a luta pelos seus direitos civis exigem que os gueis se nomeiem e se descrevam em seus próprios termos. Isso pode chegar até a adoção do vocabulário pejorativo usado pela sociedade homofóbica. Não é a mesma coisa um homossexual se dizer “veado”, e um heterossexual lhe dizer. Nessa concepção, o fato de usar as mesmas palavras desarma a homofobia: se alguém me diz “veado”, respondo “sim, e orgulhoso de o ser”. (A apropriação das armas do inimigo é uma estratégia que foi usada por muitos movimentos minoritários em nosso tempo, inclusive o dos negros nos Estados Unidos. Basta lembrar que, se entre eles é aceitável se chamarem de “nigger” [preto], nunca tolerariam esse termo dito por um branco). Um outro motivo para sair do armário é o desejo de se integrar à comunidade guei. Há nos homossexuais, assim como para muitas pessoas, uma necessidade de pertença maior, pois muitos deles foram rejeitados, ou se afastaram de sua família. Então, quando um homossexual começa a assumir publicamente sua orientação e freqüentar lugares ou grupos gueis, é ao mesmo tempo para conhecer outros homossexuais e fazer parte de uma coletividade. Mas, juntar-se à comunidade guei tem também uma significação política. Os militantes gueis americanos insistem na importância de aumentar a visibilidade da homossexualidade; em sua perspectiva, os homossexuais nunca poderão assegurar seus direitos civis se não fizerem conhecer publicamente seu peso numérico e, portanto, eleitoral. Assim, há várias razões de ordem política para sair do armário. Dizer-se homossexual, é juntar-se a uma comunidade e recuperar uma identidade própria e não mais imposta: classificar-se, para não ser mais classificado. Essa estratégia, claro, tem um lado ingênuo, quiçá utópico. Paradoxalmente, os homossexuais que saem do armário são devolvidos para a sua homossexualidade: de fato, etiquetam-se, entretanto são imediatamente reduzidos a essa etiqueta. Em nossa sociedade, os homossexuais que vivem abertamente a sua orientação sabem que seus amigos e colegas heterossexuais os vêem, antes de tudo, como homossexuais: tornam-se “meu amigo veado”, “minha vizinha lésbica”, “o escritor guei”, como se a homossexualidade fosse seu atributo mais essencial. Então, identificar-se publicamente enquanto homossexual é uma faca de dois gumes: a recusa da clandestinidade só desemboca, em muitos casos, em uma nova etiqueta. É também utópico pensar que se pode sair definitivamente do armário: sempre haverá situações nas quais será preciso fingir ser heterossexual, pelo simples fato de viver em uma sociedade heterossexual. Se se procura um apartamento ou um novo trabalho, se se cultua relações profissionais, é melhor respeitar as aparências. Muitos homossexuais descrevem sua vida cotidiana como limitada em compartimentos: em certas situações, são abertos e, em outras, não; com certos amigos são sinceros e podem ser eles mesmos, e com outros não. O preço da clandestinidade O fato de se passar de uma modalidade para outra, torna-se automático com o passar do tempo: para usar uma metáfora automobilística, aprendemos a trocar de marcha toda vez que for necessário, e fazemos isso sem esforço — mas isso não significa que o câmbio não seja gasto. Alternar a sinceridade e a dissimulação implicam uma vigilância contínua e um gasto de energia psíquica muito grande — mesmo que a pessoa se assuma perfeitamente. Não é à toa que muitos psicanalistas e psiquiatras notaram uma suscetibilidade particular nos homossexuais, que às vezes interpretaram como paranóia. Muitas vezes acontece que os homossexuais observam com uma 58 atenção diferenciada as reações do outro em relação a eles. Do mesmo modo, entendese facilmente que muitos homossexuais preferem a companhia de seus semelhantes, mesmo que não tenham muita coisa em comum fora a sua orientação sexual. Podem pelo menos serem eles mesmos e falarem espontaneamente, sem esconder as suas atividades, suas relações, os seus sentimentos — em uma palavra, sua vida afetiva inteira. O preço da clandestinidade (seja ela parcial ou total), portanto, é muito elevado. Inúmeros estudos mostraram, de fato, que os homossexuais estão com melhor saúde, tanto física quanto mental, na medida em que saem da clandestinidade. Observou-se que os homossexuais que assumem publicamente sua orientação, sobretudo, para a sua família são muito menos expostos à depressão, ansiedade, e somatização; sua autoestima e sua capacidade de relação com o outro são bem mais desenvolvidas60. Por quê? O fato de esconder sistematicamente sua vida afetiva pode ter conseqüências nefastas em todos os campos e não somente na esfera privada. O homossexual que vive na clandestinidade sempre se pergunta se os outros se dão conta disso; observa continuamente seus gestos, suas palavras, suas reações. Mas, o que ele ganha em segurança, ele perde em espontaneidade e sinceridade: pode parecer superficial e rígido. Isso não afeta somente suas relações pessoais, mas também suas relações sociais e profissionais. Além do mais, às vezes sente-se culpado de mentir ou, pelo menos, de não dizer a verdade sobre si mesmo. Em alguns casos tenderá a se isolar cada vez mais (ou se esconder em relações sociais superficiais) e negar sua relação de casal se tiver uma. Por todas essas razões os autores americanos que tratam da homossexualidade pensam geralmente que é melhor viver abertamente do que viver na clandestinidade. Ademais, consideram que não se pode assumir plenamente a sua homossexualidade se esta for dissimulada, sobretudo, para a família. E um homossexual não pode, dizem eles, acessar a maturidade a não ser assumindo-se enquanto tal. Exatamente como o heterossexual só se torna verdadeiramente um adulto aos olhos de sua família e da sociedade quando funda um casal e uma família, o homossexual só se torna um adulto quando sai da clandestinidade. Sair do armário nem sempre é possível nem desejável Teoricamente, eles têm razão — mas sair do armário nem sempre é possível nem mesmo desejável nos países onde a homossexualidade é estigmatizada, e onde a família continua a desenvolver um papel central na vida das pessoas. Também, não devemos esquecer que nos países industrializados um indivíduo é protegido por toda uma série de instituições como INPS, que não existe necessariamente em países menos desenvolvidos. Nos países do terceiro mundo, por exemplo, quando se fica doente ou se perde o seu emprego, o único recurso é a família — e não se pode arriscar perder esse apoio essencial. Ademais, as garantias civis e os recursos jurídicos que nos países industrializados protegem os homossexuais da discriminação não existem aí. Uma pessoa que sai do armário nesses países arrisca a perder a sua família, a sua posição na sociedade, o seu trabalho e até mesmo a sua residência. A questão de sair ou não da clandestinidade, portanto, não tem a mesma significação nem as mesmas implicações em todos os lugares; é preciso levar em consideração a situação real de cada indivíduo. Não se pode responder a isto de modo abstrato, mesmo que o ideal fosse que cada um pudesse viver sua orientação sexual abertamente. Em especial, cada um deve avaliar os custos e os benefícios reais de sua decisão. Essa dependerá, então, de seu contexto familiar, social, cultural e profissional. 60 Ver Marcy Adelman (1991). Stigma, gay lifestyles, and adjustment to aging: A study of later-life gay men and lesbians. Em John Alan Lee, éd. Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press, Inc., p. 7-31. 59 A comunicação na família Em geral, é mais fácil sair do armário em uma família onde as coisas são ditas abertamente, onde se pode falar da vida privada e dos sentimentos. Em contrapartida, se os membros da família não têm o costume de compartilhar sua vida afetiva, é provável que o homossexual será envolvido num jogo complicado de omissões e de meiasverdades: os seus irmãos lhe pedirão, por exemplo, para não falar nada a seus pais, pois “seria um golpe fatal para eles”. Ou então, a mãe o suplicará para nunca falar ao pai, pois “isso o mataria”. Então, longe de escapar à dissimulação, o homossexual será envolvido em um sistema de mentiras ainda mais doloroso e complicado e um conflito de lealdades difícil de resolver. É também mais fácil sair do armário quando se é um filho caçula e que se tem irmãos e irmãs casados que já asseguraram a descendência e estabeleceram, de algum modo, a “normalidade” da família. Nesse campo, como em muitos outros, tudo é mais complicado para um filho mais velho. Mas a situação mais difícil é, sem dúvida, a do filho único, que carrega todas as expectativas, ilusões e projetos de seus pais, e que representa para eles a única possibilidade de ter netos. As coisas são mais simples se o filho homossexual já deixou o lar e se for independente do ponto de vista econômico: isso lhe possibilita uma certa autonomia, mas ele será, em contrapartida, cada vez mais afastado das questões familiares. Acontece, muito freqüentemente, de fato, que a família de um homossexual “esqueça” de informá-lo a respeito de acontecimentos importantes, de convidá-los para reuniões de família, ou que ela pare de consultá-lo sobre assuntos que dizem respeito a todos. O contexto social e cultural é também um fator determinante. Em uma sociedade conservadora, é perfeitamente possível que a família rejeite totalmente a homossexualidade e que chegue até mesmo a deserdar um filho homossexual. E isso não é necessariamente uma questão de nível sociocultural: a aceitação da homossexualidade não parece conhecer barreiras de classe. As pessoas ricas e educadas não parecem mais tolerantes do que as pobres, e vice-versa. (Não há também variações na taxa de homossexualidade segundo a classe social, apesar de parecer que a travestilidade — o fato, para os homens, de se vestirem como mulheres — seja mais freqüente entre as classes populares, sobretudo nos países do terceiro mundo). Sair do armário: um processo familiar Os homossexuais tentam muitas vezes adivinhar como vão reagir seus pais por meio de seus comentários acerca da homossexualidade em geral. Acho que isso não serve para muita coisa: esses comentários (positivos ou negativos) não permitem necessariamente predizer qual será a sua atitude ao saberem que seu filho é homossexual. Conheci pais extremamente liberais nesse sentido que, entretanto, rejeitaram seu filho; e outros, conservadores, que o aceitaram imediatamente. As atitudes explícitas sobre a homossexualidade não indicam muita coisa quando se trata de seu próprio filho. Em contrapartida, as regras de comunicação no seio da família sejam explícitas, sejam implícitas, podem deixar prever como a notícia será recebida. Será possível falar disso? Os pais escutam seus filhos em geral, e esse filho em particular? Como a família enfrenta os problemas? Tende ela a negociar e procurar soluções, ou ao contrário, resolver as dificuldades de um modo autoritário? Prefere ela silenciar os assuntos delicados? É fechada ou aceita facilmente pessoas e idéias novas? E, enfim, quem toma as decisões? A meu ver, essas considerações que refletem o estilo de comunicação na 60 família são os indicadores mais confiáveis para adivinhar como essa reagirá frente à homossexualidade de uma criança. É preciso também levar em conta os valores culturais locais e não tentar modificar as regras do jogo. Assim, em certas sociedades, a homossexualidade é permitida na medida em que não é explicitamente declarada; em outras, somente se o homossexual se casa e tem filhos; e em outras ainda se ele respeita as aparências. Cada sociedade tem também suas regras do jogo no que concerne à autonomia dos filhos: em certos países, esses são livres para fazerem o que quiserem depois de ter saída da casa dos pais, e em outras permanece submisso à autoridade parental independentemente de onde vivem, casados ou não. Pode-se ou não concordar com essas regras e decidir se se vai ou não respeitá-las; mas não se pode esperar de uma família ou de uma identidade que reajam segundo um sistema de valores que não é o seu. Assim, não se pode esperar que uma família árabe, japonesa ou mexicana tenha uma atitude liberal como a família americana no que diz respeito à homossexualidade. A experiência dos gueis latino-americanos nos Estados Unidos é particularmente interessante no que diz respeito a isso. Nesse país, aprende a viver a sua homossexualidade segundo critérios “liberais”; saem do armário e assimilam-se à cultura guei americana de uma maneira que lhes pareça natural nesse contexto. Mas esse processo é totalmente incompreensível para a sua família e sua comunidade de origem. A idéia de adotar uma identidade guei (como pode fazê-lo um americano branco, de classe média e urbano), e, além do mais, ficar orgulhoso disso pode ser literalmente inconcebível para uma família de origem hispânica. Como diz uma psicóloga lésbica latino-americana que vive em Boston: “a gente brinca, às vezes, dizendo que saímos do armário em inglês, mas não em espanhol61”. Além dos valores culturais da sociedade, cada família tem a sua própria história oficial sobre o filho que não é casado: ou ele é muito tímido; ou muito estudioso, ou ligado à sua família, ou tem uma namorada escondida, ou ainda não encontrou a mulher que lhe convém. A moça vive com uma roommate (colega de quarto) para dividir os custos, ou está esperando um homem que a queira. É importante analisar essa versão oficial antes de sair do armário para procurar a melhor forma de apresentar as coisas à família — e para prever a sua reação. Muitas famílias aceitarão tacitamente a homossexualidade de um filho se sua história oficial for preservada e se elas puderem continuar contando a seus amigos e vizinhos que seu filho, por exemplo, tem uma namorada em uma outra cidade. É de fato provável que os pais manterão essa história oficial, mesmo que seu filho lhes conte que é homossexual. E guardarão a esperança de que se trata apenas de uma fase passageira. É também possível que não saibam nem um pouco como reagir. Os homossexuais esquecem às vezes que, ao sair do armário, confrontam a sua família exatamente com o mesmo dilema que acabam de atravessar: assim como eles, a família não sabe muito o que dizer, nem como, nem para quem; nem mesmo se deve falar disso, ou então esconder a coisa. Assim como o homossexual teve de lutar longamente com a dúvida, a vergonha e o medo antes de se abrir com seu pais, esses deverão decidir, por sua vez, o que farão em relação ao resto da família, dos amigos, dos vizinhos e da sociedade em geral. Portanto, o homossexual que sai da clandestinidade, nunca o faz sozinho: leva com ele, de fato, toda a sua família. Poderíamos dizer que ninguém sai sozinho do armário; não é um processo individual, mas, de fato, familiar. 61 Lourdes Rodríguez citada em Alisa Valdés (1998). Coming out in Spanish. Em The Boston Globe, 23 de julho. 61 Como fazer? É por todas essas razões que é importante planejar em detalhes como, onde e quando se vai anunciar à sua família que se é homossexual. Os especialistas recomendam fazê-lo progressivamente, passando das relações sociais às relações íntimas e do mais fácil ao mais difícil. Assim, é melhor falar primeiramente, com um amigo o qual se imagina que não terá muitos problemas com isso; depois, a um primo, um tio, uma tia, depois a um irmão e uma irmã, enfim, aos pais. Isso é preferível por várias razões. Em primeiro lugar, é melhor, no início, evitar confrontos que não serviriam para nada e que poderiam exacerbar o medo ou as dúvidas. Depois, é indispensável instalar uma rede de apoio sobre a qual se poderá contar, no caso de haver problemas: quando se aventura em terreno perigoso é melhor ter aliados desde o começo. Em terceiro lugar, o fato de sair progressivamente do armário permite reconhecer o terreno, ensaiar várias vezes a cena, e prever as reações que se encontrará. Nunca se deve precipitar: é preciso planejar a coisa estrategicamente, por etapas, e escolher o melhor momento para cada passo. Deve-se contar isso a seus pais? Eis aqui uma decisão difícil, que quase todos os homossexuais devem enfrentar em um momento ou em outro de sua vida. Afinal de contas, é provável que os pais recebam a notícia com tristeza ou cólera. No melhor dos casos, refletirão sobre isso e, após algum tempo (que pode se estender de várias semanas até vários anos), acabarão por se resignar com a idéia. É provavelmente exigir demais dos pais lhes pedir para aceitar plenamente a homossexualidade, isto é, como uma opção tão desejável como a heterossexualidade; e é preciso evitar expectativas pouco realistas. A finalidade na maioria dos casos, não é uma franca aceitação da homossexualidade, mas uma relativa continuidade na vida cotidiana: que as relações familiares não se vejam demasiadamente perturbadas, que o filho ainda faça parte da família, e que os pais possam um dia aceitar sua relação de casal como as de seus outros filhos. Segundo a fórmula memorável de Jean-Louis Bory, a melhor coisa que um homossexual pode querer, talvez seja, simplesmente, o direito à “indiferença62”. O tabu familiar Muitas famílias farão de tudo para abafar o caso, comportando-se exatamente como se o filho não tivesse dito nada. Ninguém falará disso. Ninguém lhe fará perguntas, e será como se o parceiro do filho não existisse: nunca será mencionado nem convidado para as reuniões. Como o descreve uma lésbica que declarou sua homossexualidade para a sua família há alguns anos: “é como se eu não tivesse uma vida de casal, enquanto nós vivemos juntas há anos. Eles me perguntam o que farei durante as férias, ou ainda o que eu fiz durante o fim de semana, mas sempre no singular. Convidam-me sozinha para as festas de aniversário, até mesmo a minha. E depois, perguntam-me, de vez em quando, se eu não encontrei um rapaz que me agrade.” Esse tipo de reação magoa profundamente o homossexual, pois invalida totalmente uma parte central de sua vida: sua relação de casal. Mas não é apenas o parceiro que é anulado: trata-se de uma negação pura e simples dos sentimentos, das necessidades afetivas, e da vida cotidiana e social do filho ou da filha homossexual. Essa atitude é, 62 Cf. Martel, p. 119. 62 contudo, bastante comum, e é preciso ver nela uma negação maciça de uma verdade inaceitável. Então, o homossexual entra em um novo dilema. Pode seguir o fluxo, respeitar o silêncio imposto e nunca mais levantar a lebre. Nesse caso, o assunto da homossexualidade tornar-se-á tabu, com toda uma constelação de temas associados: será proibido ao homossexual falar de sua relação de casal, de suas amizades, suas atividades sociais e até mesmo de seus projetos futuros. Mas esse silêncio não é neutro; ao contrário, muitas vezes é carregado de insinuações ou críticas implícitas que falam da homossexualidade, mas indiretamente. Por exemplo, se o filho desenvolve atividades, idéias, valores ou gostos diferentes dos de sua família, será por causa “dessas pessoas que você freqüenta”. Se fracassar em algum projeto, será por causa “desse estilo de vida que você leva”. Se tiver dificuldades de qualquer ordem, sua homossexualidade será implicitamente a culpada. É evidente que essas atitudes não invalidam somente a experiência afetiva, social e profissional do filho homossexual: serve também para infantilizá-lo. O homossexual não é considerado um adulto que possa ter gostos, valores, projetos, modos de viver ou de pensar próprios: não tem opinião independente, mas está à mercê de “influências” mais ou menos nefastas. (Os heterossexuais reconhecerão facilmente este discurso, que escutam quando têm a infelicidade de se casar com alguém que não é aceito pela sua família). Em uma palavra, o filho homossexual é tratado como se fosse apenas uma criança. O fato de permanecer solteiro só reforça essa percepção: aos olhos de sua família o filho homossexual nunca atinge a maioridade. Dada essa dinâmica, é fácil entender porque tantos estudiosos notaram uma certa “imaturidade” no homossexual em suas relações familiares. Isso pode ser verdadeiro, claro; mas cada lado tem uma parte de responsabilidade. Se muitos homossexuais não atingem certas etapas do desenvolvimento, é também verdadeiro que suas famílias os tratem muitas vezes como crianças. Tudo isso deriva de uma homossexualidade conhecida, mas não reconhecida, da qual se sabe que existe sem nunca dela falar. O tabu familiar implica em muito mais do que em um simples silêncio. Como qualquer tabu, engloba uma série de interditos e elimina do mapa afetivo, continentes inteiros da experiência pessoal. Muitos homossexuais que sofrem dessa invalidação perpétua sem nada poder fazer a respeito acabam por se afastar de sua família: não percebem de sua parte nenhum interesse, nenhuma compreensão, e finalmente muito pouco amor. Alguns deles resolvem lutar contra o tabu, exigindo de sua família que ela respeite sua orientação — ou que, pelo menos, aceite falar dela. Esse caminho pode levar a uma série de reclamações e ao ressentimento dos dois lados, até que alguém ceda — mais provavelmente o filho do que os pais. No final das contas, esses últimos não têm que se esforçar para perpetuar o silêncio: só têm que continuar a se calar. É muito mais arriscado e difícil tomar a iniciativa de romper o silêncio do que permanecer nele confortavelmente instalado. Ademais, é fácil para os pais dizer que na sua idade não podem mais mudar seu modo de pensar — como se as pessoas de idade fossem incapazes de assimilar idéias ou experiências novas. O filho que tenta transgredir o tabu estará, portanto, sempre em uma posição de fraqueza e deverá se perguntar, após algumas tentativas, se vale à pena insistir nisso. Se o homossexual permanece muito ligado à sua família, acha insuportável a falta de aceitação e continuará a procurar, interminavelmente, uma aprovação que talvez nunca a terá. Poderá até mesmo, nesse caso, tornar-se um filho modelo em outros campos, esforçando-se de qualquer modo para ser atento e generoso com sua família. O estereótipo do homossexual como um “mau filho” não corresponde necessariamente à 63 realidade, mas antes, ao grande melodrama da homossexualidade tal qual é vivido por muitas famílias. O filho insistirá em procurar a aprovação familiar, sobretudo se sempre teve medo de ser rejeitado por seus pais — o que é freqüentemente o caso para os meninos “efeminados” com pais distantes ou que o desprezam. Mas, mesmo em geral, se teve pais pouco afetuosos ou reprovadores que não lhe deram o amor incondicional tão necessário às crianças, sempre procurará sua aceitação. O problema, nesse caso, não é a homossexualidade, que só é um pretexto a mais para criticar o filho; o verdadeiro problema é a relação entre os pais e seu filho, e falta de autonomia desse último. Nesse tipo de situação, é indispensável que o homossexual inicie uma psicoterapia para que ele possa, enfim, se separar de seus pais, afetivamente falando, e consolidar uma identidade e uma auto-estima próprias. O tabu familiar é uma reação bastante comum diante da homossexualidade de uma criança. Mas podem existir outras mais extremas. Ainda acontece, em muitos países, que o filho homossexual seja deserdado e banido da família para sempre. Se for adolescente, seus pais podem ameaçar, punir, ou submetê-lo a um tratamento psiquiátrico, ou mudá-lo de escola e até mesmo de cidade para afastá-lo das “más companhias”. Isso significa que o jovem homossexual que se abre para os seus pais corre riscos reais; nem sempre é uma boa idéia, mesmo que sinta a necessidade disso. Em certos casos, o fato de se declarar homossexual, longe de ser um ato libertador, pode ser uma forma de autopunição — uma maneira inconsciente de se fazer rejeitar mais uma vez. Eis a razão pela qual é essencial examinar a fundo suas razões, suas expectativas e seus objetivos antes de tomar uma decisão a esse respeito. O preço da mentira Diante desses riscos, muitos homossexuais escolhem nunca se abrirem para seus pais. As conseqüências podem ir do cômico até o trágico. Certos homossexuais fazem de conta que vivem sós enquanto vivem em casal há anos: tem dois números de telefone e o parceiro sai quando os pais vêm visitar seu filho. Certos homossexuais inventam-se relações heterossexuais, aparecem regularmente com uma mulher a tira-colo, e se criam uma reputação de grandes sedutores. Há também, claro, muitos homossexuais que se casam e têm filhos para manter o mito de sua heterossexualidade frente aos outros e a eles. Em todos esses casos, os homossexuais se condenam a uma vida de falsificação, a um sistema de mentiras que será cada vez mais difícil de se sustentar. Aqueles que não se casam e levam uma vida “heterossexual” acharam que a fachada se torna cada vez mais frágil com a idade: é fácil para uma pessoa jovem, homem ou mulher, levar uma vida social de solteiro. Isso se torna cada vez mais difícil em torno dos quarenta anos e, quando se chega aos cinqüenta, isso parece totalmente anormal aos olhos da sociedade. É fácil evitar as perguntas ou os boatos quando se é jovem; mas depois dos quarenta, quando todos os outros já casaram e tiveram filhos, o mito da heterossexualidade tornase mais difícil de se manter. A mentira tende a se complicar com o tempo e não a se simplificar. No que concerne aos homossexuais que se casam, é evidente que eles se expõem a muitas infelicidades. Inúmeros homossexuais fazem isso não para dissimular sua verdadeira orientação, mas para mudá-la: esperando que o casamento os “cure” de seus desejos inaceitáveis. Mas isso quase nunca acontece, e acabam caindo em uma assexualidade mais ou menos frustrada, ou acabam procurando aventuras clandestinas 64 com todos os riscos que isso implica. E encontram-se envolvidos, de qualquer modo, em uma rede de mentiras. Quando o homossexual pergunta a si mesmo se deve ou não sair do armário, deve avaliar o que isso lhe custará em fazê-lo ou não. Geralmente pensa-se na primeira pergunta, e não na segunda. Ora, o fato de esconder indefinidamente sua orientação sexual também tem um preço muito elevado. É importante se lembrar que a mentira não é estática: tem tendência em aumentar, em extensão e em profundidade, e acaba por invadir todos os campos da vida e se infiltrar em todas as relações pessoais. Só por essa razão já seria melhor viver fora do armário do que permanecer fechado nele, na medida do possível. Os riscos reais e o custo da mentira são os dois critérios mais importantes para serem considerados quando um homossexual se pergunta se deve ou não falar com sua família. Se o fato de continuar na clandestinidade vai o engajar em uma rede de mentiras indefinida, talvez valesse à pena correr o risco. Mas se o homossexual não precisar mentir demais porque vive longe de sua família ou que sua opinião lhe é indiferente, é possível que o risco não compense. Pode também, claro, existir reações mais positivas. Em meios relativamente liberais, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, a homossexualidade é hoje mais aceitável. Após um tempo de reflexão, os pais se dão conta que não vão poder mudar a orientação sexual de seu filho, e decidem aceita-la. Podem ver, graças a um número crescente de celebridades gueis, que existem muitos homossexuais felizes e prósperos. Podem ler obras recentes sobre a homossexualidade e observar que esta não é mais considerada uma doença, ou um crime, nem uma coisa vergonhosa. Compreenderão igualmente que não são responsáveis pela orientação sexual de seus filhos. Essa visão menos carregada de culpabilidade e de preconceitos poderá os levar a concluir que a melhor coisa para se fazer, é amar seu filho ou sua filha e tentar facilitar-lhe as coisas. Aliás, isso não é tão difícil: bastará convidar o parceiro de vez em quando, perguntar sobre ele, ou pelo menos se referir a ele como uma presença real na vida de seu filho. A maioria dos homossexuais, parece-me, só querem um mínimo de cortesia para se sentir aceitos pelas suas famílias. Nos Estados Unidos, sobretudo, a liberação guei teve tanta influência que todo esse cenário é perfeitamente possível. Em outros países ele é menos e talvez nunca o seja. Mesmo nesses países, é importante, contudo, que os homossexuais saibam que existem outras maneiras de viver e de assumir a homossexualidade. A culpabilidade nos pais O que acontece em uma família quando um dos filhos anuncia que é homossexual? Evoca-se freqüentemente o sentimento de culpabilidade que os pais podem sentir. Essa idéia é muito exagerada, e deriva em grande parte da visão melodramática da homossexualidade que predomina na cultura popular. A imagem da mãe horrorizada que se lamenta, que se esvai em lágrimas: “mas o que eu fiz?”, é uma cena clássica na grande tragédia da homossexualidade — mas tem, acho eu, muito pouco a ver com a realidade. No fundo, os pais não se sentem realmente responsáveis pela orientação sexual de seus filhos — mas temem, talvez, que as pessoas pensem isso. Então, representam perfeitamente diante de amigos, médicos e padres. Na verdade, é muito mais comum que os pais acusem as “más companhias” de terem corrompido seu filho. Longe de se criticar, geralmente é pela culpa dos outros que perderam seu filho ou sua filha. A sensação de perda é real, mas não necessariamente a culpabilidade. Claro, um terapeuta que trabalha com pais de homossexuais deve explorar com eles esse tema, e lhes explicar que a homossexualidade não é “culpa” de ninguém. Mas valorizar demais 65 uma suposta culpabilidade pode desviar a atenção de problemas mais imediatos (e importantes), como decidir qual a atitude eles irão adotar em relação a seu filho. Isso pode também aumentar a culpabilidade sentida pelo filho, que vê seus pais se mortificarem por causa dele — o que, no fim das contas, não serve para ninguém. Por outro lado, não esqueçamos que o discurso da culpabilidade, de onde vier, é sempre uma forma de manipulação. Em contrapartida, é essencial examinar com os pais os seus sentimentos de perda. Não é que esteja perdendo seu filho, claro; mas devem renunciar, subitamente, a toda uma série de projetos e ilusões aos quais se apegaram e cultivaram durante longos anos. É natural que eles passem por uma etapa de luto semelhante à do filho quando esse tomou consciência de sua homossexualidade. E esse processo compreenderá, da mesma forma, elementos de negação, de ira, de depressão, de culpabilidade… até eles chegarem, se tudo acontecer bem, à aceitação. Parece-me que a relação entre os pais e seus filhos homossexuais seria menos sofrida se eles pudessem dividir esse luto, que no fim das contas, é real para os dois lados. Promover esse diálogo, na medida do possível, é uma tarefa importante para o terapeuta. Mas, em todo o caso, é indispensável que o filho entenda o luto de seus pais, e que lhes dê o tempo de aceitar uma realidade que lhe causou, para ele também, problemas, dúvidas e confusão durante muito tempo. O papel do homossexual na família O homossexual declarado ocupa um lugar muito específico em sua família de origem. Como observamos acima, em muitos casos, tentará recuperar o amor ou a aprovação de seus pais tornando-se um “filho modelo” em outros campos. Esse fenômeno será exacerbado se o homossexual viver em um país do terceiro mundo onde os filhos só se tornam realmente independentes no momento de seu casamento. Em geral, o filho homossexual é o único que não se casa. Isso significa que nunca perderá seu estatuto de filho; nunca se tornará esposo nem pai, e, portanto, não acederá ao estatuto de adulto em que isso implicaria. De algum modo, permanecerá para sempre um filho. Isso, claro, não se limita aos homossexuais; em muitas famílias, os filhos solteiros têm que permanecer ao lado de seus pais e sempre estarem à disposição da família. É o caso da tradicional “solteirona”, eternamente disponível, que deve estar pronta para cuidar de seus pais em sua velhice, e de seus sobrinhos quando precisam. Mas essa situação ainda é mais difícil para os homossexuais justamente porque, na verdade, não são solteiros, mesmo que seus pais os considerem como tais. Têm na maioria das vezes, relações de casal e uma vida social importante; e não são mais livres ou disponíveis do que seus irmãos e irmãs casados. O estatuto exato do homossexual freqüentemente é objeto de conflitos e malentendidos. Os outros membros da família esperam dele que venham os ver, ou que os ajude economicamente: “Já que você é solteiro e não tem obrigações”. Então, ele se sente obrigado a ceder e, se não ceder, se sente culpado. Tudo isso pode causar sérios problemas para o homossexual em sua relação com sua família, e claro, com seu parceiro. Sua relação de casal pode ser seriamente afetada pela sua ligação com sua família de origem, pelas expectativas dessa. Por outro lado, toda essa situação mantém o homossexual em um papel familiar mais ou menos infantil, que pode inibir sua capacidade de autonomia e seu desenvolvimento pessoal. O outro armário: a orientação sexual do terapeuta O profissional da saúde mental que trabalha com homossexuais, deve, em algum momento, examinar a sua própria orientação, qualquer que seja. O fato de ser 66 heterossexual, frente a essa população, é problemático — mas o fato de ser homossexual também. Se o terapeuta é heterossexual, exceto se tiver uma fé cega em sua própria sabedoria, ser-lhe-á necessário enfrentar seus preconceitos e, freqüentemente, sua ignorância e, se for homossexual, deverá decidir se deve ou não comunicar sua orientação e sua experiência pessoal a seus pacientes. Muitos terapeutas, sobretudo se forem jovens, dirão que não têm nenhum preconceito em relação à homossexualidade. Isso não é verdade. Dizer: “Eu vejo o homossexual exatamente como qualquer um”, constitui uma postura falaciosa, mesmo que a intenção seja boa. Por um lado, ninguém tem uma atitude neutra em relação à homossexualidade: se se é homossexual, se é afetado pelo assunto porque se é homossexual; e se se é heterossexual, porque se é heterossexual. Por outro lado, os homossexuais não são “como qualquer um”. A identidade homossexual tem traços específicos que podemos achar bons ou ruins, mas que são sempre presentes. Quando as pessoas afirmam que não têm preconceitos, muitas vezes querem dizer que não têm preconceitos negativos; mas até mesmo aqueles que parecem positivos (por exemplo, “são pessoas totalmente normais”), contém toda uma série de pressuposições. Entre outras, implicam muitas vezes uma visão normativa da maneira que se deve conduzir uma pessoa ou um casal “normal” — isto é, que é heterossexual. Por definição, estejamos ou não contentes com isso, a “normalidade”, na sociedade atual é a heterossexualidade; e considerar o homossexual como “normal”, portanto, é assimilá-lo a modelos heterossexuais que não lhe são necessariamente aplicáveis. Quando dissemos que uma relação entre duas mulheres parece com um casamento, nós a reduzimos e a simplificamos, tirando-lhe os atributos específicos que examinaremos no capítulo 7. Claro, muitos homossexuais gostariam, acima de tudo, de serem considerados como “normais” — e são precisamente aqueles que não aceitam totalmente sua orientação sexual. Seguir o fluxo e se apropriar da idéia de que os homossexuais são “como qualquer um” podem até mesmo levá-los a pensar que eles devam estar muito mal — porque no fundo não se sentem “como todo mundo”, mas diferentes. Insistir sobre o fato que eles são iguais invalida a consciência deles mesmos. O objetivo terapêutico, não é, portanto, fazem com que se sintam “normais”, mas que assumam e apreciem sua diferença. Será que é preciso ser homossexual para trabalhar com homossexuais? Os profissionais da Saúde Mental — os psicólogos, os psiquiatras, os psicanalistas, etc. —, que trabalham com homossexuais deveriam eles próprios ser homossexuais? Isso pode parecer uma questão retórica, mas os teóricos da homossexualidade continuam a se questionar. Portanto, vale a pena examiná-la de perto. As pesquisas a esse respeito nos Estados Unidos revelam que, na sua vasta maioria, os homossexuais preferem que seu terapeuta seja homossexual. Por quê? Em primeiro lugar, porque não é necessário dar ao terapeuta homossexual lições sobre o meio guei, nem sobre as práticas sexuais gueis, nem sobre os preconceitos que os homossexuais encontram no dia-a-dia. Há, portanto, um elemento de eficiência: ninguém gosta de gastar tempo em sua consulta para explicar ao terapeuta coisas que ele deveria saber. Nesse sentido, a população homossexual têm os mesmos direitos que qualquer população específica. Assim, os alcoólatras têm o direito de se tratar com pessoas que conhecem a fundo sua problemática. Mas isso não se aplica apenas às populações doentes: as pessoas de idade devem poder consultar profissionais que conhecem os 67 problemas (e os recursos) específicos da terceira idade. E ninguém duvida que é preciso levar as crianças em psicólogos ou psiquiatras que sejam especializados na infância. Isso ainda é mais verdadeiro quando se trata de populações minoritárias que foram, historicamente, objetos de preconceitos, ódio, discriminação, ou perseguição. A questão que se coloca, pois, é esta: será que é preferível que um terapeuta que trabalha com judeus seja ele mesmo judeu? E a resposta seria: sim, se o seu judaísmo fosse um problema ou um tema central para a pessoa que consulta. Não se o seu judaísmo nunca foi um problema para ele ou deixa-o totalmente indiferente. Do mesmo modo, seria preferível que um terapeuta que trabalha com negros seja ele mesmo negro. Sim, se o fato de ser negro for um tema importante na vida da pessoa. Portanto, é preferível que o terapeuta que trabalha com homossexuais seja homossexual? Sim, se a homossexualidade for para o indivíduo que consulta uma parte essencial de sua identidade pessoal. Ora, no estado atual das coisas, para a grande maioria dos homossexuais sua orientação é, de fato, uma parte central de sua vida. Não é à toa que os homossexuais falam tanto, entre eles, de sua experiência enquanto homossexuais: quando e como se deram conta disso, como foi sua primeira relação, como saíram do armário, como suas famílias reagiram, como é a sua relação de casal. São temas recorrentes nas reuniões sociais dos gueis; e não é porque os homossexuais são mais obcecados do que qualquer outro, mas porque esses temas continuam a ser atuais e importantes até mesmo para aqueles que assumem plenamente sua orientação sexual. Em segundo lugar, é difícil para um homossexual ter uma confiança plena em um terapeuta heterossexual (mesmo que não conheça com certeza sua orientação sexual, tenderá a considerá-lo heterossexual até que prove o contrário, simplesmente porque é sabido que há muitos poucos terapeutas gueis.) E os homossexuais conhecem perfeitamente os preconceitos que podem ter um psiquiatra, um psicanalista ou um psicólogo heterossexual. Portanto, serão atentos a cada reação do terapeuta, tentarão constantemente adivinhar a opinião que ele tem deles, e procurarão, claro, “inocentar-se” o máximo possível, em uma busca da aceitação mais uma vez. Terão, neste caso, uma certa reticência em falar de suas práticas sexuais, dos detalhes de sua vida de casal, ou de seus próprios medos, ou dúvidas a respeito da homossexualidade. É possível que, algumas vezes, sintam vergonha, insegurança, ou simplesmente desconfiança. Nenhum desses elementos contribui para uma boa relação terapêutica. Um problema freqüente dos homossexuais em tratamento com heterossexuais, é que esses não compreendem, ou não valorizam seus sentimentos. Uma lésbica conta: “Eu tinha uma relação de casal há muitos anos, e estava em psicoterapia há quase dois anos. Eu gostava da minha terapeuta, era muito aberta e eu pensava que ela não tinha problema com a homossexualidade. Mas um dia, ela me falou, a respeito de minha amiga: ‘Bem, o que eu estou entendendo, é que vocês são boas amigas e que às vezes têm relações sexuais.’ Eu fiquei em estado de choque, de repente me dei conta que ela não tinha entendido nada durante os dois anos anteriores”. Podemos observar aqui um fenômeno bastante comum, que é a desqualificação do amor entre os homossexuais: o que eles estão vivendo não é amor, mas uma combinação mais ou menos superficial, mais ou menos satisfatória, de sexo e de amizade. Assim, quando o homossexual diz que está apaixonado, o terapeuta entende dependência ou exageração neurótica. Talvez pudéssemos falar de uma pretensão ao monopólio do amor por parte dos heterossexuais, no qual a única ligação autêntica é aquela que existe entre um homem e uma mulher: o que podem sentir duas pessoas do mesmo sexo é apenas um pálido reflexo do verdadeiro amor. 68 Um outro problema bastante freqüente, embora menos aparente para os homossexuais em terapia com heterossexuais, é que esses têm intenções de conversão mais ou menos conscientes — isto é, a de mudar a orientação sexual de seu paciente. Isso não é necessariamente verbalizado, nem explicitado, mas aparece antes como uma série de convicções sobre a homossexualidade em geral ou sobre a pessoa em particular. Como descreve a lésbica citada acima: “Minha psicóloga não pensava que eu fosse realmente homossexual. Um dia, depois de dois anos de terapia, ela me disse que, se pelo menos tivesse recebido um tratamento apropriado durante a minha adolescência, eu não seria lésbica. Eu me senti muito mal, totalmente incompreendida, e resolvi, a partir desse dia, não mais lhe falar nem de minha relação de casal, nem da minha homossexualidade. Trabalhamos outras cosias, de modo muito produtivo, mas nunca mais falei com ela desses assuntos.” Essa mulher foi depois em tratamento com uma psicanalista heterossexual mais aberta. Ela conta: “Era muito liberal, não tinha nenhum problema com a homossexualidade. Mas pensava que era uma preferência, que se podia escolher sua orientação. Eu tentava lhe explicar que não a vivia nem um pouco como uma escolha, mas como uma parte de mim mesmo. Passamos horas a fio a debater sobre isso, e, enfim, chegamos a um acordo: eu era lésbica por natureza, mas eu podia escolher meu modo de vivê-la. Era também muito importante para ela procurar as causas de minha homossexualidade — coisa que não me interessava em especial. O principal para mim era viver melhor, e ela finalmente concordou em abandonar essa questão das causas. E depois eu acho que um terapeuta homossexual teria entendido melhor os problemas que tive com minha identidade, minha família e a sociedade, a respeito da homossexualidade”. Vemos que esses “erros de leitura” e esses preconceitos teóricos acrescentados a uma certa ignorância bem intencionada, podem ter grandes conseqüências para o homossexual que está em tratamento com um heterossexual. Aos poucos, o paciente perde confiança e espontaneidade; para de falar das coisas que lhes são de fato importantes; começa a calar seus sentimentos reais e, em casos extremos podem até mesmo chegar a duvidar deles. É evidente que nada disso deveria acontecer em uma psicoterapia bem manejada, qualquer que seja a orientação sexual do terapeuta. Mas muitos homossexuais contam que tiveram esse tipo de dificuldade. É provável, contudo, que o problema não resida na heterossexualidade dos terapeutas, mas em uma simples falta de conhecimentos. Na maioria dos países (com a notável exceção dos Estados Unidos, graças aos esforços incansáveis de um grupo de psicanalistas e de psicólogos que trabalham nisso há vinte anos), aprende-se muito pouco sobre a homossexualidade nos institutos de formação em psicanálise, terapia de casal e de família, etc. E, muito freqüentemente, se o tema é abordado mais profundamente, é de modo muito breve e no quadro da psicopatologia ou das perversões sexuais, em paralelo com os temas como o travestismo, o fetichismo ou a pedofilia. Podemos pensar que isso mudará aos poucos; mas, por enquanto, na maioria dos países, o ensino sobre a homossexualidade é insuficiente e pouco útil em um contexto de tratamento. Em conclusão, penso que é preferível no estado atual das coisas, que os terapeutas que trabalham com homossexuais sejam da mesma orientação sexual. Essa opinião (com certeza para ser debatida) vai ao encontro de duas grandes tradições da psicoterapia. A primeira deriva de uma visão patológica da homossexualidade e afirma que o terapeuta homossexual é, por definição, alguém que sofre de uma desordem mental grave. Ora, uma pessoa doente não deve tratar outros doentes: exatamente como 69 o terapeuta que trabalha com psicóticos não deve ser ele próprio psicótico, aquele que trabalha com homossexuais não deve ser homossexual. É, nessa lógica que muitos institutos de formação em psicanálise continuam a recusar a admissão aos candidatos homossexuais. Como dizia há alguns anos uma psicanalista mexicana, membro da Associação Internacional de Psicanálise: “Não pode haver psicanalista homossexual — isso não existe. Por definição, qualquer candidato admitido à formação é uma pessoa essencialmente sã”. Esse tipo de atitude não é mais, claro, tão comum atualmente — pelo menos explicitamente. Não é mais a norma em todos os países, nem em todos os institutos. Por exemplo, a American Psychiatry Association resolveu em 1991 não mais discriminar os candidatos à admissão levando-se em conta a sua orientação sexual. Mas a evolução neste campo é muito lenta. Uma outra tradição muito generalizada nas profissões da saúde mental, é que não é necessário que um terapeuta conheça em sua própria pessoa, a problemática de seus pacientes. Esse ponto de vista deriva em grande parte do modelo médico, no qual ele é perfeitamente lógico: de fato, não é necessário que um médico sofra, ou tenha sofrido, de uma úlcera para poder tratar um paciente com úlcera. Essa idéia se estendeu no campo da saúde mental, na qual ela, talvez, não seja mais tão aplicável. Nessa ótica, um psicólogo não precisa ser “idoso” para trabalhar com a terceira idade, nem ser divorciado para tratar de divorciados, nem ter filhos para trabalhar com mães de família. Poderíamos contestar que talvez isso não seja necessário… mas desejável em certos campos, como o da homossexualidade. A questão não é tanto o fato de que a população homossexual apresenta traços ou problemas específicos (embora isso seja em parte verdadeiro), mas que até o momento muito pouco desse assunto foi estudado e ensinado. A experiência pessoal, portanto, é indispensável para compensar as lacunas no conhecimento. Vamos torcer para que os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas sejam um dia melhor preparados; assim, não será mais necessário eles serem homossexuais para ajudar essa população específica. Os terapeutas gueis devem revelar sua orientação? Isso não significa que os terapeutas homossexuais não tenham problemas para tratar os homossexuais. Deparam-se também com uma série de dificuldades que merecem reflexão. Em primeiro lugar, é desejável que um terapeuta guei se revele como tal? Essa pergunta contém uma outra, que examinaremos a seguir: um terapeuta homossexual pode, ou deve, viver na clandestinidade? Pessoalmente, penso que não. Para ajudar seus pacientes homossexuais, o terapeuta homossexual deve se assumir plenamente. Se em sua vida pessoal ainda tem medo ou vergonha, poderá dificilmente levar seus pacientes a ter uma aceitação positiva de sua orientação sexual. Ele deve também conhecer, em sua própria pessoa, o custo e os benefícios da identidade homossexual e, acima de tudo, ter desenvolvido nele próprio uma certa coerência interna. A coincidência entre aquilo que se pensa, que se sente, que se diz e que se faz — poder dizer aquilo que se pensa e aquilo que se sente, e agir em decorrência disso — assim como a honestidade, são atributos essenciais em qualquer terapeuta, qualquer que seja sua orientação sexual ou sua abordagem teórica. Não que um terapeuta deva encarnar a sabedoria, mas a integridade e a honestidade são indispensáveis em uma boa relação terapêutica. E essa relação está no cerne de qualquer tratamento psicológico. Um psiquiatra ou um psicólogo pode ter todos os defeitos próprios do gênero humano; só é preciso que seja íntegro e honesto para fazer bem o seu trabalho. Isso não significa, claro, que deva comunicar a seus pacientes 70 sua vida privada; mas se ele se respeita, dificilmente poderá manter escondida sua verdadeira identidade. Isso implica em alguns problemas. Em primeiro lugar, o terapeuta guei que está fora do armário será visto com uma certa desconfiança por seus colegas e pelas associações profissionais. Esses tenderão a considerá-lo neurótico, provocador, ou agressivo se ele for “abertamente” guei, e talvez pensem que ele esteja em uma situação delicada para tratar ao mesmo tempo os pacientes homossexuais (porque ele o é) e os heterossexuais (porque ele não o é). Será preciso também que o terapeuta tome muito cuidado com suas relações sociais. Pode ter dificuldades se freqüenta lugares ou participe de reuniões nas quais corre o risco de encontrar pacientes. Esse dilema, importante nas sociedades onde a população guei é muito reduzida, existe também nas comunidades maiores. Terapeutas gueis em cidades como Nova Iorque e São Francisco escreveram a respeito desse problema que suas relações sociais (ou sexuais) lhes colocam no interior de sua própria comunidade, onde podem, a qualquer momento, darem de cara com pessoas que foram, são, ou serão um dia seus pacientes. O dilema então se coloca desse modo: o terapeuta pode evitar a vida social guei (e sofrer o isolamento que isso implica), ou então correr o risco de expor sua vida privada a pessoas com quem ele deve, contudo, manter relações estritamente profissionais. Isso não representa apenas um problema para o terapeuta, claro, mas também para seus pacientes: ninguém gosta de socializar-se com o seu terapeuta e de se sentir observado por ele. Essas dificuldades, muito mais raras no meio heterossexual, dada a sua vastidão de opções de socialização, ainda não foram resolvidas de uma maneira satisfatória pelos especialistas no assunto. Cada terapeuta deve, portanto, resolver esse dilema segundo seus próprios critérios e segundo as circunstâncias. Ajudar melhor os seus pacientes homossexuais Supondo, portanto, que o terapeuta homossexual saiu do armário, voltamos para a nossa questão inicial: é desejável que um terapeuta homossexual se revele como tal? A resposta rápida é que não poderá evitá-lo. O terapeuta guei que trata de homossexuais será conhecido e recomendado como tal. Contudo, existem alguns que recusam revelar sua orientação sexual a seus pacientes — e isso provavelmente em nome da neutralidade terapêutica que lhes foi inculcada ao longo de sua formação. Mas pode, aqui também, surgir problemas que não foram previstos pelos seus mestres. Acho que os terapeutas que dissimulam sua orientação para manter a neutralidade, tão necessária em outras situações, estão perdendo uma chance de ajudar melhor seus pacientes homossexuais. Primeiramente, o homossexual que procura uma ajuda psicológica necessita de um interlocutor que ele perceba como válido, que o escute e que lhe fale em seus próprios termos — e ele tem direito a isso. Um dos principais problemas dos homossexuais, é que lhes faltaram interlocutores dos quais eles respeitem a opinião, e que os entendam com empatia e compreensão. O terapeuta pode ter um papel reparador extremamente importante ao lhes oferecer a escuta, plenamente assumida e respeitosa de alguém que conhece sua condição. É crucial que esses pacientes saibam que aí existe uma experiência comum, mesmo que a história ou as circunstâncias pessoais sejam diferentes. Em segundo lugar, é essencial para os homossexuais vencer a vergonha: e o paciente sabe, se estiver em tratamento com um terapeuta guei, que esse passou também pelas dúvidas e medos da adolescência, venceu as dificuldades da clandestinidade, e viveu as vicissitudes do casal homossexual. Isso lhe facilitará a tarefa 71 para falar de sua própria experiência, sem sentir a necessidade de se “desculpabilizar” ou de se justificar. O fato de viver publicamente sua orientação traz, contudo, certos riscos para o terapeuta. À parte os problemas profissionais já mencionados, ele corre o risco de se tornar um objeto de conquista para seus próprios pacientes. Na medida em que o terapeuta é percebido como uma pessoa equilibrada e positiva (mesmo que na verdade não o seja), e de uma certa forma como uma figura de autoridade, pode muito facilmente tornar-se para seus pacientes um objeto de admiração, de disputa, e, claro, de sedução — elementos que afetarão a relação e o trabalho terapêutico. Os psicanalistas que conhecem bem os riscos da transferência, são mais bem equipados para enfrentar esse tipo de situação — mas ela é ainda mais complicada quando se trata de um paciente homossexual e de um terapeuta de um mesmo sexo. Infelizmente, existe entre os homossexuais uma tal necessidade de modelos positivos, que o terapeuta guei pode se ver preso em dinâmicas de sedução muito mais delicadas do que aquelas que se apresentam habitualmente com os heterossexuais. Finalmente, o terapeuta guei tem a obrigação de se manter informado no vasto campo das pesquisas sobre a homossexualidade — tarefa difícil porque se trata de um campo relativamente novo, e porque poucas obras especializadas são traduzidas. Todo ano aparecem novas teorias e explicações da homossexualidade que, verdadeiras ou falsas, merecem um exame aprofundado. Todo ano sabe-se mais sobre o ciclo vital dos homossexuais e sobre os problemas específicos que os afetam (inclusive, claro, a AIDS no caso dos homens). O terapeuta deve também se manter continuamente atualizado sobre as tendências sociais e culturais que dizem respeito aos homossexuais e a legislação sobre o assunto que evoluem muito rapidamente em inúmeros países. Finalmente, parece-me que o terapeuta que trabalha com homossexuais deve examinar cuidadosamente todos os seus preconceitos, suas pressuposições, e suas verdadeiras intenções em relação a seus pacientes. Caso ele seja homossexual, deverá também se manter informado sobre as pesquisas atuais e os fenômenos sociais e culturais que afetam essa população. Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico O trabalho com o adolescente homossexual Um estudo dirigido pelo Institute for the Protection of Lesbian and Gay Youth (Instituto para a Proteção das Jovens Lésbicas e Gueis) na cidade de Nova Iorque concluiu em 1987, que o principal problema para essa população é o isolamento, e enumerou três tipos: o isolamento social (os jovens homossexuais sentem que não podem falar com ninguém); emocional (sentem-se afetivamente separados de sua família e de seu contexto social); e cognitivo (eles têm pouco acesso a uma informação confiável sobre a homossexualidade e lhes faltam modelos63). O segundo problema mais comum é o medo de ser rejeitado pelos pais. O terceiro é a incidência, extremamente elevada, de condutas autodestrutivas que vão, desde o abuso de álcool ou de outras drogas até as tentativas de suicídio. O terapeuta que trabalha com essa população deve, portanto, ficar particularmente atento a esses riscos. Em especial, sempre deve verificar se não há problema de alcoolismo ou toxicomania. 63 E. S. Hetrick e A. D. Martin (1987). Developmental issues and their resolution for gay and lesbian adolescents. Em Journal of homosexuality, 14 (1/2), 25-43. Citado em Kristine L. Falco (1991). Psychotherapy with lesbian clients. New York, Brunner/Mazel, Inc., p. 155. 72 Exercícios para ajudar o jovem homossexual a sair do armário O terapeuta pode ajudar o jovem homossexual a: – Imaginar uma grande variedade de conseqüências possíveis caso ele saia do armário. O que poderia acontecer de pior? E de melhor? E de mais provável? É útil projetar todas essas opções no futuro: em dois, cinco, dez anos… E caso continue a se esconder, como o jovem homossexual imagina a sua situação familiar em dois, cinco, dez anos…? – Se o jovem homossexual resolver não sair do armário, ajudá-lo a imaginar as implicações e as ramificações da mentira: quais formas ela irá tomar no futuro, e o que ele deverá fazer para mantê-la? E o que significaria dizer a verdade? Quais são as verdades mais importantes que o jovem homossexual gostaria de revelar sobre ele mesmo? Qual imagem ele procura projetar? Por quê? – Explorar maneiras ou modos de limitar as conseqüências da saída do armário; planificar o processo passo a passo, fazendo repetições detalhadas. – Construir uma rede de apoios: ajudar o rapaz ou a moça a detectar e a se aproximar dos amigos ou parentes que poderiam apoiá-lo ou apoiá-la em caso de problemas com seu pai ou sua mãe. – Visualizar um futuro ideal enquanto homossexual. Qual imagem tem o paciente do homossexual feliz? Qual aparência ele tem, como se veste, que tipos de relações tem, como vive? Se o paciente se tornar um homossexual feliz, como será ele em dois, cinco, dez anos? Exercícios para promover uma identidade guei positiva – Identificar os estereótipos: explorar com o paciente tudo aquilo que ele sabe sobre a homossexualidade, desde a sua infância. Será que ele pensa que um homossexual pode ser equilibrado e feliz? Por que sim, por que não? Será que ele pensa que relações entre pessoas do mesmo sexo podem ser equilibradas e duráveis? Por que sim, por que não? E o que ele gostaria de pensar sobre isso? – Começar a desenvolver o conceito de papel em oposição ao de identidade. Explicar que todos nós representamos vários papéis nas diferentes situações de nossas vidas, mas que isso não nos impede de sermos, no fundo, a mesma pessoa com uma identidade equilibrada e constante. No campo da homossexualidade é perfeitamente possível se apresentar e se conduzir enquanto homossexual em certas situações, e em outras não — e de fazê-lo bem, sem nunca esquecer contudo que permanecemos sempre a mesma pessoa. – Visualizar em detalhes os diferentes papéis que podem ser necessários nos contextos da família, da escola ou do trabalho, entre amigos ou com o parceiro. Esses exercícios servem para combater a sensação de fragmentação que muitos homossexuais têm. Com efeito, muitos deles dizem: “Sinto-me dividido, puxado para os dois lados; na casa dos meus pais devo ser uma pessoa, no trabalho uma outra, e ainda uma outra com os meus amigos…”. Nesse campo, como em qualquer trabalho terapêutico, é indispensável promover a integração e construir uma identidade coerente. Finalmente, é muito importante colocar a homossexualidade em perspectiva: explicar que a orientação sexual não é tudo, e que ela não deveria afetar as outras vertentes da vida. O desenvolvimento pessoal tem muitas facetas, e o adolescente pode continuar funcionando e trabalhando nos outros campos, mesmo que nesse momento aí sua orientação sexual seja pouco clara ou problemática. Isso quer dizer também que, nas sessões terapêuticas, não é bom falar somente, ou sempre, da homossexualidade (mesmo que o paciente o deseje), é preciso integrar outros temas e projetos de vida além 73 dessa questão. É importante não se fixar na obsessão da pessoa em luta com sua identidade sexual; continuar a cultivar os outros aspectos da vida, e, na medida do possível, manter intacta a estrutura do cotidiano. Recomendações gerais homossexuais para o terapeuta que trabalha com É muito importante: – Tomar consciência dos preconceitos e dos estereótipos geralmente associados à homossexualidade (quer se concorde ou não com eles), e examiná-los de uma maneira crítica; – Não cair na armadilha de procurar as causas da homossexualidade. Em primeiro lugar, até agora nenhuma das inúmeras teorias nesse campo foi provada. Em segundo lugar, o fato de procurar causas implica que a homossexualidade é uma patologia que precisa ser explicada; em contrapartida, ninguém se pergunta por que as pessoas são heterossexuais. Em terceiro lugar, procurar razões pode desviar a atenção das tarefas a cumprir na vida atual, ou servir como pretexto para não mudar seu modo de pensar; – Nunca tentar modificar a orientação sexual do paciente, mesmo que este o deseje. Os estudos a respeito indicam que isso não somente é impossível, mas que qualquer tentativa nesse sentido pode ser extremamente perigosa. Até mesmo a American Psychiatry Association recentemente se posicionou contra aquilo que se chama de “terapias de reversão da homossexualidade”. O objetivo é mais o de ajudar a pessoa a aceitar a sua orientação sexual e de ter uma vida satisfatória na homossexualidade; – Nunca se permitir uma tentativa de sedução. Nesse contexto, sedução não se refere somente ao plano sexual, mas a qualquer esforço, consciente ou não para “encantar” o paciente, sobretudo quando se é de sexo oposto. Alguns terapeutas homens caem na armadilha de querer demonstrar às lésbicas que os homens não são maldosos, e as terapeutas do sexo feminino, em certos casos, tentam provar aos homossexuais masculinos que não há nada a temer na mulher… A intenção aqui, de “consertar” a relação do paciente com o sexo oposto, talvez seja louvável, mas é falaciosa. A homossexualidade não deriva de uma hipotética rejeição ou de um medo do sexo oposto que precisa ser revertido. 74 CAPÍTULO 5 HOMOFOBIA INTERIORIZADA A maioria dos homossexuais na sociedade atual, mesmo que se aceitem como tais, carregam em si um conflito existencial permanente. A homofobia interiorizada não tem fim: ela ressurge, sobre diferentes formas, ao longo do ciclo vital. Complica a percepção que o homossexual tem de si mesmo e dos outros; colore todas as suas relações interpessoais assim como o seu projeto de vida e sua visão de mundo. Constitui provavelmente a diferença subjetiva mais importante entre homossexuais e heterossexuais. A palavra “homofobia” significa medo ou rejeição da homossexualidade. Esse medo pode parecer instintivo, como o medo do fogo, mas não o é. Constitui mais um fenômeno cultural que está longe de ser universal, e que reveste diferentes formas e significações segundo o contexto. Nas sociedades pré-modernas, como o vimos, as pessoas não eram classificadas segundo suas condutas sexuais; portanto não havia rejeição da homossexualidade como tal. E até mesmo hoje, em certos países a homofobia aplica-se somente aos homens, e não às lésbicas; ou somente aos homens que se deixam penetrar; ou somente aos homens que se vestem como mulheres. Em outras palavras, se existe uma definição única da homossexualidade, também não há da homofobia. Sua significação muda conforme a época e o lugar; trata-se portanto de um fenômeno social e cultural. A homofobia não é nem instintiva, nem natural, nem universal… nem inevitável. Lembramo-nos que as relações homoeróticas, longe de sempre serem condenadas, foram amplamente aceitas e até mesmo admiradas em certas sociedades, como na Grécia antiga. Mas esse fato cultural tinha também suas regras do jogo. O jovem adolescente que se deixava penetrar por um homem mais velho, assim recebendo virilidade e sabedoria, não devia de modo algum permanecer passivo na vida adulta; devia, por sua vez, assumir o papel ativo digno de um homem maduro. Portanto, se havia crítica, era somente dirigida ao homem que transgredia certas regras; mas as relações homoeróticas como tais eram amplamente praticadas e admitidas. Em contrapartida, em outras sociedades, como na América Latina atual, existem outras regras do jogo e, portanto, outras definições da homofobia. Assim, o homem que penetra um outro homem não é considerado um homossexual — e, portanto, não é objeto de homofobia. Isso não é o caso, em contrapartida, para o homem que se deixa penetrar: como ele se rebaixou ao papel da mulher, é visto como um homossexual, e desprezado como tal. Homofobia e confusão dos gêneros Poderíamos, portanto, aprimorar nossa definição, e dizer que a homofobia não é somente o medo ou a rejeição ligados à relação sexual homoerótica, mas também ligados à confusão dos gêneros. Assim, em certos países, o problema não é que um homem penetre um outro: o problema, é ser penetrado — quer dizer, que um homem possa se assemelhar à “uma mulher”. Do mesmo modo, em muitas sociedades, não é a lesbianidade que é reprovada, mas o fato de que uma mulher possa se comportar “como um homem”. Mesmo na pornografia, a homossexualidade deve respeitar os gêneros para ser admitida. Assim, as relações sexuais entre mulheres são perfeitamente toleradas enquanto essas são “femininas”: nos filmes pornográficos vê-se mulheres de uma 75 feminilidade exagerada, mas nunca lésbicas de aparência masculina — que são, entretanto, também freqüentes no mundo real. E nos filmes para homossexuais, os protagonistas são sempre homens mostrando a mais robusta virilidade — mas nunca “queens” nem homens efeminados, que geralmente aparecem como personagens risíveis nas comédias de massa. Portanto, o medo da homossexualidade recobre um outro que é muito mais arcaico e universal: o medo da confusão dos gêneros. Esse medo, que um homem possa deixar de ser homem, ou uma mulher deixar de ser mulher, tem, provavelmente, raízes muito profundas na cultura humana, tanto individual quanto coletiva. Portanto, é importante fazer uma distinção entre a rejeição da homossexualidade e aquela da confusão dos gêneros que é mais arcaica. Muitos preconceitos derivam desse último elemento, mais do que do primeiro. Ouve-se freqüentemente heterossexuais dizerem – após terem conhecido um homossexual – coisas do tipo: “É curioso, eu achava que eram todos efeminados; ora, esse parece totalmente masculino.” Ou então, referindose a uma lésbica: “Mas ela é muito bonita, parece uma mulher de verdade!” Portanto, é indispensável que homossexuais e heterossexuais entendam que a homossexualidade nada tem a ver com o sexo biológico, e que ela não o afeta de modo algum. Mas sexo e gênero não são a mesma coisa; e observamos que uma parte desse modo depende justamente da confusão, bastante geral entre esses dois conceitos. O sexo se refere a certas características biológicas: nasce-se macho ou fêmea, com os atributos físicos correspondentes. A noção de gênero, em contrapartida, compreende toda uma série de atitudes, idéias, sentimentos, e condutas que se aprende desde a infância, e que constituem a identidade e o papel masculino ou feminino. Um homem pode ser masculino ou não, mas sempre permanece homem; uma mulher, mesmo masculina, permanece sempre mulher. Assim, um homem que se deixa penetrar por um outro homem pode ser considerado (e ele mesmo se considerar) como menos masculino — mas nem por isso deixará de ser homem. E uma mulher que gosta de mulheres pode ser percebida como “masculina” — mas sempre será mulher. Isso é particularmente importante para os homossexuais que sofrem freqüentemente em sua auto-estima justamente porque se consideram menos homens ou menos mulheres. Todas essas idéias e todos esses preconceitos constituem o que chamamos hoje de homofobia. Essa, como se vê, não se limita de modo algum aos heterossexuais. Os homossexuais são igualmente expostos a estas preconceitos, e isso desde a sua mais tenra idade (e muito antes de ter consciência de sua orientação sexual). A homofobia está em todo o lugar na cultura, tanto nas brincadeiras e fofocas quanto nos filmes, nos livros, etc. Ora, o que acontece quando uma pessoa é exposta, desde sempre, a uma certa idéia? Acaba por interiorizá-la: torna-a sua, adota-a sem mesmo se dar conta disso, como tantas outras idéias que acabam por fazer parte de sua educação. Então, a homofobia torna-se “natural”: torna-se um valor implícito e inconsciente, gerando reações imediatas, automáticas e, aparentemente, instintivas. A homofobia nos heterossexuais A homofobia preenche várias funções importantes nos heterossexuais. Legitima sua própria orientação sexual; faz-lhes sentir que seus valores morais e seus costumes sexuais são naturais e até mesmo superiores; permite a eles se sentirem orgulhosos de sua masculinidade ou feminilidade. Sejam ou não felizes em suas relações amorosas, desfrutem ou não de sua vida sexual, pelo menos eles têm a satisfação de se sentirem “normais”. A homofobia tem, portanto, como função primordial a de “normalizar” a 76 heterossexualidade, e de lhe dar um verniz de superioridade moral que, talvez, não existisse em outra situação. Os homossexuais são sempre os outros Mas ela também tem uma outra função essencial: permite ao heterossexual negar em si próprio qualquer desejo homoerótico, embora, tenhamos todos (ou melhor, porque temos todos) tendências nesse sentido. Isso nada tem de surpreendente: é o que acontece com todos os desejos que são proibidos pela sociedade. Lançados para fora, são depositados nas minorias como os homossexuais, os judeus, os negros, etc. A projeção é um mecanismo de defesa inconsciente pelo qual atribuímos a outras pessoas os traços, as emoções, ou os pensamentos que não podemos aceitar em nós mesmos porque são incompatíveis com nossos valores morais ou nossa auto-imagem. Portanto, ao invés de reconhecê-los em nós, colocamo-los no exterior. Por exemplo, investimos os outros com as tendências ou desejos homossexuais que não podemos ou não queremos ver em nós mesmos: a projeção homofóbica faz com que os homossexuais sejam sempre os outros. Assim, a homofobia “salva” o heterossexual da homossexualidade. Esse mecanismo explica também o fenômeno coletivo do bode expiatório, pelo qual a sociedade atribui certos traços que não aceita nela mesma à uma pessoa ou a um grupo de pessoas. É assim que funciona a homofobia no plano social: os homossexuais, sobretudo se forem muito visíveis, servem de bodes expiatórios para a sociedade heterossexual majoritária. Isso explica porque a liberação guei é sistematicamente acompanhada de uma reação em sentido contrário. Um paradoxo, e um dilema, desse movimento, é precisamente o fato de que quanto mais os homossexuais tornam-se visíveis, mais eles se tornam um alvo de maior identificação para a projeção homofóbica. Isso em parte explica que nos Estados Unidos a liberação guei acompanha-se de uma homofobia cada vez mais explícita, organizada e militante. A homofobia serve também para banalizar a homossexualidade. Com a repetição de estereótipos e simplificações, caricatura-a e a transforma em uma paródia da sexualidade “natural” e do amor “verdadeiro”. O casal homossexual, sobretudo se for de idade (o que traz ainda outros preconceitos), é percebido como um tipo de pastiche gracioso do “verdadeiro casal” que, claro, é heterossexual. Essa banalização serve para despojar a homossexualidade de seu caráter radicalmente estranho e diferente. É reconfortante quando se pensa na homossexualidade, de ter em mente um filme tão divertido e inofensivo quanto A gaiola das loucas. A homofobia nos homossexuais A homofobia desenvolve um papel muito diferente nos homossexuais. Suas formas e manifestações podem mudar no decorrer do ciclo vital, mas sempre será presente de um modo ou de outro — pelo menos na sociedade atual. Pode parecer estranho o fato de que um homossexual possa ter preconceitos ou sentir uma certa rejeição da homossexualidade, mas é um fenômeno muito generalizado. A homofobia não se expressa necessariamente de uma forma direta (o que torna difícil a sua identificação); outrossim, ela toma formas indiretas que eu tentarei descrever agora. Freqüentemente acontece, por exemplo, que os homossexuais desconfiem de seus próprios desejos ou sentimentos: esses podem lhes parecer perversos, sujos ou até mesmo perigosos. Em casos extremos, podem até mesmo lhes parecer estranhos, como impulsos que não lhes pertencem — que não vêm do interior, mas do exterior. Tudo isso pode, evidentemente, ter conseqüências muito graves. O fato para uma pessoa de rejeitar 77 sistematicamente seus próprios desejos ou sentimentos acabará, com o tempo, afetando suas relações com os outros e com ela mesma, sua vida sexual, e até mesmo a sua saúde física. Esse processo pode chegar à repressão habitual de certas emoções, provocando problemas importantes para as relações sociais e a intimidade. Os homossexuais que sofrem de um grau elevado de homofobia interiorizada podem, por exemplo, serem incapazes de expressarem seu amor para uma pessoa do mesmo sexo — mesmo que vivam com ela, ou tenham uma relação com ela, de vários anos. Pode lhes parecer normal que outros (por exemplo, sua família) critiquem ou ignorem seu parceiro; e eles mesmos podem relegar sua relação de casal para um plano muito secundário, ao fazer projetos de futuro sem levá-la em conta. Não é raro encontrar nos homossexuais (sobretudo masculinos) uma profunda ambivalência no que concerne o casal: sua atitude implícita poderia se resumir: “Tenho um amigo, mas não é realmente meu parceiro”. Essa rejeição das emoções, dos desejos e das necessidades em si mesmo podem se generalizar e se estender à vida afetiva inteira, e não somente ao amor e à sexualidade. Uma pessoa que questiona ou que reprime desde sempre aquilo que surge nela espontaneamente, pode chegar a desconfiar de todos os seus desejos e sentimentos. Em minha experiência terapêutica, freqüentemente eu ouvi homossexuais dizerem coisas assim: “Eu sabia que eu não devia fazer isso. Uma vozinha me disse que não era uma boa idéia, mas eu não dei bola.” Poderíamos nos perguntar quantas condutas autodestrutivas nos homossexuais não derivariam, em parte, dessa desconfiança para com a sua própria intuição, e sua repressão habitual de seus mais profundos sentimentos. Uma emoção que é freqüentemente reprimida é a cólera. Não esqueçamos de que os homossexuais são objetos de agressões contínuas. Quer o admitam ou não, não conseguem esquecer as gozações, as piadas, as etiquetas e as desvalorizações relativamente constantes e conscientes às quais são expostos no cotidiano. A pergunta que se coloca não é a de saber se tudo isso os afeta ou não — pois é evidente que sim —, mas a de saber o que fazem com a cólera que normalmente deveriam sentir. Do mesmo modo, o que eles fazem com a cólera que sentem, às vezes, contra eles mesmos, porque são diferentes? A resposta, é que eles tendem a reprimir ou a deslocar essa cólera. Assim, existem homossexuais para os quais é muito difícil ficarem bravos: sempre gentis, sempre benevolentes, tendem antes à depressão. (Não esqueçamos que a cólera negada ou reprimida e voltada para si próprio pode se transformar em depressão que é, às vezes, interpretada como um tipo de cólera contra si mesmo.) Ou então, essa cólera pode se manifestar por meio de condutas autodestrutivas — que infelizmente são bastante freqüentes no meio homossexual. Existem também homossexuais que expressam essa cólera sem causa identificável, e que se tornam habitualmente irritáveis, impacientes, ou intolerantes. Qualquer que seja a forma que ela adota segundo a estrutura da personalidade e o contexto social de cada um, devemos sempre procurar a presença mais ou menos reprimida de uma cólera longamente acumulada. É importante tomar consciência dela e canalizá-la corretamente. Todas as emoções, todos os desejos, as fantasias e as necessidades que são sistematicamente reprimidas podem se tornar uma substância tóxica no funcionamento mental e físico se não forem devidamente detectadas e trabalhadas. 78 A sensação de estar em desvantagem Um outro problema que pode derivar da homofobia interiorizada é uma imagem de si desvalorizada: muitos homossexuais consideram-se de uma certa forma limitados, tanto no plano pessoal quanto no plano social ou até mesmo profissional. Essa sensação difusa de estar em desvantagem é raramente verbalizada como tal, e não é necessariamente consciente. Mas é muito comum e pode assumir inúmeras formas. Começamos por uma idéia que certamente chocará muitos leitores: há um “quê” de verdade nessa sensação de desvantagem. Em primeiro lugar, muitos homossexuais cresceram e viveram em um certo isolamento afetivo e social; e isso só pode limitar seu desenvolvimento social e profissional. Não é surpreendente, no fim das contas, o fato de que os membros de uma minoria marginalizada achem, às vezes, difícil estabelecer contato com a maioria. É uma conseqüência natural da marginalização, e isso reflete também as diferenças reais entre os estilos de vida homossexual e heterossexual. Há, de fato, muitos campos afetivos e sociais que não são partilhados. Assim, os heterossexuais tendem a compor suas relações sociais em torno de certos pontos comuns como o casamento, as crianças, as escolas, as relações de família, etc. — assuntos que não afetam do mesmo modo os homossexuais. Portanto, existe uma certa distância social real que poderíamos qualificar de inevitável por conta das diferenças objetivas entre o ciclo vital das duas populações. Em segundo lugar, como dissemos no capítulo 3, muitos homossexuais nunca aprenderam certas competências sociais que são próprias da cultura heterossexual. Uma delas, a facilidade em estabelecer contato com pessoas do sexo oposto, é de uma importância capital — embora isso talvez valha mais para as lésbicas do que para os homossexuais masculinos. É interessante notar que esses, geralmente, mantém boas relações com as mulheres, enquanto as lésbicas, muitas vezes, têm dificuldades para fazerem amizades com os homens. Essa diferença provavelmente tem raízes psicológicas e sociais. Em geral, os homossexuais têm uma melhor relação com sua mãe, do que as lésbicas com seu pai, por razões complexas que não examinaremos aqui. É possível também que uma certa sensibilidade feminista tenha um papel nisso: muitas lésbicas não têm nenhuma vontade de manter relações sociais com os homens. Apesar de tudo isso, o resultado final é que as lésbicas tendem a ter menos contato com as pessoas do sexo oposto do que os homossexuais masculinos. Ora, na sociedade atual, é muito importante ter boas relações com os detentores do poder, que geralmente são os homens. Esse fato não afeta tanto os gueis, que continuam a ser homens, e, portanto, são mais bem colocados na hierarquia social. Mas afeta de outra forma as lésbicas, que geralmente não são casadas e têm poucas relações sociais com os homens; portanto, podem estar ainda mais marginalizadas do que os homens frente ao mundo do trabalho e do poder. Mas, além dessa distinção entre homens e mulheres, é provável que os homossexuais, em geral, estejam em uma posição de fraqueza relativa em certas áreas da vida profissional e social. A sensação de desvantagem que eles podem sentir corresponde, portanto, em parte, a uma realidade objetiva. Contudo, a homofobia interiorizada agrava as coisas. Não é difícil encontrar homossexuais que não chegam tão longe em seus estudos ou em sua profissão quanto o deveriam. Vemos, muitas vezes, eles duvidarem deles mesmos, de suas capacidades ou de suas ambições: tendem a ser menos seguros de si do que os heterossexuais, pois interiorizaram certos estereótipos associados à homossexualidade. Em particular, a visão da homossexualidade como um fracasso, uma limitação ou um defeito pode ressoar neles de muitas formas, em 79 diferentes níveis. Poderíamos nos aventurar a dizer que todo o homossexual, em um dado momento, sentiu-se ser menos: menos homem ou menos mulher, menos dotado para a vida social ou profissional, ou menos apto para a felicidade. E mesmo que ele tenha atribuído outras causas a esses sentimentos, devemos considerar a homofobia interiorizada como um componente possível. Paradoxalmente, essa sensação difusa de inferioridade ou de insuficiência pode provocar um esforço continuo para compensar o “defeito” da homossexualidade em outras áreas da vida. O homossexual pode (inconscientemente) tentar provar que é “aceitável” apesar de tudo, segundo o critério da sociedade heterossexual. Essa supercompensação pode levá-lo a se tornar demasiadamente perfeccionista e exigente com ele mesmo: ele pode sentir que não está “à altura” em inúmeros campos. Como qualquer minoria discriminada, tentará constantemente provar que pode satisfazer as demandas da maioria. Muitos homossexuais acabam assim imitando condutas ou atitudes heterossexuais em seu estilo de vida, a distribuição dos papéis em seu casal, etc. A mesma dinâmica de supercompensação pode levar o homossexual a tentar sempre se mostrar no seu melhor ângulo possível. Será para ele, então, difícil mostrar (ou até mesmo reconhecer) seus limites, pois “se eu fracassar, as pessoas pensarão que é por causa de minha homossexualidade”. Outras manifestações da homofobia interiorizada Uma outra manifestação dessa insegurança de base é uma relativa fraqueza nos limites interpessoais. Muitos homossexuais são, de fato, “demasiados bons”: sempre atentos aos desejos ou às necessidades dos outros, eles têm uma certa dificuldade em afirmar ou defender as suas. Acostumados, por outro lado, a esconder ou minimizar seus desejos, podem ter dificuldade para expressá-los. É assim que muitos homossexuais mantém relações de casal pouco satisfatórias: falta nelas os limites que estão no cerne de qualquer relação profícua e que permitem as pessoas dizerem: “Eu não concordo”, ou: “Não quero”. Ademais, eles podem acreditar que não encontrarão mais ninguém que possa os amar, se por acaso venham a se separar de seu parceiro atual. Essa desvalorização de si, essa falta de limites podem, portanto, servir para manter relações que, em outro caso, não sobreviveriam. Uma outra manifestação importante da homofobia interiorizada é uma certa disposição para a vergonha. Muitos homossexuais tiveram vergonha de sua orientação sexual em algum momento de sua vida. Mesmo que não sintam mais essa vergonha no presente continuam freqüentemente a ser particularmente susceptíveis. Em casos extremos, eles se sentirão observados e julgados pelos outros, mesmo que não o sejam. Às vezes, podem se sentirem excluídos, debochados, ofendidos ou desprezados, mesmo que isso não seja o caso, e apresentar um grau elevado de susceptibilidade em suas relações interpessoais. Quando certos psiquiatras e psicanalistas falavam (e alguns ainda falam) de tendências paranóicas nos homossexuais, provavelmente eles se referiam em parte a essa extrema susceptibilidade64. Mas essa pode também ser interpretada como uma manifestação da homofobia interiorizada — e é importante trabalhá-la nestes termos, antes de concluir que existe uma patologia tão grave quanto a paranóia. 64 Por exemplo: “Eu nunca conheci [um homossexual] que não apresentasse traços paranóides. Todos são excessivamente suspeitosos, tenebrosos e desconfiados… senti durante anos que essa conduta era engendrada por nossa civilização, na qual os homossexuais são tratados como párias. Contudo, estou convencido que isso é apenas parcialmente verdadeiro. A maioria desses traços se deve a fixações sádico-anais e a regressões.” A. A. Brill. “Homoeroticism and paranoia”. Em American Journal of Psychiatry, 13, 1933, 957=974. Citado em Erin G. Carlston. “Female homosexuality and the American medical community. Em Vernon A. Rosario (ed). Science and homosexualities. New York, Routledge, 1997, p. 188. 80 “Não sou homossexual como os outros” Um outro fenômeno interessante que deriva da homofobia interiorizada, é a idéia que muitos homossexuais têm sobre a homossexualidade nos outros. Freqüentemente escuta-se os homossexuais falarem da “maioria dos homossexuais” como se eles mesmos não o fossem. Essa atitude pode representar uma maneira muito salutar de se distanciar de certas idéias pré-concebidas, e de rejeitar os estereótipos. Mais ela coloca também um dilema, pois eles são, no fim das contas, tão homossexuais quanto os outros. Essa dicotomia, esse equívoco que consiste em dizer: “Eu sou um deles, mas não sou um deles”, é mais uma manifestação da homofobia interiorizada. É uma atitude que merece ser analisada, assim como quando um homem diz: “Eu não sou como os outros homens”, ou uma mulher diz: “Eu não sou uma mulher típica.” Em todos esses casos, há um questionamento dos estereótipos ou das idéias normativas sobre como “deveriam” ser um homossexual, um homem, uma mulher. É importante explicitar os conflitos subjacentes e resolvê-los, para desenvolver uma identidade que seja plenamente integrada. Poderíamos também nos perguntar se o ciúme, tão comum nos casais homossexuais, não deriva, em parte, dessa mesma homofobia interiorizada. O estereótipo da promiscuidade homossexual é tão comum, que muitos homossexuais acreditam nele, mesmo que não se identifiquem com ele. Muitas vezes, um homossexual é fiel, mas considera que seu parceiro não o é, “porque os homossexuais são desse jeito” ou porque “o meio é podre”. É o que os psicólogos chamam de “dissonâncias cognitivas”, que consistem em ter duas convicções contraditórias ao mesmo tempo. E essa situação tende a provocar uma ansiedade e uma incerteza crônicas. Essa ambivalência que faz com que “Eu sou um deles, mas não como os outros” é mais um reflexo da homofobia interiorizada. Aliás, vale se perguntar qual é a origem dessa concepção da promiscuidade homossexual tão generalizada em nossa sociedade. Antes da liberação guei dos anos 70, o homossexual era visto como um doente que, tal qual um vampiro, procurava continuamente novas vítimas para satisfazer seus desejos incontroláveis. Eternamente frustrado e solitário, ele representava um perigo para a sociedade por causa de seu gosto pela promiscuidade predadora. Essa imagem dominou a cultura popular até os anos 70 (e, em certos meios, até hoje). Depois veio a liberação guei que coincidiu com a revolução sexual e se tornou um elemento central dela. Durante os anos 70, homossexuais e heterossexuais se dedicaram à experimentação do amor livre, do casal aberto, dos casais a três (ménages à trois) e outros jogos sexuais. Mas os homossexuais (que não foram nem mais nem menos frívolos do que os heterossexuais) foram julgados à parte. Enquanto todos esses divertimentos sexuais foram considerados como uma fase passageira na evolução dos costumes ou como um passatempo juvenil para a geração do pós-guerra, nos homossexuais foram percebidos como um atributo essencial. Onde os heterossexuais foram rebeldes, contestadores, gaiatos e boêmios, os homossexuais adquiriram uma nova série de etiquetas muito menos engraçadas e, além do mais, permanentes: frívolos, degenerados, impulsivos, confusos, e, evidentemente, incapazes de controlar seus desejos ou de manter uma relação amorosa durável. Em uma palavra, os heterossexuais dessa geração casaram-se e tiveram filhos, enquanto os homossexuais permaneceram… homossexuais. 81 E depois chegou a tragédia da AIDS. Identificada no início como uma doença homossexual, foi percebida pela sociedade bien-pensante65 como um castigo divino ou biológico da promiscuidade e da imoralidade dos homossexuais. Pouco importava que a AIDS fosse também tão perigosa para os heterossexuais, ou que atingisse muito mais a população heterossexual em inúmeros países: a etiqueta permaneceu e foi sobreposta aos estereótipos que já existiam. A promiscuidade dos últimos decênios Isso não significa, claro, que os homossexuais sejam particularmente castos. Os números medindo os contactos sexuais entre homens homossexuais são, às vezes, difícil de acreditar. Estima-se que os membros de certas comunidades gueis importantes, em grandes cidades como Nova Iorque ou São Francisco, tinham em média 1 ou 2 encontros sexuais por dia antes do flagelo da AIDS. À parte qualquer consideração moral, como explicar isso? Várias interpretações são possíveis. Poderíamos fazer uma análise sócioeconômica e notar que os homossexuais do mundo industrializado usufruem rendas mais elevadas do que a média, pois não têm mulheres nem crianças dependentes. Portanto, eles seriam particularmente expostos ao consumismo desenfreado, do qual as conquistas sexuais em série são uma forma exacerbada. Poderíamos desenvolver uma análise feminista, e dizer que a promiscuidade é uma questão de homens: nessa ótica, a sexualidade homossexual nos mostra o que é a sexualidade masculina quando não há mulher para “domesticá-la” e lhe dar um conteúdo afetivo, e quando não há família para manter o homem em casa. É também possível que os homens possam ter com outros homens condutas sexuais que as mulheres não admitem. Em muitos países, a liberação sexual nunca chegou às mulheres, e estas cresceram em meio a uma moral sexual tradicional. Assim, em muitas sociedades, o sexo oral e anal, a masturbação, e talvez, outras formas de estimulação sexual não são atividades aceitáveis para as mulheres (exceto para as prostitutas, que são pagas justamente para esse tipo de serviços). E nas sociedades mais liberais, as mulheres podem agora dizer não às atividades que não querem. Então, os homens encontram, talvez, com outros homens opções sexuais que não estão normalmente a seu dispor66. É também provável que os homossexuais se sintam mais livres do que os heterossexuais, não tendo que se preocupar com uma gravidez, nem com um eventual casamento forçado. Portanto, a variedade, a freqüência e a liberdade relativas da relação sexual homoerótica poderiam contribuir para explicar a promiscuidade nos homens homossexuais. Poderíamos também falar de uma hipotética necessidade no homem de acumular continuamente conquistas sexuais, homo — ou heterossexuais. Nessa visão, a autoestima e o poder diante dos seus pares dependeriam de sua capacidade de conquista. Do mesmo modo, poderíamos também aludir às tendências autodestrutivas que se observa, às vezes, nas minorias estigmatizadas e marginalizadas, e que podem se manifestar por vários tipos de condutas perigosas. Ou então, adotando um ponto de vista histórico, poder-se-ia dizer que a promiscuidade generalizada é típica de certas épocas: nessa 65 "Bien-pensant(e)” é uma expressão francesa usada de forma irônica ou pejorativa para designar quem pensa "comme il faut" [como se deve], isto é, de acordo com um sistema tradicional de caráter religioso, social ou/e político. Em outros termos, um equivalente em português seria “os donos da verdade” ou, sem manter o caráter irônico, os “moralistas”.[Nota dos tradutores] 66 Isso não constitui, claro, uma explicação da homossexualidade masculina. A teoria segundo a qual as pessoas se tornam homossexuais por falta de opções heterossexuais, talvez seja válida nas prisões ou nos seminários, mas, com certeza, não na sociedade em seu conjunto. Basta lembrar que a prostituição existe até mesmo nas sociedades mais “fechadas”, assegurando uma opção heterossexual contínua — e que existe também uma prostituição masculina, o que não seria o caso se os homens preferissem sempre ter relações sexuais com as mulheres. 82 ótica, os homossexuais só aproveitaram, graças à sua relativa liberdade, de uma dessas fases históricas de libertinagem67. Mas não sou capaz de tirar uma conclusão única disso. Precisaria ser especialista em várias áreas — a psicologia, a sociologia, a biologia, a história, a análise ideológica, etc. — para poder explicar um fenômeno tão complexo. Em contrapartida, precisaria ser muito inocente para dizer, simplesmente, que a promiscuidade homossexual existe porque os homossexuais são assim. Essa generalização, entretanto, disseminou-se na cultura, e serve para manter toda uma constelação de estereótipos associados à homossexualidade. Além disso, a idéia de uma promiscuidade inerente à homossexualidade não leva em conta o fato de que muitos homossexuais não são promíscuos, e que as lésbicas em geral mantém relações senão estáveis, pelo menos monogâmicas. Mas o estereótipo permanece intacto, não somente nos heterossexuais, mas também nos homossexuais; e como tal, faz parte da homofobia interiorizada. É por isso que muitos homossexuais dizem que não são “típicos”, e que não gostam de ser caracterizados como tais. Eles conhecem tão bem, quanto os outros, os estereótipos, mas esses não correspondem à sua realidade vivida. Então, são homossexuais… mas não como os outros. Esse tipo de ambivalência pode exacerbar uma crise de identidade, ou mesmo de casal: freqüentemente um dos dois parceiros considera-se “atípico” e, ao mesmo tempo, acha que o outro é, no fundo, “como todos os outros homossexuais”. A promiscuidade, a instabilidade, a frivolidade existem tanto nos homossexuais quanto nos heterossexuais. Mas, entre esses últimos, ninguém pensa em dizer que isso se deve à sua orientação sexual. No caso dos homossexuais, em contrapartida, é a primeira explicação que vem à mente. Falando dos estereótipos, não podemos deixar de lado o sentimento de rejeição, até mesmo de repulsão, que muitos heterossexuais sentem em relação às práticas sexuais dos homossexuais. Em primeiro lugar, é importante fazer uma distinção entre o que os homossexuais fazem na cama e o que as pessoas imaginam. Por exemplo, segundo uma crença bastante difundida, as lésbicas usariam consolos para terem relações sexuais e os homossexuais praticariam sempre a penetração anal. Como o veremos mais adiante, esses estereótipos não correspondem sempre à realidade. Mas seja lá o que for, o importante é que nenhuma prática sexual é em si mesma mais ou menos “repugnante” do que outra; a sexualidade homossexual não é nem mais nem menos estética do que a dos heterossexuais e, com certeza, não há nada que os homossexuais possam fazer na cama que não possa ser feito também pelos heterossexuais. Mas pode-se negar que existe na cultura uma rejeição generalizada em relação à sexualidade homossexual, tributável à persistência dos estereótipos que acabamos de descrever e, portanto, à homofobia. As “perversões” sexuais Além das condutas sexuais cotidianas dos homossexuais e das lésbicas, existem outros estereótipos que derivam da homofobia. Assim, certas “perversões” sexuais são freqüentemente consideradas como características ou até mesmo exclusivas da homossexualidade. É o caso do sadomasoquismo, que se tornou famoso por causa do couro e das correntes que lhes são associados no imaginário social. Mas o sadomasoquismo, geralmente relacionado com a homossexualidade masculina, existe também nas relações heterossexuais. 67 Examinaremos mais adiante a sexualidade coletiva e a promiscuidade nos estabelecimentos especializados, a partir dos anos 70, assim como as modalidades das relações sexuais homoeróticas. 83 O mesmo se aplica para a pedofilia. Inúmeros estudos mostraram que essa envolve, na maioria das vezes, homens que abusam sexualmente de meninas, e muito menos de meninos. A maioria dos casos de pedofilia é, portanto, de natureza heterossexual — e envolve quase sempre homens. Os casos de mulheres abusando de menores — sejam meninas, sejam meninos — são raríssimos. A pedofilia aparece, portanto, como uma desordem sexual dizendo mais respeito aos heterossexuais do que aos homossexuais — isto é, muito mais para ser relacionada com o gênero do que com a orientação sexual. Contudo, essa categoria de práticas sexuais é freqüentemente associada à homossexualidade, como mostra claramente o uso das palavras “veado”68 ou “pederasta” para se referir aos homossexuais. Homens violentos, mulheres delicadas Um outro estereótipo que tem, contudo, uma parte de verdade é o da violência nas relações sexuais entre homens. Os médicos relatam muitos casos de lesões anais nos homossexuais masculinos. Em particular, a inserção de todo o tipo de objetos no ânus pode ser não somente dolorosa, mas ainda muito perigosa. Seria preciso se perguntar, contudo, se esse tipo de prática decorre realmente da homossexualidade em si, da sexualidade masculina, ou ainda de outra coisa. Por exemplo, é muito comum que essas práticas aconteçam sobre a influência de certas drogas ou do álcool — sem os quais elas seriam muito dolorosas, até mesmo impossíveis. Essas condutas deveriam, portanto, ser relacionadas (pelo menos em parte) com o uso abusivo de drogas e de álcool que permite justamente atividades sexuais que de outro modo seriam pouco suportadas69. De fato, diversas drogas são utilizadas em certos meios gueis para estimular a energia sexual, distender os esfíncteres e atenuar a dor. Portanto, é possível que a violência sexual entre homens derive não da homossexualidade enquanto tal, mas, antes, de uma certa subcultura guei que se desenvolveu no decorrer dos anos 80 e 90. Um outro fato interessante é que as relações eróticas entre mulheres são muito menos chocantes para os heterossexuais do que as entre homens. No cinema, por exemplo, o público se mostra geralmente mais incomodado ou indignado por dois homens que se beijam do que por duas mulheres. Por quê? Sem dúvida a sexualidade masculina é percebida como mais ameaçadora, e a feminina, por razões ideológicas, mais “passiva” e, portanto, inofensiva. Reencontra-se aqui a idéia de que a “verdadeira” sexualidade reside nos homens: as mulheres não teriam sexualidade independente do homem. A relação erótica entre mulheres é delicada e suave, uma versão “light” do verdadeiro sexo; nos homens ela é agressiva, quase animal. Essas duas representações exageradas da homossexualidade são estereótipos que ajudam os heterossexuais a “catalogar” a homossexualidade segundo critérios simplistas e, até mesmo, caricaturais. Poderíamos dizer simplesmente que elas não correspondem à realidade, e deixá-las de lado, senão fossem tão perigosas, mas esses clichês contribuíram muito para o ódio e a violência contra os homossexuais. Quando um homem estupra uma lésbica, às vezes é para que ela conheça “o verdadeiro sexo”. Quando um bando de jovens ameaça, bate ou mata um homossexual, freqüentemente é “porque eles gostam disso”. Existem, de fato, clichês que matam — e os mais perigosos são, provavelmente, aqueles que têm a ver com a sexualidade. A homofobia assume muitas formas; mas não devemos esquecer que ela não constitui apenas um modo de pensar. É também uma fonte de violência. 68 Aqui a autora utiliza a abreviação da palavra pederasta. Isto é, “pede” que, em francês quer dizer "veado". No caso, não há equivalente em português, já que pederasta não é um atributo de uma orientação sexual específica, e sim uma prática sexual entre um homem adulto e um infante do sexo masculino. [Nota dos tradutores] 69 Entrevista com o Dr. Victor Simon, Paris, 24 de novembro de 1998. 84 Diferentes modos de ser homossexual Examinamos algumas das manifestações da homofobia interiorizada. Poderíamos agora nos perguntar como os homossexuais integram esses modelos e estereótipos. Não há dúvida que os homossexuais, tanto quanto os heterossexuais, aprendem a interpretar os papéis que as sociedades lhes impõem e espera deles. Exatamente como os jovens heterossexuais assimilam as condutas, as atitudes e a linguagem corporal própria dos papéis heterossexuais, os homossexuais apropriam-se aos poucos das condutas, dos gestos e dos papéis que são considerados “típicos” da homossexualidade. Não é surpreendente que exista no mundo globalizado atual um estilo guei perfeitamente definido que compreende uma maneira de se vestir, de falar, de se mover, e toda uma série de gestos e de gostos imediatamente identificáveis quase em todo o lugar. Contudo, esse “estilo guei” nem sempre foi o mesmo, e é muito interessante ver como evoluiu durante os últimos vinte anos. Antes, os homens que assumiam sua homossexualidade eram afetados e, até certo ponto, efeminados. Mas desde os anos 80 apareceu uma tipologia radicalmente diferente. Hoje o homossexual não tem mais nada de efeminado. Ao contrário, com seus cabelos curtos, seu bigode, seu corpo musculoso por conta de suas idas cotidianas à academia, e sua jaqueta de couro preto, ele apresenta uma virilidade acentuada. Não duvido que esse estilo, por sua vez, passará de moda. Mas, o importante, é que os homossexuais aprendam a serem homossexuais de uma certa forma — e que essa forma mude justamente porque é aprendida e não inata. Evidentemente, nem todos os gueis adotam o estilo guei — longe disso. Mas, quando o fazem, mesmo que vivam em países diferentes, tendem a se parecer muito — e é estranho, se pensarmos na enorme diversidade de culturas no mundo e nas numerosas formas que a masculinidade assume em diversos países. O homem heterossexual francês tem uma linguagem corporal muito diferente da do homem americano; mas um homossexual francês se parece muito na sua maneira de se vestir, de se mover e de se expressar, com um guei americano. Podemos deduzir disso que existe algo que parece com uma linguagem, ou com uma série de códigos partilhados entre homossexuais no mundo ocidental. E podemos supor que essa linguagem é aprendida, como qualquer linguagem. Estereótipos globalizados e locais Assim como os heterossexuais aprendem um modo particular de serem heterossexuais de acordo com o seu contexto cultural, os homossexuais assimilam formas socializadas para expressarem sua orientação sexual. Mas o que eles aprendem exatamente? Em primeiríssimo lugar, interiorizam estereótipos. Assimilam imagens da homossexualidade que atualmente fazem parte de uma cultura globalizada compreendendo certas modas e uma linguagem corporal específica. Mas aprendem também os estereótipos em vigor em seus próprios países. Por exemplo, se a sociedade local considerar que os homossexuais são efeminados, os homossexuais adotarão gestos e maneiras efeminados. Se se considerar típico o fato dos homossexuais adorarem ópera, encontraremos uma proporção desmedida de homossexuais fanáticos por ópera. Do mesmo modo, se a cultura local pensa que as lésbicas são mulheres altamente refinadas e sensíveis, encontraremos homossexuais excessivamente sofisticadas e femininas. Se se pensar, ao contrário, que elas são homens que não deram certo, então, as lésbicas, nessa sociedade, tenderam a apresentar condutas e atitudes masculinas. 85 Eis, aliás, a razão pela qual os homossexuais são mais estereotipados ou mais reconhecíveis como tais, nos países onde os papéis masculino e feminino são mais diferentes e estereotipados — isto é, nas sociedades “machistas”. Os homossexuais tendem a serem mais visíveis, mais “diferentes”, nos países do terceiro mundo, enquanto que nos países industrializados eles se misturam muito mais na população geral. Assim, o homossexual dinamarquês se parece com qualquer dinamarquês; no México isso já é menos verdadeiro. Essa análise se estende também às classes sociais. Quanto mais se sobe na escala socioeconômica, menos a homossexualidade é visível. Em uma palavra, ela se camufla melhor. Assim, em uma certa visão das coisas, um homem rico que gosta de arte e que tem um estilo de vida refinado é apenas um homem culto; mas um pobre que gosta de arte e que cultua um refinamento “fora de contexto” é, provavelmente, homossexual. A categorização da homossexualidade segundo a qual são os heterossexuais que “decidem” quem é homossexual e quem não o é (ver o Capítulo 4), tem provavelmente um componente de classe social; e as formas da homossexualidade têm, de fato, além de suas conotações locais, uma dimensão socioeconômica. Aliás, é uma das razões pelas quais a travestilidade (a forma mais extrema do homem efeminado) é muito mais comum nas classes populares do que nas médias ou elevadas. (É preciso se lembrar igualmente que a travestilidade é freqüentemente associada à prostituição e que essa aparece mais nos pobres). A homofobia aprendida Mas os homossexuais, onde quer que estejam, não aprendem apenas a linguagem corporal ou os modos que a sociedade lhes impõem. Aprendem também (mais ou menos, conforme o país) que os homossexuais são inconstantes, instáveis, impulsivos, e todos os estereótipos derivados da homofobia. Então, exatamente como os heterossexuais aprendem a interpretar os papéis de amante, esposo e pai, e assimilam as regras do jogo do casamento feliz e da família unida, os homossexuais aprendem o jogo da conquista sexual, da promiscuidade, do casal infiel, dos dramas do ciúme, etc. Em uma palavra, interiorizam e interpretam os papéis e as condutas que a sociedade espera deles. É difícil entender que esses papéis e condutas são aprendidos e não inatos; imitados, e não naturais; sociais, e não individuais. Desprender-se dos estereótipos interiorizados é uma tarefa difícil, e é provável que poucos homossexuais possam conseguir isso sozinhos. Mas tal tarefa é absolutamente necessária para desenvolver uma identidade homossexual positiva. A criação de uma identidade própria, isto é, a individuação em qualquer campo que seja, implicará sempre um questionamento dos estereótipos. O questionamento dos estereótipos Desde os anos 60, os homossexuais repensaram todos os estereótipos anteriores da homossexualidade, assim como os heterossexuais se afastaram dos modelos tradicionais da masculinidade, da feminilidade e do casal. É assim que os hippies mostraram que os cabelos curtos não são nem “naturais” nem inevitáveis para os homens. E as mulheres aprenderam, graças ao feminismo, que elas não são de modo algum condenadas pela natureza a serem esposas e mães submissas; agora elas sabem que podem aspirar a papéis diferentes daqueles que lhes são ditados pelos homens. Da mesma forma, os homossexuais devem aprender a se desprenderem dos papéis e dos estereótipos que a sociedade lhes impôs. Os homossexuais não são “naturalmente” instáveis, nem inconstantes, nem ciumentos, nem hipersexuados; e é indispensável que 86 eles possam ver essas etiquetas com um olhar crítico, para se libertarem delas. É a única solução verdadeira para a homofobia interiorizada. Na verdade, algo desse tipo já está acontecendo em inúmeros países. Muitos homossexuais preferem hoje o estilo masculino e zombam da imagem clássica do homossexual efeminado. E (em grande parte por causa da AIDS) exploram cada vez mais alternativas para a promiscuidade e procuram formar casais estáveis. Afastam-se assim dos estereótipos anteriores. Da mesma forma, quando as lésbicas deixam de se vestir e de se comportar como homens, elas rejeitam implicitamente o clichê da lésbica como homem que não deu certo. Esse trabalho iconoclasta evidentemente não se limita aos homossexuais; os heterossexuais também repensam todos os modelos recebidos. Poderíamos dizer, nesse sentido, que a moda da androgenia dos anos 90 representa um esforço para se libertar dos papéis e das aparências tradicionais da masculinidade e da feminilidade para criar um estilo de vida mais livre. Isso nos leva a um paradoxo: em um sentido, para ser um homossexual verdadeiramente “assumido”, não é preciso ser mais, mas sim menos “homossexual”. Nessa perspectiva, a medida que os estereótipos tradicionais desaparecerem, as diferenças sociais entre homo — e heterossexuais tenderão a diminuir também. Mas, enquanto esse objetivo (provavelmente utópico) não for atingido, cada indivíduo terá que dar conta esse questionamento. Acho que todo o homossexual deve analisar os estereótipos que o governam, desprender-se daqueles que não lhe convém, e desenvolver uma maneira de viver sua orientação sexual livremente — tanto em sua vida pessoal quanto em suas relações de casal e em sua posição em relação à sociedade. Muitos homossexuais já o fazem. Em número crescente, tomam suas distâncias em relação à cena guei, deixam de freqüentar os bares, e entram em relações estáveis. Claro, essa opção apresenta ao mesmo tempo vantagens e desvantagens. Leva a uma individuação e a uma estabilidade afetivas maiores, mas também implica uma solidão maior. Perde-se aí um certo sentido da comunidade que é um apoio importante para muitos homossexuais. Com efeito, os casais estáveis que deixam de freqüentar a “cena” vivem relativamente isolados dos outros homossexuais. Mas desprender-se dos estereótipos sempre teve um custo, e a sociedade atual oferece poucas soluções de substituição. É possível que um dia os homossexuais possam viver mais abertamente, sem ter que ir a lugares especializados para se conhecer e se reunirem entre si. Houve, certamente, um enorme progresso neste sentido durante os anos 90. Cada vez mais, os homossexuais podem se encontrar em lugares que não são bares ou discotecas, mas academias, espaços culturais ou de lazer. Aos poucos, os preconceitos e os estereótipos estão cedendo; e podemos esperar que um dia as terríveis barreiras entre homo e heterossexuais venham a cair. A homossexualidade desaparecerá, então, enquanto critério para classificar os indivíduos. Não mais se dirá das pessoas que, antes de qualquer coisa, elas são homossexuais, exatamente como o fato de ser judeu ou negro não é mais a definição central imposta aos membros dessas populações. A homossexualidade tornar-se-á uma característica entre outras, como o fato de ter os olhos azuis ou de gostar de futebol. Aliás, parece haver uma evolução natural neste sentido, tanto no nível individual quanto no social. Depois de uma pessoa ter aceitado bem a sua homossexualidade, essa perde, aos poucos, a sua importância e torna-se, enfim, um elemento da vida entre tantos outros. Deixa de ser o fator principal na imagem que se tem de si mesmo. O homossexual maduro, para quem a sua orientação não é mais problema, torna-se paradoxalmente “menos” homossexual: menos obcecado, menos interessado pelo mundo guei, menos 87 dispostos a socializar com desconhecidos apenas porque são da mesma orientação sexual; como os heterossexuais adultos, aos poucos, ele deixa de ver todo mundo em função da sexualidade. Neste sentido, a homossexualidade tende a desaparecer nos indivíduos, e nas sociedades, que atingiram a maturidade. A homofobia no terapeuta Enfim, analisamos o problema da homofobia no terapeuta, tanto de seu ponto de vista quanto do de seu paciente. O estranho, é que é totalmente possível que nenhum dos dois perceba essa homofobia. Sob o véu da neutralidade e de um saber supostamente especializado, o terapeuta pode pensar e dizer quase qualquer coisa no campo da homossexualidade sem nunca ser questionado. Ouvi muitos terapeutas expressarem-se sobre esse assunto não somente com a maior ignorância, mas sem se dar conta de seus preconceitos e ainda menos de sua falta de conhecimento. Escutei terapeutas confundirem homossexualidade, transexualismo e travestilidade; ter como certo que qualquer homossexual masculino teve um pai distante, certificar que a homossexualidade tem causas hormonais, e que um dia será curável como tantas outras doenças; pretender poder detectar um homossexual a léguas de distância, a partir de seu ar efeminado e seu tom de voz. Conheço um médico que, convidado para assistir um curso sobre a homossexualidade, recusou dizendo: “Eu já sei tudo que eu quero saber sobre isso”. Mas o terapeuta homofóbico não se caracteriza apenas por seus preconceitos e sua ignorância. A diferença mais importante entre um terapeuta homofóbico e um outro que não o é reside na sua interpretação da psicopatologia e nos seus critérios diagnósticos. Para o terapeuta homofóbico, o diagnóstico principal sempre será a homossexualidade: que um paciente seja deprimido, tenha uma personalidade paranóide, ou seja alcoólatra, sempre será uma conseqüência da homossexualidade. E essa será para ele o problema central. Como o vimos, os homossexuais conhecem problemas psicológicos específicos; a diferença reside em sua interpretação. Por exemplo, se um terapeuta tradicional recebe um paciente homossexual deprimido que tem dificuldades em identificar e expressar seus sentimentos, que estabelece relações curtas e instáveis, que é inseguro e parece incapaz de levar a cabo seus projetos de vida, ele poderá considerar que esse paciente sofre de uma depressão superposta a uma personalidade limítrofe (boderline), com traços esquizóides e paranóicos. Talvez ele tente, então, desenvolver nesse paciente as áreas de sua vida livres de conflito, deixando de lado sua homossexualidade e, centralizando o trabalho terapêutico nas partes “saudáveis” de sua personalidade — isto quer dizer, nas partes que não apresentam problema. Nessa ótica tradicional, de nada serve trabalhar a homossexualidade enquanto tal; seria uma perda de tempo, já que se trata de um problema sem solução. O objetivo terapêutico será, antes, ajudar a pessoa a viver a sua vida sem ser demasiadamente afetada pela homossexualidade — em uma palavra, a fazer como se ela fosse heterossexual. (Se isso parece exagerado, e provavelmente será o caso para os leitores desse livro, lembramos que muitos homossexuais passam anos em psicoterapia sem aprofundar, até mesmo sem abordar, o assunto de sua homossexualidade.). Essa abordagem é totalmente contra-indicada. O fato de isolar a homossexualidade das outras áreas da vida e tentar desenvolver essas como se aquela não existisse, só pode exacerbar a sensação de compartilhamento ou de fragmentação que já evocamos. 88 Um terapeuta sensível às particularidades da identidade homossexual nunca deixará de lado a homossexualidade: procurará, ao contrário, explorar o processo de construção dessa identidade no paciente, desde seus primeiros desejos, e experiências até a explicação e a concepção que ele tem disso atualmente. Examinará a imagem que esse paciente tem de si mesmo e a que ele mostra aos outros, e o ajudará a tomar consciência de sua homofobia interiorizada. Irá levá-lo a entender como aprendeu a negar ou a esconder seus desejos e seus sentimentos — por razões legítimas, mas a um custo elevado. Tentará desenvolver no paciente uma forma de comunicação mais pessoal e íntima, mas somente em situações sem risco e com interlocutores apropriados. Explorará com o paciente suas expectativas e seus preconceitos no que concerne à relação de casal, e lhe perguntará até que ponto ele realmente tentou manter uma relação estável, ao invés de ter se afastado toda a vez que os problemas surgiram. O objetivo em uma tal terapia não será o de separar o paciente de sua homossexualidade, mas, ao contrário, ajudá-lo a integrar essa em uma identidade completa e não mais fragmentada. Em uma palavra, trata-se de construir uma nova imagem de si que inclui a homossexualidade de uma maneira aceitável para cada indivíduo, e não para a sua família ou para a sociedade. Essa abordagem é radicalmente diferente da psicoterapia tradicional: o objetivo não é o de viver feliz apesar da homossexualidade, mas, de fato, graças à homossexualidade. Exercício para detectar e trabalhar a homofobia interiorizada, individualmente ou em terapia – Imagine o que dizem a respeito de você os heterossexuais próximos a você: colegas de classe ou de trabalho, seu patrão, etc. Segundo você, sua homossexualidade é muito importante para eles? O que eles sabem, o que eles dizem, sobre seu estilo de vida, sobre sua relação de casal, sobre sua personalidade e seus gostos? O que você gostaria que eles dissessem? – Será que você fala muito ou muito pouco da sua vida pessoal com seus conhecidos, tanto homossexuais quanto heterossexuais? Por quê? – Quando você encontra novas pessoas, que não sabem que você é homossexual, que impressão você tenta lhes passar? Você tenta esconder ou, ao contrário, revelar a sua orientação sexual, e como? – Você acha que as pessoas podem adivinhar que você é homossexual? Se sim (ou se não), por quê? – Você preferiria ser heterossexual? Se sim, ou se não, por quê? – Você já se perguntou, alguma vez, se realmente você é homossexual? Se sim, em que momentos de sua vida? – Imagine uma conversação durante a qual sua mãe comunica à sua amiga que você é homossexual. Como ela irá dizer isso? Como ela irá explicar sua homossexualidade? Faça o mesmo exercício com o seu pai, seus irmãos e irmãs, um amigo de infância. (Imaginar o que dizem os seus próximos a respeito de si mesmo é um exercício projetivo que visa revelar o que se pensa na verdade a respeito de sua homossexualidade.). – O terapeuta deve trabalhar o tema da cólera com o paciente: ela é bem dirigida e expressa? Ajudá-lo a explicitar contra quem ele sente cólera, no que concerne a sua homossexualidade: será que ele encontrou o apoio ou a compreensão que estava esperando por parte da sua família e dos seus amigos? Será que ele brigou algumas vezes com eles a respeito disso? Por que sim, ou por que não? 89 Para detectar a homofobia no terapeuta – Pergunte ao terapeuta se ele trabalhou com muitos homossexuais, e se achou neles traços comuns. Se ele responder em termos de psicopatologia, troque de terapeuta. Se ele disser que ele pode “curar” a homossexualidade (ou ao contrário, que a homossexualidade não é “curável”), saia correndo. – Pergunte ao terapeuta qual é, segundo ele, a causa da homossexualidade. Se ele disser que sabe, é porque ele não conhece as pesquisas atuais. (A melhor resposta é que existem muitas causas possíveis — ver os capítulos 2 e 3 —, mas que nada ainda foi provado de forma definitiva; Há, provavelmente, uma combinação de fatores, não uma explicação única). – Se o terapeuta disser que trabalha com os homossexuais exatamente como se eles fossem “normais”, escolha outro terapeuta. Se disser que trabalha com eles como se fossem heterossexuais, já é uma resposta mais aceitável — mas que revela, assim mesmo, certo desconhecimento do assunto. É importante se lembrar que o homossexual tem o direito de ser tratado por alguém que conheça a fundo a sua problemática, exatamente como as crianças, as pessoas de idade, os alcoólatras e outras populações ditas com necessidades especiais. Exercícios para ajudar o terapeuta e a família do homossexual a detectar a sua própria homofobia – Examine cuidadosamente suas reações ao corpo e à linguagem corporal do homossexual: o que você sente ao ver seu rosto, sua boca, suas mãos, seu modo de se vestir e de se mover? Tome consciência do conjunto de suas reações, associações e fantasias. O que eles provocam em você: repulsão, curiosidade, cólera, medo, ternura, piedade, atração? – Lembre-se de experiências ou de desejos homossexuais que você pode ter tido. Lembre-se de tudo que você sentiu e pensou. Como você interpreta isso agora? – Se você nunca teve desejos nem experiências homossexuais, pergunte a você por que. Será que foi porque você é “normal”? Porque você nunca teve a oportunidade? O que você teria sentido, pensado e feito se a ocasião tivesse aparecido? – Pergunte-se como você sabe o que você sabe a respeito da homossexualidade. Faça uma lista dos homossexuais que você conheceu, dos boatos que você ouviu, dos filmes que viu, etc. A que conclusão essas experiências te levaram a respeito da homossexualidade e de você mesmo? – Imagine que você esteja vivendo em uma sociedade na qual é preferível ser homossexual. As pessoas unem-se heterossexualmente apenas para se reproduzir. É vergonhoso ser heterossexual, e o fato de mostrar isso em sociedade é um sinal de depravação. Como você se sentiria em tal sociedade? 90 CAPÍTULO 6 O CASAL HOMOSSEXUAL EM GERAL O casal homossexual partilha muitas características do casal heterossexual. Mas, apresenta também um certo número de diferenças que tentarei agora descrever. Neste capítulo, examinarei alguns elementos comuns aos casais homossexuais masculinos e femininos: depois analisarei os dois tipos de casa de um modo mais detalhado nos capítulos seguintes. Uma razão de ser diferente A razão de ser e a significação do casal homossexual são muito diferentes das do casal heterossexual. Não existem os fundamentos jurídicos nem econômicos do casamento; é uma relação que não é reconhecida pela sociedade ou pelo Estado. Não tem como objetivo o de fundar uma família nem de formalizar uma união amorosa aos olhos da sociedade. Também não procura legitimar nem regularizar as relações sexuais. Não tem nenhum objetivo dinástico, no sentido tradicional de dar uma descendência ou de consolidar alianças econômicas ou políticas. Portanto, não tem nenhuma das funções tradicionais associadas ao casamento heterossexual. Seu principal fundamento e sua razão de ser são de ordem afetiva. Duas pessoas homossexuais que se comprometem a viver junto e a formar um casal estável o fazem unicamente porque se amam – ou se dão bem, pelo menos. O fato de que a função central do casal homossexual seja de ordem afetiva explica ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza. É em parte por isso que esse casal tem tanta dificuldade para se legitimar aos olhos da sociedade — e é também isso que lhe dá uma intensidade e uma margem de liberdade pouco freqüente no casal heterossexual. No que consiste essa liberdade? Quando duas pessoas se unem somente por razões afetivas, sua relação é de certa forma mais autêntica. Ninguém os obriga a ficar junto: não precisam manter a relação para as crianças, nem para as aparências, nem por causa de pressões familiares. Podem sempre se separar: e é isso, de fato, a principal explicação da instabilidade no casal homossexual. Não é porque os homossexuais são instáveis ou pouco maduros, como geralmente se supõe; é porque suas relações são livres de qualquer pressão social. Às vezes, separam-se aliás com demasiada facilidade, sem se esforçar como o faria um casal heterossexual para resolver seus problemas. O casal homossexual é também mais livre porque não está preso às expectativas e aos estereótipos que enquadram o casamento heterossexual. Por exemplo, a divisão forçada entre os papéis masculino e feminino, contra a qual o feminismo tanto lutou, não existe no casal homossexual — ou, com certeza, não no mesmo grau. Contudo, o casal do mesmo sexo não é também totalmente livre: como o casal heterossexual, é influenciado por fantasias, desejos e necessidades que são mais ou menos conscientes, mais ou menos comunicáveis. E, como o casal heterossexual, não é apenas formado por duas pessoas, mas por um conjunto de representações e estereótipos. Os estereótipos e a homofobia interiorizada O estereótipo que mais afeta o casal homossexual deriva da homofobia interiorizada. De fato, é “sabido” que as relações homossexuais são predestinadas ao fracasso: elas não podem ser nem estáveis, nem duráveis, nem mesmo felizes, “porque 91 os homossexuais são assim”. Ciúme, imaturidade, instabilidade, promiscuidade: eis alguns dos clichês que são aplicados ao casal homossexual de uma forma ainda bastante comum. Essa visão, que talvez refletisse uma certa realidade no passado, deve agora ser atualizada e qualificada. Em primeiro lugar, as pesquisas realizadas nos países industrializados revelam que há muito mais casais homossexuais estáveis e de longa duração do que se pensava. O problema, é que não se os via porque eles viviam na clandestinidade; hoje em dia tendem a se mostrar muito mais, e portanto, a aparecer nas pesquisas70. Em segundo lugar, certos problemas que se pensava característicos do casal homossexual são também comuns nas relações heterossexuais. A infidelidade, a falta de engajamento e um individualismo são fenômenos sociais que hoje ameaçam todos os casais. Antes, eram menos visíveis, ou tinham menos conseqüências sociais. Mas não se deve esquecer que nesse momento a metade dos casamentos nos Estados Unidos acaba em divórcio, assim como o terço dos casamentos na França. A idéia que a instabilidade do casal homossexual deriva da homossexualidade é, portanto, uma explicação falaciosa. Entretanto, não podemos negar a importância psicológica destes estereótipos, mesmo que atualmente sejam obsoletos. Ainda podem prejudicar muito, sobretudo quando os próprios homossexuais os interiorizaram. Como eles se manifestam na prática? Podem se traduzir por dúvidas ou por um certo fatalismo quanto à viabilidade do casal: quando dificuldades aparecem, é freqüentemente mais fácil para um homossexual abaixar a guarda do que fazer o esforço necessário, já que ele é convencido de que as relações gueis são sempre efêmeras. Ou pode atribuir à homossexualidade problemas que não tem nada a ver com ela, como dificuldades de comunicação. Em certos casos, negligenciará a relação e achará natural ir sozinho às reuniões familiares ou sociais, porque lhe parecerá lógico que seu parceiro não seja convidado. Ou então, rejeitará a idéia de um engajamento em longo prazo, duvidando no fundo que a relação possa ser duradoura. Quantas disputas de ordem econômica ou jurídica (em torno das despesas, do casal, da propriedade, dos testamentos) não derivam dessa dificuldade em conceber uma relação de longo prazo? Quantas coisas não são ditas, negociadas, resolvidas, por conta dessa recusa em imaginar um futuro junto? É preciso fazer aqui uma distinção: os casais homossexuais têm problemas reais que podem os desestabilizar, mas acontece a eles também de sabotarem suas relações porque não acreditam nelas. O casal invisível O problema real mais importante nos casais homossexuais, masculinos ou femininos, talvez seja o de sua invisibilidade: vivem à margem das normas sociais, sem poder se apresentar nem se expressar enquanto casal porque a sociedade não reconhece sua relação de casal, e nem mesmo aceita a sua existência. O que significa para um casal a impossibilidade de se mostrar publicamente? Para se ter uma idéia disso, basta imaginar o que seria para duas pessoas casadas saírem, irem ao restaurante ou ao cinema, visitarem suas famílias ou vizinhos, sem poderem se tocar, nem se deram a mão, nem se olharem com ternura, nem expressarem sua união conjugal de nenhuma forma. Não poderiam falar de sua vida cotidiana, nem de suas atividades comuns, nem de seus projetos de futuro, nem, claro, de sua relação. Aos poucos se acostumariam a uma certa discrição, a uma certa distância; aprenderiam a 70 John Alan Lee (1991). Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press. 92 vigiarem seus gestos, suas palavras e seus olhares. Vistos de fora, pareceriam rígidos, pouco afetuosos, estranhamento inibidos. Como o diz uma mulher de quarenta e quatro anos, que foi casada durante vinte anos antes de se engajar em uma relação homossexual: “Uma desvantagem da relação lésbica é o fator externo, o fato de ter que lutar constantemente contra um ambiente hostil: é preciso se perguntar sempre que importância lhe dar, e como fazer. É desagradável, isso vos tira uma mobilidade externa que os casais heterossexuais têm muito naturalmente”. A invisibilidade na qual tantas minorias vivem é a condição habitual do casal homossexual e o distingue. Se os homossexuais tendem a procurar a companhia de outros homossexuais, não é para organizar orgias, como muitos heterossexuais o supõem. É simplesmente a fim de poder falar de sua vida em termos normais, como todo mundo. O isolamento social do casal homossexual Uma outra dificuldade real com que o casal homossexual se defronta é o isolamento. Para começar, a maioria dos homossexuais estão mais ou menos distantes de suas famílias de origem. Claro, é também o caso para muitos heterossexuais: à medida que as pessoas crescem, tornam-se cada vez mais independentes de seus pais e de seus irmãos e irmãs. É o ciclo natural da vida. Mas os casais heterossexuais conseguem substituir de uma certa forma sua família de origem ao fundar seu próprio núcleo familiar com seus próprios filhos; continuam vivendo em um ambiente familiar que catalisa e revitaliza o casal, que lhe oferece algo para se ocupar e para ter do que falar. E se for verdade que as crianças dependem de seus pais, é também verdade que os pais precisam de seus filhos para alimentar a sua relação de casal. Isso não quer dizer que as pessoas têm filhos para preservar seu casamento, mas simplesmente que os filhos têm essa função, entre outras, no sistema familiar. Essa dimensão perde-se na relação homossexual. O universo dos pais, dos irmãos, dos filhos, que constitui a contracena de qualquer casamento desaparece. O casal deve se bastar a si mesmo. Eis a razão pela qual é indispensável que o casal homossexual cultive uma vida social, constituindo aos poucos aquilo que chamamos de uma família de eleição — isto é, uma rede de amigos que possa, se não substituir, pelo menos servir de paliativo para a ausência da família. Aonde os heterossexuais podem contar com um conjunto de suportes afetivos, econômicos e práticos, os homossexuais vivem uma série de carências. Isso se entende facilmente se examinarmos o que talvez seja o símbolo mais consagrado da relação heterossexual: o casamento. Quando um homem e uma mulher se casam, adquirem imediatamente toda uma série de apoio e de certidões que o ajudaram a existir enquanto casal. De um ponto de vista jurídico, obtêm automaticamente um conjunto de garantias legais que vão desde o INSS e os direitos de propriedade e de herança até vantagens fiscais importantes. Economicamente falando, o jovem casal recebe presentes que o ajudarão a mobiliar a sua casa e a começar a vida a dois, e que podem ser desde uma cafeteira até um carro. De um ponto de vista emocional, ao se casar os dois obtém o apoio de ambas as famílias — talvez não ilimitado, mas ainda assim estará disponível em caso de necessidade. Doravante, cada qual poderá contar não somente com sua própria família, mas também com a de seu (sua) parceiro(a). Ao oficializar sua união, o casal heterossexual entra em um mundo afetivo, familiar e social que sempre será um apoio – ou pelo menos uma presença. 93 Nada de tudo isso acontece quando duas pessoas do mesmo sexo decidem de viver junto. Devem partir do zero, freqüentemente a despeito da oposição das duas famílias. Não receberão nem presentes, nem empréstimos, nem vantagens fiscais, nem INSS. E de um ponto de vista emocional, longe de festejar publicamente sua união, em muitos casos será preciso escondê-la ou disfarçá-la. Não terão nem noivado nem festividades de casamento, nem lua-de-mel, e não receberão a visita das duas famílias para conhecer a casa. Aos poucos, tomarão consciência de todas essas coisas que fazem falta; é natural, é inevitável. E, em uma evolução também natural, procurarão ou inventar-se-ão substitutos. A família de eleição Portanto, não é surpreendente que a amizade desenvolva um papel central no mundo homossexual: os homossexuais dividem seu tempo livre com os amigos e não com a família. Visto de fora, esse fenômeno pode dar uma impressão de frivolidade ou de imaturidade: de fato, muitos heterossexuais parecem pensar que os homossexuais pulam de uma festa à outra, e que passam seu tempo a se reunir com seus amigos. Como o disse uma psicanalista: “Os homossexuais são muito gregários; procuram-se continuamente e sempre querem se reunir, como se fosse um tipo de clube social.” Evidentemente, isso é um exagero; mas, ainda que não o fosse, não se poderia esquecer o fato de que essa atividade social intensa equivale a passar o tempo com a família. E, no fim das contas, ninguém pensa em criticar os heterossexuais por passar uma boa parte de seu tempo livre com suas famílias. A amizade não é somente importante na vida dos homossexuais: muitas vezes é indispensável, como o descobriram tragicamente os doentes de AIDS. Muitos deles procuraram a ajuda de sua família e encontraram apenas críticas e rejeições. Foram obrigados a criar e desenvolver redes de apoio no cerne da comunidade guei, e de se tratar entre eles, porque ninguém mais o queria fazer. E se esta situação dramática representa um extremo, esse isolamento é partilhado, embora de uma forma atenuada, pela maioria dos homossexuais. Eis a razão pela qual é essencial que os casais homossexuais cultivam amizades, e desenvolvam na medida do possível famílias de eleição. O ciclo vital Uma outra diferença importante entre os casais homossexuais e heterossexuais é que para estes últimos a vida se divide, naturalmente, em uma série de etapas dadas tanto pela biologia quanto pela sociedade. Cada fase é inaugurada com um acontecimento maior tal qual os noivados, o casamento, a lua-de-mel, a compra de uma casa, o nascimento das crianças, etc. Dois jovens se casam, fundam um lar e tem filhos; depois esses crescem e vão embora, e criam, por sua vez, uma família. Vem, depois, a terceira idade, e depois a morte, em um ciclo vital que se desenvolve quase automaticamente. Todas essas etapas servem para pontuar a vida: dão uma ordem e um ritmo ao ciclo vital no plano pessoal, familiar e social. E cada acontecimento-referência reflete a inserção social do casal: é celebrado como um fato maior que não concerne apenas a dois indivíduos, mas à sociedade como um todo. Pois os acontecimentos importantes na vida de um casal heterossexual são também atos públicos. A cada passo, há uma ratificação do caráter social da relação. E a cada etapa, existem redes de apoio para o casal: a família, os amigos, as escolas, as leis e a cultura em geral encorajam a continuidade no ciclo vital do casal. Além do mais, cada acontecimento-referência tem regras pré-estabelecidas: todo mundo sabe o que significa 94 uma festa de noivados ou um casamento, e como se comportar nelas; sabe-se como é preciso reagir, o que é preciso dizer, e até mesmo sentir. De modo figurado, poderíamos dizer que o casal que começa a vida a dois recebe, desde o início, um manual de utilização completo. Não é o caso para o casal homossexual, para o qual não existem acontecimentosreferência, nem ratificação social, nem apoios, nem manual de utilização. Por isso a idéia, cada vez mais comum no mundo industrializado de inventar equivalentes para isso. A luta dos homossexuais em certos países para obter o direito de se casar, de ter ou de adotar filhos e toda uma série de garantias jurídicas e sociais, não é apenas uma questão de direitos civis. É também um esforço para entrar no projeto de vida, no ciclo vital, da sociedade em seu conjunto. A dimensão do futuro Pois todos os casais têm necessidade de um projeto de vida, de uma projeção em direção ao futuro que une as duas pessoas além do momento presente. Poderíamos dizer que as relações precisam não somente de um espaço, mas também de um tempo que lhes pertença: um lugar, mas também um futuro partilhado. Isso é quase automático na relação heterossexual. Em contrapartida, o casal homossexual não tem projeção em direção ao futuro: é um órfão da temporalidade. Em muitos casos, é apenas instalado no presente e nas vicissitudes da vida cotidiana. O contrato não diz “até que a morte nos separe”, mas simplesmente: “por quanto nos sintamos bem juntos”. Ora, qualquer relação que está ancorada só na vida cotidiana é necessariamente frágil; por falta de engajamento tende a se dissolver. Quando a lua-de-mel está próxima ao fim, a relação também. Portanto, um casal que não tem a visão do futuro dada pelo casamento e pelos filhos deve inventá-la de uma outra forma. É assim que vemos, freqüentemente os casais homossexuais estáveis formarem projetos de trabalho, sociedade em comum. Essa situação, que não é muito freqüente nem talvez recomendável para os casais heterossexuais por causa dos conflitos familiares que dela pode resultar, não é uma má opção para os casais homossexuais. Qualquer projeto em comum necessita diálogo, paciência e perseverança — elementos que o casal heterossexual aprende e pratica todos os dias (mais ou menos) graças aos filhos. Podem não estar de acordo, mas, no final das contas, o casal é obrigado a se aliar, pois o cuidado dos filhos o exige. Esse processo, pelo qual as duas pessoas aprendem a se entender em torno de um projeto em comum, serve para sedimentar sua relação através dos anos; é o que faz amadurecer um casal. Nas relações homossexuais, é preciso outra coisa. O único equivalente viável (a não ser que se adote filhos) é um projeto em comum de longo prazo. O fato de se divertir junto não é suficiente; quando o casal deixa de se divertir por uma razão ou outra, tende a se dissolver. Os casais homossexuais, portanto, têm interesse em pensar no futuro, quando a euforia inicial começa a declinar. A semelhança… Além dessas diferenças no ciclo vital, a relação homossexual apresenta também uma estrutura e dinâmicas específicas. Em primeiro lugar, há o fato inegável da semelhança. Em um casal heterossexual, as duas pessoas são visivelmente diferentes uma da outra, e receberão, além de tudo uma socialização distinta desde o início. Não somente não se parecem do ponto de vista física, mas também tem maneiras divergentes de pensar, de sentir e de falar. Os homens e as mulheres têm modos específicos de se 95 expressar, de ver o mundo, e de formar relações, como os mostraram vários autores71. Em razão de tudo isso, os homens e as mulheres sabem de antemão (ou aprendem) que devem fazer um certo esforço para se compreender mutuamente. Aprendem a respeitar suas diferenças e serem pacientes, mesmo quando não estão de acordo. No casal homossexual o outro é parecido desde o início — e é fácil pensar que ele vê as coisas da mesma forma. Observa-se no casal freqüentemente uma certa ausência de diferenciação: Um “sabe” o que o outro pensa, adivinha o que vai dizer e, o conhece melhor do que a si mesmo. Nos casais do mesmo sexo, às vezes, um acaba as frases do outro ou fala no seu lugar. Existe uma tendência natural em supor que ele terá os mesmos gostos, necessidades ou desejos. Isso pode dar margem à expectativas telepáticas pouco realistas e a uma certa recusa da diferença. Como o descreve uma lésbica: “Às vezes, não nos demos conta daquilo que se exige. Há uma tal identificação, uma tal comunicação, a outra é tão parecida, que às vezes nos irritamos quando ela não tem a mesma reação. Por que ela não pensa igual? Por que ela não sente as coisas do mesmo modo? Por que ela não me entende?” Essa ausência de diferenciação freqüentemente foi interpretada como um fenômeno patológico: alguns autores na psicanálise, em particular, viram aí as conseqüências naturais de um narcisismo suposto dos homossexuais e de sua eterna imaturidade. Mas enquanto os homossexuais seriam incapazes de individuações em todas as áreas da vida, e narcisistas em suas relações interpessoais — o que não é o caso. É o que mostraram os inúmeros estudos psicológicos que tentaram encontrar uma diferença na saúde mental ou na estrutura da personalidade dos homossexuais… e que nunca conseguiram isso, como foi dito no capítulo 1. Então, essa indiferenciação reflete uma dinâmica de casal mais do que uma psicopatologia individual. A distinção é importante, como ela pode sê-lo quando examinemos o funcionamento do casal heterossexual. Por exemplo, uma mulher pode se mostrar infantil, dependente e submissa quando está com o seu marido, enquanto ela é forte, competente e independente longe de sua presença. Será que se trata então de uma patologia pessoal, ou de uma dinâmica de casal? Mesmo que a resposta não seja evidente, está claro que é preciso levar em consideração as duas hipóteses, e não apenas a da patologia pessoal. Dito isso, não há nenhuma dúvida de que a indiferenciação é um dos riscos mais importantes da relação homossexual — exatamente como o seu contrário (a falta de comunicação) é uma das dificuldades mais freqüentes no casal heterossexual. Isso não significa, contudo, que a relação seja fadado ao fracasso — nem em um caso nem em outro. É simplesmente uma dinâmica à qual é preciso ter cuidado. O casal heterossexual deve fazer um esforço para se aproximar e o casal homossexual deve fazer um esforço para se diferenciar, em especial deve estar muito atento às pressuposições e à “telepatia!”. Isso se aplica à comunicação, aos gostos, à maneira de pensar e de sentir das duas pessoas. Mas os problemas podem também surgir no campo sexual. Se eu sou uma mulher e durmo com outra mulher é fácil eu supor que essa terá a mesma sensibilidade erótica do que eu; no final das contas, nós não temos a mesma anatomia? Mas as coisas não se passam assim na realidade. Cada indivíduo tem um erotismo próprio que se desenvolveu nele desde sua infância. Esse erotismo depende do contato físico que teve com seus pais, seus irmãos e suas irmãs, da maneira com a qual sua família expressava o amor ou a agressão, daquilo que ele pôde observar na relação entre seus pais e de suas próprias experiências 71 Ver, por exemplo, Deborah Tannen (1990). You just don’t understand. New York, Ballantine Books. 96 anteriores no campo sexual. Cada corpo tem sua própria arqueologia do desejo e da sexualidade. Portanto, não existe uma sensualidade feminina ou masculina que seja genérica ou generalizável. Tal mulher poderá quase ter um orgasmo quando for acariciada nos seios e outra não sentirá nada. Uma mulher poderá desejar a penetração vaginal, e a outra não. Uma poderá amar o sexo oral, e a outra não. Da mesma foram, certos homens desejam ser penetrados analmente e outros não. Cada corpo tem sua sensibilidade, seu ritmo, e até mesmo seu modo particular de expressar o desejo e o prazer sexuais. Portanto, nada podemos supor nesse domínio; e aqui também, as duas pessoas devem se dar a permissão de explicitar suas diferenças. Na relação homossexual, é bom ser próximos, mas não idênticos. … E a diferença Uma dinâmica comum mas pouco estudada no casal homossexual é a da rivalidade, que pode ser mais ou menos visível, mais ou menos consciente. Poderíamos pensar que há uma certa rivalidade em todas as relações amorosas, mas isso não é necessariamente o caso. Por exemplo, um homem e uma mulher não vão pensar em se comparar no domínio físico: não se perguntarão qual é o mais bonito, nem o mais musculoso, nem o mais musculoso, nem o que está mais bem vestido, nem o mais sexy. Também não tenderão a se medir em relação ao gênero — qual dos dois é mais masculino ou feminino — pois essas diferenças são dadas pela biologia. Da mesma forma, no campo do trabalho, é “normal” que o homem tenha mais sucesso e ganhe mais dinheiro (problemas surgem somente quando a mulher ganha mais ou tem uma posição superior; nesse caso, pode existir uma certa rivalidade.) Existem entre os homens e as mulheres uma série de diferenças biológicas, culturais e sociais, que são ou parecem ser “naturais”. Portanto, há em geral no casal heterossexual um acordo implícito sobre qual dos dois é mais forte ou mais competente em tal ou tal domínio da vida. É “normal” que o homem seja talentoso para certas coisas e a mulher para outras. Isso dá espaço para uma divisão do trabalho que é bastante difundida no mundo atual segundo a qual, por exemplo, o homem trata dos aspectos práticos da vida em casal e a mulher dos seus aspectos pessoais e afetivos. Em geral, o casal heterossexual funciona na complementaridade mais do que na rivalidade. Isso não é o caso na relação homossexual, na qual a similaridade biológica torna possível todo o tipo de comparações. A semelhança favorece à competição, consciente ou não. Ora, de duas pessoas, sempre há uma que é mais atraente ou sedutora, mais forte ou sã, mais rica ou reconhecida. Como o expressa uma lésbica de quarenta e dois anos: “Acho que há uma competição bastante importante. Nós somos duas mulheres, afinal de contas, e sempre a gente se pergunta quem é a mais magra ou a mais bonita.” Por outro lado, as duas pessoas em questão não são as únicas a se compararem: seus amigos e pais pensarão (e dirão): “Essa é mais bonita do que a outra”, ou “Ele é o mais efeminado”, ou “Parece que é ele quem ganha mais dinheiro”. Tudo isso pode estimular ciúmes e ressentimentos que afetam necessariamente a comunicação e a solidariedade no casal. Além do mais, vê-se com bastante freqüência casais homossexuais formados por duas pessoas muito diferentes do ponto de vista social, econômico e profissional. Isso implica sempre uma certa assimetria que pode, por sua vez, promover inveja e rivalidade. A diferença de idade entre os dois membros de um casal homossexual conta muito mais do que no mundo heterossexual. Que um homem tenha quinze anos a mais do que sua mulher não chega a ser um grande problema precisamente porque não há 97 comparação entre eles; mas, se ele tiver quinze anos a mais do que seu parceiro masculino, a comparação é inevitável. É difícil reconhecer esse tipo de dinâmica quando se está envolvido. Aliás, muitas vezes se pensa que não deveria haver rivalidade, nem desigualdade, nem conflitos de poder, entre dois amantes. Entretanto, eles existem. Quantos problemas dos casais homossexuais não se devem a esta tendência para a comparação? Quantos sentimentos de inferioridade ou de superioridade, de insegurança, de frustração ou até mesmo de ódio, não derivam, de fato, de uma rivalidade escondida? É indispensável para o sucesso do casal que suas duas partes possam reconhecer suas forças e suas fraquezas respectivas. No casal formado por duas pessoas do mesmo sexo, é inevitável que uma seja mais forte em certos domínios, e a segunda em outros; e é melhor assumir esta realidade do que tentar aparar as arestas, como freqüentemente têm tendência a fazê-lo. Em termos simplistas, é muito mais são admitir que um dos dois maneja melhor o cortador de grama, se é igualmente reconhecido que o outro maneja melhor o computador. A divisão do trabalho na relação, bem explicitada e negociada, pode ajudar a neutralizar os efeitos negativos da rivalidade. Inveja e ciúmes Um outro problema freqüente dos casais homossexuais é o do ciúmes. Claro, esse pode surgir em qualquer relação humana — mas aqui há um elemento complicador que geralmente não é reconhecido como tal: a inveja. No casal guei, uma coisa é quando outros homens olham meu parceiro e tentam seduzi-lo — o que pode muito naturalmente me tornar ciumento. Mas, uma outra coisa é quando eu me pergunto por que é ele que as pessoas estão olhando e não a mim; isso provocará em mim, não somente ciúmes, mas inveja. Podemos, portanto, supor que aonde encontramos ciúmes em uma relação homossexual, encontraremos também inveja. Mas essa geralmente não é assumida, porque não se tem o costume de pensar nesses termos e é extremamente humilhante reconhecer que não se é apenas ciumento, mas também invejoso. Ora, é importante fazer e explicitar a distinção. O ciúme é muito menos perigoso quando se consegue detectar e assumir seu componente de simples inveja — e trabalhá-lo enquanto tal. “Mas” e “menos” homossexual Às vezes acontece na relação homossexual que um dos dois considere que o outro é o “verdadeiro” homossexual. Em muitos casos, parece existir um acordo tácito acerca de quem é “mais” e quem é “menos” homossexual, classificação que pode parecer absurda à primeira vista. Várias explicações são possíveis. Uma primeira, aplicável tanto aos casais masculinos quanto femininos, é que uma das duas pessoas se identifica como homossexual “desde sempre”, enquanto a outra está vivendo sua primeira relação homoerótica, ou simplesmente é mais jovem. Pode também ter aí outras explicações, diferenciadas conforme o gênero. No casal masculino, pode haver uma distinção segundo os papéis sexuais: o homem ativo é “menos” homossexual, enquanto o passivo é mais — porque o fato de ser penetrado o assimila ao sexo feminino e torna-o um “verdadeiro” homossexual. De acordo o meio social e cultural, pode haver outros critérios de definição. Muitos homens consideram que o ato sexual em si não os tornam homossexuais — mas os sentimentos amorosos sim. Os beijos, as carícias, a ternura são “coisas de mulheres” que marcam um limite entre homossexualidade e heterossexualidade. Então, aquele que sente e expressa 98 amor é homossexual; o outro, que recebe afeição mas não a retribui, não o é. E mesmo que os dois homens reconheçam o caráter homossexual de sua relação, acontece que um acha isso natural enquanto o outro considera que é uma coisa passageira que ele faz por necessidade, por interesse, ou enquanto espera encontrar uma mulher. Do mesmo modo, um pode desenvolver um papel “masculino” e, portanto, se achar “menos” homossexual, enquanto o outro, mais “feminino” é evidentemente “mais” homossexual. Portanto, há nos homens vários critérios possíveis para estabelecer o que constitua ou não uma relação homossexual. Esses critérios derivam ou de certos estereótipos de gênero, ou das práticas sexuais de cada um, ou do grau de homofobia interiorizada. Mas em todos os casos, essa distinção entre “mais” e “menos” homossexual mina a relação. É como se o “menos” homossexual não conseguisse integrar realmente o casal: sempre está de passagem. Tenderá à se engajar menos, fará menos esforços para cultivar a relação, não se sentirá responsável por ela, e acusará o parceiro “mais” homossexual pelos problemas que poderão surgir na relação. E é geralmente ele acabará com ela. Essa distinção é menos perceptível nas mulheres. Em primeiro lugar, a divisão dos papéis sexuais não é tão freqüente na relação lésbica, já que a penetração desenvolve um papel menos central. Claro, certas lésbicas gostam de ser penetradas (com a mão ou um objeto), e outras não — mas nem por isso elas se consideram “mais” ou “menos” homossexuais. Contudo, existem outros critérios: uma das duas parceiras pode ser mais “masculina” e se sentir “mais” homossexual, enquanto aquela que é mais “feminina” se vê como “menos” homossexual. Essa diferença será traduzida menos por práticas sexuais diferentes do que pela aparência física: roupas, linguagem corporal, e atitudes tipicamente “masculinas” ou “femininas”. São então certos estereótipos que determinam qual é a “mais” ou “menos” homossexual no casal. Quaisquer que sejam os critérios, em todas as relações onde encontramos essa “distribuição” desigual da homossexualidade, encontraremos sempre na pessoa “menos” homossexual homofobia interiorizada e projeção: uma das duas pessoas achará mais difícil aceitar sua homossexualidade, e portanto a projetará na outra. É isso que às vezes permite dizer coisas assim: “A lésbica, não sou eu, é ela”. É natural que tenha em cada casal uma pessoa mais velha, ou que tenha mais experiência homossexual, ou que aceita melhor a sua orientação. É ela que adotará o papel de “verdadeira” homossexual. A outra, sobretudo se for sua primeira relação dessa natureza, poderá até mesmo se dizer que, se ela é homossexual é por causa de sua parceira. Tenderá a acusar a “verdadeira” homossexual pelos problemas que aparecem na relação, ou mesmo pelas suas próprias dificuldades na vida. É nesse momento que aparecem frases do tipo: “Se eu não tivesse te conhecido, eu estaria tranqüilamente casada, teria filhos, e levaria uma vida normal.” Esse raciocínio se nutre, além do mais, de uma certa concepção das causas da homossexualidade. Muitas pessoas pensam, de fato, que não se torna homossexual por si mesmo, mas porque se é iniciado, ou induzido, por outra pessoa. A história clássica, em sua versão masculina, desenvolve-se da seguinte forma: um jovem adolescente cai nas mãos de um homossexual mais velho do que ele, que o violenta, compra seus favores, o chantageia, condenando-o, assim, à homossexualidade. Na versão feminina, a moça mais nova é encantada com uma mulher mais velha que se aproveita de sua inocência ou de sua solidão para desviá-la de seu destino original. Essa visão tragicômica de uma homossexualidade que seria transmitida como uma doença infecciosa é ainda bastante difundida tanto nos homossexuais quanto nos heterossexuais. Uma de suas conseqüências é precisamente a idéia segundo a qual há sempre em um casal uma pessoa “mais” homossexual que perverte aquela que o é “menos”. Essa distribuição da homossexualidade pode minar seriamente a relação, pois implica também em uma distribuição desigual e injusta da responsabilidade, engajamento 99 e do trabalho no casal. Ela pode parecer objetiva, já que haverá sempre uma pessoa que aceitará melhor a sua homossexualidade; contudo é preciso ver aí uma manifestação da homofobia interiorizada. Pois, no final das contas, não pode haver apenas um homossexual em uma relação homossexual: quaisquer que sejam os critérios, sempre serão dois. Mas o que eles têm em comum? Um problema análogo surge quando duas pessoas estabelecem uma relação somente porque elas têm a mesma orientação sexual. Alguém jovem, que conhece poucos homossexuais, pode muito facilmente se apaixonar por uma pessoa com a qual ele não tem nada em comum. Muitos homossexuais têm em sua juventude relações desse tipo, superficiais e, contudo, muito dolorosas; aposta-se toda a sua paixão e toda a sua esperança, faz-se qualquer coisa para preservá-la, para gritar, no final, como Swann: “Dizer que perdi anos de minha vida, que quis morrer, que eu tive meu maior amor, para uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo!” Infelizmente, exceto nas grandes cidades européias ou americanas, é tão difícil encontrar homossexuais no contexto da sociedade heterossexual que muitas pessoas freqüentam lugares gueis especializados. O problema, é que a maioria desses lugares, sobretudo os bares, reúnem um grande número de pessoas que não têm absolutamente nada em comum fora a sua orientação sexual. Isso dá margem à relações superficiais e, geralmente, efêmeras. Mais ou menos saído do armário Muito freqüentemente, um dos dois membros de um casal homossexual é mais aberto do que o outro no que concerne à sua homossexualidade. Por exemplo: de um lado, a família está sabendo e do outro não; os amigos e os colegas de um conhecem a relação, enquanto o outro a dissimula. E se toda a relação clandestina é difícil, ela é muito mais quando esta clandestinidade não é partilhada. Ao invés de serem aliadas, as duas pessoas encontram-se em uma situação antagônica que tenderá a separá-las. Em geral, a pessoa que está ainda “no armário” procura se esconder ou disfarçar a relação frente à sua família e à sociedade. O Tempo todo, ela precisa inventar novas artimanhas para apresentar o seu parceiro, falar dele ou o incluir nas atividades familiares ou sociais, sem nunca revelar a verdadeira natureza de sua relação. Uma jovem lésbica conta: “Eu sempre levava minha parceira nas festas familiares nas quais a apresentava como uma colega de escola. Um dia, minha mãe me pegou de lado e me disse que essas reuniões eram somente para a família, isto é, meus pais e meus irmãos – com, claro, suas respectivas esposas. Então, não levei mais minha parceira, e aos poucos deixei de participar das atividades da família.” Por sua vez, a pessoa que se assume melhor pode legitimamente se sentir excluída, ou se cansar da clandestinidade que lhe é imposta em nome das aparências. Nesse tipo de situação, as regras do jogo são estabelecidas por aquela que deve manter o segredo: é ela que decide onde, quando e como o casal se encontra, com quem mantêm relações, e a quem se confia. Aquela que deve obedecer a todas essas disposições chega às vezes a se interrogar: “Se você me amasse de verdade, não teria vergonha de nossa relação.” A pessoa que tenta dissimular a relação e encontrar um equilíbrio entre sua família e o seu parceiro, freqüentemente se sente também não compreendida e dividida. É obrigada a visitar a sua família ou passar as férias com ela; mas deve deixar seu parceiro 100 para fazê-lo. Ela se sente culpada por isso, mas não quer perder a aceitação de sua família. Se seu parceiro a repreende por isso, ela se sentirá duplamente sozinha e presa em um dilema sem solução. Nesses casos, é indispensável que cada um respeite a situação familiar e social do outro. Cada pessoa tem sua própria história, e essa não pode ser mudada por decreto. Nem todo mundo pode se encontrar na mesma etapa da vida, nem assumir do mesmo modo sua homossexualidade, nem ter o mesmo grau de autonomia em relação à sua família ou à sociedade. Nem todos os homossexuais podem sair da clandestinidade, muito menos ao mesmo tempo, e muito menos ainda por obrigação. Não deve existir imposições nessa área, e a concordância nem sempre é possível. A solução adotada por muitos casais é simplesmente a de se instalar longe de suas famílias, em cidades grandes onde terão menos problemas. Claro, isso nem sempre é possível. Esse tipo de mobilidade é muito mais fácil nos países industrializados, onde os jovens deixam o lar familiar relativamente cedo e podem se deslocar com maior facilidade. A forte concentração de homossexuais em cidades como São Francisco ou Nova Iorque, se deve sem dúvida, em parte, ao afluxo de jovens que querem viver livremente sua orientação, longe de suas famílias de origem. Todos esses problemas são mais ou menos inerentes à relação homossexual e exigem uma atenção constante. Por conta deles, muitos casais se separam, às vezes sem se darem conta de que se trata de dinâmicas de relação e não de defeitos pessoais. A tendência natural é a de se dizer: “Não faz meu tipo”, ou ainda: “Essa relação não está funcionando”, sem entender que essas dinâmicas tendem à se repetir caso não sejam devidamente entendidas e resolvidas. O que complica as coisas, é o fato de não estarmos acostumados a considerar a especificidade da relação homossexual; tentamos, antes, transpor nela as dinâmicas do modelo heterossexual. Muitos homossexuais (e seus terapeutas) baseiam-se em “receitas” próprias do casal heterossexual. Ora, esse tem uma estrutura, razões de ser e dinâmicas muito diferentes, não aplicáveis à relação homossexual. Os pontos fortes da relação homossexual Em contrapartida, o casal homossexual dispõe de recursos importantes que são pouco encontrados no casal heterossexual. Entre outros, oferecem uma liberdade individual, uma comunicação e uma solidariedade muito particulares. Muitos heterossexuais (sobretudo as mulheres) devem renunciar a um certo desabrochar ao se casarem: as imposições afetivas, econômicas e sociais limitam sua liberdade de movimento e suas possibilidades de estudar, de trabalhar, ou de manter atividades fora da família. Os homossexuais são muito mais disponíveis. Assim, uma grande diferença entre seus casais e os dos heterossexuais reside no seu acesso ao tempo livre. E isso representa um potencial de amadurecimento e de desenvolvimento pessoal (por exemplo, acadêmico ou profissional) que é mais frágil na relação heterossexual (sobretudo, repito, para as mulheres). Sem dúvida é isso que explica a sensação de ser “muito mais eles mesmos” descrita pelos homossexuais quando comparam a sua experiência atual com as relações heterossexuais que tiveram antes. Como conta uma lésbica de 50 anos, que foi casada durante 20 anos: “Na relação homossexual, há muito mais espaço para si. Em minhas relações heterossexuais, sem dúvida, eu era muito valorizada, mas não me viam como a pessoa que eu sou de verdade. Havia um acordo implícito entre o meu marido e eu; era preciso que eu amputasse partes de mim mesma para que a relação funcionasse bem. 101 Agora, eu consegui retomar atividades e interesses que eu tinha abandonado durante muito tempo.” Essa sensação de liberdade, de poder ser si mesmo, tem muito a ver com o estilo de comunicação mais aberto. O que isso significa? Todos os casais, homossexuais ou heterossexuais mantêm uma comunicação contínua — mesmo quando eles não se dirigem a palavra. Por definição, qualquer interação entre duas pessoas é uma forma de comunicação, e segue regras que são próprias à sua relação específica. Assim, o filho se dirige para seu pai segundo certas normas que regem onde, quando, e como ele pode falar com ele, e a respeito do quê; mas ele segue outras regras com sua mãe, e outras ainda com os seus professores, vizinhos ou amigos. Desde a infância, aprendemos a nos dirigir a muitas pessoas de acordo com normas que refletem relações de parentesco, o grau de intimidade, e a hierarquia que existe em cada caso. Em especial, existe toda uma série de regras que governam as relações entre os dois sexos. A relação entre os homens e as mulheres — amorosa, erótica, amigável, profissional ou familiar — é sujeitada a modelos de comunicação que limitam extremamente as possibilidades de uma amizade ou de uma intimidade real. Essas regras implícitas estipulam que o homem deve ser ouvido quando fala de si mesmo, mas não a mulher; que ele pode interromper sua mulher, mas não deve ser interrompido; que é ele quem decide de que assunto se pode discutir; e que sua mulher deve ouvi-lo atentamente e de maneira respeitosa. Eis, então, inúmeras barreiras que inibem seriamente a comunicação entre os dois sexos. Aliás, os jogos da sedução e do poder, assim como diferenças psicológicas importantes, fazem com que as relações entre homens e mulheres sejam freqüentemente rígidas e superficiais. Muitos casais heterossexuais, sobretudo se estiverem juntos há muito tempo, são prisioneiros de estereótipos desse tipo — mesmo, muitas vezes, sem querê-lo. Não é por acaso que os homens têm geralmente outros homens como melhores amigos, e as mulheres outras mulheres. O casal homossexual é muito mais livre: não está preso ao modelo de comunicação homem-mulher que limita tanto a intimidade no casal heterossexual. Como explica uma lésbica de quarenta e quatro anos, que foi heterossexual em sua juventude: “Eu posso sentir prazer tanto em uma relação sexual com um homem quanto com uma mulher. Mas eu escolhi tê-las com as mulheres muito cedo, por razões afetivas. É muito mais fácil viver com uma mulher. De início, eu me sentia mais próxima dos homens; desde a minha infância, eu preferia brincar com os meninos. Durante a minha adolescência, eu ficava o tempo todo com eles; suas atividades e sua companhia me pareciam muito mais interessantes, porque eles são mais livres. Mas um problema sempre voltava: assim que eu começava a sair com um rapaz, a relação mudava. De repente, não havia mais amizade. Via-me relegada ao estatuto de namorada, enquanto eles continuavam saindo com os seus amigos. Então, ganhava uma relação sexual, mas perdia a amizade e a camaradagem. Com as mulheres, a relação sexual é do mesmo modo satisfatória, e além disso eu posso ter o resto: posso ter sexo e amizade. As mulheres não deixam você em casa quando saem para se divertir com as amigas.” Uma outra modalidade de comunicação Muitos homossexuais encontram em suas relações de casal uma franqueza e uma camaradagem que são raras nas relações heterossexuais. Muitas vezes acontece que dois amantes homossexuais sejam também os melhores amigos entre si — o que tem vantagens e desvantagens. Por um lado, essa amizade intensa cria laços mais íntimos, igualitários e solidários; mas, por outro lado, pode dar lugar a uma dependência e a um 102 isolamento excessivos. As duas pessoas se bastam uma a outra, e satisfazem a maioria de suas necessidades afetivas na relação de casal. O casal homossexual se distingue também pela equidade e a reciprocidade na relação. Claro, sempre há assimetrias no poder, como em todas as relações humanas. Mas não são dadas pelos papéis masculinos e femininos, como no casal heterossexual. As desigualdades de poder não provêm do gênero, mas de diferenças mais “reais” como a idade, o temperamento, ou o nível social. Isso é evidente, sobretudo, entre as mulheres que, na maioria das vezes, ocupam uma posição de fragilidade no casal heterossexual. Quando elas constituem uma relação amorosa com uma outra mulher, elas descobrem uma igualdade, um respeito e uma reciprocidade, que não conheciam. Mas os homens também percebem e apreciam essa diferença entre as relações homossexuais e heterossexuais. Como diz um homossexual: “Não gostaria de me responsabilizar por uma mulher que dependesse de mim. É quase sempre impossível ter uma relação de igualdade com uma mulher, e agora estou acostumado com uma transparência e uma franqueza que eu não teria se eu fosse heterossexual.” Sexo, amor e amizade O papel central da amizade no mundo homossexual pode também trazer problemas. A liberdade de explorar modalidades diferentes de relação, sem as imposições da heterossexualidade, pode dar lugar a uma grande confusão. Em particular, os limites entre sexo, amor e amizade não são nem um pouco claros no mundo homossexual — o que permite uma grande criatividade, mas também muitos desentendimentos. Em outras palavras, os heterossexuais fazem distinções muito nítidas entre esposos, amantes, amigos e família. Muito cedo, aprendem as regras que governam cada tipo de relação e se acostumam a distinguir os sentimentos que correspondem a cada uma dela. Assim, eles não mantém (geralmente) relações sexuais com seus amigos nem com sua família. Nada disso acontece com os homossexuais, em muitos casos. Tanto as mulheres quanto os homens têm, às vezes, relações sexuais com os seus amigos (ou os parceiros de seus amigos), inclusive aqueles que eles consideram como a sua “família”. Até mesmo se falou de um sumiço do tabu do incesto na cultura guei, sobretudo a masculina: é “normal” que dois melhores amigos, que se amam como irmãos, tenham entre eles contatos sexuais esporádicos72. Nesse contexto de pós-liberação guei, a relação erótica tem um sentido muito diferente daquele que existe entre os homens e as mulheres. Não é necessariamente um sinal de amor, nem de intimidade, nem de engajamento. A relação sexual pode ser um modo de se conhecer, de aprofundar uma amizade, ou de passar um bom momento entre amigos. Ela tem um sentido lúdico e uma dimensão de camaradagem que não tem paralelo nas relações heterossexuais. Claro, comporta também riscos importantes, tanto físicos quanto psicológicos. Essa categoria da amizade erótica (ou do sexo amigável) se generalizou, sobretudo, entre os homens, para quem a sexualidade não está necessariamente ligada a uma intimidade emocional. O movimento de liberação guei abriu para eles um conjunto de modalidades sexuais e afetivas que parecem coincidir com os seus desejos e suas necessidades. As coisas não se deram assim tão bem para as mulheres. As lésbicas usufruem, hoje, de uma liberdade sexual que as mulheres nunca haviam conhecido antes. Nisso elas são muito mais libertas do que as heterossexuais, porque podem ter relações 72 Ver John De Cecco (ed.) (1988). Introduction. In: Gay relationships, New York, Harrington Park Press. 103 eróticas inteiramente livres de qualquer obrigação jurídica ou emocional, e sem temer gravidez e nem doenças sexualmente transmissíveis. Mas essa liberdade parece provocar muitos problemas. É possível que ela seja ainda muito nova, ou que as mulheres não tenham ainda aprendido, como os homens, a dissociar a sexualidade do amor — mas o novo sistema não parece funcionar tão bem para elas. As relações sexuais entre amigos, o casal aberto, os jogos eróticos em grupo, coisas que não são problemas para os homens, tendem a provocar conflitos quando acontecem entre lésbicas. É fácil atribuir os dramas, o ciúmes, as paixões intensas e as rupturas abruptas, que são tão freqüentes entre as lésbicas, a uma falta de maturidade psicológica. Acredito que esses problemas surgem, em parte, porque as mulheres não têm ainda o costume da liberdade afetiva e sexual da qual elas experimentam entre elas; e isso produz uma certa confusão dos sentimentos e das condutas. Assim, elas se acham apaixonadas quando não o estão de verdade, tornam-se ciumentas sem razão, e tentam se impor esquemas tradicionais que não têm nada a ver com elas. Penso que isso acontece sobretudo quando as mulheres tentam adotar atitudes “masculinas” que são mais próximas da conquista e da possessão do que de uma autêntica intimidade. A liberdade sexual parece ter um custo muito elevado para as mulheres — não porque elas são menos maduras ou “razoáveis” do que os homens, mas porque os homens têm muito mais experiência nesse campo. A possibilidade de escolher o seu parceiro e seu estilo de vida é tão nova que as mulheres ainda não desenvolveram regras de jogo viáveis. Não é à toa que os casais homossexuais femininos se assemelham mais ao modelo do casamento heterossexual do que os masculinos, como veremos no próximo capítulo. As definições tradicionais do sexo, do amor e da amizade mudaram muito desde a liberação guei, embora com melhores resultados para os homens. Os limites entre essas diferentes modalidades não são tão claros em comparação há apenas vinte anos atrás. A homossexualidade contemporânea modificou o mapa das relações humanas, deixando aparecer continentes até então desconhecidos. Em particular, a amizade substituiu a família em muitos casos; e, sobretudo entre os homens, às vezes, ela tem uma dimensão sexual. Ocorre, freqüentemente, que examantes homossexuais, homens ou mulheres, permaneçam amigos — fato menos habitual no mundo heterossexual. Quando um casal heterossexual se separa, as duas pessoas, em geral, não têm mais nada para se dizerem, enquanto os homossexuais fazem a transição mais facilmente entre as duas modalidades de relação. Na mesma lógica, os amigos tornam-se ocasionalmente amantes. A amizade entre homens e mulheres Um fenômeno interessante no universo guei, e que é raro entre os heterossexuais, é a amizade entre homens e mulheres. Os homossexuais, em particular, desenvolvem muitas vezes ligações profundas e devotadas com as mulheres, qualquer que seja a sua orientação. Isso pode parecer estranho. Os homossexuais, supostamente, odeiam ou têm medo das mulheres, enquanto, em muitos casos, sentem e manifestam em relação a elas uma afeição e uma consideração que se nota raramente entre os heterossexuais. A amizade entre os dois sexos sempre foi difícil. Os parâmetros da relação heterossexual raramente permitiram uma aproximação amigável; o contato entre homens e mulheres se desenvolve, na maioria das vezes, sob o signo da sedução, da possessão e do poder. A homossexualidade contemporânea, oriunda da revolução sexual, da liberação guei e do feminismo, está mudando esses modelos rígidos. A partir do momento em que 104 não há mais jogos de poder e de sedução, porque o homossexual não está preso à dinâmica da conquista, um entendimento muito diferente torna-se possível. Claro, muitos homens homossexuais e heterossexuais ainda são misóginos — mas é seu machismo que está em causa e não a sua orientação sexual. É possível que os homossexuais que se aproximam das mulheres tenham, eles mesmos, uma sensibilidade mais “feminina”. Mas isso prova, de fato, que os papéis estão mudando: graças à enorme evolução social dos últimos decênios, os homens podem se permitir serem mais femininos, e as mulheres mais masculinas — abrindo, assim, novas possibilidades de aproximação. O que conta, no fundo, é a dissolução dos papéis, o apagamento das definições, e a descoberta de novas formas de relação entre os seres humanos. A comunicação e a afeição que observamos entre os homens e as mulheres na cultura guei são apenas uma pequena amostra do que seria uma relação mais autêntica “de pessoa para pessoa”, entre os dois sexos. Os riscos da inovação Toda essa fluidez apresenta também grandes riscos. Observamos muita flexibilidade, mas também muita incerteza; criatividade, mas também confusão; inovação, mas também perigos reais. No universo guei, todas as significações tradicionais do masculino, do feminino, do amor, da amizade, da lealdade, são transformadas. E isso acaba por tornar as relações precárias. O fato de que uma amizade possa se erotizar não contribui para a estabilidade dos casais nem dos sentimentos. Muitos casais se separam precisamente por conta desse tipo de equívoco. As relações são, às vezes, sabotadas por amigos ou ex-amantes que não respeitam a intimidade do casal. Ou ainda, uma das duas pessoas dorme com outra, sem dar importância ao caso até o momento em que seu parceiro o repreende amargamente — mas o mal está feito. Ou então, dois amigos iniciam uma relação sexual porque se dão bem, e depois se arrependem de não terem deixado as coisas como estavam. Muitas vezes ouvi homossexuais dizerem: “Eu não sei se eu o amo como amigo ou como amante; eu me divirto bastante com ele, mas eu não tenho certeza dos meus sentimentos.” Às vezes, essa falta de clareza dá lugar a atitudes equívocas ou a condutas inapropriadas, que não correspondem a uma realidade afetiva. Em uma perspectiva tradicional, poderíamos dizer que os homossexuais controlam mal seus impulsos, toleram pouco a frustração e têm pouca consideração pelos outros. Mas é preciso se lembrar que esses tipos de conduta têm uma dimensão social e histórica importante. Os homossexuais estão atualmente na vanguarda de uma imensa transformação da sexualidade humana. Os antibióticos, a contracepção, a revolução sexual, o feminismo e a liberação guei, acabaram por trazer uma liberdade sexual total, que nunca tinha sido vista na história. E são os homossexuais que são os mais bem colocados para explorar e cultivar as novas formas de relação que surgiram daí. Mas isso não é fácil, e o preço a pagar é muito elevado. Reinventar o casal O casal homossexual, talvez ainda mais do que o heterossexual, mudou muito ao longo dos últimos trinta anos. Ele não tem mais um formato único, se é que alguma vez o teve. Cada casal deve inventar suas próprias regras do jogo, e isso o obriga a fazer um esforço sempre renovado para comunicar e se entender. Na relação homossexual, nada é dado. É preciso fazer um trabalho contínuo para negociar e renegociar os papéis e os costumes que estruturam tão naturalmente o casal heterossexual. Como diz um homem guei de quarenta e cinco anos: “A grande força do casal guei reside no fato de que se está sempre reinventando o casal. Tem-se uma enorme liberdade para redefinir o tempo 105 todo quem se é, sem nunca se entediar. Há uma interrogação constante e um não conformismo que faz com que nunca nos deixemos acomodar. Não existe contrato, nada está certo; então, se é livre para se entender e se mostrar como realmente se é de verdade, e para conhecer o outro como ele é de verdade”. A aceitação social do casal homossexual Observa-se hoje uma aceitação recente do casal homossexual na sociedade heterossexual. Não é mais surpresa que um casal guei ou lésbico assista aos casamentos, às reuniões de amigos, às reuniões do pessoal do trabalho. Essa aceitação progressiva é muito benéfica, tanto para os heterossexuais quanto para os homossexuais. Não há dúvida de que a tolerância e o respeito para com os homossexuais progrediram muito. Mas o que os heterossexuais aceitam cada vez mais, não é necessariamente a homossexualidade em si. Estão dispostos a tolerar indivíduos e casais homossexuais desde que se assemelhem ao modelo heterossexual. Se a relação for antiga; se o casal homossexual for estável e monogâmico; se sua sexualidade for discreta; em resumo, se o casal homossexual for bem-comportado, será tolerado pela sociedade heterossexual. Isso parece um pouco com a situação dos negros americanos em uma certa época: quanto mais eles adotavam os modos de pensar e de falar da sociedade branca, mais eram aceitáveis por ela. Mas o preço a pagar era elevado: a identidade cultural negra, tão rica e variada começou a se perder. Finalmente, nos anos noventa, muitos jovens negros recusaram continuar no caminho da assimilação, e empreenderam um vasto trabalho para reencontrar a especificidade de sua identidade e de sua cultura. Acontece alguma coisa parecida hoje com os homossexuais. Existe um processo de assimilação indubitavelmente positivo, mas que limita de uma certa forma o enorme potencial de exploração e de inovação que acabamos de descrever. Infelizmente, somente um tipo de casal homossexual tornou-se aceitável — aquele que imita o casal heterossexual. A questão aqui não é de saber se esse modelo ainda está válido — embora esteja em franca decadência a mais ou menos vinte anos. O problema, é que a estrutura e as regras do casamento heterossexual não correspondem às dinâmicas e às necessidades concretas do casal homossexual. Aliás, é muito provável que quanto mais o casal homossexual tente imitar o modelo heterossexual, ou até mesmo aquele do casal heterossexual tradicional, mais dificuldade ele sentirá. Atualmente, os casais que adotam os velhos esquemas dos papéis masculino e feminino, ou as definições consagradas do amor e da amizade, do casal e da família expõe-se a muitos desentendimentos e a muitas decepções. O casal homossexual tem muitas qualidades próprias, e pode desenvolvê-las na medida em que se desprende das normas antigas. A amizade, a liberdade, a solidariedade, o desenvolvimento pessoal, a busca de novas modalidades afetivas e sexuais são os vários pontos fortes que distinguem e enriquecem os casais homossexuais. Disso resulta uma grande variedade de formas de relação. Por exemplo, cada vez mais os homossexuais praticam o que poderíamos chamar de “monogamia consecutiva”, adotada igualmente por muitos heterossexuais em nosso tempo. Nesse esquema, não se trata mais de ter uma relação importante e monogâmica na vida (como no casamento tradicional), mas antes uma série de relações que correspondem às diversas etapas do ciclo vital. Têm-se assim, amores e engajamentos diferentes durante a juventude, a idade adulta e a velhice. Essa idéia reflete fenômenos sociais reais: a esperança de vida cada vez mais longa, a disponibilidade generalizada da contracepção, e a evolução dos costumes. Os heterossexuais adotam cada vez mais esse modelo, sobretudo nos países 106 industrializados, mas o fazem de uma forma terrivelmente dolorosa: por meio de uma série de divórcios. Os homossexuais, em contrapartida, podem se permitir relações sucessivas sem magoar ninguém. Não tenho a intenção de defender aqui qualquer tipo de relação que seja, mas sim apontar que a evolução social e cultural permite uma grande variedade de casais, tanto heterossexuais quanto homossexuais. Esses, em particular, têm o privilégio de poderem explorar e desenvolver novas modalidades, caracterizadas por uma flexibilidade maior, um entendimento mais recíproco e melhores chances de alcançar a felicidade. Temas de reflexão para consolidar o casal homossexual — Quando você está em um contexto heterossexual, o que você faz para dissimular (ou revelar) sua relação de casal? — Qual é, para cada um de vocês, sua família de eleição? E para os dois, enquanto casal? — Elaborar projetos comuns para seis meses, para um ano, dois anos, dez anos… — Em que vocês são parecidos, e no quê são diferentes? — Em que campos existe rivalidade entre vocês? — Em que campos existe inveja? — Um de vocês é “mais” homossexual do que o outro? Por quê? — Um de vocês está mais fora do armário? Como isso afeta a relação? — Exprimir e comparar suas expectativas em relação ao que é ou deveria ser, uma relação homossexual em nossa época. — Exercícios contra o equívoco nos sentimentos: examinar suas definições da amizade, da família, do amor e do erotismo, da fidelidade e da lealdade. Segundo sua própria experiência, o que acontece quando se mistura sexo e amizade? Como você faz a distinção entre o amor entre amigos, o amor entre irmãos, o amor entre amantes? — Se vocês fossem um casal heterossexual quem seria o homem e quem a mulher? Por quê? — Se vocês fossem um casal heterossexual, como seria o seu casamento? Em que seria diferente de seu estilo de vida atual? — Se os homossexuais pudessem se casar, você o faria? Por que sim, por que não? 107 CAPÍTULO 7 O casal homossexual feminino A dimensão social e ideológica Antes de examinar a dinâmica interna do casal lésbico, é importante situá-lo em seu contexto social e ideológico. A história da homossexualidade nos ensina que o casal homossexual mudou muito ao longo do tempo. Não há formato de casal masculino ou feminino que seja universal ou permanente — e ainda menos para o casal lésbico, por causa das transformações radicais no estatuto e na condição da mulher no decorrer desse século. O casal lésbico tal qual o conhecemos hoje no Ocidente torna-se possível somente a partir do momento em que duas mulheres podem decidir não se casarem, viverem juntas e ganharem sua vida independentemente dos homens, o que, há apenas cinqüenta anos, não era verdadeiramente pensável nem possível para a maioria das mulheres. O casal lésbico depende de uma liberdade de escolha e de uma autonomia em relação aos homens que a maioria das mulheres atingiram apenas recentemente, e somente nos países industrializados. O casal lésbico, portanto, tem a sua origem nas transformações sociais, econômicas e jurídicas que revolucionaram a condição das mulheres durante a era moderna. Mas depende igualmente da ideologia que enquadrou (e em parte guiou) essas transformações. Atualmente, o movimento lésbico não poderia estar separado do movimento das mulheres, nem da liberação guei, nem da revolução sexual dos anos 70. É aí que se encontram as bases ideológicas da identidade lésbica contemporânea. Em primeiro lugar, a idéia de uma afetividade e de uma sexualidade feminina independente dos homens: nem a identidade, nem a maturidade, nem a felicidade, nem o desejo, nem o prazer sexual da mulher dependem do homem. Depois, a idéia de que a mulher não precisa se casar nem ter filhos para se realizar plenamente. Enfim, a idéia de que duas mulheres podem sobreviver do ponto de vista material e emocional sem o apoio de um homem. Todas essas concepções que refletem evidentemente mudanças sociais e econômicas reais, constituem o fundo ideológico da identidade e do casal lésbicos contemporâneos73. Não se pode examinar a dinâmica da relação entre mulheres independentemente dessa ideologia. Até mesmo as jovens lésbicas do ano 2000 são frutos do feminismo, da revolução sexual e da liberação guei, embora elas não estejam sempre dispostas a reconhecer sua herança. Mas, mesmo que não tenham nenhuma consciência disso, o fato de que elas possam ir a um café gerenciado por mulheres, que elas possam encontrar ali outras lésbicas com quem poderão ter uma relação sexual e, eventualmente, decidir morar junto, tudo isso era literalmente inconcebível antes das grandes transformações que ocorreram a um quarto de século antes mesmos delas nascerem. E essa dimensão ideológica tem implicações psicológicas muito importantes, ainda que não sejam sempre conscientes ou visíveis. 73 Para uma história detalhada do Movimento Lésbico e das idéias que lhe embasam, ver Marie-Jo Bonnet (1995). Les relations amoureuses entre les femmes, Paris, éditions Odile Jacob. 108 A recusa da dominação masculina O casal lésbico contemporâneo fundamenta-se em um fato que não poderia ser superestimado: duas mulheres que vivem juntas são, por definição, mulheres que escolherem serem independentes dos homens — tanto do ponto de vista sexual quanto afetivo, econômico e social. É fácil dizer, mas difícil fazer. O fato de duas representantes do “sexo frágil” poderem se libertar totalmente dos homens é radicalmente novo e continua impensável para muitas pessoas. De fato, muitas vezes é isso que traz problemas aos heterossexuais, homens ou mulheres, quando eles pensam na lesbianidade. Eles não acham tão surpreendentes duas mulheres terem relações sexuais, nem mesmo elas se apaixonarem uma pela outra; o que eles acham realmente incompreensível, é que elas possam viver sem os homens (enquanto elas poderiam muito bem encontrá-los, se pelo menos fizessem um pequeno esforço…). E, além disso, como elas podem renunciar ao casamento e aos filhos? É por causa dessa recusa em se submeter às regras do jogo da sociedade heterossexual que a relação lésbica é profundamente subversiva 74. Ao tornar os homens supérfluos ela remete em questão todo o sistema de poder e as relações entre os sexos, que estão na base da sociedade tal qual a conhecemos. Portanto, não há nada surpreendente no fato de que a lesbianidade seja tão freqüentemente desvalorizada ou minimizada: para muitos autores clássicos da psicologia e da psicanálise, a relação amorosa entre duas mulheres é essencialmente infantil e pouco digna de atenção. No melhor dos casos, é um passatempo inofensivo e divertido ao qual as mulheres se dedicam, esperando encontrar um homem, assim ascendendo à sexualidade verdadeira. Atualmente, a identidade lésbica não é somente uma orientação sexual, mas também uma recusa das regras do jogo estabelecidas pelos homens. Isso é freqüentemente confundido com um ódio em relação aos homens, em uma dessas misturas fáceis de ideologia e de psicologia baratas que são utilizadas para desqualificar as minorias. Com efeito, toda a ideologia feminista vem abaixo se se considerar que ela só reflete ressentimento contra os homens e que ela é assunto de mulheres “malcomidas”. No caso da homossexualidade, essa idéia assume a forma de um velho clichê: o da lésbica que tem medo do homem, um pouco como os cachorros raivosos têm medo da água. Ora a identidade lésbica não decorre de uma conduta de fuga, mas de uma série de escolhas. A escolha da lesbianidade E são escolhas difíceis. Afinal de contas, mesmo nos países industrializados são os homens que governam e que decidem quase tudo. A ascensão profissional de uma mulher depende, ainda, na maior parte do tempo, de um homem. São eles que estabelecem as regras do jogo, nas esferas privadas e pública. Quando duas mulheres se libertam desse sistema e dizem, ao menos implicitamente, que elas não têm mais nem necessidade nem vontade de tomar parte dele, assumem uma posição política e também existencial. Ao recusar a via fácil do casamento de conveniência, elas escolhem se afirmar responsáveis por seu destino e lutar contra os preconceitos ainda muito disseminados. Isso tem um preço incontestável. Em primeiro lugar, econômico: o casal lésbico é, dentre os três tipos de casais (heterossexual, homossexuais masculino e feminino), aquele que tem o nível de vida menos elevado. Em geral, as mulheres ganham menos do que os homens: nos Estados Unidos, elas ganham em média 70% daquilo que ganham 74 Para uma análise feminista de a revolução sexual lésbica ver Sheila Jeffreys (1995) The lesbian heresy. Spinifex. 109 os homens para o mesmo trabalho, e na França, aproximadamente 80%. Em um casal constituído por duas mulheres, a diferença de rendas em relação aos outros casais tornase considerável. A isso é preciso acrescentar as dificuldades práticas que duas mulheres que vivem sem a companhia masculina podem encontrar em uma sociedade feita prioritariamente pelos, e para, os homens. Existem ainda muitas áreas aonde os homens circulam mais facilmente do que as mulheres. As lésbicas de hoje superam geralmente essas dificuldades da vida cotidiana desenvolvendo capacidades tradicionalmente “masculinas”, que vão desde o bricolage75 até as finanças da casa passando pela mecânica. E se houver trabalhos pesados para fazer, elas o fazem. Quando os heterossexuais afirmam que as lésbicas são “masculinas” muitas vezes é isso que eles querem dizer. Mas não é que elas sejam masculinas por natureza, nem que elas queiram imitar os homens; simplesmente aprenderam por necessidade a fazer muitas coisas que sempre foram consideradas masculinas. É importante notar também que a imensa maioria das lésbicas trabalha e é independente do ponto de vista econômico: são, em todo o caso nos países industrializados, mulheres competentes e autônomas, exercendo freqüentemente profissões liberais. A maior parte do tempo, estudaram mais do que as heterossexuais: uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que dois terços delas tinham feito estudos universitários76. Tudo isso só pode ter efeitos positivos sobre seu amor próprio e seu grau de bem-estar geral. Uma imagem mais precisa do casal lésbico contemporâneo começa a se desprender: muito freqüentemente, tratam-se de duas mulheres que trabalham, que são auto-suficientes, e que se sentem orgulhosas disso. Ademais, tal casal é caracterizado por uma relativa igualdade entre os pares, se comparado com o casal heterossexual. Isso já indica que o velho estereótipo de uma mulher dominante e de uma outra submissa no casal feminino é obsoleto: a lésbica de hoje não se deixará dominar nem por uma mulher e nem por um homem. Haverá, muitas vezes, brigas, como acontece quando não é uma única pessoa que toma todas as decisões sozinha. E já podemos supor que, essas duas mulheres, irão se expressar com mais liberdade do que um casal heterossexual, e que esse fato, às vezes, irá produzir faíscas. A intensidade afetiva O traço mais marcante do casal lésbico é, de fato, a sua intensidade afetiva. Todas as emoções — o amor, o êxtase, o desejo, o ódio, o ciúme, a cólera — se desenvolvem de um modo que pode parecer desmedido, até mesmo irracional. Como diz uma moça que tem relações homossexuais e heterossexuais: “Às vezes eu preciso me distanciar um pouco de minha amigas lésbicas. Tudo é tão intenso para elas, com seus dramas e suas discussões, que às vezes eu tenho necessidade de me retrair em minhas amizades masculinas. É mais fácil com eles, podemos ter conversações normais sobre qualquer coisa, sobre trivialidades, sem entrar em análises profundas da relação.” Esse lado dramático do casal lésbico integra-se perfeitamente em um velho estereótipo sobre as mulheres em geral: quando juntas, revelam fatalmente sua natureza “histérica” e “irracional”. Se não há um homem que as ajude a racionalizar, elas são completamente dominadas pelas suas emoções. Essa visão das mulheres, contudo, é apenas uma redução simplista de um fenômeno muito mais complexo. 75 No Brasil, a idéia de bricolage está associada ao artesanato, enquanto técnica de produção. Todavia, na França ela diz respeito a toda e qualquer pequena reforma ou atividade na residência que vão desde consertar a pia a colocar uma estante na parede, por exemplo. Trata-se de uma ocupação muito comum, geralmente desenvolvida nos finais de semana. [Nota dos tradutores] 76 JoAnn Loulan (1990). The lesbian erotic dance. San Francisco, Spinsters Book Company, p. 200. 110 O que acontece entre as mulheres, e particularmente no casal lésbico, não é o fato de que os sentimentos sejam desmedidos; é que eles são expressos, enquanto não o são geralmente no casal heterossexual, nem na sociedade em seu conjunto. Não é o fato de que as mulheres tenham um “excesso” de emoções, mas elas falam delas muito mais do que os homens quando elas têm a chance para tal. E é o que acontece, precisamente, no casal lésbico. Gênero e modalidades de relação Mas não é apenas uma questão de liberdade de expressão. Inúmeros psicólogos e lingüistas estabeleceram que as mulheres e os homens têm modos muito diferentes de formar, de compreender e de conduzir suas relações interpessoais. Em seu clássico livro In a different voice, a psicóloga americana Carol Gilligan, por exemplo, estudou como e por que os dois sexos são tão diferentes nessa área. Retomando outros trabalhos sobre a infância (e em especial as teorias de Margaret Mahler), Gilligan explica que a formação da identidade do gênero (que se finaliza aos três anos) é muito diferente nos meninos e nas meninas. Nos dois casos, a relação primária durante este período implica a mãe, já que é ela que cuida das crianças. Mas as meninas, reconhecendo-se nela, desenvolvem sua identidade feminina em um contexto de identificação e afinidades: tornam-se moças com sua mãe. Os meninos, em contrapartida, devem se distinguir dela; sua identidade masculina se desenvolve, portanto, em um contexto de contraste e de separação, e eles se tornam moços contra sua mãe. Isso explica porque os dois sexos vivem de modo tão divergente todas as suas relações ulteriores. Segundo Gilligan: “Como a masculinidade é definida por meio da separação enquanto a feminilidade é definida por meio da união, a identidade […] masculina é ameaçada pela intimidade, enquanto a identidade […] feminina é ameaçada pela separação. Assim, os homens tendem a ter dificuldades com as relações, enquanto as mulheres tendem a ter problemas com a individuação77.” Isso significa que, nas relações interpessoais, as mulheres dão uma grande prioridade à intimidade, à comunicação afetiva e à cooperação. Funcionam bem em grupo, e tendem a formar elos horizontais (baseados na semelhança e igualdade), mais do que verticais (baseados na diferença e hierarquia). Isso se vê desde a infância: os especialistas nesta área observaram que as meninas brincam, na maior parte do tempo, de jogos onde não há nem vencedor nem perdedor: amarelinha, pular corda, casinha, boneca78… As mulheres procuram preservar a relação, mais do que o poder: em uma discussão, é mais importante para elas continuar falando do que ter razão. As mulheres têm também uma grande capacidade para a empatia, isto é, a faculdade de se colocar no lugar do outro: é a famosa “sensibilidade feminina”, que faz com que a mulher se identifique tão facilmente com alguém que sofre. Os homens, em contrapartida, valorizam a autonomia, a competição e a neutralidade afetiva (que eles chamam, freqüentemente, de “objetividade”), e têm uma grande capacidade para a individuação. Tendem a formar relações verticais mais do que horizontais e a se definir a partir das diferenças em relação aos outros. Vêem freqüentemente suas relações interpessoais em termos de poder: o mais forte ganha, o mais fraco perde. Eles têm também um sentido muito nítido dos limites e de seu espaço pessoal. Nas mulheres, os limites interpessoais são mais vagos (ou simplesmente menos importantes): tendem mais à identificação, até mesmo à fusão com o objeto amado, enquanto os homens preferem guardar um pouco de distância. As mulheres se sentem 77 78 Carol Gilligan (1982). In a different voice. Cambridge, Mass., Harvard University Press, p. 8 Ver Janet Lever (1976). Sex differences in the games children play. In Social problems, 23, pp. 478-487. 111 ameaçadas pela separação, que elas vivem como um abandono, enquanto os homens temem mais a fusão e a dependência que sentem como uma perda de identidade. Essa teoria foi retomada por inúmeros autores, sob diferentes formas79, para explicar diversos problemas que podem surgir na relação heterossexual. Mas pode igualmente nos servir para entender certas dinâmicas da relação homossexual, tanto nos homens quanto nas mulheres. Em particular, nos ajuda a entender a intensidade da qual estávamos falando mais acima. As mulheres têm necessidade dessa comunicação afetiva constante, que lhes faz falta tão freqüentemente em suas relações com os homens. Assim, quando estão entre elas, e, ainda mais se formar um casal, elas falam muito mais do que os homens, de tudo o que elas sentem: delas mesmas; da natureza de sua relação; e de todos os problemas que podem aí aparecer. Onde o diálogo seria interrompido em um casal heterossexual, porque o homem se cansaria disso, as mulheres continuam esmiuçando; e, em caso de briga, farão de tudo para restabelecer a comunicação e a conexão afetiva. Onde um homem tomaria distância para acalmar os espíritos, elas tentam se reaproximar para consertar a relação. A empatia e a superproteção Mas essa comunicação constante não serve apenas para manter uma proximidade afetiva. Um outro traço característico das mulheres, se acreditarmos nas pesquisas, é sua disposição particular para a empatia. Essa não é necessariamente inata: ensina-se às meninas desde a sua mais tenra idade, a cuidar dos outros. Quando brinca de boneca, de casinha, ao cuidar de seus irmãozinhos e irmãzinhas, elas aprendem a detectar e a satisfazer as necessidades afetivas dos outros; na verdade é seu primeiro treino para a maternidade. Mais tarde, quando elas se casam e têm filhos, já têm o costume de pensar nos outros, de se identificar com eles, de sentir seus sofrimentos e suas preocupações. São aptidões que as ajudarão a cumprir as tarefas difíceis do casamento e da maternidade. Mas o que as lésbicas fazem de toda essa aprendizagem? Em uma palavra, elas fazem com sua parceira exatamente o que teriam feito com sua família: cuidam dela, se preocupam com ela, procuram adivinhar e satisfazer suas necessidades afetivas. Eis a razão pela qual se observa, às vezes, um tipo de superproteção recíproca nos casais lésbicos em que as duas mulheres se tratam com afabilidade como se fossem crianças delicadas, embora sejam, na verdade, adultas perfeitamente competentes. Elas podem adotar atitudes quase maternais uma em relação a outra, subordinando suas próprias necessidades ou desejos àqueles de sua parceira. Além do mais, em nossa sociedade, as mulheres não estão muito acostumadas a expressar claramente suas próprias necessidades ou desejos. Sempre dispostas a reconhecê-las na pessoa amada, freqüentemente não as vê nelas próprias, ou então as deixam de lado. Isso faz parte da socialização das mulheres desde a sua infância: enquanto os meninos podem berrar até obterem o que eles querem, as meninas devem esperar com bons modos a vez delas. Então, quando duas mulheres se apaixonam, elas fazem exatamente isso: em muitos casos, cedem o lugar para a outra; escutam com atenção e empatia, mas falam pouco de suas próprias inquietações. Essa tendência tem um preço terrivelmente elevado para a relação, como o veremos um pouco mais adiante. 79 Ver, por exemplo, Deborah Tannen (1990) You just don’t understand. New York, Ballantine Books; e John Gray (1992) Men are from mars, womem are from venus. New York, Harper Collins. 112 A identificação perfeita Mas, no início, a comunicação parece total. Toda essa empatia e essa atenção constituem uma experiência amorosa extraordinária para as mulheres, sobretudo aquelas que estão acostumadas, desde sempre, a dar mais do que receber. De repente, recebem de uma outra pessoa o que sempre foi exigido delas pela sua família, pelos homens e pela sociedade em geral. Elas se sentem compreendidas e adoradas como nunca foram. Sua companheira sempre está disposta a escutá-las, a amá-las, a cuidar delas. Como exprime uma mulher de quarenta e quatro anos, que recentemente teve sua primeira relação homossexual: “Eu não sabia que se pudesse ser tão próxima de uma outra pessoa. Eu me dei conta que eu sempre quis exatamente isso, sem nunca suspeitar disso. Nunca havia falado tanto em toda a minha vida: no final de uma semana eu me sentia com ela como se eu a conhecesse desde sempre.” Esse entendimento profundo, essa identificação completa explicam por que tantas mulheres que se apaixonam por uma outra mulher estão dispostas a cometer loucuras, apenas quinze dias depois após o início da relação. Uma piada muito apreciada no meio lésbico americano expressa o fato da seguinte forma: “A primeira vez que uma mulher vem na sua casa, ela chega com uma mala. A segunda vez ela desembarca com um caminhão de mudança.” Isso não surpreende: essa comunicação é, de fato, para muitas mulheres, aquilo com a qual elas estavam sonhando desde sempre. A palavra chave, que eu encontro sistematicamente nas mulheres que descrevem sua primeira relação homossexual é “a escuta”: “Eu nunca tinha me sentido escutada dessa forma.” É uma experiência tão inédita e tão maravilhosa que uma mulher pode, naturalmente, estar disposta a sacrificar tudo para prolongá-la. Por isso, as uniões súbitas, os projetos de vida instantâneos que vemos às vezes surgir entre duas mulheres que mal se conhecem. Os perigos dessa identificação imediata são evidentes. Podem levar a decisões impulsivas, desentendimentos surpreendentes e decepções terríveis. Mas ela apresenta também riscos em longo prazo na relação que dura por mais de dois ou três anos. Esse entendimento profundo, quase telepático, é tão fácil e tão reconfortante que se finda por se acostumar a ele — e a esperar por ele. Não poderia haver melhor receita para a desilusão: quando a outra mulher não está disponível, ou não lê o pensamento de sua companheira, essa pode muito naturalmente se sentir incompreendida, excluída ou totalmente abandonada. A tendência à fusão Mas, sobretudo, essa identificação sem limites acaba por desenvolver no interior do casal lésbico uma forte tendência à fusão. O diálogo e o entendimento tão intensos provocam uma relação simbiôntica que coloca em perigo a autonomia e até mesmo a identidade de cada indivíduo. Muito mais do que em outros casais, as duas pessoas caem em um mimetismo inconsciente que engloba sua aparência física, sua linguagem corporal, seu modo de falar e de se vestir; além do mais, dividem freqüentemente roupas ou acessórios. Aos poucos elas abandonam os amigos, os interesses e os passatempos que tinham antes de se conhecer, adaptando-se uma à outra em uma intimidade e um isolamento recentes. Elas vão juntas à toda parte e passam todo o seu tempo livre juntas, mais do que o fazem os casais heterossexuais ou homossexuais masculinos, que guardam geralmente amigos e atividades fora de sua relação. As conseqüências dessa simbiose galopante são múltiplas e, em casos extremos, podem ser muito destrutivas. As duas mulheres se sentem obrigadas à se contar tudo, dividir tudo, convencidas que não deve existir segredos entre duas pessoas que se amam. Se uma delas faz alguma coisa sem a outra, como, por exemplo, sair com amigos, 113 ela se sente culpada e preocupada com aquela que ficou sozinha em casa. O ciúme que observamos tão freqüentemente no casal lésbico, o sentimento de posse e a necessidade de controlar os movimentos da outra não correspondem (como se podia pensar) a uma imitação de mau gosto da dominação masculina, mas antes essa simbiose invasora que impede a autonomia. Com efeito, com algumas exceções, qualquer tentativa de ter amigos ou atividades próprias é vivida pela outra como uma traição e um abandono, freqüentemente com muito medo. Instaura-se então um tipo de vigilância permanente e recíproca, que faz com que as duas mulheres (e muitas vezes uma mais do que a outra) se sintam observadas, aprisionadas, violentadas em sua intimidade. Tudo isso leva, claro, a uma dependência cada vez maior: não esqueçamos que simbiose reproduz a ligação com a mãe, e portanto tem um caráter profundamente regressivo. De fato, não é raro ver que as duas mulheres (ou uma dentre elas), que são maduras em todas as outras áreas da vida se comportam como crianças quando estão juntas. Adotam voz infantil para se falar, ou se lembram que é preciso por um casaco antes de sair, parecem incapazes de decidir o que for sem consultar sua parceira. Às vezes uma adota atitudes maternais e a outra desenvolve o papel da criança (travessa, impulsiva, inocente…) que deve ser sempre chamada à atenção. Mãe e filha É evidente que a ligação amorosa entre duas mulheres contém elementos da relação primária entre mãe e filha. Isso se via, sobretudo antigamente, quando às vezes havia uma diferença de idade importante no casal. Historicamente, essa diferença tem tendência a desaparecer: atualmente as mulheres que formam casais são, em geral, senão da mesma idade, pelo menos da mesma geração. Contudo, não há necessidade de uma diferença de idade para reproduzir a relação mãe-filha. Essa pode tomar a forma de condutas ou atitudes maternais de um lado e infantis do outro, os papéis sendo distribuídos de modo definitivo: se uma mulher adota o papel da criança, há chances para que ela o conserve, mesmo que ela mude de parceira. Se a outra mulher gosta de seu papel maternal, não terá problemas: as duas estarão de acordo em relação as regras do jogo. Mas se uma delas não está de acordo, ou tem problemas com sua verdadeira mãe que nunca foram resolvidos, então, interações muito nocivas e até mesmo perigosas podem aparecer — exatamente como isso pode acontecer em um casal heterossexual, se um dos dois tem ainda contas para acertar com os seus pais. No casal lésbico, o risco é que a mulher em questão projete na sua companheira todas as emoções que, na verdade, sente em relação à sua mãe: amor, dependência, ciúme, raiva e ódio etc. Mas como no caso, a outra mulher não é a sua mãe e não tem as reações esperadas (sejam elas amorosas, estremecidas, punitivas ou indiferentes), a mulher-criança forçara a situação, terá condutas cada vez mais infantis, até suscitar a reação desejada — ou acabará abandonando a luta, com toda a frustração e a raiva que isso pode implicar. Assim é que ouviremos comentários do tipo: “Nunca presta atenção em mim, nunca é disponível para mim, só pensa nela mesma, não me ama mais.” Por seu lado, a mulher-mãe pode insistir para “reformar” sua parceira, tentando fazer com que ela mude seus costumes ou se cuide por ela mesma; muitas vezes a escutamos dizer coisas do gênero: “Se pelo menos ela começasse a trabalhar”, “Se pelo menos parasse de beber”, “Se pelo menos cuidasse um pouco da limpeza da casa”. Isso pode provocar uma luta de vontades contínua na qual a mãe tenta controlar a filha, que então se rebela, em um ciclo extremamente rígido e doloroso. Se essa dinâmica, mãefilha não for detectada e corrigida, pode causar a ruptura. Mas como ela é difícil de se 114 perceber quando estamos envolvidos, é possível que as duas mulheres simplesmente cheguem à conclusão de que são incompatíveis e decidam se separar. Autonomia e intimidade Essa dinâmica pode também estar presente em um casal heterossexual, claro, e com os mesmos perigos. Mas é particularmente perniciosa quando se trata de duas mulheres, por causa da tendência à fusão que faz com que elas não se deixem em paz. Nas relações heterossexuais, as diferenças entre os sexos permitem um pouco de distância quando esta for necessária. Na verdade, em todos os casais, existe uma alternância de aproximação e distanciamento: os momentos de grande intimidade estão seguidos por uma retirada temporária na qual cada um reencontra seu espaço. Depois, quando as duas pessoas sentem a necessidade ou a vontade, elas se reaproximam novamente em um movimento cíclico que poderíamos chamar de “respiração natural do casal”. Essa alternância acontece continuamente; é necessária à sobrevivência da relação, sobretudo durante certas fases dessa. É o que acontece quando “a lua-de-mel” inicial, que pode durar desde alguns meses até dois ou três anos, chega ao seu fim. Em toda a relação de casal, acontece um momento em que as duas pessoas (ou uma dentre elas) se cansam da intensidade afetiva e sexual da primeira fase, e decidem aos poucos voltar para uma vida mais “normal”: rever os amigos, retomar as atividades que se deixou de lado por causa da relação amorosa. No casal heterossexual, freqüentemente é o homem que sente essa necessidade de reatar com a vida profissional e social que tinha antes, e a mulher se adapta a isso porque é “normal” que o homem se volte novamente para o mundo. No casal lésbico, quando uma das duas mulheres começa a emergir da “lua-demel” a outra vive isso, em muitos casos, como um abandono. Mesmo que as duas sintam essa necessidade ao mesmo tempo, freqüentemente elas têm muito medo disso: “Talvez a gente não se ame mais. No início, passávamos dias inteiros na cama, e agora parece que ela se entedia comigo… parece que ela gostaria mais de estar em outro lugar.” Podem então surgir dúvidas, suspeitas, ressentimentos, que muitas vezes permanecerão sem serem expressas. Cada mulher se perguntará se a outra sente a mesma coisa, sem, contudo, querer lhe fazer a pergunta por medo de magoá-la, ou de ser magoada… É nesse momento então que se torna absolutamente necessário para as duas mulheres tomarem um pouco de distância e reencontrarem sua vida individual — em uma palavra, de tomar um pouco de ar fresco. Mas isso é muito difícil depois de tal proximidade — sobretudo se não se quer magoar a outra, e quando não se tem o costume de expressar as suas necessidades afetivas. Assim, o casal começa a se sufocar: as duas mulheres se sentem invadidas e começam a se irritar por qualquer motivo — mas não entendem o que lhes acontece e podem, menos ainda, discutir sobre isso. Muitas vezes o casal se separa nessa fase que segue a lua-de-mel e durante a qual as duas pessoas deveriam recuperar uma certa autonomia e retomar uma vida normal. Se isso não acontecer, porque é proibido se separar e porque a autonomia é vista como traição, sérios problemas podem aparecer. Nessa luta frustrada para escapar da sufocação veremos, muitas vezes, raiva, separações e reconciliações abruptas e, claro, relações fora do casal. Esse tipo de problema não se limita ao início da relação. Mesmo nos casais que estão há muito tempo juntos, se as duas mulheres não encontram um equilíbrio entre a autonomia e a intimidade, observaremos um ciclo exacerbado de afastamento e de reaproximação: períodos de grande proximidade seguidos por fases de distanciamento, 115 até mesmo de separação, e depois por novas reconciliações… esse movimento de pêndulo pode provocar um certo gasto na relação. O declínio da relação sexual Essas dificuldades no domínio da autonomia explicam em grande parte os dois problemas mais importantes no casal lésbico. Esse tem a taxa de separação mais elevada e a duração mais curta (cinco ano em média80) de todos os tipos de casais, e numerosos autores assinalaram que a causa mais freqüente disso é o declínio da relação sexual. JoAnn Loulan, uma psicóloga americana que estudou muito o casal lésbico, assinala uma redução de 75% na atividade sexual depois de três anos de relação 81. É três vezes mais do que o número equivalente entre os casais heterossexuais82. Se as mulheres em uma relação homossexual têm relações sexuais mais de dez vezes por mês em média durante o primeiro ano, entre o segundo e o terceiro ano esse número cai para cinco vezes por mês; a partir do quarto ano têm relações sexuais duas ou três vezes por mês — e em uma proporção importante dos casos, os números continuam a abaixar depois83. Isso quer dizer que muitos casais lésbicos, praticamente, cessam as relações sexuais depois de alguns anos. As pesquisas revelam que a freqüência das relações sexuais femininas é muito inferior àquela das relações heterossexuais ou homossexuais masculinas. A relação lésbica é a menos sexual de todas, e é muito interessante se perguntar por quê. Será que essa sexualidade espaçada corresponde ao desejo real das mulheres quando não há homens para influenciá-las, ou então será que há algo particular no casal lésbico? Uma sexualidade feminina menos “sexual”? Existem cada vez mais indicações sobre o fato de que as mulheres geralmente são menos interessadas em sexo do que os homens. Sabe-se que os homens têm mais pensamentos e fantasias sexuais84, que eles se masturbam muito mais85, e que eles são mais conscientes de seu nível de excitação fisiológica86. Além do mais, uma recente pesquisa nos Estados Unidos revela que um terço das mulheres não têm vontade de terem relações sexuais; 26% não têm orgasmos e 23% não têm nenhum prazer na relação sexual. Os números são muito diferentes para os homens, dentre os quais somente 14% não têm vontade de ter relações sexuais, e dentre os quais 8% não encontram nenhum prazer nelas87. Se em um futuro próximo a pesquisa confirmar essas diferenças entre a sexualidade masculina e feminina, poderemos entender melhor o que acontece na relação lésbica — que nos dá uma preciosa idéia daquilo que desejam e fazem as mulheres independentemente dos homens. 80 81 Ver Partners task force for lesbian and gay couples. In Partners National Survey of Gay and Lesbian Couples, 1995. JoAnn Loulan, op. cit., p. 157 82 Maryse Jaspard (1997) La sexualité en France. Paris, éditions la Découverte, p. 93. 83 Ver JoAnn Loulan (1987) Lesbian passion: loving ourselves and each other. San Francisco, Spinsters/Aunt Lutte. 84 À pergunta “Com que freqüência você pensa em sexo?”, 54% dos homens americanos respondem: “Todos os dias, ou várias vezes por dia”; somente 19% das mulheres trazem a mesma resposta. Robert T. Michael; John H. Ganon; Edward Laumann; Gina Kolata (1994) Sex in América. New York, Warner Books, p. 156. 85 A pesquisa ACSF (Analyse des comportements sexuels en France) relata que duas vezes mais homens do que mulheres se masturbam. Ver Mayse Jaspard, op.cit., p. 99-101. 86 Em uma experiência muito interessante conduzida por Julia Heiman, apresenta-se a homens e mulheres vídeos de sexo explícito e se mede seu grau de excitação sexual a partir de suas reações fisiológicas. Homens e mulheres apresentam o mesmo grau de excitação fisiológica. Mas interrogados sobre sua experiência subjetiva, todos os homens que se excitaram estão consciente disso e o dizem, enquanto apenas a metade das mulheres tomaram consciência de seu próprio estado fisiológico. Margaret Nichols (1987) Lesbian sexuality: Issues and developing theory. In Boston Lesbian Psychologies Collective. Lesbian Psychologies: Explorations and challenges. Illinois, University of Illinois Press, p.105. 87 Journal of the American Medical Association, 281, 537-544, 10 February 1999. 116 A dinâmica sexual do casal Mais é preciso igualmente levar em consideração uma série de características da relação lésbica enquanto tal para explicar o declínio da união sexual. Em primeiro lugar, as mulheres não são acostumadas a tomarem a iniciativa. Lembremos-nos que a sexualidade feminina passa por toda uma socialização que começa muito antes da puberdade. Ensina-se às meninas a calarem os seus desejos e a subordiná-los aos dos meninos. Desde sua infância aprendem a não aborrecerem os outros (e sobretudo os homens) com suas próprias necessidades. Depois, no campo do amor e da sexualidade, aprendem a esperar que o homem dê o primeiro passo: mesmo atualmente, não é muito bem visto que uma mulher “persiga” um homem, ou que tome a iniciativa caso queira dormir com ele. Esse sistema funciona mais ou menos bem quando há um homem para fazer isso em seu lugar; mas o que acontece se não houver homem, como na relação lésbica? Normalmente as mulheres não desenvolvem um papel ativo na sedução, e isso se constata em muitos casais lésbicos. Cada uma espera para ver se a outra está com vontade ou não, sem querer insistir demais; ou então a intimidade assume a forma da conversação contínua da qual já falamos. E, além disso, existem fatores puramente fisiológicos: muitas mulheres não têm vontade de terem relações sexuais durante ou nos dias que precedem suas menstruações; quando o casal é constituído por duas mulheres, isso elimina de uma só vez uns dez dias por mês. Não se deve esquecer também o papel da homofobia interiorizada. É muito mais fácil manter uma relação sexual “proibida” se for o outro que toma a iniciativa. Até um certo ponto, é preciso ter assumido sua homossexualidade e aceito a sua parte de responsabilidade na relação antes de poder se doar realmente e expressar o seu desejo sem inibição. Um outro fator muito importante na sexualidade das lésbicas, é que 90% delas tiveram antes relações com homens; um terço delas foram casadas88. Se atualmente elas estão em relações homossexuais, é sem dúvida porque essas relações não foram inteiramente satisfatórias: muitas dessas mulheres talvez tivessem relações sexuais com homens por obrigação, por interesse, ou para negar sua homossexualidade. Em todo o caso, muitas dessas mulheres se acostumaram a terem relações sexuais sem prazer, ou a reprimirem seu verdadeiro desejo: distanciadas de sua sexualidade terão, naturalmente, dificuldades para gozarem dela plenamente, ou para tomarem iniciativa em questões sexuais, em suas relações homossexuais posteriores. Amor e sexualidade O amor e a sexualidade estão muito intimamente ligados para as mulheres, muito mais do que para os homens. Esses podem iniciar mais facilmente uma relação sexual e se satisfazer com ela sem estarem apaixonados; assim, uma pesquisa recente na França revela que os homens têm relações sexuais com a sua parceira mais de uma vez por semana89, mesmo que não sejam “nem um pouco apaixonados” por ela. Essa distinção entre a ligação sexual e afetiva é bem menos influente para as mulheres, provavelmente por causa de uma concepção da sexualidade que lhes é inculcada desde a infância: as meninas aprendem que só se pode fazer amor com alguém quando se é apaixonado por esta pessoa. Essa identificação do amor com a sexualidade tem conseqüências importantes para todas as mulheres, mas sobretudo para as lésbicas. Em primeiro lugar, muitas mulheres tendem a se apaixonarem assim que vivem uma relação sexual satisfatória: a 88 89 Ver Margaret Nichols. Algumas das idéias que seguem são tiradas dessa excelente análise da sexualidade lésbica. Pesquisa ACSF, citada em Maryse Jaspard, p. 94. 117 intimidade física parece desencadear nelas fantasias de amor de um modo quase instantâneo. Quando duas mulheres se encontram e têm relações sexuais, há um tipo de reação em cadeia que faz com que elas levem a relação muito a sério, muito rapidamente. Mas isso não quer dizer que elas sejam realmente feitas para se entender; e muitos casais fracassarão simplesmente porque se uniram demasiadamente rápido. Uma segunda conseqüência dessa identificação entre amor e sexualidade, é que a relação sexual é muito vulnerável aos problemas que podem aparecer em outros campos. Em geral, uma mulher que está aborrecida não tem vontade de ter relação sexual, enquanto os homens parecem achar mais fácil manter as coisas separadas. Eis a razão pela qual os terapeutas de casal vêem freqüentemente relações heterossexuais em que tudo está indo mal, exceto a relação sexual que se mantém praticamente intacta. Em um casal lésbico, os problemas de ordem afetiva invadem muito mais a relação sexual. Assim, duas mulheres que tiveram uma discussão param de ter relações sexuais — às vezes durante semanas. Isso não ajuda a resolver os problemas nem a manter a relação sexual. Enfim, essa confusão entre amor e sexualidade faz com que as mulheres não tenham pequenas aventuras fora do casal como os homens, mas grandes paixões: serão ligações sérias que colocarão o casal em perigo, e não somente relações passageiras que poderiam eventualmente revitalizá-lo. Fusão e sexualidade Mas a razão principal do declínio da relação sexual no casal lésbico parece ser a tendência à fusão. Vários elementos estão em jogo. Há, em parte, claro, o tabu do incesto: não se tem relação sexual com a mãe. Mas, acredito que essa interpretação, cara aos psicanalistas, deve ser relativizada. Se o fator principal fosse o tabu do incesto, pesaria muito mais desde o início da relação — o que não é o caso. E, além disso, seria necessário explicar porque existem tantos casais lésbicos que vão bem, durante muitos anos, com relações sexuais freqüentes e satisfatórias. Um outro elemento que pode parecer lógico, é o fato de que é preciso um certo contraste entre duas pessoas para que elas possam ter relações sexuais: aquele que se parece conosco é menos excitante do que aquilo que nos parece diferente, novo, desconhecido. Essa idéia, sem dúvida, sedutora, não é necessariamente verdadeira: não parece se aplicar aos homens gueis, que também têm relações sexuais com pessoas semelhantes e que apresentam as taxas sexuais mais elevadas de todas as populações. Acho que a tendência à fusão ultrapassa esses fatores, embora contribuam com ela também em uma certa medida. O que acontece na simbiose vai além da semelhança: o problema é o desaparecimento dos limites interpessoais. Os indivíduos se sentem em perigo diante da perda de sua identidade enquanto tais. O que descrevem as mulheres envolvidas nessa situação é uma sensação de sufocamento, até mesmo de pânico: a intimidade com a outra se torna literalmente insuportável. O êxtase inicial no qual as duas se fundem em uma única pessoa é apagado pelo temor de se perder completamente; a identificação se transforma em uma dependência total. A mulher que sente tudo isso só tem um desejo: separar-se da outra. Em casos extremos essa necessidade imperiosa de recuperar a autonomia se traduzirá por cólera, ódio ou repulsão. Naturalmente, a pessoa concluirá disso que ela não ama mais a sua parceira e romperá a relação. No caso mais freqüente, iniciará para isso uma relação com uma terceira pessoa, com quem reencontrará o entendimento maravilhoso do início. De fato, o motivo mais freqüente de ruptura dos casais lésbicos é justamente a ligação de uma das duas parceiras com uma outra mulher. Ora, a infidelidade e a inconstância não 118 são habituais entre as mulheres. É preciso antes ver aí um esforço desesperado para escapar da fusão. Essa situação extrema desemboca geralmente na ruptura e nos ajuda a compreender porque certos casais lésbicos se separam depois de apenas alguns meses: a lua de mel se transforma em um drama de ressentimento e de ciúmes. Mas a tendência à fusão afeta igualmente os casais que duram além dessa fase inicial. Com o tempo, as duas mulheres se parecem cada vez mais; seus gostos, seus amigos, seus lazeres, tudo se torna comum. Dividem roupas, maquiagem, opiniões, leituras… seus amigos os confundem ao telefone; sempre as vemos juntas. Aprendem a resolver com muita eficácia os problemas da vida cotidiana, graças a uma comunicação constante e a um engajamento afetivo profundo. As diferenças entre elas apagam-se aos poucos e elas se dão cada vez melhor, já que as mulheres procuram a semelhança, muito mais que as diferenças, em suas relações íntimas. No final de alguns anos, se amam mais do que nunca e usufruem uma harmonia incomum — mas a relação sexual desapareceu. Vivem, de fato, como irmãs. Em muitos casos, não se queixam disso. Vivem uma relação de casal estável e sólida, com uma intimidade física cheia de ternura: beijam-se, dão-se as mãos, fazem-se massagens, dormem juntas… a relação sexual genital não lhes fazem muita falta, e elas justificam essa ausência de paixão dizendo que elas não têm o tempo, ou a vontade… esse tipo de relação pode durar anos ou decênios a fio — ou até que uma das duas mulheres se apaixone por uma outra. Então, torna-se evidente que algo estava faltando na relação — e as duas mulheres descobrem, tarde demais que era a relação sexual. A sua relação sofre daquilo que as lésbicas americanas chamam (de modo jocoso) “a morte da cama” (bed death). O que aconteceu? Vários autores falam de um “sacrifício da sexualidade” no casal lésbico90. A relação sexual seria sacrificada em favor dos outros aspectos da relação: fusionadas em todos os outros aspectos da vida, as duas mulheres guardam a distância necessária para continuar juntas renunciando à união sexual. A simbiose flui em todas as áreas, exceto na da sexualidade. É nesse nível que as duas mulheres mantém a separação indispensável a qualquer relação amorosa. Como acontece, às vezes nas relações heterossexuais, a sexualidade da mulher torna-se o último refúgio de sua individualidade, o território reservado onde ninguém pode entrar. As ligações fora do casal O grande perigo suscitado por esse declínio é, evidentemente, a ligação fora do casal. Geralmente é dessa maneira que se acabam as relações lésbicas: uma das duas mulheres se apaixona por outra pessoa, desencadeando assim um ciclo de decepção ou de confrontação. Então, voltam à superfície todos os ressentimentos e todas as diferenças que foram por tanto tempo submersos no conforto da simbiose; e isso pode provocar rupturas abruptas ou até mesmo violentas. A ligação fora do casal é, portanto, em muitos casos, um modo inconsciente de se distanciar. Eis porque, quando isso acontece, devemos logo explorar a dinâmica da fusão na relação: muitas vezes, a nova ligação não representa um novo amor e não reflete uma infidelidade profunda da pessoa implicada; constitui, antes, um esforço desesperado para romper a simbiose. As ligações desse tipo são, aliás, facilitadas pela confusão dos sentimentos e a falta de limites das quais tratamos no capítulo anterior: no mundo homossexual, não é nem um pouco raro que amigos se tornem amantes. A enorme 90 Ver, por exemplo, Joyce P. Lindenbaum. “The shattering of an illusion: The problem of competition in lesbian relationships”. In Feminist Studies, 11, no 1, Spring 1985. 119 importância da amizade favorece também a inclusão de outras pessoas na relação lésbica, mais do que no casal heterossexual que é mais protegido pela vida familiar. A rotina sexual E também há o hábito, como em todos os casais. Mas os outros casais, e os formados por dois homens em especial, fazem mais coisas para renovar sua relação erótica. Em geral, os homens têm fantasias, desejos e práticas sexuais mais variadas do que as mulheres. Gostam da penetração vaginal e anal, mas também do sexo oral e dos jogos sexuais, mais do que as mulheres. Pensam mais no sexo, tendem mais a experimentar diferentes posições ou atividades, se masturbam mais, e utilizam mais freqüentemente materiais eróticos ou pornográficos (objetos, livros, vídeos, revistas) em sua vida sexual91. Os homossexuais têm um repertório sexual mais vasto, já que incluem nele atividades de grupo e práticas particulares das quais falaremos no próximo capítulo. As mulheres, por sua vez, têm preferências e atividades muito mais limitadas, e são mais inibidas para propor ou experimentar coisas novas. Essa relativa falta de variedade explica também, em parte, o declínio da relação sexual no casal lésbico. Mais o que elas fazem na cama? Em primeiro lugar, elas não fazem o que muita gente acha, e aquilo que mostram os filmes pornográficos. A relação sexual entre mulheres não é, na maioria das vezes, um sucedâneo do coito heterossexual com penetração com “consolos”. Quando elas praticam a penetração é geralmente com a mão e não com objetos: segundo uma pesquisa americana, perto de 90% das lésbicas praticam a penetração vaginal, mas somente um terço dentre elas utilizam consolos. As práticas sexuais mais comuns são, portanto, a penetração vaginal com a mão, a estimulação buco-genital (cunnilingus), que quase todas as lésbicas praticam muito freqüentemente, bem como a estimulação clitoridiana com os dedos e fricção das regiões genitais (tribadismo). No que concerne o prazer sexual, mais ou menos cinqüenta por cento das lésbicas dizem que elas “sempre” têm orgasmos (enquanto somente trinta por cento das heterossexuais dizem isso92). Muitas pessoas pensam que existem na relação sexual lésbica uma mulher “masculina” que toma a iniciativa e o papel “ativo”, e uma mulher “feminina” que desenvolve o papel “passivo”. Esse velho estereótipo, copiado de certos clichês sobre a homossexualidade masculina ou sobre a heterossexualidade, está muito longe da verdade. Em uma pesquisa de Loulan entre quase seiscentas mulheres, perto de 50% se identificaram como “andróginas”, perto de 20% como mais “femininas” e 15% como mais “masculinas93”. Contudo, suas condutas sexuais eram praticamente as mesmas: as lésbicas masculinas não tomavam a iniciativa, e não praticavam a penetração, mais do que as femininas. Na relação sexual lésbica, existe antes alternância de atividades sem atribuição de papéis: uma mulher estimula a outra a ter o orgasmo e depois é acariciada por ela; alguns casais desenvolvem modalidades para chegaram juntas ao orgasmo. Essa ausência de papéis masculino e feminino na cama, não significa, contudo, que não haja uma certa divisão do trabalho: em muitos casais lésbicos (como em todos os casais), uma mulher tenderá mais do que a outra a começar a relação sexual. Isso pode corresponder ao grau de homofobia interiorizada: aquela que assume melhor sua homossexualidade será freqüentemente aquela que toma mais a iniciativa. Vemos assim 91 92 Ver Marise Jaspar, op. cit. e Robert Michael et al., op. cit. JoAnn Loulan, op. cit., p. 262; Robert Michael, op. cit., p. 124. 93 JoAnn Loulan, op. cit., p. 266. 120 que, para compreender a relação sexual lésbica, é preciso sempre procurar mais longe do que uma hipotética divisão em papéis masculino e feminino. Lésbicas masculinas e femininas Aliás, todas essas categorias estão mudando. Os termos “butch” (sapatão) e “femme” (mulher) usados nos Estados Unidos para significar lésbicas “masculina” e “feminina” não têm mais a significação que tinham há apenas dez anos. Na fórmula clássica que, por muito tempo predominou no mundo ocidental, as lésbicas masculinas saiam com lésbicas femininas, e podia-se muito bem distinguir quem era quem no casal. Atualmente, exatamente como no mundo heterossexual, formou-se uma espécie de território neutro, mais ou menos andrógino, onde seria muito difícil distinguir lésbicas masculinas das femininas. Além disso, vemos cada vez mais casais formados por duas sapatões, ou por duas mulheres, o que teria sido impensável há apenas alguns anos. Não são unicamente os papéis que mudaram: é também a sua interpretação. Antes, era evidente para todo mundo que as lésbicas masculinas eram homens que não deram certo, mulheres que teriam preferido serem homens. A pesquisa atual mostra, contudo, que as sapatões não querem ser homens e não se vêem como tais: identificamse plenamente como mulheres. O fato de se apropriar certos atributos masculinos não quer dizer que se gostaria de ser um homem — exatamente como a grande maioria dos homossexuais masculinos que assumem aparências femininas não têm nem um pouco vontade de serem mulheres. Durante muito tempo, confundiu-se homossexualidade e transexualismo, no qual uma pessoa tem vontade de mudar seu sexo anatômico; era um erro compreensível, visto os papéis adotados pelos homossexuais. Atualmente, as categorias tradicionais se apagam, assim como as explicações a elas ligadas. É interessante notar que as condutas sexuais dos homossexuais também estão mudando — exatamente como a dos heterossexuais. Uma das transformações mais notáveis dos últimos vinte anos é que os costumes sexuais das mulheres se parecem cada vez mais com os dos homens: graças aos contraceptivos e à revolução sexual, as mulheres têm mais parceiros e atitudes que se aproximam aos poucos das dos homens. A isso é preciso acrescentar o papel crescente de uma indústria do sexo e da pornografia que, ao vender vídeos e acessórios cada vez mais variados, está transformando a sexualidade no mundo inteiro. Assim, apareceram no repertório sexual lésbico novas práticas que antes eram reservadas, na maioria das vezes, aos homossexuais masculinos e aos heterossexuais — por exemplo, o sadomasoquismo e a penetração anal. Os papéis sociais, também, estão mudando: em certos meios, as lésbicas adotam condutas cada vez mais masculinas como a paquera, as relações de uma noite… Qualquer que seja nosso julgamento moral ou político concernente a essa evolução dos costumes, ela demonstra, sem a menor, dúvida que a sexualidade das lésbicas está em plena transformação. Os papéis na vida cotidiana Constata-se também, no casal lésbico, mudanças na vida cotidiana — como também no casal heterossexual. O antigo modelo heterossexual, que compreendia uma divisão do trabalho em atividades masculinas e femininas, no qual os homens trabalhavam, cuidavam do dinheiro e das tarefas pesadas ou mecânicas, e no qual as mulheres assumiam o lar e as relações familiares, vem se desintegrando há mais ou menos vinte anos. Atualmente, na maioria dos casos, os dois membros do casal trabalham e dividem as tarefas segundo os critérios de tempo, eficiência ou simplesmente 121 por preferência. Essa evolução se refletiu muito mais no casal lésbico já que as duas mulheres trabalham. Como em todas as relações, elas mantêm uma certa divisão das tarefas, mas essa não está mais fundada em papéis masculino e feminino. O fato de que não existem papéis pré-determinados apresenta, ao mesmo tempo, vantagens e inconvenientes. Permite às duas pessoas escolherem suas funções no casal por gosto ou por facilidade, e não mais por obrigação. (Isso não significa, claro, que a divisão do trabalho seja inteiramente livre: os papéis que adotamos em nossas relações de casal são, muitas vezes, aqueles que aprendemos em nossas famílias de origem.) Mas essa flexibilidade apresenta também um enorme potencial de conflito já que nada está dado de antemão. Um outro perigo, é que as pessoas se acostumam com certas funções sem realmente falar delas e se encontram presas em um sistema cada vez mais rígido. Quando isso acontece, é sempre uma das duas mulheres que cozinha, ou que conserta o carro, ou que faz as compras… essa rotina obrigatória, por muito tempo típica do casamento heterossexual, não é absolutamente necessária na relação homossexual. A chave para não cair em uma divisão de trabalho rigorosa e sufocante, é a renegociação e a alternância. É útil, de tempos em tempos, rever as funções, os papéis, os hábitos da casa — e modificá-los caso seja necessário. É preciso discordar Todos os problemas que podem surgir na relação serão agravados por um traço que encontramos em muitas mulheres, homossexuais ou heterossexuais. É a dificuldade em expressar e gerir a cólera. De fato, inúmeros autores94 assinalaram que as mulheres aprendem, desde a sua infância, a reprimir a cólera, sobretudo quando essa concerne a uma pessoa amada ou apresenta o risco de perturbar uma relação próxima. No código tradicional da feminilidade, as mulheres não devem ser “agressivas”, mas sempre conciliadoras, flexíveis, pacientes e tolerantes. Sua função não é enfrentar, mas antes, consertar, apaziguar, encontrar um terreno de entendimento. Sobretudo, elas devem salvaguardar as relações humanas. Então, quando as mulheres ficam bravas, elas se sentem freqüentemente culpadas, egoístas, cruéis; contrariamente aos homens, tentam esconder ou minimizar isso. Ou então, se mostram bravas, freqüentemente de uma maneira inapropriada. A cólera se desloca sobre uma outra pessoa; ou ela está deslocada, aparecendo dias ou semanas mais tarde, ou então a respeito de outra coisa, que não tem nada a ver com a sua verdadeira causa, ou ainda de uma maneira desproporcional, fruto de um ressentimento longamente guardado no silêncio. Tudo isso pode provocar conflitos sérios no casal heterossexual; mas são bem piores quando se trata de duas mulheres. Se à dificuldade de ficar brava e de colocar limites acrescentam-se a tendência à fusão, a empatia, a necessidade de agradar e a busca da intimidade — que são próprias das mulheres em suas relações amorosas —, imagina-se sem dificuldade os problemas que podem surgir nas relações lésbicas. Além disso, muitas mulheres têm uma imagem idealizada da relação de casal — sobretudo se a outra pessoa for também uma mulher. Sua concepção do entendimento perfeito, sem conflitos, é tão forte que elas preferem se calar a expressar seu desacordo para não perturbar a paz conjugal. Seu desejo de harmonia é tão profundo que não é necessário se ater aos detalhes desagradáveis. Então, paradoxalmente, a comunicação começa a se destruir ela mesma: as duas mulheres se dão tão bem que param de expressar tudo aquilo que poderia afetar a sua relação. A comunicação é suplantada aos poucos pela projeção. Ao invés de falar, deixa-se adivinhar; ao invés de escutar, imaginase; ao invés de discordar, mantém-se uma paz confortável e reconfortante, mas artificial. 94 Ver Harriet G. Lerner (1989) The dance of anger. New York, Harper Collins. 122 Eis porque é preciso ficar bravo de vez em quando. A cólera é indispensável em todas as relações humanas. Marca a diferença, a individualidade, os limites. Bem canalizada, ela não destrói as relações: preserva-as, porque obriga os casais a negociar e resolver seus problemas. Como dizem os terapeutas de casal, o objetivo não é parar de discordar, mas de bem discordar, isto é, de um modo construtivo, abrindo novas possibilidades. Quando a cólera é expressa de uma maneira apropriada, permite ao casal rever o que não funciona, fazer as mudanças necessárias para a sua sobrevivência ir adiante; e, além de tudo, salvaguardar os limites entre as pessoas. Aliás, não é sem razão se, em muitos casos, as lésbicas que não têm mais relações sexuais nunca ficam bravas. As duas mulheres se amam, mas sua relação perdeu sua vitalidade. Tendo aparado todas as arestas, elas se dão maravilhosamente bem; mas, ao renunciarem às suas diferenças, elas também deixam de serem indivíduos como um todo. O desafio da lesbianidade É difícil ser uma mulher como um todo. Como esposas, como amantes, como mães, como irmãs ou filhas, as mulheres sempre correm o risco de serem absorvidas por aqueles que dependem delas. Após terem conquistado a igualdade jurídica e política, e uma igualdade econômica crescente em relação aos homens, o que deve vir a seguir é o desenvolvimento de uma identidade autônoma. A luta para a individuação é nesse momento o grande desafio das mulheres; e as lésbicas estão na vanguarda dessa luta, porque constituem, pela primeira vez na história, uma população feminina amplamente independente dos homens e da maternidade. Essa população é obrigada à se definir de outra forma, não mais tendo a família como referência, e de se forjar uma identidade fora dos papéis tradicionais da mulher. A lesbianidade de hoje não é mais o triste destino das mulheres que não conseguem se encaixar (caso alguma vez já tenha sido): é uma escolha de vida que apela para todos os recursos das mulheres enquanto seres humanos na sua completude. Eis porque tantas lésbicas, quando ultrapassaram as dificuldades da adolescência e da juventude tornam-se mulheres seguras de si, independentes e competentes: na verdade, elas são obrigadas a isso. Na maturidade elas apresentam, em muitos casos, personalidades muito ricas e interessantes. Da mesma forma, quando o casal lésbico funciona bem, oferece uma relação particularmente profunda, igualitária e solidária. O que é preciso fazer para melhorar suas chances? O que é preciso fazer para que o casal lésbico dure mais tempo, para que possa amadurecer, para que mantenha uma comunicação verdadeiramente plena, e uma relação sexual viva e satisfatória? A resposta mais concisa que eu posso dar a esta pergunta é a individuação. No interior do casal, isso significa o respeito e o desenvolvimento da diferença. Nessa situação, difícil de atingir, mas com certeza não impossível, cada mulher respeita a personalidade de sua parceira e ajuda-a a desenvolver todo o potencial de sua individualidade. Então, as duas mulheres não são apenas melhores amigas e amantes, mas tornam-se verdadeiras aliadas na vida. Temas de reflexão para consolidar o casal lésbico — Promover espaços físicos individuais. É útil desenhar um mapa da habitação, e ver a quem pertence cada cômodo — quer dizer, quem decide sua decoração e sua utilização. Freqüentemente, nenhuma das duas mulheres tem um espaço verdadeiramente dela, que ela possa decorar à sua própria maneira e onde ela possa fazer o que ela quer. Designar (ou criar) espaços individuais e comuns. 123 — Promover tempos individuais. Muitas vezes, o tempo livre é sistematicamente partilhado. Designar pelo menos um período por semana, por exemplo, uma noite, em que faremos alguma coisa separadamente: ver amigos, ir ao cinema… — Promover atividades individuais. É útil se perguntar o que faríamos de nosso tempo se não estivéssemos juntas, o que fazíamos nesse tempo antes de se conhecer, e o que deixamos de fazer desde que estamos juntas. É importante retomar algumas dessas atividades independentemente uma da outra na medida do possível. — É indispensável parar de dividir roupas, jóias, acessórios, maquiagem, etc. — Pode-se também promover a autonomia das finanças. Muitos casais reúnem todos os seus fundos para enfrentar as despesas conjugais, o que facilita as coisas, mas confunde, mais uma vez, as fronteiras entre as pessoas. Se possível, portanto, é útil que cada uma possa pôr de lado uma parte de seus rendimentos para gastá-la como melhor lhe convier. — No quadro terapêutico, é essencial que o terapeuta devolva constantemente às duas mulheres o reflexo de sua diferença, encorajando-as para cultivá-la, ao invés de tentar sempre amenizá-la. — Desenvolver um novo estilo de resolução de conflitos: ao invés de procurar soluções de compromisso, tentar a alternância. Por exemplo: se você adora a comida chinesa e sua amiga a comida italiana; é melhor não ir ao restaurante francês que ambas gostam mais ou menos; é melhor ir uma vez ao restaurante chinês e uma outra vez ao italiano. O meio termo nem sempre é a melhor solução. — Mudar o estilo de comunicação: em uma palavra, falar menos. Se muitas vezes é preciso promover a comunicação no casal heterossexual, no casal lésbico é preciso restringi-la. Temos tendência a se contar tudo; mas é preciso recriar um espaço onde é permitido guardar coisas para si, para amenizar a tendência à fusão. É muito importante parar de dividir tudo. — Mudar os papéis: reconsiderar periodicamente quem faz o quê no casal, para verificar que cada uma está satisfeita com sua função. Gostar de cozinhar é uma coisa, e uma outra, muito diferente, é ser obrigado a cozinhar todos os dias durantes anos. Rever também porque cada uma faz o que faz: por gosto, por costume, porque é mais feminina ou masculina, porque é o que ela fazia antes em suas relações heterossexuais? — No domínio sexual, a variedade é essencial. Mudar as rotinas, os horários, os lugares, as maneiras de ter relação sexual. Tentar outras formas de estimulação, inclusive os acessórios sexuais, os vídeos pornográficos, etc. 124 CAPÍTULO 8 O casal homossexual masculino Como a lesbianidade contemporânea, a homossexualidade masculina foi marcada pela revolução sexual e a liberação guei; mas em seu caso acrescenta-se um outro fator: a AIDS. Esses fenômenos transformaram a homossexualidade masculina em três níveis: fizeram aparecer uma identidade pessoal, uma dinâmica de casal e uma comunidade que não existiam antes. Não se pode entender a relação homossexual masculina sem examinar este contexto social e ideológico. A revolução sexual A revolução sexual dos anos 60 e 70 transformou o sentido da sexualidade. O prazer tornou-se um objetivo em si, independente da procriação e de qualquer ligação afetiva ou legal entre indivíduos. Assim, abriu-se a possibilidade de uma grande variedade de parceiros e de práticas sexuais. Os encontros ocasionais, a multiparceria, as práticas sexuais que não apenas o coito – muitas modalidades diferentes que entraram nos costumes. Essa transformação da sexualidade coincidiu com a evolução de uma sociedade de consumo que preconiza a gratificação imediata de todos os desejos, com uma escolha infinita de objetos para consumir. Segundo esta visão, o prazer é o objetivo principal da existência, e o direito ao prazer uma prerrogativa universal. Ela exalta também a novidade e a variedade: o novo é mais excitante e, quando as coisas, as pessoas ou as relações se desgastam, é preciso substituí-las. Não há nenhuma dúvida de que essas idéias contribuíram para transformar as pessoas em objetos de consumo sexual e que elas se acrescentaram à multiparceria e à busca do prazer preconizados pela revolução sexual para constituir uma nova sexualidade senão mais livre, pelo menos mais fácil. O marketing do corpo Os anos 80 e 90 viram igualmente a evolução de uma certa concepção do corpo: apareceram novos tipos físicos, um pouco desumanizados: as mulheres deviam ser de uma magreza anoréxica, e os homens bronzeados e musculosos como se fossem todos os dias para a praia. Curiosamente, as lésbicas não adotaram um novo ideal feminino: nem a magreza, nem a maquiagem, nem as roupas em moda. A ideologia feminista talvez as protegeu do assalto publicitário (embora não as tenha impedido de seguir as modas masculinas, em uma certa medida...). Os homossexuais, em contrapartida, adotaram um novo look sem reserva, cultuando a sessão cotidiana de academia, o bronzeamento artificial, a jaqueta de couro, as botas, os cabelos curtos, o bigode... O ideal masculino guei é de uma virilidade exagerada, como se os homossexuais tentassem se desfazer de uma vez por todas de sua clássica imagem de homens efeminados – embora exista sempre, e continuará a existir, variações sobre esse tema. O ideal homoerótico incorpora também uma eterna juventude: no mundo guei é proibido envelhecer. Esse culto da masculinidade e da juventude – que tem uma longa história desde os Gregos – torna-se, mais do que antes, um elemento central do imaginário e da vida social e sexual dos homossexuais. Concomitantemente a essas transformações, desenvolveu-se uma indústria do sexo que se aproveitou disso para inventar e para vender novas formas de estimulação 125 sexual. Apoiando-se em recursos financeiros imensos, ela difundiu fantasias, práticas e acessórios até então reservados aos amantes do voyeurismo, do fetichismo, da pedofilia e do sadomasoquismo. Algumas dessas parafilias, que antes eram chamadas “perversões”, tornaram-se doravante “normais” – até mesmo banais – e entraram no vocabulário cotidiano da sexualidade. Os estabelecimentos especializados, as revistas, os filmes e os vídeos pornográficos, assim como acessórios de todos os tipos, contribuíram para derrubar as barreiras entre o “perverso” e o “normal”, o privado e o público, e entraram, eles também, nos costumes. A nova homossexualidade A liberação guei fez da homossexualidade não mais um destino infeliz, mas um estilo de vida livremente escolhido. Tornou possível viver publicamente uma orientação que sempre tinha sido clandestina. Os homens homossexuais que atingiam a idade adulta nos anos 70 foram a população mais bem colocada para aproveitar essas transformações. Mais livres do que os heterossexuais, mais à vontade do que as lésbicas, lançaram-se na exploração de novas formas de estimulação e de satisfação sexuais. Para muitos deles, a liberação guei significou, antes de tudo, o direito ao prazer sob todas as suas formas, inclusive na multiparceria, o sexo em grupo e, em alguns casos, a pedofilia. Após uma longa história de perseguição, tudo era permitido – e talvez fosse esperado que eles quisessem se aproveitar disso plenamente. De fato, os homossexuais da liberação guei só praticaram abertamente o que muitos homens (hetero e homossexuais), sempre haviam feito em segredo. Isso pareceu muito novo porque acontecia entre homens, mas essas novas modalidades só retomavam costumes sexuais que tinham sido amplamente desenvolvidos e cultivados nas casas de prostituição da era moderna. Os "banhos públicos"95, as saunas, os darkrooms da liberação guei foram apenas variações sobre o tema das casas de prostituição: eram lugares centrados no prazer, onde se podia beber, comer, consumir drogas, assistir a espetáculos ou jogos sexuais, ter múltiplos parceiros (inclusive menores de idade), praticar o sexo com várias pessoas ao mesmo tempo, obter material pornográfico, e assim por diante. Como nas casas de prostituição, as relações sexuais eram livres de qualquer obrigação afetiva ou jurídica, completamente separadas do casamento e da família, e permitiam aos homens satisfazerem seus desejos sem se preocuparem demais com as conseqüências. E, nos dois casos, eram espaços reservados a atividades consideradas ilícitas pela sociedade em seu conjunto. Os estabelecimentos gueis centrados no sexo só retomaram as mesmas atividades e as mesmas regras do jogo, exceto para a remuneração dos parceiros sexuais. Eram, de fato, casas de prostituições gratuitas que ofereciam todos os serviços propostos pelos antigos bordéis. O problema é que os homossexuais começaram a freqüentá-las abertamente, enquanto seus predecessores faziam isso mais ou menos discretamente; proclamaram suas aventuras, ao invés de escondê-las; sua freqüência se popularizou, enquanto os bordéis eram reservados às elites. Insensivelmente, no calor da descoberta, adotaram como estilo de vida cotidiano e público o que seus predecessores haviam cultuado de modo esporádico e secreto, sempre salvaguardando o casamento e a família e mantendo uma distinção entre relações conjugais e aventuras sexuais. Os homossexuais, em contrapartida, aos poucos eliminaram essa demarcação para inserir a pluralidade sexual na relação de casal, como o veremos. 95 Os "banhos públicos" são estabelecimentos públicos ou privados onde as pessoas podem tomar banhos e duchas, lavar suas roupas, a preços baixos. [Nota dos tradutores] 126 Homossexualidade “negra” e “branca” Para melhor entender essa evolução, é útil relembrar a distinção que vários autores fizeram entre uma homossexualidade masculina “negra” e uma outra, “branca96”. Essa última é a homossexualidade que encontramos na literatura e no cinema de bom tom, com personagens sensíveis e refinados de classe relativamente elevada. É a homossexualidade aristocrática de Oscar Wilde, do Maurice de E. M. Forster, do círculo de Bloomsbury na Inglaterra, e de uma profusão de escritores franceses. Feita de belos sentimentos, atravessada de melancolia, é a homossexualidade inocente das escolas e dos conventos, do amor que não ousa dizer seu nome, e das amizades particulares. Mas, ao lado dela, e se confundindo às vezes com ela, existe uma outra modalidade que poderíamos chamar de homossexualidade “negra” ou dos bas-fonds: a dos banheiros públicos, dos parques públicos e das estações de trem, dos "banhos públicos" e das saunas, dos darkrooms, dos encontros furtivos, das relações sexuais anônimas e, às vezes, pagas. Trata-se de uma sexualidade impulsiva, arriscada, às vezes perigosa – e que muitos homens acham excitante. É preciso dizer que durante muito tempo, ela representou a única maneira para os homossexuais das classes populares de se encontrarem – e isso ainda vale exceto nas grandes cidades dos países industrializados e na maioria dos países do terceiro mundo. Mas essa homossexualidade “negra” nunca foi restrita às classes populares: há muito tempo, atraiu igualmente, homens de classe e de educação elevadas, freqüentemente de um grande refinamento intelectual e artístico. Entre seus adeptos pudemos contar Proust, Genet, Gide e Pasolini, para citar apenas alguns. A homossexualidade “negra” permite uma mistura de classe e um certo “turismo sexual”, que respondem ao desejo de muitos homossexuais de terem relações com homens “do povo”, com operários bonitos, musculosos e espontâneos, até mesmo “primitivos”, em sua sexualidade. Reencontra-se nesse desejo o culto de uma certa masculinidade, da qual já falamos. Como explica um homossexual de quarenta e cinco anos, que exerce uma profissão liberal: “Se relacionar com o povão, é como viajar em um outro país. Encontrase uma enorme variedade de pessoas, descobre-se coisas novas e, além do mais, eles são mais simples que nós, mais francos, menos viciados pela vida moderna.” A homossexualidade “negra” não tem equivalente nas lésbicas. Constituem um espaço puramente masculino e parece corresponder a uma sexualidade masculina, feita de relações fáceis, espontâneas, rápidas, anônimas e sem obrigações. Esse mundo dos bas-fonds, por muito tempo considerado pela sociedade heterossexual como um último recurso para homossexuais famintos por sexo é, na verdade, extremamente atraente para muitos deles. A comercialização da homossexualidade A liberação guei apropriou-se da homossexualidade “negra” não como um último recurso, mas como um espaço vital de uma sexualidade masculina sem entraves – embora, de algum modo domesticada. A partir dos anos 70 apareceram nas grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos estabelecimentos gueis centrados no sexo, bares e discotecas que ofereciam em um espaço protegido o equivalente dos banheiros públicos e dos "banhos públicos". Em particular, criaram o famoso darkroom, quarto praticamente escuro consagrado ao sexo anônimo, seja individual, seja em grupo. Doravante, ao invés de ir paquerar nos parques, os homossexuais podiam se seduzir em 96 A expressão é de Guy Hocuenghem. Ver Frédéric Martel (1996) Le rose et le noir. Paris: Seuil, chap. 4 127 um espaço social freqüentável com todos os serviços e sem correr o risco de serem brutalizados – pelo preço de uma entrada. Essa comercialização da sexualidade guei no decorrer dos dois últimos decênios contribuiu para reaproximar os dois tipos de homossexualidade. Os darkrooms em especial permitem uma sexualidade imediata, gratuita e fácil: todos aqueles que estão aí são, por definição, disponíveis. São lugares que privilegiam o voyeurismo e o sexo coletivo. Inúmeros autores tentaram explicar a importância desses no universo guei, descrevendo-o, por exemplo, como “um retorno à orgia tradicional, à promiscuidade sexual multiforma, permitindo satisfazer tanto uma necessidade fisiológica, quanto um sentimento de pertença coletiva97”. Nessa ótica, o sexo em grupo serve para recriar uma certa camaradagem masculina, como aquela exaltada por Walt Whitman em sua poesia e por Herman Melville em seus romances da vida no mar, nos quais o navio constitui um domínio puramente masculino. Contudo, apesar das aparências, a homossexualidade “negra” não é somente um espaço consagrado à conquista sexual. Além do sexo anônimo e dos encontros fáceis, há também freqüentemente, nos bares e nos darkrooms, uma busca do amor que vai muito além de um simples orgasmo. Como o explica um homem de cinqüenta e seis anos, que conheceu bem a cena guei da Nova Iorque dos anos 70: “Há também nos darkrooms uma busca do amor. Antes, os homossexuais eram muito reprimidos e o amor entre homens era proibido. Então, quando se ia aos bares e quando se tinha relações sexuais com homens muito bonitos, vivia-se a cada noite uma grande paixão. Ia-se aos bares com a ilusão romântica de encontrar o grande amor, do qual se sabia muito bem que ia durar uma noite: tinha-se a miragem do amor eterno durante uma meia hora. A solidão desaparecia no espaço de uma noite, e aos poucos se construía uma vida afetiva baseada nessa busca que não era apenas sexual, mas romântica." A AIDS Essa busca tomou um outro sentido quando a AIDS veio romper todos os novos esquemas. Infelizmente, quando apareceu no início dos anos 80, os costumes homossexuais masculinos já eram bem sedimentados, e até mesmo a tragédia da epidemia não os afetou tanto quanto podíamos esperar. Apesar de vinte anos de campanhas de prevenção e dos esforços incessantes de inúmeros agrupamentos homossexuais para encorajar o safer sex98 (sexo mais seguro), uma proporção importante – 16,9% segundo um estudo francês de 199399 - de homens gueis, tendo relações ocasionais” com penetração anal, nunca usa preservativos. Uma pesquisa americana revelou, no início de 1999, que 30% de 2500 jovens homossexuais interrogados em várias cidades têm relações ocasionais sem nenhuma proteção. O número de homossexuais que sempre usam preservativos durante contatos ocasionais diminuiu de 69,9% em 1994 para 60,08% em 1997, segundo o Centers for Disease Control and Prevention nos Estados Unidos. Dois terços dos homens gueis pesquisados em Chicago, Denver e São Francisco, revelam ter tido pelo menos um encontro sexual sem preservativo no decorrer dos últimos dezoito meses. Enfim, a taxa de infecção pelo vírus HIV aumenta novamente, após anos de estabilidade: na cidade americana de Atlanta, por exemplo, um Centro de 97 98 Frédéric Martel, op. cit., p. 194 A expressão inglesa safer sex que substituiu safe sex nas campanhas anti-aids há alguns anos, reflete a idéia de que não existem modalidades sexuais absolutamente seguras, mas somente relativamente seguras. Pode haver uma pequena lesão em algum lugar, o preservativo pode se romper ou estar defeituoso... Uma pesquisa francesa de 1993 revela que mesmo os homossexuais que utilizam regularmente um preservativo estão em risco: 30% dentre eles se rompem e, 16% “escapam”. Isso parece resultar de um uso incorreto: com efeito, quase 38% dos homossexuais que utilizam preservativos omitem o lubrificante. Ver Marie-Ange Schiltz (1993) Les homosexuels masculins face au sida, enquêtes 1991-1992. Em Relatório CNRS-EHESS, dezembro de 1993, citado em Martel, p. 366-367. 99 Schiltz, 1993, citado em Martel, p. 363. 128 Análises Clínicas, revela um aumento de 50% do número de resultados soropositivos, desde 1997100. Segundo os especialistas, a nova geração de homossexuais não conheceu a hecatombe dos anos 80 e não vê mais na AIDS uma condenação à morte irrevogável. Durante os anos 90 houve uma “normalização” da AIDS: os novos tratamentos sintomáticos permitem às pessoas soropositivas viverem por muito mais tempo e em condições muito melhores. Ademais, as pessoas se acostumaram com a existência do vírus e não prestam mais tanta atenção às campanhas preventivas. Enfim, como os homens soropositivos não morrem mais tão rapidamente, continuam a exercer a sua sexualidade livremente, agravando assim, os riscos de transmissão. Quaisquer que sejam as razões da resistência ao sexo-seguro, e qualquer que seja a evolução da epidemia, é certo que a AIDS marcou e continua marcando quase em todo o mundo a vida dos homossexuais. Assim, pelo menos nos países industrializados, o número de parceiros sexuais diminuiu, o sexo anal não é mais tão difundido durante os contatos ocasionais e, muito mais homossexuais, iniciam, atualmente, relações conjugais monogâmicas mais estáveis e mais duráveis. A sexualidade homossexual masculina A sexualidade entre homens também está em plena transformação. Categorias e práticas que eram comuns há apenas vinte anos perderam amplamente sua significação e sua importância. Em primeiro lugar, a divisão entre homossexuais “masculinos” e “femininos” quase desapareceu, exatamente como entre as lésbicas. Em seguida e, paralelamente, não é tão verdadeiro quanto antes que os homossexuais sejam exclusivamente ativos ou passivos em sua sexualidade. Tendem antes, pelo menos nos países industrializados, a ampliar suas práticas e são menos restritamente “especializados”: praticam mais uma alternância dos papéis que pode depender de seu humor, do parceiro, da etapa da relação, ou das circunstâncias. Depois, a penetração anal entre desconhecidos é menos corriqueira: é mais reservada às relações entre amigos ou no casal; pode aparecer somente após certo tempo, esperando que os dois homens se conheçam melhor e se sintam protegidos dos riscos da AIDS. As pesquisas mostram que a penetração anal em geral é menos difundida do que se pensava: na última relação sexual apenas 36% dos homens sodomizaram seu parceiro e 28% foram sodomizados101. As práticas mais freqüentes nos homossexuais são a felação (presente em 72% das últimas relações), a masturbação recíproca (em 82% das últimas relações) e a estimulação interfemural (na qual um homem coloca seu pênis entre as pernas do outro). Outras atividades muito menos freqüentes são, rimming (a estimulação buco-anal, também conhecida como cunnilingüis) e o fist-fucking (no qual um homem insere seu punho no ânus do outro102). Isso significa que as condutas sexuais entre homens são de uma grande variedade e que a penetração não é um componente essencial do sexo para eles e nem para as lésbicas. Contudo, é muito difícil generalizar nesse campo: as práticas mudam segundo o país, a classe social, a época e a moda. A única coisa certa é que os homens usufruem entre eles de uma enorme liberdade sexual. Isso faz com que suas relações sejam ricas e variadas do ponto de vista erótico, mas não necessariamente mais íntimas. 100 101 Números dados pela agência Associated Press, 31 de janeiro de 1999. Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993) Les comportements sexuels en France. Paris, La Documentation française, p. 159. 102 Idem. 129 Em que consiste o casal masculino? A estrutura, e a própria definição do casal homossexual está também em plena evolução. A primeira coisa que nós poderíamos dizer é que não se parece nem um pouco com os outros casais. Uma das dificuldades para estudá-lo e tratá-lo reside precisamente no fato de que nenhum dos parâmetros da relação heterossexual se aplica a ele. O casal de homens é mais complexo e mais difícil para entender do que o das mulheres, porque parece ainda menos com o casamento e seu engajamento em longo prazo e seu acento sobre a monogamia (pelo menos em teoria). A relação lésbica parece mais com o modelo heterossexual: é geralmente monogâmica (ou tenta sê-lo); inscreve-se em um discurso amoroso; e aspira a uma estabilidade em longo prazo. Em contrapartida, pode acontecer que dois homens estabelecendo uma relação não falem de amor, não façam juras de fidelidade, não tenham nenhuma intenção de serem monogâmicos e não planejam um futuro em comum. Poderia legitimamente se perguntar se o termo “casal” se aplica a uma tal relação – e, de fato, até mesmo os homossexuais não parecem estar plenamente de acordo sobre o que eles entendem por isso. Um homossexual de trinta e cinco anos conta: O que eu procuro em uma relação parece bastante com um casamento heterossexual: fidelidade, estabilidade, engajamento em longo prazo. Mas a realidade é muito diferente, pelo menos em minha experiência. Vê-se por toda a parte relações duplas, isto é, homens que vivem em casal mas têm relações paralelas. Há um casal que eu admiro muito, porque são dois homens que se amam de verdade e que estão juntos há sete anos. Um deles me paquerou recentemente; ele me disse que, se alguém excitante aparecesse em sua vida, deixaria seu parceiro sem hesitar... E ele diz amá-lo! Essa anedota mostra bem que não há consensos sobre a significação do casal, mesmo dentro de um pequeno círculo de amigos. Contudo, poderíamos nos perguntar se a forma do casal tradicional é realmente necessária às relações que não têm em suas funções a de fundar uma família e de criar filhos. Uma proporção importante dos homossexuais de hoje não parecem desejar esse engajamento particular que, lembramos, nada tem de universal: o casamento, tal qual o conhecemos hoje, é apenas uma modalidade entre muitas outras na história da humanidade. E não constitui o único meio de ter relações amorosas estáveis. Isso dito, muitos homossexuais aspiram mesmo assim formar casais tradicionais. A liberação guei, ao mesmo tempo em que criticou o modelo heterossexual permitiu também aos homossexuais viverem abertamente em casal, e muitos deles escolheram esse caminho ao invés de parceiros múltiplos. Muito antes da AIDS, que provocou uma certa revalorização das relações estáveis e monogâmicas, houve uma época na qual o fato de viver publicamente em casal era em si uma postura contestatória adotada com orgulho por muitos homossexuais, tanto masculinos quanto femininos. A rejeição do casal tradicional nunca foi universal entre os gueis, e sempre houve, ao contrário, uma proporção importante de homossexuais que optaram pela estabilidade e o engajamento em longo prazo – mesmo que suas relações difiram ainda, em muitos pontos, do casamento heterossexual. As pesquisas mostram que existem muitas relações estáveis entre homens qualquer que seja sua forma: perto de 30% dos homossexuais franceses vivem em casal, e as relações duram por sete anos em média103. Mas certas premissas do casal heterossexual – e em especial a monogamia, e freqüentemente, um engajamento em longo prazo – estão ausentes neste casal, ou têm um sentido radicalmente diferente. Eis 103 Antoine Messiah, Emmanuelle Mouret-Fourme (1993). Homosexualité, bisexualité. Éléments de sociobiographie sexuelle. Em Population, vol. 48, septembre-octobre. Citado em Martel, p. 358. 130 a razão pela qual entrar no universo da homossexualidade masculina é um pouco como chegar a um país exótico, cujos costumes podem parecer singulares à primeira vista; e é impossível entendê-lo se não deixarmos de lado nossos valores e nossos preconceitos habituais. Características do casal masculino O sexo desenvolve um papel muito importante no casal masculino. Esse é, de fato, o tipo mais ativo nessa área, tendo relações sexuais em média dez vezes por mês (isso, claro, após a fase inicial de lua de mel que é em todas as relações um período de atividade sexual intenso104). É um casal que apresenta mais diferenciação do que o das mulheres, provavelmente porque os homens têm mais o costume do que essas de expressar seus desacordos – e de estar com a razão nas discussões. É interessante lembrar nesse contexto as diferenças entre as brincadeiras das crianças dos dois sexos: as brincadeiras entre os meninos são mais competitivas, acontecem em geral em grupos maiores com variações de idade mais importantes, e são mais freqüentemente o objeto de discórdia do que entre as meninas105. Sem querer simplificar demais, encontramos no casal homossexual algumas dessas características: a rivalidade, a importância do grupo, uma diferença de idade significativa em muitos casos e diferenças de opinião marcadas. A dinâmica do casal masculino é determinada mais pelo gênero do que pela homossexualidade, como no casal lésbico. A psicologia, as modalidades de comunicação e a sexualidade masculina fluem livremente, já que não há mulheres para influenciá-los. Isso dito, os homossexuais estão inventando novas formas de masculinidade: como a maioria dos homens hoje, eles são também, de um certo modo, filhos do feminismo. Provavelmente procuram, mais do que seus pais, ter uma comunicação mais íntima e uma relação mas igualitária com seus parceiros. E talvez tenham mais condições do que os heterossexuais para romper as barreiras tradicionais entre os sexos, por serem menos envolvidos nos estereótipos masculino e feminino, e por terem freqüentemente amizades importantes com mulheres. Por outro lado, a tragédia da AIDS obrigou os homossexuais a se cuidarem entre si, a trabalharem em equipe e a formar uma comunidade que não se baseia mais unicamente sobre a orientação sexual ou sobre um programa político, mas também sobre a amizade, a lealdade e a cooperação. Se os primeiros agrupamentos homossexuais da liberação guei foram muitas vezes pretextos para a paquera, os que existem atualmente ao redor da AIDS constituem antes de tudo espaços de trabalho para o bem comum. A epidemia também os obrigou a forjar relações de casal mais estáveis, mais monogâmicas e talvez mais íntimas. Apesar de todas as transformações em curso, os terapeutas observam ainda certas dificuldades que parecem características da relação homossexual masculina e que comprometem a sua estabilidade. Três problemas em particular voltam nos relatos dos homens gueis e nas obras que lhe são consagradas: a falta de comunicação, a falta de engajamento na relação e a multiparceria. Iremos examiná-los sucessivamente, lembrando-nos, contudo, que estão ligados entre eles. A comunicação entre homens A comunicação entre homens é muito diferente daquela que as mulheres mantêm. Em geral, e apesar das transformações em curso, os homens falam menos de seus sentimentos, interrompem-se mais freqüentemente, escutam-se menos e discordam mais facilmente. O poder desenvolve um papel importante em suas relações: eles procuram 104 105 Ver Partners Task Force for Lesbian and Gay Couples. Partners National Survey of Gay and Lesbian Couples, 1995. Ver Janet Lever (1976) Sex differences in the games children play. Em Social problems, 23, p. 478-487. 131 vencer mais do que encontrar um consenso e tendem mais a se afrontar do que a cooperar. Sua comunicação é mais hierarquizada e vertical. É interessante notar que muitos homossexuais têm mulheres como melhores amigos, mais do que homens, sobretudo se esses forem heterossexuais; em muitos casos, se dão melhor com suas amigas (homo ou heterossexuais) do que com seus próprios parceiros. Pode-se pensar que eles encontram nas mulheres uma escuta e uma compreensão que não existem (ou que não são suficientemente desenvolvidas) em suas relações de casal. Faltam, sobretudo, dois elementos no casal masculino no plano da comunicação: falar da relação e expressar os sentimentos amorosos. Quando os diálogos nesses dois campos são insuficientes, os mal-entendidos são inevitáveis. E há muitas vezes uma contradição na comunicação do casal guei: os dois homens falam a respeito de tudo, exceto de sua relação, enquanto as mulheres falam dela continuamente (e talvez demais). Por causa dessa falta de reflexão comum sobre o casal, os dois homens têm freqüentemente uma visão muito diferente da relação. Pode acontecer que um dos dois parceiros acredite que essa está solidamente estabelecida e que existe um engajamento de casal, enquanto para o outro não é nada disso. Os homens geralmente têm dificuldade em expressar seus sentimentos, sobretudo quando se trata de amor, e isso pode também provocar mal-entendidos. Muitos homens queixam-se de uma falta de sinceridade, até mesmo de honestidade, nas relações gueis, mas o que falta, não é necessariamente a honestidade, é simplesmente a comunicação. Em inúmeros casos, é menos uma questão de mentira do que de omissão. Um homem de trinta e cinco anos conta, após uma relação de curta duração: Não sei onde tirou a idéia de que íamos ficar juntos. Nunca lhe prometi nada, nunca lhe falei que íamos viver juntos, nunca lhe jurei fidelidade. Se ele entendeu outra coisa, é problema dele. Claro, esse tipo de mal-entendido não se limita aos homossexuais. Mas, no casal heterossexual, são os homens que são reticentes em expressar seus sentimentos ou em se engajar na relação, enquanto as mulheres passam seu tempo a pressioná-los a se engajar nela. No casal homossexual masculino, essa dificuldade é multiplicada por dois. E constitui, sem dúvida nenhuma, uma barreira para a intimidade e para a estabilidade. A atitude do homem que acabamos de citar é muito reveladora: indica-nos que os dois homens em questão nunca falaram sobre a natureza de sua relação, nem sobre seu futuro enquanto casal; na verdade, não existia nenhum acordo sobre a existência desse. Ela reflete também certa falta de engajamento em relação ao outro: no final das contas, cada um leva sua vida à parte. Quando isso acontece, pode-se dizer que cada um vive sozinho a relação; essa não é a mesma para os dois homens, e nesse sentido não há realmente um casal. Afinal, a condição sine qua non para que um casal exista, é que seus dois membros habitem uma mesma relação. Mesmo quando dois homens decidem formar um casal, pode existir entre eles uma divergência profunda sobre a natureza da relação que, contudo, nunca será explicitada. Eis porque é necessário, desde o início, cumprir um trabalho de definição: é indispensável que os dois parceiros façam o esforço de explicitar o que eles entendem pelas palavras “relação”, “casal”, “amor”, “fidelidade”, “monogamia”, “aventura”, e assim por diante, para terem certeza que concordam sobre os termos da relação. Se a liberdade de um é a infidelidade do outro, os mal-entendidos não tardarão a surgir. E se as regras do jogo não são as mesmas para as duas pessoas, o próprio jogo não durará muito. É importante renegociar essas regras de vez em quando. As pessoas mudam, as necessidades e os desejos evoluem segundo as etapas da vida e da relação, e não há 132 razão para que as regras do jogo adotadas no início sejam as mesmas para sempre. Um homem de quarenta e quatro anos conta: Estamos juntos há quinze anos. Durante os dez primeiros anos, fomos monogâmicos. Depois nos demos conta que ambos tínhamos vontade de termos uma relação de casal aberta, isto é, de termos relações sexuais com outras pessoas. E não é justo reprimir esse tipo de vontade — o casal não pode funcionar se há repressão. Então, falamos a respeito e começamos a ter relações sexuais com outros homens — às vezes juntos, e às vezes separadamente. Já estávamos consolidados enquanto casal, e isso nunca nos trouxe problema. Nesse exemplo, a relação amorosa sobreviveu à pluralidade sexual porque havia um acordo explícito entre os parceiros. Claro, pode acontecer que os dois homens não estejam de acordo sobre a decisão de abrir a relação e nem sobre o modo de fazê-lo; mas, nesse caso também, vale mais falar disso do que começar a ter relações clandestinas. Se houver amor e engajamento, o resto deve em principio ser negociável; se o conteúdo está aqui, sempre se pode transformar a forma. É uma das grandes diferenças entre o casal homossexual e o casamento heterossexual, no qual é muito mais difícil mudar a forma da relação. Se o casal homossexual oferece uma flexibilidade maior e permite uma atualização periódica de suas próprias regras, é preciso aproveitar isso. Talvez isso seja particularmente importante para o casal masculino, porque os homens variam mais do que as mulheres naquilo que eles esperam de uma relação: mesmo jovens, elas aspiram a uma certa estabilidade, coisa que os homens, em geral procuram somente mais tarde. Em uma palavra, é preciso falar da relação para que ela dure. No casal homossexual, nada é dado de antemão: não há “manual de instruções”, nem garantia, nem regras fixas. Portanto, é preciso inventá-las. Infelizmente, os homens não são “treinados” para esse tipo de exercício, porque, em nossa sociedade, são geralmente as mulheres que cuidam da comunicação e das relações íntimas. Não nos esqueçamos que as mulheres aprendem desde sua infância a valorizar o lar, a família, a cooperação e a vida em comum, enquanto os meninos são levados a desenvolver muito mais a iniciativa pessoal, a competição e a independência. A autonomia na relação Esses traços, longamente cultivados entre os homens, manifestam-se de varias maneiras no casal masculino. Em primeiro lugar, observa-se freqüentemente nos homossexuais masculinos uma certa reticência em relação ao engajamento em longo prazo — ou até em curto prazo. Um homossexual de cinqüenta e dois anos conta: Vivo sozinho há vinte anos e tenho relações ocasionais, mas não me vejo nem um pouco vivendo com alguém, dividindo uma mesma cama. Às vezes tenho a fantasia de ter uma casa grande, com um ginásio e muitos quartos, aonde as pessoas viriam me visitar e onde eu teria uma grande variedade de opções. Se por ventura tivesse uma relação de casal estável, gostaria de viver um pouco como Sartre e Beauvoir — separadamente, vendo-se de vez em quando. Mas duvido disso. O que gosto na homossexualidade é justamente a fugacidade, o caráter gratuito dos encontros: a aventura. Sinto, às vezes, que a atração dura tão pouco, pelo menos para mim — nunca tive relação que durasse mais de dois meses. Essa preocupação de independência encontra-se também, muito freqüentemente, nos casais já formados. Para começar, uma boa proporção dos casais masculinos não vive juntos. Sem querer dizer que a coabitação seja indispensável, o fato de viverem separados significa que não há vida cotidiana em comum. Ora, os casais que partilham o mesmo espaço sabem que uma parte importante de seu entendimento desenvolve-se 133 justamente a partir dos ínfimos detalhes da vida cotidiana: isso pode parecer prosaico, mas as pessoas que dormem juntas e acordam juntas todos os dias, que fazem as compras e lavam a louça juntas, conseguem se conhecer, se entender e se aceitar melhor. A coabitação exige também uma consideração para com o outro, uma flexibilidade e um certo costume da negociação, que levam as pessoas a amadurecerem como indivíduos e como casais. Há também, na vida em comum, um elemento social: os parceiros que coabitam tornam-se uma unidade frente a seus amigos, suas famílias e à sociedade em geral. Isso pode parecer secundário, mas essa identificação social enquanto casal contribui provavelmente para a estabilidade desse. Mesmo quando dois homens vivem juntos, guardam freqüentemente uma ampla autonomia. Isso se traduz, por exemplo, em uma independência econômica que é provavelmente satisfatória para ambos os indivíduos, mas que limita, de um certo modo, seu engajamento como casal. Um homem de cinqüenta e seis anos, que vive há vinte anos com seu parceiro e que espera viver com ele pelo resto de sua vida, declara: Mantemos uma separação rigorosa do dinheiro. Cada um tem sua própria conta no banco e quando vamos ao restaurante cada um paga a metade; quando gastamos para a casa, alternamos. Poderíamos pensar, e muitos homossexuais pensam isso, que essa separação dos bens materiais se deve ao estatuto jurídico da relação homossexual. É difícil estabelecer contratos de aluguel, contas bancárias, e assim por diante, em comum — mas o fato é que muitos casais lésbicos conseguem fazê-lo. O equivalente de um contrato de casamento ajudaria, mas não resolveria por si só o problema. As decisões no casal Pois a necessidade de autonomia se manifesta ainda, e acima de tudo, na tomada de decisões. Muitos homens estão acostumados a tomarem sozinhos as decisões que afetam sua própria vida e a do casal. Isso funciona muito bem em inúmeros campos, mas não necessariamente em uma relação amorosa — sobretudo se se tratar de um casal masculino. Nas relações heterossexuais isso não traz tantos problemas, porque parece "normal" que os homens tomem as decisões importantes da casa. Mas, quando se trata de dois homens, as coisas podem se complicar, sobretudo se um deles ou ambos estão acostumados a um certo poder de decisão desde sua infância — se foram, por exemplo, filhos únicos ou primogênitos. Veremos, então, em muitos casos, discussões contínuas — e a necessidade de autonomia tenderá a agravar os conflitos, mais do que a resolvê-los. Enfim, essa dinâmica é exacerbada por uma certa visão social dos homens: espera-se deles que ajam de maneira independente, sobretudo se não são casados. Por exemplo, entenderemos que um homem casado leve em consideração sua família se for convidado para sair, se tiver de mudar de emprego ou ir viver em outro lugar por conta de seu trabalho; parecerá natural que ele não seja tão disponível quanto um homem solteiro. Mas essa compreensão não se aplicará tão facilmente a um homossexual, que não é casado e não tem filhos. A sociedade espera de um solteiro que ele tome suas próprias decisões e que se mova livremente, em todas as áreas. Isso só pode exacerbar a tendência à autonomia, que já é encorajada nos homens desde a infância. É de fato, por causa de tudo isso, que muitos homens gueis preferem viver sozinhos, sejam eles em situação de casal ou não. Em muitos casos, eles não têm vontade de renunciar à sua liberdade de movimento; a vida em comum pode lhes parecer uma coerção inaceitável. Se há um fator que ameaça as relações masculinas mais do que todas as, talvez seja essa necessidade de independência. Para os homossexuais 134 masculinos que querem formar um casal estável — e eles são numerosos — o grande obstáculo a vencer, é o da autonomia. Relação e multiparceria Uma outra decisão muito importante que devem tomar os casais masculinos é a de serem um casal "aberto" ou "fechado", isto é, monogâmico ou não. As pesquisas revelam que aproximadamente a metade dos homens vivendo em casal homossexual é (ou se diz) monogâmica, enquanto os números oscilam entre 70% e 80% para os heterossexuais em vários países europeus e nos Estados Unidos106. Mas, quando estamos falando de monogamia, as definições nem sempre são claras: os estatísticos contam o número de parceiros sexuais nos últimos doze meses para medir a monogamia; na vida real, as pessoas não procedem necessariamente da mesma forma. Um homossexual declara: Somos um casal fiel: não há nada mais importante para nós do que nossa relação. Claro, dormimos às vezes com outras pessoas — mas isso não conta, não tem nenhuma importância para a relação. Ao contrário, nossas pequenas aventuras ajudam-nos a ficar juntos. Portanto, a medida e a lógica da monogamia são relativamente subjetivas. Por outro lado, nesse contexto, as palavras "fidelidade" e "monogamia" não têm necessariamente o mesmo sentido. O mesmo homossexual explica: A monogamia, é o fato de dormir com uma pessoa só. A fidelidade nada tem a ver com isso: é o fato de estar ligado afetivamente a uma só pessoa. O que importa muito mais do que os números ou a definição exata de "monogamia" ou de "fidelidade", é que haja entre os dois parceiros um acordo explícito sobre as regras do jogo da relação. Pois parece não haver uma modalidade que funcione melhor do que as outras: as pesquisas nesse campo não são conclusivas. Certos estudos mostram que os casais masculinos abertos duram mais tempo, e outros, o contrário. Provavelmente não há fórmula que seja aplicável a todas as relações. O que é certo, em contrapartida, é que a comunicação explícita é um ingrediente indispensável em qualquer que seja o arranjo. Alguns casais fazem uma distinção entre monogamia sexual e emocional, a segunda sendo a mais importante; ou entre relação primária e aventuras passageiras. Certos casais decidem permitir as aventuras, mas somente se forem partilhadas, isto é, se praticarem uma sexualidade a três, com um ou vários homens sucessivos. Outros participam de atividades de grupo, sem que sua relação primária seja afetada. Outros concordam em terem relações paralelas, mas somente se o parceiro estiver sabendo. E outros ainda estipulam que as relações fora do casal sejam permitidas, mas somente se não forem comunicadas. O importante não é necessariamente a modalidade escolhida, mas o fato de estabelecer regras explícitas e respeitá-las. Pois o que parece afetar a relação, mais do que as aventuras sexuais, é a mentira. A honestidade e a confiança parecem ser ingredientes indispensáveis em qualquer relação amorosa. Uma palavra de precaução no que diz respeito à interpretação do casal homossexual aberto: freqüentemente, os terapeutas e a sociedade em geral consideram que as relações sexuais fora do casal sinalizam problemas no casal. Nessa lógica, as pessoas têm aventuras quando a relação de casal vai mal. Essa idéia, muito comum e certamente sedutora em sua simplicidade, nem sempre se aplica à relação masculina — para os homens, o fato de ser atraído por outra pessoa não significa forçosamente que não amam mais seu parceiro. E suas aventuras não afetarão necessariamente a relação — se os dois homens estiverem de acordo, claro, sobre as regras do jogo. 106 Robert T. Michael, John H. Gagnon, Edward O. Loaumann, Gina Kolata (1994). Sex in America. New York, Warner Books, p. 106. 135 É preciso igualmente levar em conta o fato de que a busca de parceiros sexuais múltiplos nem sempre é uma questão de simples preferência: pode ser a expressão natural de uma sexualidade plenamente integrada, mas pode também responder a uma necessidade compulsiva. Se a multiparceria não reflete dificuldades no casal, pode ser o sinal de um problema individual. Pode servir para preencher uma carência afetiva ou para dissimular a ansiedade ou a depressão, ou para disfarçar uma incapacidade nas relações íntimas. Pode encobrir uma necessidade de ser reconhecido, por meio da eterna sedução. Não nos esqueçamos de que os homens sofrendo de uma imagem de si desvalorizada procuram, às vezes, consolidá-la por meio do sexo e que os homossexuais, em especial, têm freqüentemente uma longa história de sentimentos de inferioridade. A multiplicidade de parceiros pode também se desenvolver em um contexto de uso abusivo de drogas ou de álcool, ou responder a uma necessidade de pertencimento em uma certa subcultura guei. Por outro lado, os homossexuais estão mais acostumados do que os heteros a separarem os campos afetivo e sexual por causa da homofobia interiorizada. A procura de parceiros múltiplos pode igualmente refletir o culto da masculinidade do qual já falamos, e ajudar os homens a se sentirem mais desejáveis na medida em que podem seduzir outros homens mais bonitos ou mais jovens. Enfim, é possível que a sedução em cadeia tenha uma dimensão de classe: conquistar os objetos sexuais, sobretudo se forem desejados pelos outros é provavelmente um meio para muitos homens, que se sentem inadequados em outras áreas, para se elevarem na sua própria auto-estima e na dos outros. O ciúme Mesmo que os dois homens estejam em acordo sobre as regras da relação, podem surgir problemas. O perigo não é tanto aquele que ameaça as lésbicas, que tendem a confundir amor e sexualidade e a ficar apaixonadas quando dormem com outra pessoa. Nos homens, os registros sexual e afetivo são mais separados, e o perigo reside antes no ciúme. Esse pega freqüentemente as pessoas de surpresa: pode-se acreditar que não se é ciumento ou que não o será se o outro tem relação fora do casal — mas muitas vezes nos iludimos nesse campo. O fenômeno do ciúme é complicado pela vergonha e pelo silêncio que o cercam. Assim, atualmente é muito difícil reconhecer que se é ciumento: é um sentimento que não está na moda, porque não combina muito com a ideologia da liberação sexual. É fácil dizer, como um homossexual que vive uma relação de casal aberta há cinco anos: "O ciúme não existe entre nós." Contudo, os sentimentos não se decretam, e a exclusividade sexual parece ainda nos importar muito mais do que o desejaríamos. Existe uma distância entre ideologia e realidade afetiva, que pode causar muitos problemas. As relações "abertas" funcionariam muito bem se as pessoas não fossem ciumentas — mas isso não é sempre o caso. Não esqueçamos de que o ciúme, nas relações homossexuais, é freqüentemente acompanhado de inveja, sobretudo se um dos dois homens é mais novo, mais bonito ou mais sexy do que o outro. Como o notamos no capítulo 6, é importante fazer a distinção entre esses dois sentimentos. Um outro perigo nos casais abertos é o risco das doenças sexualmente transmissíveis e, em especial, claro, a AIDS. Eis porque uma proporção considerável dos casais vivendo em relação aberta entra em acordo para praticar sistematicamente o sexo seguro durante seus contatos sexuais fora da relação, guardando para suas próprias relações a liberdade de fazer amor sem preservativo. Mas, aqui também, não há regras generalizáveis. Assim, na França, 46% dos homossexuais "nunca" usam um preservativo na relação de casal, enquanto 43% o usam "sempre" 107. 107 Marie-Ange Shiltz (1993) “Les homosexuels masculins face au sida, enquêtes 1991-1992”. Relatório CNRS-EHESS, dezembro. Citado em Martel, p. 363. 136 Mas qualquer que seja, todo arranjo nesse campo dependerá sempre de uma comunicação honesta, explícita e regular. Sexualidade e amor Um dos problemas que os casais masculinos enfrentam, é que suas relações começam sempre a partir de um encontro sexual. Isso é menos freqüente nos casais femininos ou heterossexuais, nos quais as mulheres desejam mais ter uma ligação emocional antes das relações sexuais. Os homens tendem mais a terem relações sexuais antes de desenvolverem uma relação afetiva. O problema é que somente a relação sexual não basta para estabelecer um casal. Em particular, se o sexo se torna o critério central para continuarem juntos, a relação tenderá a se dissolver assim que a lua de mel chegar a seu fim — o que é inevitável. Um dos dois homens ou ambos se dirão então que não estão mais excitados pelo seu parceiro e procurarão outra pessoa que possa reascender os fogos apagados do desejo. O grande desafio para o casal masculino (e para os outros também, mas em uma proporção menor) é, portanto, passar do sexo para o amor. Não é fácil quando há tantos outros homens disponíveis. É também muito mais simples procurar em outra parte do que cuidar de uma relação que começa a trazer problemas. Mas é indispensável fazê-lo, se não se quer simplesmente recomeçar o mesmo jogo. As relações amorosas são, nesse sentido, um pouco como o estudo da música: se pular as passagens difíceis, ao invés de ensaiá-las, nunca se poderá tocar o trecho do início até o fim. Sem querer minimizar a sexualidade, trata-se, antes, de alargar o repertório: de ter, desde o início, atividades diversas e de escolher, sempre que possível, pessoas com quem se tem afinidades reais. Isso não é tão fácil, pois a homossexualidade masculina é mais heterogênea que a feminina: freqüentemente há entre os dois homens mais diferenças de idade, de classe e de educação. Isso se deve simplesmente aos lugares onde as pessoas se encontram: os homossexuais conhecem-se muitas vezes em lugares públicos (bares, discotecas), enquanto as lésbicas se encontram geralmente em reuniões de amigas onde os meios são mais homogêneos. As diferenças no casal De fato, há freqüentemente nos casais masculinos diferenças de idade ou de classe que podem complicar a relação. Historicamente, sempre teve na homossexualidade masculina uma modalidade particular que, apesar de ser menos freqüente hoje em dia, permanece importante: é a ligação entre um homem jovem e um outro muito mais velho, às vezes, até com vinte anos de diferença. Nesse tipo de relação, o homem mais velho desenvolve freqüentemente o papel de um mentor que cuida do rapaz, ajuda-o em sua profissão e oferece-lhe um apóio econômico. Poderíamos igualmente ver nesses casos um desejo de paternidade que faz com que o rapaz, de alguma forma, seja adotado. Esse tipo de relação, por muito tempo considerada "típica" dos homossexuais masculinos é, na verdade, mais típica do gênero masculino: sociologicamente falando, em todas as culturas, os homens após os quarenta anos tendem a procurar parceiros mais jovens, sejam eles homens ou mulheres. Isso não traz nenhum problema na sociedade heterossexual, na qual se observa, muitas vezes, homens maduros com mulheres muitos mais jovens; aliás, parece haver um grande número de mulheres novas dispostas a manterem relações com homens mais velhos. Mas, no mundo homossexual, as coisas não são tão simples. Como o mostramos mais acima, há na sensibilidade guei de nossa 137 época um culto ao corpo e à juventude que faz com que os homens deixem de serem objetos eróticos após os cinqüenta anos. Alguns autores até mesmo constataram um "envelhecimento acelerado" dos homens gueis, que faz com que eles se sintam demasiado velhos para serem desejáveis mais cedo do que os heterossexuais. Assim, segundo uma pesquisa australiana, os homossexuais consideram que a velhice começa em torno dos sessenta e três anos, mas acreditam que são percebidos como velhos pelos outros homossexuais a partir da idade de cinqüenta e quatro anos em média108. Um homem de quarenta e dois anos explica: Não gostaria de ter um parceiro mais velho do que eu; nunca poderia me sentir atraído por um homem de cinqüenta anos. Quero alguém mais novo, entre os vinte e trinta anos. O problema é que os jovens não querem um homem de minha idade. Então, após os quarenta anos, tornase muito difícil termos os parceiros sexuais que gostaríamos, a menos que se possa pagá-los. De fato, é bem possível que as relações com uma diferença de idade importante incluam certa transação, seja ela explicitada ou não, na qual o homem mais velho oferece ao mais novo uma segurança material em troca de afeição e de sexo — exatamente, aliás, como em muitos casais heterossexuais. Esse arranjo resolve certos problemas, mas cria outros. Em particular, a diferença de idade acompanha-se freqüentemente de diferenças consideráveis nos salários, no estatuto profissional e social e, portanto, no poder. Assim, se os dois homens moram juntos, em geral será no apartamento maior e mais confortável do homem mais velho, com seu dinheiro e segundo suas regras e seu estilo de vida. Ora, é muito difícil ter uma relação igualitária nesse tipo de situação. Essa disparidade no poder não é problema no mundo heterossexual, pois é considerada "normal" entre homens e mulheres. Entre dois homens, contudo, a dinâmica é diferente. Podem surgir ressentimentos, problemas de rivalidade ou de luta para o poder e até mesmo "passagens ao ato" em que o homem mais novo se "rebela" contra seu parceiro mais velho. Aquele que é mais jovem pode ter necessidade de ter relações sexuais mais freqüentes ou mais variadas, e sentir que tem o direito de exercer livremente sua sexualidade fora do casal. Por sua vez, o homem mais velho pode se sentir desvalorizado (e ciumento, e invejoso) se seu parceiro mantém outras relações sexuais. O jovem pode parar de desejar seu parceiro, criando assim uma relação essencialmente assexuada. E também sempre existe o perigo de um dos dois se apaixonar por outro, e o casal se separar. Esse tipo de relação, portanto, apresenta inúmeros problemas. Isso dito, é uma relação que dura às vezes por muito tempo; as publicações científicas sobre a homossexualidade estão repletas de exemplos de casais desse tipo. Talvez seja preciso ver aí um arranjo que não é muito diferente daquele que prevalece em muitos casamentos heterossexuais, nos quais a relação sexual se torna cada vez menos importante em comparação com as outras dimensões da relação: amizade, solidariedade, e uma vida conjugal e social que funciona ao benefício das duas pessoas. A diferença de idade nas relações masculinas tende, contudo, a diminuir hoje em dia: vêem-se cada vez menos casais formados por homens de gerações diferentes. Como as "bichas-loucas" e os casais masculino-femininos de antes, a relação clássica entre homens de idades diferentes ainda é uma modalidade em extinção na rica história da homossexualidade. Uma grande variedade de casais Esse rápido esboço dos diferentes tipos de casal masculino permite-nos constatar que não há relação "típica", de qualquer ponto de vista que seja. Isso não surpreende: se 108 Keith C. Bennett e Norman L. Thompson (1991). “Accelerated aging and male homosexuality: Australian evidence in a continuing debate”. Em John Alan Lee (Ed.). Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press. 138 a relação heterossexual não tem mais modelo universal, porque o casal homossexual teria um? Todas as modalidades tradicionais estão em plena evolução e é provável que continuemos a ver uma proliferação de tipos de casal e de família no futuro. Isso, aliás, era previsível, a partir do momento em que a contracepção, a possibilidade do divórcio, a revolução sexual, o movimento das mulheres e a liberação guei mudaram todas as antigas normas regendo a sexualidade, a comunicação e o casamento. No passado, essas normas eram talvez necessárias para cultivar e sustentar a planta frágil que é o amor. Mas é possível, no estado atual das coisas, que o amor não tenha mais necessidade de todos esses apoios (que eram também coerções) e que possa, de agora em diante, florescer mais livremente. Por enquanto, é o casal masculino que é o mais livre: desprendido das necessidades da procriação e do casamento, mais a vontade do que o das mulheres, está em condição de explorar novas formas de amor e de sexualidade. Em especial, tem a oportunidade de ir além das limitações tradicionais da comunicação masculina. Se os homens gueis desenvolverem mais a intimidade e a cooperação no interior de suas relações de casal, talvez achem no futuro a combinação entre estabilidade e liberdade que tantos dentre eles estão procurando. Modelos alternativos? A priori, não há razão para querer adaptar a relação masculina ao modelo do casamento heterossexual. Contudo, atualmente muitos gueis aspiram a uma certa estabilidade de casal. Poderia haver outros modelos que levem em conta ao mesmo tempo a autonomia e a pluralidade sexual? Penso que sim, e a história e a antropologia nos oferecem ensinamentos preciosos. Em outras sociedades, o casamento não inclui necessariamente nem o amor romântico, nem a monogamia, nem o engajamento à perpetuidade. Na Europa pré-moderna e em muitas sociedades não ocidentais, por exemplo, o casamento foi ou ainda é uma transação que visa objetivos e que é governada por outros critérios — que, aliás, não seriam aplicáveis a nossa cultura. Mas há nesses casos uma negociação anterior ao casamento, na qual todas as suas condições são discutidas e estipuladas antes de se chegar a um contrato. Cada parte aceita nele obrigações e responsabilidades, ao mesmo tempo em que adquire uma série de direitos. Sem querer simplificar as coisas, parece-me que negociações desse tipo não seriam uma má idéia para o casal homossexual. A relação de casal baseada unicamente no amor romântico ou na relação erótica, imitando o casamento tal qual é vivido hoje, não parece o modelo mais indicado para as relações homossexuais em sua grande variedade atual. Em contrapartida, negociações que tornariam explícitas as regras do jogo, os direitos e as obrigações de cada um contribuiriam para evitar muitos mal-entendidos e desilusões. A decisão de formar um casal, e ainda mais de viver juntos, seria mais clara se as pessoas soubessem exatamente o que esperar. Os heterossexuais o sabem, mais ou menos, quando se casam; mas os homossexuais não têm modelo preestabelecido. Eis aí uma das grandes fraquezas do casal homossexual, e também uma de suas grandes forças. TEMAS DE REFLEXÃO PARA CONSOLIDAR O CASAL MASCULINO — A maioria dos exercícios aconselhados no final do capítulo 6 seria igualmente aplicável ao casal masculino. 139 — Aos poucos (e não durante ou após uma discussão), negociar algumas regras de base para a relação. Por exemplo: não paquerar quando se sai junto; não ter relações sexuais com outro no espaço que coabitam; nunca dormir fora; contar-se (ou não) as aventuras fora do casal; e assim por diante. Mesmo que essas regras não sejam respeitadas, falar delas permitirá pelo menos aos dois homens expressarem suas necessidades e seus desejos, e dizerem o que esperam da relação. — Para consolidar o engajamento do casal: mesmo que os dois homens mantenham suas finanças separadas, criar um fundo comum (com participação igual, se possível) destinado a atividades de casal — viagens, férias, compras para a casa. — Mesmo que os dois homens não vivam no mesmo lugar, tentar acomodar um espaço comum: um dos dois quartos, uma das duas cozinhas, uma das duas salas de estar, que seja decorado junto e reservado se possível para a relação de casal. — Para os homens que não vivem em casal: tentar serem mais seletivos na escolha dos parceiros sexuais, limitando-se, se possível, a pessoas com quem se tem afinidades independentemente da orientação ou relação sexual. — Para os homens que vivem em casal: perguntar-se para que servem na verdade as relações fora do casal: por exemplo, para se sentirem mais desejáveis ou menos sozinhos, ou para evitar a dependência ou a intimidade no casal? Haveria outras maneiras de se atingir o mesmo objetivo? — Como funcionaria o casal se os dois homens fossem monogâmicos? E, se não, haveria arranjos possíveis para evitar a mentira? — O que aconteceria ao casal se os dois homens decidissem ficar juntos para sempre? No que mudariam seu estilo de vida, sua comunicação, sua relação sexual? Por quê? PRECAUÇÕES PARA O TERAPEUTA — Nunca tentar trazer o casal masculino para o modelo heterossexual; a imitação forçada desse não resolverá necessariamente os problemas da relação. E mesmo que os dois homens queiram coabitar como um casal casado estável e monogâmico, eles não vivem em um meio que respeitará esse tipo de arranjo. Vale mais reconhecer as realidades da cultura guei, levá-las em conta e falar delas do que fazer de conta que elas não existem. 140 CAPÍTULO 9 A MIRAGEM DA BISEXUALIDADE Muitos autores escreveram que todos nós somos bissexuais. Outros escreveram que ninguém é bissexual. E outros dizem que a bissexualidade não existe. Mas há, sem dúvida nenhuma, um número crescente de pessoas que se definem bissexuais no mundo inteiro. Há manifestações, publicações, associações, páginas da Internet e camisetas para bissexuais. E a bissexualidade, desde sempre, ocupa um lugar privilegiado na mitologia, na arte, nas fantasias e nos sonhos da humanidade. A palavra existe, as condutas existem. Mas será que se trata de uma orientação sexual alternativa, de um tipo de terceira via na ordem sexual, como o pretendem os militantes e os teóricos da bissexualidade? Outras questões surgem: como as pessoas sabem que são bissexuais, e não homossexuais ou heterossexuais? Não são simplesmente uns indecisos? Como podemos nos sentir atraídos pelos homens e pelas mulheres ao mesmo tempo? E, no plano afetivo, como podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo? Qual caminho é preciso percorrer para chegar aí? Ou então, nascemos bissexuais? E se sim, será que encontraremos um dia um "gene da bissexualidade"? É verdade que todo mundo no fundo é bissexual? Então por que, em sua imensa maioria, as pessoas se definem seja como homossexuais, seja como heterossexuais? Trata-se de um mito, de uma moda, ou de uma realidade até agora pouco entendida? Essas questões, que podem parecer absurdas à primeira vista, refletem bem a complexidade da coisa. A bissexualidade é difícil de entender em vários planos: semântico, ideológico, sociológico e, claro, psicológico. O que a bissexualidade não é Talvez devêssemos começar por dizer o que a bissexualidade não é. Ela não tem nada a ver com o conceito biológico da bissexualidade, no qual as plantas e os animais são ditos bissexuados quando possuem ao mesmo tempo órgãos reprodutores masculinos e femininos. É o caso da maioria das plantas com flores e de muitos invertebrados. A bissexualidade existe de fato na natureza; até mesmo é muito comum nela. Mas, normalmente, não há equivalente no ser humano. As pessoas bissexuais não são bissexuadas: são inteiramente masculinos ou femininos, e não diferem em nada do resto da humanidade do ponto de vista biológico. Há indivíduos, raríssimos, que possuem ao mesmo tempo órgãos reprodutores masculinos e femininos, e que são chamados "hermafroditos"; mas os bissexuais não são hermafroditos, como também não o são os homossexuais. Os bissexuais também não têm nada a ver com os transexuais que, apesar de terem os atributos físicos de um sexo, estão convencidos de que pertencem, na verdade, ao outro. Esses indivíduos, muito raros (um em cada trinta mil homens e uma em cada cem mil mulheres109), identificam-se a partir de sua infância com o outro sexo; sentindo repulsa pelo seu corpo e pelos seus órgãos genitais, geralmente não têm atividade sexual. Freqüentemente são obcecados pela idéia de mudarem de sexo, coisa "possível" desde o aparecimento dos hormônios sexuais sintéticos nos anos 60. Então, em um número ínfimo de casos (pois os custos e os critérios de seleção são proibitivos), eles seguem tratamentos hormonais e se operam para mudarem suas características sexuais 109 Ver Francis Mark Mondimore. A natural history of homosexuality. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, 1996, chap. 13. 141 secundárias, isto é, seus órgãos genitais e sua aparência. Nada a ver com os bissexuais, que se identificam plenamente com o seu sexo, não têm nenhuma vontade de mudá-lo e têm relações sexuais "normais" — mas com pessoas de ambos os sexos. É preciso também não confundir os bissexuais com os travestis. Esses, como os transexuais, gostariam de adquirir certos traços do outro sexo — mas sem transformar seus corpos, através da cirurgia ou dos hormônios. Geralmente de sexo masculino, eles se denominam, se vestem, se comportam e formam relações amorosas com outros homens como se pertencessem ao sexo oposto. Fazem tudo que é possível para se parecerem com as mulheres por meio da maquiagem e da depilação (e às vezes, por meio de hormônios), e até mesmo chegam a esconder seus órgãos genitais de tal forma que um outro homem possa pensar, sob certas condições, que teve relações sexuais com uma mulher. A travestilidade é, às vezes, em paises ou meios homofóbicos, o único modo para os homens terem relações sexuais com outros homens sem serem taxados de homossexuais. Pode obedecer a critérios ou objetivos sexuais diversos: há homens que se fantasiam de mulheres para se prostituírem, para se divertirem, ou para ganharem a vida no mundo do espetáculo. A travestilidade não é, pois, apenas um fenômeno psicológico, mas também cultural, com funções sociais que variam conforme o contexto. A bissexualidade e a androginia são também coisas muito diferentes: as duas estão em moda e parecem, à primeira vista, derivar de uma certa indiferenciação dos sexos. Mas a primeira é um fenômeno pessoal que concerne à escolha de objetos amorosos ou sexuais: ama-se ou deseja-se pessoas de ambos os sexos. A androginia, em contrapartida, é um fato mais cultural (e não psicológico), no qual uma pessoa se apropria dos traços que considera desejáveis nos dois sexos: gosta de parecer homem e mulher ao mesmo tempo. Um indivíduo andrógino pode assim combinar roupas masculinas, maquiagem feminina e um corte de cabelo unissex. Ele pode ser heterossexual, homossexual, ou bissexual, assim como os bissexuais podem adotar uma aparência plenamente masculina, feminina ou andrógina. Isso dito, é certo que muitos andróginos aproveitam sua aparência ambígua para atrair ao mesmo tempo homens e mulheres — mas isso não significa que eles se sintam atraídos por ambos os sexos. Todas essas distinções são importantes para evitar as confusões e para mostrar que existe uma classificação ao mesmo tempo vasta e precisa dos costumes sexuais. Nos últimos cento e cinqüenta anos houve uma proliferação impressionante das categorias e das definições aplicadas à sexualidade humana. Podemos supor que todos (ou quase todos) os fenômenos assim descritos existiam antes, mas que tinham outras funções e outras significações. É o caso da bissexualidade. A própria palavra só apareceu no século XIX, mas o fenômeno ao qual se refere sempre existiu. Com efeito, sempre houve indivíduos mantendo relações sexuais e amorosas com ambos os sexos: a história está repleta deles, desde a Antigüidade até a era contemporânea, passando, claro, pelo Renascimento. Um grande número de personalidades da política, de artistas e de escritores teve relações íntimas e importantes com ambos os sexos. Esses homens e mulheres talvez fossem, na verdade, homossexuais que se casavam por interesse ou obrigação; nesse caso, não poderíamos falar de uma autêntica bissexualidade. Mas, provavelmente houve entre eles pessoas que, graças a sua situação social, podiam se libertar sem perigo das coerções de sua época, e alternar livremente entre relações homo e heterossexuais, em uma bissexualidade escolhida e não imposta. Enfim, a bissexualidade teve significações rituais ou religiosas em uma grande variedade de culturas. Portanto, sempre existiu, mas em contextos e com conotações muito diferentes dos nossos. 142 O conceito de bissexualidade Os bissexuais de hoje definem-se melhor como pessoas que podem se apaixonar, se sentirem atraídos, ou terem relações sexuais, mais ou menos indistintamente. Nessa ótica, cada um destes três elementos — sentimentos, desejos e condutas — é uma condição necessária e suficiente para se considerar bissexual. Assim, até mesmo um indivíduo que nunca teve relações sexuais com alguém, pode, contudo, se definir como tal. A autodefinição é central na bissexualidade — o que é normal se considerarmos que os bissexuais buscam, justamente, libertarem-se das etiquetas impostas pela sociedade e conceituarem a orientação sexual de uma maneira radicalmente nova. De fato, há nessa autodesignação um elemento de rejeição em relação às duas orientações reconhecidas pela sociedade: os bissexuais definem-se por oposição às categorias de homossexual e de heterossexual que eles sentem muito restritas. Os textos programáticos das associações bissexuais na Europa e nos Estados Unidos proclamam que eles não são nem uma nem outra, mas que representam uma terceira opção tão válida quanto às outras. Se essa nunca foi reconhecida como tal é precisamente porque está entre duas ordens: ela é invisível, porque a ordem sexual tradicional impõe uma visão binária da sexualidade, na qual se é ou heterossexual ou homossexual. Mas sua invisibilidade não a torna menos real. Nessa perspectiva é preciso se desfazer das etiquetas tradicionais, para poder apreciar a riqueza da sexualidade em geral, e a existência da bissexualidade em particular. Uma vez colocada a possibilidade teórica e cultural da bissexualidade, o que aconteceu no decorrer da revolução sexual, muitas pessoas se reconheceram nela e começaram a trabalhar para construir uma comunidade. De fato, é a partir dos anos 70 que começam a aparecer, primeiramente nos Estados Unidos e depois na Europa, associações consagradas a promoverem espaços de diálogo e de encontro, e a defenderem a causa dos bissexuais — antes de tudo, seu direito a serem reconhecidos enquanto tais. Em particular, elas se erigem contra as interpretações tradicionais da bissexualidade, e a visão binária da sexualidade em geral. Para isso, os militantes e teóricos da bissexualidade apóiam-se nas pesquisas em sexologia que demonstram que a orientação sexual é muito mais fluida, e as categorias muito mais permeáveis, do que se pensava. Apresentam nesse sentido dois argumentos principais. Uma orientação sexual variável Em primeiro lugar, sustentam que a orientação sexual não é "dada" de uma vez para sempre a partir da infância, mas que ela pode variar através do ciclo vital. Não se nasce heterossexual nem homossexual, e nunca se é ancorado em uma orientação ou outra de modo definitivo — mesmo tarde na vida, pode se descobrir uma atração ou um amor contrário a sua orientação habitual. Isso só se torna possível, claro, a partir do momento em que a sociedade deixa de prender as pessoas em uma "heterossexualidade obrigatória", e na qual essas se libertam das coerções de uma visão binária. Graças à evolução dos costumes, a heterossexualidade não é mais a única orientação permitida, e a homossexualidade não é mais a única alternativa: pode haver outras, como a bissexualidade. Graças a essa liberdade social e psicológica, as pessoas podem mudar de orientação conforme suas necessidades ou desejos, ou conforme as etapas da vida. E isso prova bem que a orientação sexual não é fixa; pode variar, quando as condições sociais, ideológicas e pessoais o permitem. Por outro lado, os militantes e teóricos da bissexualidade sublinham o fato de que as orientações tradicionais – heterossexualidade e homossexualidade – não são tão incompatíveis quanto se pensava. Inúmeras pesquisas desde os trabalhos de Kinsey nos 143 anos 40 e 50 mostraram que uma minoria significativa da população heterossexual se sente também atraída por pessoas do seu próprio sexo. Kinsey tinha descoberto que 13% das mulheres e 37% dos homens americanos haviam tido pelo menos uma vez contatos homossexuais indo até o orgasmo. Outros estudos americanos encontraram números que vão de 6% da população até 17% das mulheres e 22% dos homens, para aqueles que tiveram relações homossexuais na idade adulta110. Na França, 4,1% dos homens e 2,6% das mulheres contam ter tido pelo menos um contato sexual com alguém de seu sexo biológico no decorrer de sua vida; e 4% dos homens e 2,5% das mulheres citam práticas com pessoas de ambos os sexos111. Essas estatísticas só correspondem, contudo, às práticas. Não há nenhuma dúvida de que se elas levassem também em conta o número de pessoas que se sentiram apaixonadas ou que sentiram atração sexual por alguém do mesmo sexo, seriam muito mais elevadas. Mas a bissexualidade não se limita aos heterossexuais que apresentam condutas, desejos ou sentimentos homossexuais; o termo aplica-se também aos homossexuais que se sentem atraídos por pessoas do outro sexo biológico. E nesse caso, os números são ainda mais elevados. Estima-se, de fato, que entre 30% e 40% dos homossexuais, masculinos e femininos, têm às vezes desejos ou sentimentos heterossexuais, embora menos de 10% os concretizem112. Pode certamente existir, nesses casos, uma parte de "heterossexualidade obrigatória", na qual um grande número de pressões sociais, familiares e culturais converge para promover a relação heterossexual. Mas observa-se igualmente uma certa permeabilidade do desejo, que nos traz de volta, claro, para Kinsey, mas também para Freud, que postulou "uma bissexualidade original em todo indivíduo humano113". Escreveu igualmente: “Em todos nós, no decorrer da vida, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos114"; e "uma medida muito considerável de homossexualismo latente ou inconsciente pode ser detectada em todas as pessoas normais115”. Contudo, para Freud, essa bissexualidade "original" não subsiste (ou não deveria subsistir) na idade adulta: as vicissitudes do desenvolvimento psicossexual fazem com que as pessoas acabem por se tornarem ou heterossexuais ou homossexuais. Como Freud o explica: Ao contrário, a psicanálise considera que a escolha de um objeto, independentemente de seu sexo – que recai igualmente em objetos femininos e masculinos – tal como ocorre na infância, nos estágios primitivos da sociedade e nos primeiros períodos da história, é a base original da qual, como conseqüência da restrição num ou noutro sentido, se desenvolvem tanto os tipos normais como os invertidos. Assim, do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo de homens por mulheres também constitui um problema que precisa ser elucidado, pois não é fato evidente em si mesmo, baseado em uma atração, afinal de natureza química. A atitude sexual definitiva do indivíduo não se define senão depois da puberdade e é o resultado 110 Ver Edward O. Lauman, John H. Gagnon, Robert T. Michael e Stuart Michaels (1994). The social organization of sexuality: Sexual practices in the United States. Chicago, University of Chicago Press; Samuel S. Janus e Cynthia L. Janus (1993). The Janus report on sexual behavior. New York, John Wiley and Sons. 111 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993). Les comportements sexuels en France. Paris, La Documentation Française, p. 136-140. 112 Martin S. Weinberg, J. Williams Colin e Douglas W. Pryor (1994). Dual attraction. New York, Oxford University Press, p. 150-151. Ver também Alan P. Bell, Martin S. Weinberg (1980). Homosexualités. Paris, éditions Albin Michel. 113 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão, Vol. XVII. 114 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 115 Idem. 144 de numerosos fatores, nem todos ainda conhecidos: alguns são de natureza constitucional, os outros, porém, são acidentais.116 Portanto, se para Freud todo mundo é bissexual na origem, todo mundo não o permanece; e as duas orientações possíveis são normalmente incompatíveis entre elas. Contudo, ele escreve: É bem sabido que em todos os períodos houve, como ainda há, pessoas que podem tomar como objetos sexuais membros de seu próprio sexo, bem como do sexo oposto, sem que uma das inclinações interfira na outra. Chamamos tais pessoas de bissexuais e aceitamos sua existência sem sentir muita surpresa sobre elas117. Os teóricos atuais da bissexualidade aproximam-se dessa posição, quando afirmam que certas pessoas não se tornam nem heterossexuais nem homossexuais, mas permanecem bissexuais ao longo do ciclo vital. Interpretações tradicionais Que formas pode tomar a bissexualidade nos adultos? É importante, em primeiro lugar, fazer uma distinção entre dois fenômenos diferentes. A bissexualidade é sucessiva, quando um indivíduo mudou de orientação uma ou várias vezes em sua vida, tendo relações sucessivas com homens e mulheres em diferentes épocas. É simultânea, quando um indivíduo mantém relações com ambos os sexos ao mesmo tempo. A bissexualidade sucessiva é mais fácil de entender: as pessoas evoluem, e as circunstâncias da vida podem as levar a escolhas de objetos diferentes. Se a orientação sexual não é "dada" desde a infância, mas pode mudar, se a sociedade permite a experimentação e uma grande variedade de alternativas, e se as pessoas não contém mais seus desejos, então a bissexualidade sucessiva não tem nada de surpreendente. As pessoas que vivem esse tipo de transformação (que pode acontecer até mesmo tarde na vida) explicam que elas puderam desenvolver, assim, nelas próprias, aspectos de sua personalidade ou de sua sexualidade contra os quais sempre haviam lutado, ou dos quais nem mesmo suspeitavam a existência. Em contrapartida, a bissexualidade simultânea é mais complicada, porque implica que um indivíduo pode se sentir atraído pelos homens e pelas mulheres, e se ligar a duas pessoas ao mesmo tempo. Na abordagem tradicional (na qual só há, lembramo-lo, duas orientações possíveis que são, além do mais, incompatíveis), isso coloca um problema: como se pode ser ao mesmo tempo homossexual e heterossexual? E, em nível afetivo, como se pode manter relações com duas pessoas ao mesmo tempo? Diversas explicações foram sugeridas desde o século passado. A mais comum sempre foi a de dizer que a bissexualidade não existe enquanto tal. Assim, inúmeros autores a viram como uma defesa — seja contra a homossexualidade, seja contra a heterossexualidade. No primeiro caso, a homofobia interiorizada impede a pessoa de reconhecer que é homossexual e faz com que ela se considere bissexual. No segundo, o homossexual que tem tendências heterossexuais se defende contra elas ao se definir bissexual. Essa posição foi muitas vezes, e continua a ser, adotada pelos homossexuais que vêem nos bissexuais uma traição em relação a sua "verdadeira" orientação — que é a homossexualidade. 116 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. (Nota de rodapé acrescida em 1915 – Na edição impressa pp.146-147). 117 Sigmund Freud (1937). Análise terminável e interminável. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol XXIII. 145 Essa abordagem, que faz da bissexualidade uma defesa contra uma orientação sexual mais "autêntica" é, a meu ver, demasiadamente simplista. Denega a importância das fantasias, dos desejos e dos sentimentos, e das relações complexas entre eles, na vida afetiva e sexual. Qualquer orientação sexual contem elementos de todas as outras, inclusive uma infinidade de sentimentos, de fantasias e de desejos "proibidos". No inconsciente, ninguém é exclusivamente homossexual ou heterossexual: todas as orientações coexistem independentemente da maneira com a qual o indivíduo se define. Em uma outra explicação da bissexualidade, essa constitui uma fase de transição entre heterossexualidade e homossexualidade ou vice-versa. Em tal transição é possível que, por exemplo, uma lésbica se sinta atraída pelos homens, que se considere portanto bissexual e que "chegue" um dia a uma relação heterossexual. Poderíamos dizer que a bissexualidade foi uma transição nesse caso — mas, com certeza, não em todos os casos. Tal interpretação geral apresenta, a meu ver, dois problemas. Em primeiro lugar, não leva em conta a experiência das pessoas que transitam em um sentido e depois no outro uma ou várias vezes. Em segundo lugar, não explica a experiência das pessoas que permanecem bissexuais durante anos ou a vida toda. E enfim, continua a colocar uma dicotomia entre homossexualidade e heterossexualidade, ao postulá-las como estados definitivos e ao reduzir a um simples acidente de percurso um fenômeno que parece muito mais complexo. A bissexualidade pode servir de transição em certos casos, e em outros, não. A bissexualidade pode também ter uma dimensão de ratificação do gênero: muitas pessoas que são, na realidade, homossexuais mantêm relações com o sexo oposto, unicamente para confirmar sua identidade masculina ou feminina e para preservar as aparências em relação à sociedade, a sua família, ou a elas mesmas. É aqui que intervém o que a poetisa e feminista americana Adrienne Rich chamou de "a heterossexualidade obrigatória". Em casos extremos, certos homossexuais (sobretudo as mulheres) são literalmente obrigados a se casarem, mas não param por isso de desejar pessoas de seu sexo e até mesmo de manter relações íntimas com elas. Um outro elemento importante, é que a maioria das lésbicas (segundo um estudo americano, 90%) teve relações heterossexuais, e que um terço delas foi casada 118 . Poderíamos nos perguntar, contudo, se se trata de uma autêntica bissexualidade, e se as lésbicas em questão (como muitas mulheres) não tiveram relações sexuais com homens simplesmente por conformismo ou por obrigação, e sem muito prazer. Nesses casos, poderíamos, de algum modo, falar de uma falsa bissexualidade — porque foi imposta e não escolhida. Alguns autores falam também de uma bissexualidade acidental, suscitada por circunstancias particulares — por exemplo, a falta de opções heterossexuais. Talvez seja aqui que seria preciso colocar a bissexualidade de muitos homens nos países do terceiro mundo ou nos paises islâmicos conservadores, onde os costumes tornam difíceis as relações heterossexuais fora do casamento. Há também a bissexualidade da qual falamos em capítulos anteriores, que é muito comum na América Latina e na Ásia, na qual muitos homens têm relações sexuais tanto com homens quanto com mulheres, sem por isso se considerarem bissexuais. Nessa lógica, o homem que desenvolve o papel ativo considera-se plenamente "viril" e, portanto, heterossexual. Apresentam-se assim as condutas, mas não a autodefinição da bissexualidade. 118 Margaret Nichols (1987). “Lesbian sexuality: Issues and developing theory.” Em Boston Lesbian Psychologies Collective. Lesbian Psychologies: Explorations and challenges. Illinois, University of Illinois Press, p. 106. 146 A dimensão ideológica Ora, a autodefinição é extremamente importante na bissexualidade. Há muitos homens e mulheres que têm relações sexuais com os dois sexos, sem se considerarem bissexuais. E há jovens que se dizem bissexuais sem nunca terem tido experiências sexuais, nem homossexuais nem heterossexuais. Enfim, há pessoas que se consideram bissexuais sem nunca terem tido relações fora de sua orientação habitual. Nesse último caso, talvez pudéssemos falar de uma bissexualidade "ideológica" ou "política", na qual certas pessoas (sobretudo nos países industrializados) adotam a etiqueta unicamente por princípio ou por convicção política. Muitas feministas, em especial, encontram-se nessa situação. Poderíamos também falar de uma bissexualidade "abstrata", na qual a pessoa faz literalmente abstração do sexo da pessoa amada. Uma bissexual que teve relações importantes com homens e com mulheres explica: Apaixonei-me por minha parceira atual não por causa de seu sexo, mas por causa de sua personalidade. Se ela fosse homem, me apaixonaria exatamente da mesma forma. Esse tipo de raciocínio tornou-se muito comum desde a revolução sexual e a liberação guei, sobretudo entre os jovens. Nessa abordagem, é bem possível se apaixonar por alguém independentemente de seu sexo: formam-se relações com pessoas, e não com homens ou com mulheres. Uma variação sobre esse tema é a idéia jungiana, retomada pela corrente New Age, segundo a qual todo ser humano tem componentes masculinos e femininos, e que, portanto, é natural que ele se sinta atraído pelos dois sexos. Esse tipo de discurso corresponde evidentemente a um certo contexto cultural e seria provavelmente inaceitável para a maioria das pessoas, mesmo nos paises industrializados. Mas será provavelmente cada vez mais comum no futuro. De fato, talvez fosse inevitável que a bissexualidade aumentasse rapidamente a partir da revolução sexual, da liberação guei e do movimento das mulheres, acompanhados de transformações sociais e econômicas profundas. Não há nenhuma dúvida de que a instituição do casamento está em crise, e que as relações entre os sexos são difíceis nesse momento: vivemos uma crise importante do casal heterossexual. Muitos homens e mulheres não se satisfazem mais com as relações tradicionais entre os sexos, e buscam alternativas: uma delas é, justamente, a bissexualidade. Como o veremos um pouco adiante, um número significativo de heterossexuais se voltam para ela procurando preencher as lacunas que sentem no interior do casal. As pesquisas sobre a bissexualidade parecem confirmar essa idéia. Assim, um estudo aprofundado de cem bissexuais que se definem como tais, feito em São Francisco nos anos 80, concluiu que a bissexualidade, em geral, é alguma coisa que vem se acrescentar à heterossexualidade. A maioria das pessoas interrogadas foi primeiramente heterossexual, e depois alargaram seus horizontes afetivos e sexuais para incluir indivíduos do mesmo sexo119. Mas, temos aí um fato interessante: os homens e as mulheres não o fizeram pelas mesmas razões. A bissexualidade nas mulheres Parece de fato haver modalidades diferentes da bissexualidade nos homens e nas mulheres. As pesquisas nesse campo mostraram que a orientação sexual é muito mais instável, ou mais flexível, nas mulheres. Essas têm muito mais chances de passar da heterossexualidade para a homossexualidade, e vice-versa. E, apesar de o número mais elevado de contatos homossexuais nos homens, uma mulher tem mais chances de se apaixonar por uma outra mulher do que um homem por um outro homem. Por quê? 119 Ver Dual attraction. 147 Vários autores observaram que as mulheres, em geral, dão mais importância à ligação afetiva do que à relação sexual. Sendo assim, estão mais preparadas para se ligarem a uma pessoa que satisfaça as suas necessidades emocionais, independentemente de seu sexo biológico. E, como vimos em capítulos anteriores, a comunicação entre mulheres é mais íntima, mais pessoal, do que a que existe entre os homens ou entre os dois sexos. Não é por acaso que os melhores amigos das mulheres são geralmente outras mulheres; em alguns casos, essa ligação afetiva pode evoluir em direção a uma relação sexual que nunca teria acontecido de outro modo. Depois, muitas mulheres buscam uma relação sexual mais delicada, menos apressada e "genital" do que a que têm com os homens, e a idéia de dormirem com uma outra mulher pode atraí-las nesse sentido. Enfim, muitas mulheres desejam relações de casal mais igualitárias do que as que podem ter, em geral, em um contexto heterossexual. As pesquisas sobre a bissexualidade feminina confirmam essas hipóteses. O que as mulheres heterossexuais procuram, quando estabelecem relações com outras mulheres, são de fato coisas que lhes faltam na heterossexualidade. As bissexuais interrogadas no estudo citado acima contam que encontram em suas relações homoeróticas uma maneira mais "sensual" de ter relações sexuais, menos orientada para o genital, menos apressada, mais tenra e também mais igualitária: sentem-se menos em uma posição de "submissão" do que com os homens. Apreciam igualmente nas mulheres uma sensibilidade, uma comunicação e um entendimento afetivo que lhes faltam com os homens. Elas têm mais afinidades, interesses e atividades em comum. Um outro elemento importante é a igualdade na relação com uma mulher, por oposição aos papéis estereotipados masculino-feminino e aos desequilíbrios no poder que elas conheceram em suas relações heterossexuais. Muitas bissexuais, segundo a mesma pesquisa, exprimem uma certa recusa da dominação masculina 120. Então por que, se elas gostam tanto das mulheres, não se tornam definitivamente lésbicas? Porque lhes faltam, por um outro lado, a relação sexual com os homens, as vantagens sociais e econômicas da heterossexualidade e, claro, a possibilidade de terem filhos, ou de criá-los em um contexto heterossexual. É igualmente possível que se sintam atraídas pelas mulheres, mas não pelo universo marginalizado da homossexualidade. Uma bissexual de quarenta e seis anos conta: Sou bissexual porque me sinto sexualmente atraída pelos homens e pelas mulheres. Comecei a ter relações sexuais com homens aos dezesseis anos, e depois com as mulheres aos vinte. Durante muito tempo perguntei-me se era lésbica, e explorei o mundo lésbico — mas não gostei dele. Encontrei nas mulheres o mesmo ciúme, a mesma possessividade, do que nos homens. Pensava que as mulheres teriam menos preconceitos, que poderia ter com elas relações mais livres. Mas encontrei exatamente as mesmas relações. Dei-me conta de que não era para mim. Nessa época, pensava que podíamos ser ou homossexual, ou heterossexual; não sabia que podíamos ser ambos. "Foi somente aos trinta anos que enfim decidi que era bissexual." “Partilho mais coisas com as mulheres. Identifico-me mais com elas, com suas preocupações e com sua atitude em relação à vida. Gosto também do fato de que elas mudam. Os homens são mais previsíveis, eles me entediam. Com as mulheres, posso ter uma amizade independentemente da atração sexual — com os homens, não. Não tenho amigos homens — o desejo sexual é mais importante com eles. Na cama, é mais delicado com uma mulher, e também mais igualitário, mais recíproco. O homem sempre quer dominar no ato sexual. Com os homens, há mais paixão; com as mulheres , há mais ternura.” 120 Ibid., p.366. 148 “Sempre tive aventuras paralelamente às minhas relações, com ambos os sexos. Não sou monogâmica. É muito importante para mim eu ter muitas opções, abrir o leque de possibilidades. A única coisa que é inconcebível para mim, é ter uma relação baseada na mentira. É preciso que seja aberta e honesta.” A bissexualidade nos homens Por seu lado, os homens bissexuais buscam em suas relações com outros homens as seguintes coisas que lhes faltam em suas relações heterossexuais: relações sexuais mais freqüentes, mais intensas e mais variadas, assim como afinidades mais importantes. Apreciam a liberdade que suas relações masculinas lhes oferecem, que não implicam necessariamente o engajamento afetivo nem as responsabilidades inerentes às relações heterossexuais. Por que não se tornam homossexuais, simplesmente? Porque sentem também a necessidade de relações mais íntimas do que aquelas, freqüentemente impessoais, que encontram com outros homens; e lhes faltam a estabilidade e os filhos do casal heterossexual. Opinião de um bissexual de cinqüenta e dois anos: Tenho um leque muito maior de possibilidades com os homens. O número de mulheres com quem eu poderia me relacionar é muito restrito, seria preciso alguém muito especial. Enquanto com os homens tenho muito mais interesses em comum; no plano sexual, você sabe exatamente como funciona a sensualidade do outro. O problema com os homens, é que dura pouco. Os homens são como a caça: você vai à procura de uma presa, e quando a pega, acabou, perde o interesse. Depois, há também um aspecto tribal que é muito excitante. Com as mulheres, é como a agricultura: você cultiva a relação, cuida dela, e depois a vê crescer, vê seus frutos; tem seus ciclos, como a natureza. É uma relação mais profunda e mais prolongada.” “Meus melhores amigos são mulheres. Encontro nelas uma compreensão, uma confiança e uma aceitação que são muito gratificantes. É com elas que tenho mais continuidade e constância na amizade — tenho com elas relações muito mais duradouras do que com os homens. Com meus amigos tive relações muito intensas, mas momentâneas. As pessoas que tiveram efeitos duráveis sobre mim, que influenciaram minha personalidade e meu modo de ser, que mudaram minha visão de mundo, foram mulheres. Não tenho equivalente masculino em minha vida. Contudo, a maioria das minhas fantasias sexuais é com homens. Para mim, o sexual e a estética encontram-se do lado dos homens; o afetivo, mais do lado das mulheres. A bissexualidade parece-me a escolha ideal.” Vemos assim que a bissexualidade não é somente uma questão de erotismo. Compreende uma série de elementos afetivos, sociais e ideológicos que faz dela uma opção talvez "ideal", mas certamente complexa e difícil de viver. Diferentes tipos de bissexualidade Em casos como o último citado, a bissexualidade parece corresponder a uma clivagem entre os campos afetivo e sexual: o desejo leva a pessoa em uma direção, e a afinidade emocional na outra. É como se os dois sexos respondessem a camadas ou a necessidades divergentes da personalidade. Portanto, não é totalmente verdade que a escolha de objeto seja indiferente, ou que os bissexuais possam entrar em relação indistintamente com um ou outro sexo. Eles têm relações muito diferentes com os dois — ou melhor, é como se partes deles mesmos entrassem em relação com partes de seus parceiros, homens ou mulheres. 149 Talvez fosse necessário fazer aqui a distinção entre vários tipos de bissexualidade: uma puramente sexual; uma outra ao mesmo tempo afetiva e sexual; e uma última que poderíamos qualificar de imaginária. No primeiro caso, uma pessoa pode desejar e ter uma relação erótica satisfatória com homens e mulheres. Os dois sexos lhe agradam por diferentes razões: os homens porque são homens, as mulheres porque são mulheres. Geralmente não há engajamento afetivo importante, mas simplesmente diferentes maneiras de passar um bom momento. Esse tipo de bissexualidade não coloca demasiados problemas, já que se limita ao sexo e, às vezes, à amizade. Por isso também, de vez em quando, uma certa frustração: as relações permanecem mais ou menos superficiais. Contudo, trata-se provavelmente do tipo de bissexualidade mais comum. De fato, corresponde à ideologia da revolução sexual e do consumismo desenfreado, e aos ritmos rápidos e impessoais da sedução em nossa época. Em contrapartida, a bissexualidade que compreende ao mesmo tempo encontros sexuais e relações afetivas é muito mais complexa. Implica a possibilidade de se apaixonar por um homem ou por uma mulher, e diz respeito, provavelmente a um perfil psicológico e a uma história pessoal e familiar bastante particulares. Baseia-se igualmente em um contexto social e cultural que encoraja (ou pelo menos permite) uma certa flexibilidade psíquica. É provavelmente a razão pela qual essa forma de bissexualidade, ao mesmo tempo afetiva e sexual, é menos freqüente que a primeira. Implica também um problema de identidade pessoal e social mais ou menos constante: é difícil assimilar, e explicar aos outros, o fato de ter relações com homens e mulheres ao mesmo tempo. Enfim, existe uma modalidade que não se vive nem no plano das práticas nem no dos sentimentos, mas somente no plano da imaginação. Não há nenhuma dúvida de que essa ocupa um lugar central nessa bissexualidade potencial ou latente. Muitas pessoas têm fantasias eróticas contrárias a sua orientação habitual: há heterossexuais que imaginam encontros homossexuais, e homossexuais que imaginam aventuras heterossexuais. Do que se trata? Para entender esse tipo de bissexualidade, é preciso se lembrar da enorme importância do desconhecido e do proibido na vida psíquica e sexual. Esses vastos continentes do inconsciente, dos quais só percebemos, em nossos sonhos e em nossas fantasias, os vagos contornos, formam uma parte escondida, mas sempre presente de nossa paisagem interna e de nossa identidade profunda. É por causa deles que muitas pessoas se consideram bissexuais, mesmo que nunca tenham tido relações fora de sua orientação habitual. Contudo, o fato de imaginar a bissexualidade sem nunca a concretizarem pode trazer, em longo prazo, uma certa frustração. Essas três modalidades são muito diferentes entre si. Há pessoas que estabelecem relações sexuais com os dois sexos, mas se ligam afetivamente apenas com um deles. Outras foram apaixonadas fora de sua orientação habitual, sem nunca passarem à prática. E também, há as pessoas que se consideram bissexuais somente no plano imaginário, de um modo mais ou menos abstrato. E existem os bissexuais que têm relações sexuais com homens e mulheres sem nunca se apaixonarem por ninguém, que não querem (ou não podem) desenvolver uma ligação emocional com qualquer pessoa. Limites da bissexualidade Nesse último caso (que talvez seja o mais comum), observa-se uma falta de engajamento afetivo em todas as relações, sejam homo, sejam heterossexuais, e vê-se, às vezes, desenvolver-se um esquema recorrente. Quando esse tipo de bissexual está em relação com uma pessoa de um sexo, faltam-lhe elementos do outro; e quando se volta para o outro, faltam-lhe aspectos do primeiro. Como corolário, quando encontra problemas de casal, acredita que é por causa do sexo da outra pessoa, sem procurar 150 resolver as dificuldades da relação em si mesma. Assim, se tiver problemas com um homem, é porque é um homem; se os encontrar com uma mulher, é porque é uma mulher. Então, em sua relação seguinte, escolhe um parceiro do outro sexo. E alterna entre os dois, ou mantêm relações simultâneas com homens e mulheres. Esse esquema, bastante freqüente, constitui em geral uma solução de facilidade: é uma maneira de se subtrair ao trabalho sobre si e ao engajamento em relação ao outro tão necessário em qualquer relação — e no desenvolvimento pessoal. Não é por acaso que quase todos os bissexuais recusam a monogamia: logicamente essa exclui a alternância entre um sexo e o outro e implica um engajamento afetivo com uma só pessoa. Segundo um estudo realizado em São Francisco, quase todos os bissexuais que não têm uma relação primária estável praticam a pluralidade sexual. E entre os que vivem em casal, 90% têm relações "abertas" 121 . Ouvimos um homem de vinte e nove anos que tem aventuras com ambos os sexos: Não sou nem homo nem heterossexual. Sou bissexual porque amo as mulheres, mas me dou melhor com os homens. A maioria de minhas relações foi com mulheres, mas com as mulheres sempre temos problemas, elas sempre querem se casar ou ter filhos. É sempre sério, enquanto que com os homens você pode ir com eles, depois não os ver mais, e não há problemas. E com eles é mais excitante e podemos falar melhor; com as mulheres, é sempre a mesma coisa. Não acho que eu poderia me apaixonar por um homem, e dificilmente por uma mulher. Se eu me imaginar daqui vinte anos, gostaria de viver só, com um monte de relações diferentes — um pouco como agora. Podemos observar nessa visão da vida uma certa reticência, senão incapacidade, para estabelecer relações íntimas. O homem que fala (que é casado e tem dois filhos) não parece particularmente ligado a sua mulher — nem a suas amantes, nem a seus amantes. O que conta mais para ele é a amizade e o sexo ocasional com muitos parceiros... Mas não uma relação de casal. Portanto, estabelece relações parciais que lhe permitem satisfazer diferentes necessidades; seus amigos são homens gueis com quem têm relações sexuais de vez em quando. Esse exemplo — que não é necessariamente típico — nos dá, entretanto, uma idéia dos problemas psicológicos que a bissexualidade pode abraçar. Assim uma autodefinição de bissexualidade pode servir para mascarar dificuldades em estabelecer relações íntimas e engajadas. Pode, igualmente, esconder confusão pura e simples. Isso não deveria nos surpreender: conforme o mesmo estudo, dois terços dos bissexuais interrogados passaram por uma fase mais ou menos comprida de confusão antes de se assumir enquanto tais. É difícil reconhecer em si necessidades ou desejos que estão fora das normas sociais. No caso da bissexualidade, há ao mesmo tempo um elemento de dificuldade e um outro de facilidade. Assim, a bissexualidade pode refletir uma real incerteza quanto à orientação sexual. Por outro lado, existe uma admiração inegável da bissexualidade desde mais ou menos vinte anos, sobretudo entre os jovens, que pode mascarar muitas coisas. Ela pode corresponder a uma escolha consciente e plenamente assumida. Mas pode também constituir uma resposta superficial que não engaja ninguém. É mais fácil se dizer bissexual do que se questionar. A bissexualidade aparece, então, como uma fórmula passe-partout122 que deixa todas as opções abertas, mas não resolve nada. Claro, nem todos os bissexuais se encontram nessa situação. Muitos deles têm relações amorosas importantes com homens e mulheres, mesmo que não sejam monogâmicas. 121 122 Ver Dual attraction, p. 107-108. Trata-se de expressão francesa já assimilada pela língua portuguesa, significando a idéia de um dispositivo que pode ser utilizado para múltiplas funções, ou como visto no dicionário Aurélio, significa “chave para todas as fechaduras.” (Nota dos tradutores). 151 No final das contas, todos os bissexuais vão de encontro a um problema central que não tem solução: nunca encontrarão uma pessoa que seja ao mesmo tempo homem e mulher. Têm poucas chances de ter um parceiro que possa satisfazer suas necessidades sexuais e afetivas ao mesmo tempo. Portanto, todas as suas relações são condenadas a serem parciais. Eis a resposta a uma das perguntas colocadas no início desse capítulo: como podemos amar duas pessoas ao mesmo tempo? A única maneira de fazê-lo, é amá-las somente em parte. E é a razão pela qual é fácil encontrar indivíduos bissexuais — e difícil encontrar casais bissexuais. Nessa ótica, a bissexualidade é, de fato, a escolha ideal para as pessoas (e sobretudo os homens) que procuram aventuras, mas não um casal; e que querem umas relações, não uma relação. Problemas da identidade bissexual Se a bissexualidade aparece, às vezes, como uma resposta fácil para problemas psicológicos ou interpessoais, constitui também uma escolha e um estilo de vida difíceis. Em primeiro lugar, ela implica em uma instabilidade mais ou menos permanente: se tudo é possível, torna-se quase impossível imaginar ou planificar o futuro. Em segundo lugar, a bissexualidade ainda não é entendida nem aceita pela sociedade. Em especial, os bissexuais são freqüentemente considerados como sendo, na verdade, homossexuais. Decorre disso, que muitos heterossexuais desconfiam deles, enquanto os homossexuais os vêem como covardes que não ousam assumir sua verdadeira orientação. Inúmeras lésbicas sentem assim um certo sentimento de rejeição em relação às bissexuais: desleais desde o início porque têm relações sexuais com o "inimigo", são também percebidas como parceiras incertas porque poderiam a qualquer momento deixar sua amante por um homem. Por sua vez, os homens bissexuais são muitas vezes mal vistos pelas mulheres que temem neles as doenças sexualmente transmissíveis (e em particular a AIDS) tão freqüentes nos homens tendo relações com outros homens. Essa situação é muito bem ilustrada por uma mulher de vinte e quatro anos que seguiu um percurso típico da bissexualidade. Após várias relações heterossexuais pouco satisfatórias, apaixonou-se por uma outra mulher com quem teve, igualmente, uma relação difícil e finalmente efêmera. Essa evolução a levou a se definir bissexual — mas não para todo mundo. Ela explica: Só o digo para meus amigos homens que não têm nenhum problema com a bissexualidade; ao contrário, acham isso bastante excitante. Em contrapartida, nunca falo disso com minhas amigas lésbicas que nunca aceitariam eu ter relações sexuais também com homens. Então, é um pouco complicado, como se eu vivesse duas vidas separadas. Aliás, é perfeitamente compreensível que os homossexuais sintam uma certa rejeição em relação à bissexualidade. Afinal de contas, lutaram durante anos para se forjar uma identidade que fosse aceita pela sociedade, e para ganhar para si um pedaço de território na paisagem mutante dos costumes atuais. Tendo conquistado uma certa "normalidade" e até mesmo uma certa respeitabilidade, naturalmente não ficam muito felizes em ver sua pequena parcela desagregar aos poucos por uma nova minoria que renega tanto a homossexualidade quanto a heterossexualidade. É certo, aliás, que não somos acostumados a pensar a sexualidade fora das categorias tradicionais da heterossexualidade e da homossexualidade. Há nesse campo uma polarização que deriva em parte da homofobia: existe nós, os heterossexuais e depois os outros, os homossexuais. Discernimos o preto e o branco, mas dificilmente aceitamos que possa haver tonalidades de cinza em matéria de orientação sexual. Além do mais, tendemos a classificar as pessoas segundo suas relações do momento: uma 152 mulher que tem relações sexuais com uma mulher é uma lésbica; um homem que tem relações sexuais com um homem é um homossexual; e uma pessoa que tem relações sexuais com alguém do sexo oposto é heterossexual — enquanto os três podem muito bem ser bissexuais. Por causa de tudo isso, a bissexualidade permanece amplamente invisível aos olhos da sociedade. Em uma palavra, os bissexuais ainda não têm identidade social. Ao tentar ir além das categorias sexuais reconhecidas e abrir uma terceira opção, são pouco numerosos e mal compreendidos. Aliás, existe um paradoxo em sua autodefinição: para se libertarem das etiquetas, foram obrigados a criarem outra. Por outro lado, a categoria da bissexualidade engloba demasiadas definições e condutas; tem significações muito diferentes para os homens e para as mulheres, para os homossexuais e para os heterossexuais. Há demasiados tipos de bissexualidade para incluí-los em uma única significação. É provável que vejamos surgir no futuro agrupamentos específicos para mulheres bissexuais, para homens bissexuais, para adolescentes bissexuais, para artistas bissexuais, para bissexuais mais homossexuais ou mais heterossexuais, e assim por diante. Finalmente, talvez voltemos ao ponto de partida de todo esse processo, segundo o qual todo mundo é bissexual — mas não pelas mesmas razões nem do mesmo modo. Bissexualidade e liberdade Se a bissexualidade "simultânea" coloca problemas difíceis de resolver, se é mal aceita pela sociedade, sua modalidade "sucessiva" talvez não seja tão afastada da evolução atual dos costumes. Por um lado, a homossexualidade é cada vez mais tolerada pela população em geral. Por outro lado, a instituição do casamento "até a morte" parece não responder mais às necessidades reais das pessoas e, aos poucos, cede o lugar a uma seqüência de relações monogâmicas, que correspondem às diferentes etapas da vida. A bissexualidade não simultânea, no final das contas, representa apenas uma variação sobre esse tema. Se, no futuro, for possível mudar de parceiro várias vezes na vida, se a sexualidade não estiver mais ligada indissoluvelmente à procriação, se o casamento não for mais obrigatório, se as mulheres e os homens forem livres para seguirem seus desejos, e se a homossexualidade for, enfim, aceita pela sociedade, não é inconcebível que um certo número de pessoas pratique uma alternância não somente em suas relações, mas também no sexo de seus parceiros. Reencontramos aqui uma idéia muito comum desde o século passado, e que faz parte de uma certa tradição utópica: a existência de uma bissexualidade original e universal, que apenas as coerções sociais nos impedem de praticar. Muitos pensadores e criadores a defenderam e preconizaram sua generalização, enquanto potencial inerente ao gênero humano. Os teóricos atuais da bissexualidade parecem adotar essa visão. Se o movimento guei procurou libertar o homossexual em cada um de nós, os militantes bissexuais de hoje procuram libertar o bissexual. É possível que essa idéia se sedimente e que essa "terceira via" se torne cada vez mais tolerada. Contudo, está claro que poder escolher entre diversas modalidades ou orientações sexuais não resolverá os problemas que afetam tantos casais atuais. A bissexualidade em si mesma não poderia melhorar a comunicação entre os sexos, nem preencher as lacunas afetivas e a solidão das quais tantas pessoas sofrem. É cada vez mais evidente que toda relação, qualquer que seja sua natureza, exige um esforço e uma constância, em longo prazo, que são os únicos a poderem nos fazer aceder ao amor profundo e – por que não ― à felicidade. 153 RECOMENDAÇÕES PARA O BISSEXUAL — Na medida do possível, aproxime-se de outros bissexuais ou das associações especializadas. É provável que os melhores parceiros para você sejam pessoas que partilham seus valores e seu modo de vida ― em uma palavra, outros bissexuais. — Procure explicitar e entender o que lhe atrai nos dois sexos. Para a maioria dos bissexuais, não é a mesma coisa se relacionar com um homem ou com uma mulher, e é importante não procurar de um lado o que só existe do outro. — Procure definir por si próprio, e independentemente de seus parceiros eventuais, que tipo de relações você quer: monogâmicas, abertas, sem ou com engajamento ― e procure depois pessoas que partilhem seu ponto de vista. — Se uma relação não está dando certo, tome o tempo e esforce-se para entender o porquê, ao invés de procurar por em outra parte o que não encontra nela. É provável que mudar de parceiro, ou se voltar para alguém do outro sexo, não resolva o problema. RECOMENDAÇÕES PARA O TERAPEUTA — Quando se está diante de uma pessoa bissexual que apresenta dificuldades em suas relações íntimas, pode-se facilmente cair na armadilha que consiste em considerar que seu problema central é a bissexualidade. Mas essa, freqüentemente, apenas mascara outros problemas intrapsíquicos ou interpessoais. A bissexualidade não é necessariamente, em si mesma, o problema nem a solução, mesmo que o indivíduo considere que ela resolveria todas as suas dificuldades. Como nos homossexuais ou nos heterossexuais, existem bissexuais infelizes... e felizes. — Não supor automaticamente que o bissexual está "transitando" em direção à homossexualidade ou à heterossexualidade, e muito menos o orientar em um sentido ou em outro. Em primeiro lugar, é impossível prever sua evolução futura; e depois, muitos bissexuais permanecerão como tais para sempre e não estão de jeito nenhum "transitando". — Desconfiar dos seguintes estereótipos: a bissexualidade é um pretexto para a promiscuidade; a bissexualidade é uma prova de confusão ou de imaturidade psicossexual; os bissexuais são incapazes de terem relações íntimas. Se esses problemas são, às vezes, presentes, com certeza, não o são em todos os casos. — Não supor que os bissexuais são obrigatoriamente andróginos. Alguns se apresentam como tais, mas muitos outros são claramente masculinos ou femininos em sua identificação, sua imagem de si e sua aparência. — Lembrar-se de que não há uma única definição nem um único tipo de bissexualidade. É importante, em primeiro lugar, entrar em acordo sobre a significação do termo. É indispensável também fazer uma distinção entre a "bissexualidade" de alguém que ainda nunca teve relações íntimas com ninguém (situação comum entre os adolescentes), e a bissexualidade de um adulto que já teve relações com pessoas de um ou de ambos os sexos. A consciência da bissexualidade pode aparecer em diversos momentos da vida, e ela tem um sentido muito diferente conforme a idade e a experiência de cada um. — A relação primária de uma pessoa não dá nenhuma indicação a respeito de sua orientação "verdadeira". Em especial, um indivíduo casado não é necessariamente "mais" heterossexual. A primeira relação também não indica nada; a maioria dos bissexuais começaram por serem heterossexuais (assim como muitos homossexuais). Isso significa que a sua história sexual também não constitui um indicador fidedigno de sua "verdadeira" orientação. 154 — Ficar cético quando uma pessoa afirma que é exatamente igual para ela ter relações com homens ou com mulheres. Geralmente, existem diferenças importantes na maneira com a qual um bissexual entra em uma relação, se comporta, se expressa e se sente com pessoas de um ou de outro sexo. Diversas partes de sua personalidade podem estar em jogo ― ou em conflito. — Levar em conta que os bissexuais, por oposição aos homossexuais e aos heterossexuais, não têm identidade social reconhecida, nem comunidade à qual se filiar. Ao contrário, freqüentemente, são vistos com desconfiança pelos dois grupos. Isso significa que, muitas vezes, estão isolados, não têm as redes de apóio que os homossexuais e os heterossexuais podem ter, e se sentem, às vezes, incompreendidos ou desvalorizados pelos seus próximos e pela sociedade em geral. — Os bissexuais têm ainda menos modelos para seguirem do que os homossexuais. Sempre são poucos e pouco visíveis, e, portanto, devem inventar tudo à medida que acontece cada relação. — Um dos grandes riscos da bissexualidade é o fato da pessoa se sentir dividida ― de sentir uma clivagem entre dois modos de vida, conforme o sexo do parceiro. É preciso, então, ajudá-la a desenvolver o conceito e a prática de papeis variáveis, que apenas se sobrepõem a uma única identidade e a uma única imagem de si que permanecem constantes. Sempre haverá um trabalho de síntese a ser feito. 155 Conclusão UMA NOVA HOMOSSEXUALIDADE Avant de devenir sage, Il faut avoir été longtemps libre. [Antes de se tornar obediente É preciso ter sido livre durante muito tempo.] PIERRE WALDECK-ROUSSEAU Há um pequeno bairro na cidade de São Francisco com casas de madeira, graciosamente pintadas, floridas e cuidadas. Se dermos um passeio em um domingo pela manhã, veremos os moradores sorridentes sentados na porta ou vagueando nas ruas cheias de cafés e de restaurantes elegantes e simpáticos. As pessoas são jovens e amáveis, vestidas com o descuido um pouco infantil que os americanos erigiram em arte de viver. Se olharmos mais de perto, observaremos, contudo, vários detalhes curiosos. Em primeiro lugar, quase não há mulheres. E os homens passeiam em casais, de braços dados, ou de mãos dadas. Parece que não há crianças ― o que é estranho para uma manhã de domingo nos Estados Unidos. Enfim, vêem-se por toda parte bandeiras nos quintais, suspensas nas janelas, ou grudadas nas vitrinas... Mas não são emblemas de países, nem de religiões, nem de companhias multinacionais. Representam um arco-íris formado por cores vivas: é o símbolo do movimento GLBTT que engloba o pluralismo na unidade, a inclusão na diversidade. Esse arco-íris que, atualmente, flutua nos bairros gueis do mundo todo, é muito mais que um emblema no bairro Castro: aqui ele é elevado a conceito de bandeira. A homossexualidade seria, portanto, uma nacionalidade? Será que se mora na homossexualidade como se mora em um país? Os homossexuais do mundo têm uma identidade comum, uma cultura própria, além das fronteiras? Os homossexuais são, provavelmente, uma legião, mas será que são uma nação? Acreditaríamos facilmente nisso ao percorrer as livrarias da Castro Street. Encontram-se aí centenas de livros, revistas, vídeos, calendários e pôsteres que foram feitos por homossexuais para homossexuais. Existe aqui toda uma cultura que possui seus próprios heróis, seus próprios escritores e artistas, sua própria imprensa. Encontram-se igualmente catálogos telefônicos com longas listas de bares, de restaurantes, de agências de viagem, de escritórios, de advogados, de clínicas, de oficinas, de terapeutas ― todos gueis. E o cineminha do bairro passa filmes com temática guei, quase exclusivamente. Mas não nos enganemos: o distrito Castro não é de forma alguma um gueto. Para começar, é demasiadamente próspero para ser comparado aos antigos guetos dos Judeus, ou aos bairros dos Negros ou de outras minorias rejeitadas da sociedade através da história. Com efeito, os bens imobiliários nesse distrito estão entre os mais caros dos Estados Unidos: um pequeno estúdio aluga-se por algo em torno de mil e duzentos a mil e quatrocentos dólares por mês; um apartamento com dois cômodos: dois mil dólares; e uma casinha custaria no mínimo trezentos e cinqüenta mil dólares. Os homossexuais que vivem aqui não são nem fracassados, nem marginais, nem doentes mentais: são, certamente, homens bem sucedidos. 156 Pois é possível, atualmente, proclamar-se guei e vencer na vida. Isso nem sempre foi verdade. Ora, as coisas evoluíram muito no decorrer dos últimos vinte e cinco anos. A sociedade em seu conjunto aceita melhor a homossexualidade, graças a vários fatores. A liberação guei transformou um problema pessoal, secreto e médico em um movimento social, político e cultural. A AIDS desenvolveu igualmente um papel importante obrigando os gueis a se organizarem em comunidade para enfrentar o vírus e também a indiferença ― até mesmo a hostilidade ― das autoridades e da sociedade. As organizações gueis, dos direitos humanos e um grande número de indivíduos corajosos conseguiram, aos poucos, graças a esforços incessantes, despenalizar a homossexualidade e a ampliar os direitos dos homossexuais. Mas, se a atitude da sociedade em relação aos homossexuais mudou, é também verdade que esses se adaptaram a ela. As posições contestadoras da liberação guei, que colocavam em questão as estruturas patriarcais e autoritárias da sociedade heterossexual, diluíram-se em um vasto esforço de assimilação. Os homossexuais descobriram, no decorrer desses últimos vinte anos, que podiam sair do armário sob uma condição: para não ser endemoninhados, era preciso que eles se parecessem com os heterossexuais. Foi assim que ao se tornarem mais visíveis, tornaram-se também mais parecidos com todo mundo. Nesse processo de "normalização", esqueceram, às vezes, em que são diferentes, e em que sua existência visível constitui uma ameaça para as instituições heterossexuais. A sociedade, por sua vez, não esqueceu isso: continua ainda existindo, em importantes setores, uma homofobia profunda. E isso não tem nada de surpreendente. A existência visível da homossexualidade ameaça os próprios fundamentos da sociedade heterossexual. Ela prova, sem dúvida nenhuma, que qualquer um pode se tornar homossexual, e que isso não tem nada de patológico; que as pessoas podem ser felizes fora do casamento; que não precisam nem da família, nem da Igreja, nem do Estado para formarem casais estáveis. E ainda mais grave que isso, ela demonstra que as mulheres não dependem dos homens, nem dos filhos, para realizarem seu potencial e levar uma vida plenamente satisfatória. Assim, recoloca em questão todos os papéis tradicionais do homem e da mulher. E enfim, prova que a heterossexualidade não é a única orientação legítima, e muito menos ainda a única que a ser "natural". Em seu livro Virtual Equality, a advogada e ativista lésbica Urvashi Vaid123 descreve, de maneira brilhante, os acontecimentos, os raciocínios e as contradições internas que levaram o movimento americano de liberação guei a se afastar de sua crítica radical da sociedade, para reivindicar cada vez mais os direitos civis e as vantagens materiais procurados por qualquer minoria discriminada. As organizações gueis de hoje procuram mais o acesso às estruturas do poder do que a sua transformação; a inclusão nos esquemas da vida heterossexual do que a sua reforma profunda. A crítica guei da sexualidade, do gênero, dos papéis masculino e feminino, da família e da sociedade diluiu-se na busca de uma série de ajudas e de direitos, por exemplo, de subvenções para a AIDS, de um estatuto legal e de vantagens fiscais para o casal. É a mesma coisa para o movimento das lésbicas que antes representava a ala mais radical da ideologia feminista. A análise de classe, a crítica da "falocracia" (sexismo) e do casal heterossexual, a busca de um discurso original e de uma nova sexualidade feminina praticamente desapareceram, em favor de reivindicações de tipo jurídico, medical e econômico124. Essa evolução do movimento guei trouxe, provavelmente, aos homossexuais sucessos importantes e indispensáveis ― mas a um preço elevado. Pois resta ainda fazer o grosso do trabalho. Como Urvashi Vaid o explica, os direitos conquistados pelos 123 124 Urvashi Vaid (1995). Virtual Equality, New York, Anchor Books. Ver Sheila Jeffreys (1995). The Lesbian Heresy, A Feminist Perspective on the Lesbian Sexual Revolution, Spinifex. 157 homossexuais frente à lei e à sociedade só constituem uma igualdade "virtual": atualmente, os homossexuais desfrutam de uma aceitação frágil e superficial que, no final das contas, é apenas aparente. Em primeiro lugar, o acento posto pelas associações gueis nas reformas legislativas e a ação governamental tornou o movimento totalmente dependente das vicissitudes da política. Depois, a busca de direitos reservados até agora aos heterossexuais está despertando a hostilidade de outros setores da população. Mas, sobretudo, os grandes problemas de fundo, a discriminação real e a homofobia real, permanecem intactas. A experiência dos Negros nos Estados Unidos demonstrou claramente que a conquista de uma igualdade jurídica, em si mesma, não afeta em nada o racismo. Do mesmo modo, os direitos civis para os homossexuais não servirão para eliminar a homofobia inata que ainda prejudica vastos setores da população heterossexual. Talvez o movimento guei tenha cometido o erro de confundir visibilidade e aceitação, presença e poder, ao supor que os homossexuais seriam mais bem tolerados se se mostrassem numerosos. Contudo, é verdade que os preconceitos perdem um pouco de sua virulência quando se conhece as pessoas visadas. Inúmeras pesquisas mostraram que as pessoas aceitam melhor a homossexualidade quando têm contatos, no contexto de sua vida cotidiana, com homossexuais de carne e osso. É um pouco mais difícil sentir a mesma rejeição se um casal amável mora ao lado, ou se se tem uma sobrinha lésbica. Contudo, essa aceitação só é aparente, e é bem possível que as pesquisas nesse campo não reflitam as atitudes reais das pessoas. É fácil dizer, no âmbito de uma pesquisa ibope, que se aceita a homossexualidade ― mas isso não indica absolutamente nada a respeito das reações que se pode ter na vida cotidiana. Ainda há demasiados comentários como esse, ouvido em um pub inglês: “Não tenho nenhum problema com os homossexuais, até mesmo tenho bons amigos gueis ― mas não gosto que eles venham se sentar ao meu lado. E é bom se cuidar aquele que se aproxima demais!” A tolerância abstrata não equivale à aceitação. Uma pesquisa com quatrocentos homossexuais, realizada em Nova Orleans em 1991, mostrou que 28% dos homens e 10% das lésbicas haviam sido agredidos fisicamente por causa de sua orientação sexual; 26 % haviam sido ameaçados; e 64% haviam sido agredidos verbalmente125. Em uma outra variação sobre esse tema, os homossexuais são aceitos na medida em que aderem aos valores da sociedade heterossexual ― em particular, a uma certa visão da sexualidade, do casal e da família. Os homossexuais mais bem tolerados são aqueles que se integram e vencem na sociedade atual: de preferência, brancos de classe média, vivendo tranquilamente em casal como todos. Mas é preciso que esses "gentis homossexuais" respeitem certas regras do jogo: de fato, as pesquisas evidenciam que uma maioria da população não tem mais problemas com a homossexualidade ― exceto quando os homossexuais se tornam "demasiadamente" visíveis, tentam casarem-se, ou quando começam a terem filhos, ou quando "se infiltram" em certas profissões como o ensino ou a política. Um exemplo notório dessa dicotomia ― dessa "igualdade virtual" ― foi o fracasso total dos esforços feitos pelas associações GLBTT nos Estados Unidos para anularem a interdição da homossexualidade nas forças armadas desse país, em 1993. Apesar da boa vontade e da popularidade do presidente Clinton, apesar de um lobby intenso, apesar da absurdidade das normas nesse campo que excluíam regularmente da profissão militar homens e mulheres altamente qualificados e ligados à sua pátria, o resultado final foi um completo fracasso. Atualmente, os militares homossexuais americanos são ameaçados de exclusão não somente quando incorrem em práticas homoeróticas, como também quando dizem que são gueis ou o revelam ao assinarem, por exemplo, revistas gueis. 125 Urvashi Vaid, op. cit., p.12. 158 Paradoxalmente, os homossexuais são considerados "normais" apenas quando ficam à margem da vida "normal"; são aceitos como todos somente quando não tentam serem realmente "como todo mundo”. O grande desafio para os homossexuais (e para os heterossexuais) de nossa época é o de redefinir em que são parecidos e em que divergem do resto da sociedade ― e o de decidir quais similaridades, e quais diferenças, eles querem guardar. Isso se aplica não apenas ao movimento guei em seu conjunto, mas a todos os homossexuais vivendo esse período de transição, onde quer que estejam. No final das contas, em que consiste ― ou deveria consistir ― a identidade homossexual, quando os homossexuais deixam de serem os pecadores, os criminosos e os doentes mentais que foram, desde sempre, aos olhos da sociedade heterossexual? Em uma palavra, o que diferencia os homossexuais, por um lado, dos heterossexuais, e por outro lado, das outras minorias que conheceram a discriminação? Detectamos, ao longo dessa obra, uma série de particularidades na psicologia dos homossexuais e em seu desenvolvimento, em seu modo de viver e de entrar em relação com outras pessoas. Definimos com precisão uma sensibilidade, valores e esquemas de casal que lhes são específicos. A isso, seria preciso acrescentar um outro elemento do mundo guei igualmente notado por Urvashi Vaid e por outros autores: o lugar atribuído ao desejo livremente vivido, por oposição ao desejo reprimido e penalizado que, durante tanto tempo, caracterizou a cultura ocidental. A homossexualidade contemporânea devolveu ao desejo sua cidadania na “cidade dos costumes” 126; lembra-nos o lado espontâneo e lúdico que a sexualidade pode ter, quando a libertarmos das coerções sociais e ideológicas da heterossexualidade moderna. Lembra-nos também a importância da amizade no casal ― e é aqui um elemento que falta em muitas relações heterossexuais. Os homossexuais têm assim um papel inovador, às vezes iconoclasta, na sociedade contemporânea. Não é por acaso que tantos criadores, artistas e escritores eminentes de nossa época tenham sido homossexuais. Esses constituem uma comunidade que recoloca em questão muitos valores, costumes, preconceitos e esquemas mentais ― como qualquer minoria que consegue romper as correntes da discriminação. Mas os homossexuais são também diferentes de outras minorias discriminadas. O que distingue os homossexuais de todas as outras minorias, o que os torna únicos enquanto coletividade, é que eles não diferem em nada do resto da humanidade, exceto por um traço psicológico. São negros e são brancos, são ricos e são pobres, são católicos e são muçulmanos. Poderíamos muito facilmente viver ao lado de um homossexual anos a fio, ou trabalhar com ele, sem nunca se dar conta de sua homossexualidade ― fato pouco provável se se tratar de um negro em uma sociedade branca, por exemplo, ou de um judeu em uma sociedade católica. Os homossexuais formam uma minoria que é verdadeiramente invisível. Exceto em algumas grandes cidades, eles não têm bairros onde se agrupam. Eles não têm uma origem étnica, nem um sotaque, nem uma língua específica, nem profissões que lhe sejam reservadas, nem um modo de se vestir particular. Não pertencem mais a uma classe social do que à outra. A única característica sociológica que lhe seja própria, pelo menos no mundo industrializado, é que eles são geralmente mais instruídos que o resto da população. De fato, estima-se que 60% dos homossexuais nos Estados Unidos fizeram estudos universitários, enquanto apenas 21% dos heterossexuais o realizaram127; na França, há igualmente entre os homossexuais uma sobre-representação dos titulados. Isso 126 Na verdade, em português, poderíamos traduzir “cidade dos costumes” por “campo” ou “domínio” dos costumes. Todavia, quisemos conservar o trocadilho sugerido no original que é: “L’homosexualité contemporaine a redonné au désir sa citoyenneté dans la cité des mœurs” [Nota dos tradutores] 127 Urvashi Vaid, Ibid., p.250. 159 corresponde, provavelmente, à liberdade da qual usufruem os homossexuais que não têm as responsabilidades do casamento e da família, e também ao fenômeno de sobrecompensação descrito no capítulo 5: em muitos casos, os homossexuais tentam fazer melhor, para se "redimir" aos olhos de sua família e da sociedade. Além do mais, os homossexuais tendem a se concentrar nas grandes aglomerações populacionais: na França, 86% dentre eles vivem nas cidades de mais de cem mil habitantes128. Essa combinação de educação e de concentração urbana permitiu o progresso de uma cultura guei que é perfeitamente reconhecível. Mas, além dessa cultura, os homossexuais partilham também uma história pessoal, assim como uma certa visão das relações humanas, do amor e da amizade. Vivem às margens da sociedade heterossexual, e sabem exatamente o que isso significa. Dois homossexuais de países diferentes se encontrando pela primeira vez terão provavelmente mais coisas para se dizerem do que dois heterossexuais. Em que consiste esse terreno de entendimento? Ele é suficientemente importante para falar em termos de povo distinto, isto é, de um "conjunto de homens que moram ou não em um mesmo território e que constituem uma comunidade social ou cultural" (Larousse)? Trata-se de uma coletividade de pessoas partilhando uma história, valores e crenças? Falamos no capítulo 6, que um dos problemas para os casais homossexuais dos dois sexos é que são, freqüentemente, formados por indivíduos que não têm nada em comum exceto a sua orientação sexual, e que isso não constitui uma afinidade real. O momento chegou de nuançar esse ponto de vista. Se duas pessoas são homossexuais, já têm um ponto em comum. Ricas ou pobres, cristãs ou ateias, francesas ou mexicanas, elas têm uma história e uma sensibilidade parecidas em muitos pontos. Viveram o sentimento de serem diferentes; sentiram-se à parte, e freqüentemente excluídas; lutaram contra a incerteza, a vergonha, o medo de serem anormais e de nunca poderem ser felizes; provavelmente, tiveram dificuldades com as suas famílias e afastaram-se delas; ouviram com desânimo as piadas, os insultos, as gozações anti-gueis tão comuns em nossas sociedades. Então, quando duas pessoas homossexuais se encontram pela primeira vez, já partilham um universo de experiências, uma sensibilidade particular e uma consciência aguda de sua identidade ― em uma palavra, participam de uma cultura, de uma linguagem, e de um código de conduta que lhes são próprios. Se os homossexuais não são uma nação, talvez sejam um povo. Ao mesmo tempo, na maioria dos países, os homossexuais formam uma minoria invisível que ainda têm interesse em assim permanecer. Os homossexuais são diferentes, mas devem parecer iguais. É como se tivessem duas existências ao mesmo tempo: a que eles têm na realidade e uma outra, para uso externo, que é esperada de sua parte pela sociedade heterossexual. Tudo isso significa que os homossexuais, mais do que qualquer outra minoria, vivem realmente em dois mundos: aquele que lhes é próprio e o da maioria. Outras minorias são menos integradas à sociedade em seu conjunto, ou não tem o mesmo acesso a ela; mas os homossexuais circulam livremente em todos os estratos, em todos os meios da sociedade heterossexual. Portanto, eles têm uma cultura própria, e também a da maioria: têm acesso as duas e fazem parte das duas. Talvez seja essa dupla perspectiva que explica uma das características da cultura guei que é o humor. Os homossexuais, freqüentemente, provam terem humor e ironia realmente notáveis e muito originais. Ora, como o escreveu Arthur Koestler, um fator essencial do humor parece ser essa possibilidade de se mover e de se expressar em dois ou vários universos ao mesmo tempo. Quando os gueis parodiam os costumes heterossexuais, trazem uma sensibilidade radicalmente diferente; quando gozam de si mesmos, se vêem como seriam vistos do lado de fora. Existe sempre neles uma crítica 128 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993). Les Comportements sexuels en France. Paris, La Documentation française. 160 dos estereótipos, um jogo de espelhos, a dupla perspectiva de uma minoria que se dilui na maioria. Mas, segundo Koestler, não é apenas o humor que depende dessa capacidade de viver e de pensar em vários universos ao mesmo tempo. Essa está igualmente na própria base de toda criatividade. A possibilidade de questionar constantemente os dados da vida é uma fonte de renovação continua. É em parte por causa disso que os homossexuais são tantas vezes inovadores, cheios de vitalidade e de juventude. Citamos as palavras de uma lésbica de quarenta e cinco anos: "As pessoas gueis são mais abertas, mais jovens em sua maneira de viver e de pensar. São mais independentes, porque, freqüentemente, viveram sozinhos; são mais flexíveis, porque não têm regras fixas; então são muito mais ativos, têm mais energia... E isso é evidente: os homossexuais de idade parecem menos velhos que seus contemporâneos heterossexuais." Claro, um outro elemento crucial dessa juventude constantemente renovada é o fato de que os homossexuais escapam de muitas obrigações da sociedade heterossexual. Livres, na maioria dos casos, das responsabilidades do casamento e da família, podem reinventar continuamente seu estilo de vida e renegociar as regras de suas relações. E é isso também que permite aos homossexuais de hoje proporem visões alternativas da sociedade e de experimentarem novas modalidades no amor e na sexualidade, na amizade e na família. Em particular, os homossexuais encontram-se na interseção dos dois sexos: não porque são "hermafroditas psíquicos" ou seres bissexuados, mas simplesmente porque se libertaram das limitações, cada vez mais evidentes, dos papéis masculino e feminino. Isso lhes permite estabelecer relações essencialmente diferentes com homens e mulheres ao mesmo tempo, e com a sociedade em seu conjunto. Nesse sentido podem constituir uma interface entre os dois sexos, abrindo a possibilidade de novas formas de entendimento e de comunicação. Que isso não seja sempre o caso, que muitos homens gueis sejam misóginos e que muitas lésbicas desconfiem dos homens é inegável. Mas o potencial está aqui, e talvez seja realizado mais plenamente pelas novas gerações. Se os homossexuais aspiram a todos os direitos e todas as garantias dos quais usufruem os heterossexuais, não é necessariamente para seu interesse, nem para o da sociedade imitar o seu modo de vida. É normal e legítimo, que as homossexuais femininas queiram aceder às instituições heterossexuais ― mas elas poderiam também contribuir para a sua transformação. E é de fato o medo que fundamenta a oposição conservadora frente a iniciativas como o PACS129. O grande perigo para o estado atual das coisas, não é que os homossexuais se tornem como os heterossexuais, é que esses se tornem como os homossexuais, isto é, que deixem de se casarem e de terem filhos. Mas o fato é que os próprios heterossexuais se afastam do modelo do casamento tradicional de qualquer modo, há aproximadamente trinta anos. Portanto, não são os homossexuais que ameaçam o casal tradicional: esse está em via de desabar sozinho. Em contrapartida, podem oferecer modos de vida e de relação alternativos que merecem consideração. 129 PACS – O Pacto Civil de Solidariedade dota de estatuto civil todos os casais não casados, heterossexuais e homossexuais. Desde sua promulgação (a lei foi adotada definitivamente em 13 de outubro de 1999). […] O PACS é um "contrato firmado entre duas pessoas físicas maiores, de sexo diferente ou do mesmo sexo, para organizar a vida comum", precisa o artigo 1º da lei. Deu-se preferência a esse conceito voluntarista de "contrato" sobre a noção de "atestado", noção mais fraca do ponto de vista do comprometimento dos co-contratantes. Paralelamente, o legislador optou por definir também, além do PACS, o concubinato, que passou a constar explicitamente do Código Civil como "união de fato, caracterizada por uma vida comum com características de estabilidade e continuidade, entre duas pessoas de sexo diferente ou do mesmo sexo que vivem como casal" (artigo 3 da lei).” Retirado de texto de Fréderic Martel datado de junho de 2001 e publicado no site: http://www.ambafrance.org.br/abr/imagesdelafrance/pactocivil.htm . O texto da lei relativa ao Pacto Civil de Solidariedade (PACS) encontra-se no site www.legifrance.gouv.fr. Inspirado no PACS a ex-deputada federal, Marta Suplicy, apresentou em 1995 o projeto de Lei Federal no1.151 denominado Parceria Civil Registrada. [Nota dos tradutores] 161 Ser guei, atualmente, é uma experiência coletiva sem precedente. Pela primeira vez na história, os homossexuais formam uma comunidade que está baseada não mais na vergonha e no isolamento, mas no orgulho e na cooperação; não é mais um gueto, mas uma comunidade que, em alguns lugarzinhos do globo ― como certas cidades, ou o distrito Castro ―, pode se permitir viver abertamente. Nesses distritos ― que, geralmente, se encontram nas grandes cidades ― os homossexuais usufruem de sua vida de bairro, freqüentam os seus vizinhos, elegem as suas autoridades locais, lêem os seus jornais e respiram a cultura que lhes pertence como qualquer população urbana contemporânea. Todos esses direitos e costumes, adquiridos há tanto tempo pelos cidadãos dos países industrializados, existem realmente para os homossexuais apenas aonde eles se organizaram em comunidade. Mas não basta viver em sua comunidade. Para desenvolver plenamente seu potencial como ser humano, é preciso ir além. A existência individual insere-se em uma série de círculos concêntricos crescentes: casal, família, amigos, comunidade, sociedade, nação, mundo. Se os homossexuais recusam perderem seu lugar em cada uma dessas esferas, se perderem de vista o vasto mundo no qual todos nós vivemos, então serão novamente afastados e rejeitados às margens. E as margens, nesse contexto, são, ao mesmo tempo, largas e perigosas. Em 1998, bastou, nos Estados Unidos, que um rapaz guei se descuidasse durante uma festa, em um lugar situado fora do pequeno território onde a homossexualidade era aceita, para ser brutalmente torturado e assassinado. A homofobia, a vergonha e o isolamento ainda reinam em quase todo o mundo. Ora, muitos traços psicológicos que descrevemos nesse livro derivam dessa situação que limita em muitos pontos o desenvolvimento pessoal dos homossexuais. A homofobia interiorizada, as dificuldades da clandestinidade e certas dinâmicas de casal são intimamente ligadas à discriminação sofrida pelos homossexuais há séculos. Será que elas desaparecerão em uma sociedade mais aberta? Iniciativas como o PACS facilitarão muitas coisas para a população homossexual. A vida cotidiana, a relação de casal, a possibilidade de planejar o futuro serão muito mais simples; e os homossexuais, enfim, serão libertos de uma grande quantidade de medos, dúvidas e sofrimentos inúteis. Mas a igualdade jurídica não poderia ser um fim em si mesmo; é apenas um meio para uma realização mais plena no quadro de uma liberdade maior. Mas os homossexuais saberão aproveitar dela? Isso porque, as reformas jurídicas e legislativas não resolverão, em si mesmas, todas as dificuldades psicológicas descritas nesse livro. No final das contas, os homossexuais serão sempre uma minoria. E um longo trabalho será ainda requisitado para que eles encontrem modos de vida e formas de relação que lhes permitam usufruir plenamente de seus direitos recentemente adquiridos. Ninguém pode saber como evoluirão os costumes dos homossexuais em uma sociedade que os autoriza (pelo menos em teoria) a viverem abertamente. Haverá mais homossexuais? Ou então, serão mais numerosos aqueles que sairão do armário? É verdade que eles estabelecerão relações de casal mais estáveis? Tentarão fundar famílias? O contexto novo trará algumas respostas, mas também muitas perguntas que nunca tinham sido colocadas. Podemos supor que nossos conhecimentos sobre a homossexualidade serão também muito diferentes no futuro. Não esqueçamos de que a psicologia não pode ser atemporal; como todas as ciências humanas, está inscrita na história. Do mesmo modo que a psicologia das mulheres, das meninas, das crianças e dos adolescentes mudou muito em cinqüenta anos, a dos homossexuais será radicalmente transformada daqui algumas gerações. Podemos esperar que esse livro seja, então, totalmente ultrapassado e que as mentes curiosas que o folhearem um dia se surpreenderão de ver nele costumes 162 expostos, modos de sentir e de pensar ― e também preconceitos ― que terão expirado há muito tempo. 163 Bibliografia Almaguer, Tomás. Chicago men: A cartography of homosexual identity and behaviour, In Differences, vol. 3, nº 2, été 1991. Bailey, J. Michael, e Richard C. Pillard, A genetic study of male sexual orientation, In Archives of General Psychiatry, 48, 1991, 1098-1096. Bell, Alan P., Martin S. Weinberg, Homosexualités, Paris, éditions Albin Michel, 1980. 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Bell —...................................143 Alfred Kinsey.................................19, 20 Alfred Spira.........................................20 Alfred Spira —..........................128, 143 Alisa Valdés —...................................60 Allen —...............................................34 Andi O’Conor —..................................47 Annick Prieur (1998) —......................27 Antoine Messiah —...........................129 Brill —.................................................79 Carlston —..........................................79 Carol Gilligan —................................110 Cesare Lombroso —...........................34 Clifford Wright (1935) —.....................32 Clifford Wright (1939) —.....................32 Colin Spencer (1998) —.....................30 D. J. McKirnan....................................22 Dean Hamer Dean Hamer —.............33 Deborah Tannen —............................95 Deborah Tannen (1990) —...............111 E. S. Hetrick —...................................71 Edmund Bergler —.............................42 Edward O. Lauman.............................20 Edward O. Lauman —..............143, 165 Eli Coleman —....................................44 Elizabeth Kübler-Ross —...................48 Erin G. Carlston —..............................32 Evelyn Hooker....................................21 Francis Mark Mondimore....................17 Francis Mark Mondimore —.......42, 140 Frédéric Martel —...............................56 Freud —. .17, 18, 21, 23, 26, 28, 35, 41, 42, 143, 144 Freud —,.....................43, 143, 144, 163 Garland E. Allen —.............................33 Gary Remafedi —...............................47 Gerald Unks —...................................47 Gilbert Herdt —...................................27 Harriet G. Lerner (1989) —...............121 Hetrick —............................................45 J. Michael Bailey —............................33 James D. Steakley (1997) —..............31 Janet Lever —..........................110, 130 Janet Lever (1976) —.......................110 JoAnn Loulan —.......................109, 115 JoAnn Loulan (1990) —....................109 John Alan Lee —................................52 John C. Gonsiorek —.........................44 John D’Emilio......................................19 John De Cecco —.............................102 John Gray (1992) —.........................111 Jonathan Ned Katz —.........................35 Joseph Carrier (1989) —....................27 Joyce Hunter —..................................47 Joyce P. Lindenbaum —..................118 Keith C. Bennett —...........................137 Kristine L. Falco —.............................71 Lord Alfred Douglas............................18 Magnus Hirschfeld (1914) —..............31 Marcy Adelman —..............................58 Margaret Mahler —...........................110 Margaret Nichols —..........115, 116, 145 Marie-Ange Shiltz —.........................135 Marie-Jo Bonnet (1995) —...............107 Martin S. Weinberg —..............143, 163 Maryse Jaspard —.....................26, 115 Maryse Jaspard (1997) —..................26 Michel Foucault...................................15 Mondimore....................................17, 18 Nathalie Bajos.....................................20 P. Gibson............................................21 P. Gibson —.......................................47 P. L. Peterson.....................................22 Richard C. Pillard —.....................33, 39 Richard von Krafft-Ebbing..................17 Robert T. Michael —. 20, 115, 134, 143, 164 Samuel S. Janus —..........................143 Sheila Jeffreys (1995) —..................108 Simon LeVay —..................................34 Stephanie H. Kenen —.......................32 Tomás Almaguer (1991) —................27 Vernon A Rosario [ed.] —...................31 Vivienne Cass —................................44 Homofobia.................................................. Hitler....................................................18 Homossexualidade e literatura.................. Jean Paul Sartre.................................18 Oscar Wilde........................................18 168 Simone De Beauvoir..........................18
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Experiência homossexual

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Livro de Mariana Castañeda
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1 2 MARINA CASTAÑEDA Psicoterapeuta de origem mexicana, Marina Castañeda é especialista em terapia familiar e em hipnose ericksoniana. Formada nos Estados Unidos da América (universidades de Harvard e de Stanford) e na França (Escola Normal Superior), ela apresenta há muito tempo um interesse particular no que diz respeito à questão da homossexualidade em geral e, no modo como ela é abordada aqui, na psicoterapia junto a esta população. Co-diretora do Instituto Milton H. Erickson de Cuernavaca, México, ela se dedica também ao ensino e à escrita. 3 COMPREENDER A HOMOSSEXUALIDADE 4 MARINA CASTAÑEDA COMPREENDER A HOMOSSEXUALIDADE Explicações, conselhos para os homossexuais, suas famílias, seus terapeutas 5 A Patrícia 6 O que não temos que decifrar, que esclarecer pelo nosso esforço pessoal, o que era claro antes de nós, não nos pertence. [Ce que nous n’avons pas eu à déchiffrer, à éclaircir par notre effort personnel, ce qui était clair avant nous, n’est pas à nous] MARCEL PROUST 7 Prefácio A homossexualidade não se limita mais aos homossexuais. Não é mais, como se pensava outrora, uma tragédia pessoal que afligia alguns desafortunados mas que, felizmente, não afetava outras pessoas. Hoje, a homossexualidade diz respeito a todo mundo, porque ela nos obriga a confrontar questões que se tornaram centrais para todos nós. Não há dúvidas que as instituições tradicionais do casamento e da família estão em crise, assim como as relações entre os sexos e a própria definição do amor. Muitas pessoas procuram modelos alternativos para o casal. E muitos dentre nós exploraram formas diferentes de comunicação e de engajamento, que possam nos oferecer relações mais íntimas e mais igualitárias ao mesmo tempo em que preservamos nossa liberdade individual. Quais formas podem assumir o casal quando o casamento não é mais o único modelo possível? Podemos pensar outras escolhas para o amor, amizade e o sexo entre duas pessoas? Da mesma forma, todos nós nos perguntamos sobre a natureza da masculinidade e da feminilidade em nossa época. Como são os homens quando não têm mulheres com eles? Como são as mulheres quando vivem sem homens? Nos dois casos, como evolui a relação de casal, quando ela não é mais determinada pelas exigências da heterossexualidade? A homossexualidade atual nos oferece algumas respostas. Mostra-nos modelos alternativos de casal, de comunicação e de sexualidade. Revela-nos algumas características profundas das mulheres e dos homens quando se tornam independentes do outro sexo. Os homossexuais ilustram traços, condutas e formas de relação que vão além dos papéis tradicionais ditados pela sociedade. Mas a homossexualidade não é somente uma orientação sexual nem um modo de ser puramente íntimo. Representa também uma posição frente à vida e à sociedade. Os homossexuais são ainda, quase por toda a parte, uma minoria discriminada e marginalizada. Ao mesmo tempo, fazem parte da sociedade heterossexual: pertencem a todas as raças, todas as classes sociais, todas as religiões e profissões e todos os países. O que significa, hoje, fazer parte da sociedade ao mesmo tempo em que se rejeita as suas normas mais essenciais? Se refletirmos sobre os grandes debates de nossa época que dizem respeito à integração e à marginalização, aos direitos civis das minorias, à possibilidade de um pluralismo inclusivo, veremos que as questões colocadas pela homossexualidade dizem respeito a todos nós. Tentarei nesse livro apresentar as pesquisas atuais sobre o assunto completando-as pela minha própria experiência, pessoal e clínica. Tentei, antes de tudo, expor a dimensão psicológica da homossexualidade e de descrever a experiência subjetiva dos homossexuais. Não pretendo apresentar um estudo sociológico, literário ou histórico — esses temas foram e continuarão a serem tratados em profundidade por especialistas nesses assuntos. Também não quis escrever um tratado sobre o Movimento de Liberação Guei. Isso já foi feito por pessoas muito mais gabaritadas do que eu, por terem participado diretamente desse grande movimento social. Enfim, o leitor encontrará apenas poucas 8 referências à AIDS, apesar de seus efeitos indubitáveis sobre a homossexualidade contemporânea — mas o vírus não faz parte, no final das contas, da identidade homossexual. Meu assunto é antes a Psicologia da Homossexualidade enquanto tal — um campo de conhecimentos que se desenvolveu graças justamente à evolução social e cultural dos últimos trinta anos. Tentei também transcender as fronteiras na medida do possível: seguramente, não é a mesma coisa ser homossexual nos Estados Unidos, no México ou na França, mas, certos aspectos da subjetividade homossexual são, contudo, generalizáveis, e são esses que eu tentei isolar. Finalmente, eu não pretendo apresentar um tratado para especialistas, mas antes um texto acessível e útil destinado aos homossexuais, as suas famílias e seus terapeutas. Portanto, o leitor encontrará aqui exemplos e narrativas extraídas da experiência vivida das pessoas entrevistadas, assim como numerosas recomendações práticas para os terapeutas e temas de reflexão para os próprios homossexuais. Assim, examinarei as diferentes definições e explicações da homossexualidade e a maneira pela qual se constrói a identidade homossexual do ponto de vista subjetivo e social. Estudarei a infância, a adolescência e a idade adulta no homossexual, e o papel particular que ele desenvolve na sua família de origem, enquanto a única criança a não se casar e não ter filhos. Analisarei as vicissitudes da clandestinidade (ou do “armário”, segundo o termo consagrado) com suas vantagens e desvantagens, e apresentarei estratégias para dele sair. Em seguida, examinarei as inúmeras manifestações da homofobia interiorizada que afeta em tantos níveis o funcionamento psicológico e social dos homossexuais e dá à sua experiência subjetiva uma tonalidade totalmente específica. Abordarei também as dinâmicas particulares do casal homossexual, tanto masculino quanto feminino, destacando as profundas diferenças que distinguem um do outro. Irei me debruçar igualmente sobre o papel central da amizade na vida homossexual. Analisarei as interpretações atuais da bissexualidade e questionarei em que medida essa pode constituir uma orientação sexual propriamente dita. Finalmente, apresentarei algumas reflexões sobre o papel que a homossexualidade desenvolve na cultura e na sociedade contemporânea, sobre as vantagens e desvantagens de ser homossexual em nossa época, e sobre as perspectivas para o futuro. Esse livro não é e não poderia ser o fruto de um esforço puramente pessoal. Apóia-se sobre o trabalho de gerações de pesquisadores, de criadores e de militantes que lutaram contra a ignorância e o preconceito para libertar não somente os homossexuais, mas todo mundo. É a eles que eu dedico essa contribuição. Sumário Prefácio..................................................................................................................................7 Sumário..................................................................................................................................9 CAPÍTULO I.........................................................................................................................13 UMA IDENTIDADE MUTANTE............................................................................................13 CAPÍTULO 2........................................................................................................................25 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS..........................25 Práticas, desejos e sentimentos............................................................................26 As práticas.............................................................................................................26 Amor e desejo........................................................................................................27 A identidade homossexual....................................................................................28 Quem é homossexual?..........................................................................................29 Diferentes concepções da homossexualidade......................................................30 Será que estão percebendo?................................................................................31 Uma questão de hormônios?................................................................................32 Em busca do gene perdido....................................................................................33 A teoria social da homossexualidade....................................................................35 A dimensão subjetiva.............................................................................................36 Escolher a homossexualidade?.............................................................................36 A identidade guei...................................................................................................37 Recomendações para o trabalho terapêutico....................................................38 CAPÍTULO 3........................................................................................................................39 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL:..........................................................................................39 Gênero e orientação sexual..................................................................................39 Uma infância típica dos homossexuais?...............................................................40 A teoria psicanalítica..............................................................................................41 Não uma, mas muitas causas possíveis...............................................................42 A construção da homossexualidade.....................................................................43 Os tempos da homossexualidade.........................................................................44 Teorias do desenvolvimento homossexual...........................................................44 Os riscos da adolescência.....................................................................................46 Uma adolescência diferente para os homens e para as mulheres.......................47 O luto da heterossexualidade................................................................................48 A reconstrução da história pessoal.......................................................................49 Identidade e comunidade......................................................................................50 A descoberta tardia da homossexualidade...........................................................50 A adolescência bifásica dos homossexuais..........................................................51 Uma identidade feliz ou infeliz?.............................................................................51 A terceira idade......................................................................................................52 Escolher sua própria homossexualidade..............................................................52 Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico ..................53 Exploração da orientação sexual nos adolescentes.............................................53 Exploração da história pessoal..............................................................................54 O luto da heterossexualidade................................................................................54 CAPÍTULO 4........................................................................................................................55 AS VICISSITUDES DO ARMÁRIO......................................................................................55 10 Por que dizê-lo?.....................................................................................................56 Dizer-se homossexual...........................................................................................56 O preço da clandestinidade...................................................................................57 Sair do armário nem sempre é possível nem desejável.......................................58 A comunicação na família.....................................................................................59 Sair do armário: um processo familiar...................................................................59 Como fazer?..........................................................................................................61 Deve-se contar isso a seus pais?..........................................................................61 O tabu familiar.......................................................................................................61 O preço da mentira................................................................................................63 A culpabilidade nos pais........................................................................................64 O papel do homossexual na família......................................................................65 O outro armário: a orientação sexual do terapeuta...............................................65 Será que é preciso ser homossexual para trabalhar com homossexuais?..........66 Os terapeutas gueis devem revelar sua orientação?............................................69 Ajudar melhor os seus pacientes homossexuais..................................................70 Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico...................71 Recomendações gerais para o terapeuta que trabalha com homossexuais....73 CAPÍTULO 5........................................................................................................................74 HOMOFOBIA INTERIORIZADA..........................................................................................74 Homofobia e confusão dos gêneros......................................................................74 A homofobia nos heterossexuais..........................................................................75 Os homossexuais são sempre os outros..............................................................76 A homofobia nos homossexuais............................................................................76 A sensação de estar em desvantagem.................................................................78 Outras manifestações da homofobia interiorizada................................................79 “Não sou homossexual como os outros”...............................................................80 A promiscuidade dos últimos decênios.................................................................81 As “perversões” sexuais........................................................................................82 Homens violentos, mulheres delicadas.................................................................83 Diferentes modos de ser homossexual.................................................................84 Estereótipos globalizados e locais........................................................................84 A homofobia aprendida ........................................................................................85 O questionamento dos estereótipos......................................................................85 A homofobia no terapeuta.....................................................................................87 CAPÍTULO 6........................................................................................................................90 O CASAL HOMOSSEXUAL EM GERAL.............................................................................90 Uma razão de ser diferente...................................................................................90 Os estereótipos e a homofobia interiorizada.........................................................90 O casal invisível.....................................................................................................91 O isolamento social do casal homossexual..........................................................92 A família de eleição...............................................................................................93 O ciclo vital.............................................................................................................93 A dimensão do futuro.............................................................................................94 A semelhança…....................................................................................................94 … E a diferença.....................................................................................................96 Inveja e ciúmes......................................................................................................97 “Mas” e “menos” homossexual..............................................................................97 Mas o que eles têm em comum?..........................................................................99 Mais ou menos saído do armário..........................................................................99 11 Os pontos fortes da relação homossexual..........................................................100 Uma outra modalidade de comunicação.............................................................101 Sexo, amor e amizade.........................................................................................102 A amizade entre homens e mulheres..................................................................103 Os riscos da inovação.........................................................................................104 Reinventar o casal...............................................................................................104 A aceitação social do casal homossexual...........................................................105 Temas de reflexão para consolidar o casal homossexual..............................106 CAPÍTULO 7......................................................................................................................107 O casal homossexual feminino..........................................................................................107 A dimensão social e ideológica...........................................................................107 A recusa da dominação masculina.....................................................................108 A escolha da lesbianidade...................................................................................108 A intensidade afetiva...........................................................................................109 Gênero e modalidades de relação......................................................................110 A empatia e a superproteção..............................................................................111 A identificação perfeita........................................................................................112 A tendência à fusão.............................................................................................112 Mãe e filha...........................................................................................................113 Autonomia e intimidade.......................................................................................114 O declínio da relação sexual...............................................................................115 Uma sexualidade feminina menos “sexual”?......................................................115 A dinâmica sexual do casal.................................................................................116 Amor e sexualidade.............................................................................................116 Fusão e sexualidade............................................................................................117 As ligações fora do casal.....................................................................................118 A rotina sexual.....................................................................................................119 Mais o que elas fazem na cama?........................................................................119 Lésbicas masculinas e femininas........................................................................120 Os papéis na vida cotidiana................................................................................120 É preciso discordar..............................................................................................121 O desafio da lesbianidade...................................................................................122 Temas de reflexão para consolidar o casal lésbico.........................................122 CAPÍTULO 8......................................................................................................................124 O casal homossexual masculino.......................................................................................124 A revolução sexual..............................................................................................124 O marketing do corpo..........................................................................................124 A nova homossexualidade..................................................................................125 Homossexualidade “negra” e “branca”................................................................126 A comercialização da homossexualidade...........................................................126 A AIDS.................................................................................................................127 A sexualidade homossexual masculina..............................................................128 Em que consiste o casal masculino?..................................................................129 Características do casal masculino.....................................................................130 A comunicação entre homens.............................................................................130 A autonomia na relação.......................................................................................132 As decisões no casal...........................................................................................133 Relação e multiparceria.......................................................................................134 O ciúme................................................................................................................135 Sexualidade e amor.............................................................................................136 12 As diferenças no casal........................................................................................136 Uma grande variedade de casais........................................................................137 Modelos alternativos?..........................................................................................138 CAPÍTULO 9......................................................................................................................140 A MIRAGEM DA BISEXUALIDADE...................................................................................140 O que a bissexualidade não é.............................................................................140 O conceito de bissexualidade..............................................................................142 Uma orientação sexual variável..........................................................................142 Interpretações tradicionais..................................................................................144 A dimensão ideológica........................................................................................146 A bissexualidade nas mulheres...........................................................................146 A bissexualidade nos homens.............................................................................148 Diferentes tipos de bissexualidade......................................................................148 Limites da bissexualidade...................................................................................149 Problemas da identidade bissexual.....................................................................151 Bissexualidade e liberdade..................................................................................152 RECOMENDAÇÕES PARA O BISSEXUAL....................................................153 RECOMENDAÇÕES PARA O TERAPEUTA..................................................153 Conclusão..........................................................................................................................155 UMA NOVA HOMOSSEXUALIDADE................................................................................155 Bibliografia.........................................................................................................................163 ÍNDICE REMISSIVO..........................................................................................................167 13 CAPÍTULO I UMA IDENTIDADE MUTANTE Começamos com um paradoxo: homossexual nem sempre é homossexual. O heterossexual sim. Em todas as suas relações sociais, profissionais e familiares, a sua orientação sexual é sempre uma parte de sua identidade essencial. O homem heterossexual entra em relação com os homens e as mulheres de um certo modo, que exprime abertamente sua orientação e que é globalmente invariável. A mulher heterossexual tem gestos, condutas e maneiras de falar que refletem não somente sua feminilidade, mas também sua heterossexualidade. Nos dois casos, sexo biológico, orientação sexual e papéis sociais tendem a convergir, e formar uma identidade relativamente estável. Em contrapartida, o homossexual não se desloca no mundo com uma identidade constante. Suas atitudes, seus gestos, seu modo de entrar em relações com os outros mudam conforme as circunstâncias. Ele pode parecer heterossexual no escritório, assexuado na sua família, e expressar sua orientação sexual somente na presença de alguns amigos. Ou então, durante longos períodos de sua vida, pode negar completamente sua homossexualidade e parecer exatamente o contrário: um Don Juan ou uma mulher fatal sempre à procura de novas conquistas. Além do mais, o heterossexual foi educado para sê-lo; desde a sua mais tenra infância, foi formado para um papel e um lugar no mundo heterossexual. Este não é o caso para o homossexual, que freqüentemente só toma consciência de sua orientação no decorrer da adolescência ou da idade adulta. Portanto, ele não cresceu em seu papel; não foi educado para ser homossexual. Falta-lhe todo o tipo de habilidades e de códigos sociais dos quais necessitará num mundo homossexual que será o seu. Quando descobrem, enfim, sua orientação sexual, deve reaprender todas as regras do amor, da amizade e da sociabilidade. Não é surpreendente o fato de que podemos ler, na literatura psicológica tradicional que os homossexuais são “pouco maduros” em suas relações sociais e de casal. Contudo, não se trata de uma falta de maturidade, mas sim de carência de aprendizagem. A identidade homossexual não é dada. Constrói-se aos poucos e nem sempre se expressa da mesma maneira: muda de acordo com o contexto imediato e os momentos da vida. O homossexual, portanto, não é homossexual do mesmo modo que o heterossexual é heterossexual. Suas relações com os outros e com ele próprio são muito diferentes; nesse sentido, poderíamos dizer que o homossexual vive num universo interior muito diferente, o qual, na maior do tempo, não se vê do lado de fora. Muitos homossexuais tentam, de fato, se tornarem invisíveis e passarem por heterossexuais aos olhos da sociedade, de sua família e de seus amigos. Isso afeta inevitavelmente seu modo de ser no mundo. Acostumados a esconder uma parte essencial de seus desejos e de suas necessidades afetivas, mostram freqüentemente apenas um aspecto superficial deles mesmos. Muitos deles têm dificuldade de expressar, e até mesmo identificar, seus sentimentos; podem parecer superficiais ou pouco interessados pelos outros. Escondem, às vezes, sua realidade cotidiana: assim ouvem-se homossexuais que vivem há anos com alguém falarem como se estivessem sozinhos. Pode-se facilmente concluir que são pessoas solitárias, pouco sociáveis ou sinceras. E esta impressão pode lhes causar dificuldades, tanto na vida social quanto na esfera íntima. Entretanto, o problema não é que eles rejeitam a sociedade, mas sim que a sociedade os rejeita. 14 Desde a Revolução Homossexual e o Movimento de Liberação Guei dos anos 70 e 80, existem nos países “desenvolvidos” uma atitude muito mais aberta e tolerante em relação à homossexualidade. Essa não é mais considerada um crime e nem uma doença, e cada vez mais homossexuais “saem do armário”, tanto na vida pública quanto na vida privada. Sem dúvida essa evolução foi positiva para os homossexuais e para suas famílias. Mas ela também engendrou uma série de mal-entendidos. Em especial, espalhou-se a idéia de que o homossexual e o casal homossexual são “normais” e, portanto, essencialmente “iguais” aos heterossexuais, e tendemos a percebê-los e julgá-los segundo os critérios sociais aplicados a estes últimos. Ora, o indivíduo homossexual não é como o heterossexual, e o casal guei ou lésbico não é como o casal heterossexual: apresentam dinâmicas, etapas, problemas e recursos específicos. Um terapeuta não deve tratar seus pacientes gueis como se fossem heterossexuais nem aplicar os mesmos critérios diagnósticos. A homossexualidade — em suas práticas e suas dinâmicas — não é uma cópia malfeita de um original que seria a heterossexualidade; e tampouco um fenômeno equivalente. O fato de “normalizar” a homossexualidade reduziua, na verdade, a seus aspectos mais simples, e constitui por isso mesmo uma distorção. Esse livro, portanto, não tentará “inocentar” a homossexualidade nem demonstrar que é um modo de vida “normal” parecido com a heterossexualidade. Ao contrário, irá se esforçar em detectar, explicitar e explicar suas particularidades: a diferença, e não a semelhança. Um outro mal-entendido que tentaremos dissipar é a tendência, por parte de muitos heterossexuais, para amalgamar a experiência das mulheres e dos homens homossexuais. Embora compartilhem uma marginalização social similar, suas formas de vida e de casal são essencialmente diferentes. Historicamente falando a relação entre a população homossexual masculina e a feminina sempre foi problemática. Desde as primeiras associações homófilas na Inglaterra do século XIX que não aceitavam as mulheres, até os setores mais radicais do feminismo atual, que rejeitam qualquer cooperação com os homens gueis, as relações entre mulheres e homens homossexuais foram marcadas por uma certa desconfiança. Foi apenas há aproximadamente 20 anos (na época da Liberação Guei) que as duas comunidades forjaram uma aliança em favor dos direitos civis dos homossexuais. Mas essa convergência estratégica foi minada pela AIDS que dizimou a população masculina, e não a das mulheres. Apesar da implicação da comunidade lésbica na luta contra a AIDS, muitas mulheres se afastaram diante de um fenômeno que elas percebiam como o resultado de uma promiscuidade tipicamente masculina. Portanto, poderíamos dizer, de um ponto de vista histórico, sociológico, político e psicológico, que a experiência homossexual é profundamente diferente para os homens e para as mulheres. Novamente, esse livro procurará apontar precisamente as diferenças, além das semelhanças. Esses mal-entendidos, bastante generalizados, produzem hoje seus frutos. Enquanto a pesquisa e a organização social, política e jurídica avançam rapidamente nas comunidades gueis e lésbicas dos países industrializados, a maior parte das pessoas está sempre presa a certos estereótipos — tanto novos quanto antigos. Apesar dos grandes progressos do conhecimento e dos direitos civis, o homossexual permanece uma figura misteriosa: risível para uns, ameaçadora para outros. Apesar de ele ser cada vez mais visível na cultura, cada vez mais presente na sociedade, permanece, contudo, uma personagem radicalmente desconhecida. O preço dessa marginalização está cada vez mais alto. Quando a homossexualidade era um fenômeno isolado e escondido, era fácil pô-la de lado. Não trazia muitos problemas para as famílias, nem para as instituições, nem para as autoridades. Não se falava quase dela, e era razoável pensar que ela não existia — em 15 todo o caso, não entre as pessoas honestas. Nossos pais e avós podiam dizer, com toda a franqueza, que eles nunca tinham conhecido homossexuais. Esse desconhecimento, às vezes trágico para os homossexuais, não trazia problemas para a sociedade em geral. Não é mais o caso. Hoje, os homossexuais estão cada vez mais visíveis nas famílias, nos locais de trabalho e na sociedade em geral. Os heterossexuais são obrigados a enfrentar os problemas que a homossexualidade pode lhes causar em todos os domínios: eles não podem mais se dar ao luxo de ignorá-la. Ademais, se a homossexualidade se define em relação à heterossexualidade, o inverso também é verdadeiro. A homossexualidade nos obriga a requestionar nossos preconceitos que dizem respeito ao amor, às relações entre homens e mulheres, e à natureza da amizade. Os homossexuais apresentam um novo tipo de casal, outras regras do jogo, que podem ajudar os heterossexuais a renovar suas relações humanas. Em uma palavra, os heterossexuais poderão conhecer melhor e desenvolver sua própria sexualidade na medida em que entenderem melhor a orientação homossexual, libertandose assim de preconceitos e de estereótipos que os afetam igualmente. Vários autores, entre os quais Michel Foucault em sua Histoire de la Sexualité1, observaram que a identidade homossexual é um fenômeno relativamente recente. Antes do século XIX, havia práticas homoeróticas (mais ou menos toleradas em diferentes sociedades), mas não pessoas homossexuais. Aqueles que tinham práticas homoeróticas não eram considerados nem por eles mesmos nem pela sociedade como seres à parte: não se concebia a existência de uma identidade fundamentalmente diferente. Isso mudou na era moderna, com a penalização da homossexualidade pelos Estados e sua patologização pelos médicos. Assim, apareceu pela primeira vez a figura do homossexual cuja identidade essencial está definida pelo seu comportamento sexual. Essa categorização deu lugar, por sua vez, ao nascimento de uma comunidade — e, portanto, numa cultura —, especificamente homossexual nas grandes cidades. Portanto, pode-se dizer que historicamente também a identidade homossexual constrói-se aos poucos: os processos sociais e individuais, sociológicos e psicológicos, são paralelos e se nutrem reciprocamente. A pergunta “quem é homossexual?” suscita sempre grandes debates. Nos anos 70 e 80, o Movimento de Liberação Guei propôs a liberação não somente de uma população específica, mas do homossexual em cada um de nós. Estipulou a existência de uma bissexualidade natural e inerente a todos os seres humanos. Bissexualidade que é depois circunscrita e reprimida pela socialização heterossexual. O objetivo era, portanto, libertar não somente os homossexuais, mas a sociedade em seu conjunto. Esse programa foi modificado ao longo dos anos 90. As associações gueis nos países desenvolvidos fixaram-se um objetivo muito mais restrito, ao adotar um modelo étnico da homossexualidade: nessa perspectiva, os homossexuais constituem uma comunidade, que como toda a minoria oprimida, deve ter os mesmos direitos que a maioria, mantendo ao mesmo tempo uma identidade cultural própria. Mais recentemente, o Movimento Queer propôs a abolição de todas essas categorias, argumentando que qualquer classificação fundamentada sobre a sexualidade ou até mesmo o gênero deriva de um discurso social essencialmente repressivo. A pergunta “o que define a homossexualidade?” nem sempre tem resposta certa. Um grande número de pessoas tem práticas homoeróticas, sem por isso se considerar homossexuais, outras se acreditam homossexuais sem nunca ter tido relações sexuais com alguém do seu próprio sexo. Existem homens para quem o ato sexual em si não é importante — mas que recusariam veementemente beijar um homem na boca, porque seria uma prova de homossexualidade. Em certos países do Terceiro mundo, um homem 1 Os três volumes desta obra de Foucault foram traduzidos pela Editora Graal, Rio de Janeiro. 16 que penetra um outro homem não se considera um homossexual: se desenvolver um papel ativo (seja com homens ou mulheres) significa que ele é um homem “de verdade” e, certamente, não um homossexual. Nessa ótica só é homossexual aquele que é penetrado. E como definir as pessoas que têm relações heterossexuais, mas fantasias homoeróticas? Ou vice-versa? O que dizer das pessoas que, vivendo há anos com alguém do mesmo sexo, negam categoricamente serem homossexuais? Devemos concluir que elas estão mentindo ou que elas mentem para si mesmas? Para complicar as coisas, o que acontece quando uma lésbica tem uma relação com um homem? Ela ainda é lésbica? A identidade sexual é um atributo fixo das pessoas ou muda conforme a relação do momento? Se um homem homossexual e uma lésbica tem relação sexual, é um ato homo — ou heterossexual? E o que dizer se, durante essa relação, os dois alimentam fantasias homoeróticas? Certos teóricos diriam que se trata de uma relação essencialmente homossexual, mesmo que fisicamente ela implique um homem e uma mulher. A pergunta se torna então: a homossexualidade se refere ao domínio físico ou afetivo? Às práticas ou ao pensamento? Ás reações fisiológicas ou às emoções? E o que acontece se os dois níveis não coincidem, o que acontece freqüentemente tanto nos hetero quanto nos homossexuais? A essas perguntas é preciso acrescentar outras que podem parecer mais simples até mesmo absurdas, mas que foram longamente debatidas e continuam a ser problemáticas para a maioria das pessoas. Um homem que tem relações homoeróticas é sempre um homem? Uma mulher que tem relações sexuais com outra mulher é realmente uma mulher? Muitos heterossexuais diriam que não — mas a maioria dos homossexuais não hesitaria em afirmar o contrário. Isso reflete em parte um problema de definição: pelo menos na cultura popular ser homossexual significa ser “menos homem” ou “menos mulher”. Trata-se aqui de uma confusão muito presente entre gênero e sexualidade — que, como veremos mais adiante, são duas coisas muito diferentes. Em certas sociedades, considera-se que a homossexualidade “feminiza” o homem: ela o torna como as mulheres. E, portanto, o rebaixa. Mas, em outras culturas pensa-se que a homossexualidade “masculiniza” o homem. Assim, certos povos das Ilhas do Pacífico acreditam que os meninos devem ingerir sêmen para tornarem-se homens; e que, mesmo casados, os homens devem manter relações com outros homens para lhes dar força e coragem. Esses exemplos mostram que não tem relação estável entre homossexualidade, masculinidade e feminilidade: as significações mudam de acordo com o contexto social e cultural. Até mesmo no mundo ocidental, a relação exata entre gênero e orientação sexual se tornou cada vez mais complexa. Antes, era fácil pensar (e muitos ainda pensam assim) que o homossexual era um homem efeminado, e a lésbica uma mulher masculinizada — do ponto de visto da anatomia, dos hormônios, da personalidade ou mesmo da “alma”. Nessa perspectiva a homossexualidade era um problema de gênero: o homossexual não era um “homem de verdade”, nem a lésbica uma “mulher de verdade”. Faltava-lhes algo. Na realidade, durante muito tempo, uma escola de pensamento psicanalítico afirmou que a homossexualidade se devia a uma série de falhas, de lapsos no desenvolvimento. Por exemplo, no homem ela podia se explicar por uma relação deficiente com o pai, pela ausência de um modelo masculino com o qual se identificar. Sabe-se atualmente que as coisas não são assim tão simples. Por um lado, não se conseguiu evidenciar diferenças sensíveis entre a infância ou a dinâmica familiar de homossexuais ou de heterossexuais: crianças que “tendiam” à homossexualidade não se tornaram homossexuais quando adultos, e muitos homossexuais tiveram, em contrapartida, uma infância e uma vida familiar tediosamente “normais”. Por outro lado, existem homens muito masculinos, e mulheres muito femininas, que são homossexuais. E 17 os anos 80 e 90 viram surgir uma sensibilidade e um modo de vida que se poderia qualificar de andrógenos. As diferenças que permitiam outrora falar de comportamentos ou de temperamentos propriamente masculinos ou femininos se apagaram. Não estamos mais na época na qual um eminente psiquiatra pôde escrever: “Podemos sempre suspeitar a homossexualidade nas mulheres que têm os cabelos curtos, se vestem de acordo com a moda masculina ou que cultuam os esportes ou os lazeres masculinos2.” Os limites entre homossexualidade e heterossexualidade tornaram-se também cada vez mais obscuros. Desde a Revolução Sexual dos anos 70 falou-se muito da bissexualidade como sendo uma característica inata, um estado natural, do ser humano. Nesta ótica, a orientação sexual não é dada pela Biologia, mas construída por meio da história social e pessoal. Essa idéia, embora sedutora, deu também lugar a uma série de mal-entendidos. Pois se todos nós temos a possibilidade ou o potencial de ser hetero — ou homossexuais, isso não explica porque somente algumas pessoas se tornam homossexuais, nem como a orientação sexual pode mudar num dado momento. Em outras palavras, se todos nós somos bissexuais, não o somos com certeza do mesmo modo. Em um sentido, o conceito da bissexualidade (que é extremamente complexo, como o veremos mais adiante) se tornou uma fórmula fácil, uma explicação válida para qualquer situação, permitindo enfrentar fenômenos que vão muito além das etiquetas que podemos lhes aplicar. Paralelamente, nossa época viu uma proliferação de explicações relativamente simplistas da homossexualidade. No decorrer dos últimos anos, os estudiosos procuraram características hormonais ou genéticas próprias da homossexualidade. Descobriram, por exemplo, que, se um homem homossexual tiver um irmão gêmeo idêntico, existem fortes chances para que esse irmão seja também homossexual — essas chances diminuem se se tratar de gêmeos diferentes ou de um irmão que não seja gêmeo. Portanto, existem indícios (nem muito precisos nem muito conclusivos), a favor de uma dimensão genética da homossexualidade. Os pesquisadores também descobriram algumas diferenças em nível hormonal e até mesmo cerebral entre homo — heterossexuais —, mas nem sempre elas estão presentes. Algumas dentre elas são aplicáveis aos homens, mas não às mulheres. Outras, detectadas em certos níveis hormonais pré-natais não são conclusivas: se elas parecem ter desenvolvido um papel em certos casos, elas não estão presentes em todos os casos estudados. E não se descobriu ainda nenhum traço genético “homossexual” que seja comum às lésbicas e aos homossexuais de uma mesma família. Nenhuma das teorias da homossexualidade existente até o momento — sejam elas de ordem psicanalítica ou hormonal — é suficiente para explicar porque certas pessoas são homossexuais e outras não. Tudo isso sugere que não existe uma só explicação, mas várias, que agem conjuntamente: biológicas, sociais, culturais, familiais e pessoais. Entretanto, para muitos homossexuais e suas famílias a questão permanece crucial. Contudo, devemos nos perguntar por que é tão importante conhecer as causas da homossexualidade. Afinal de contas, os heterossexuais nunca se perguntam por que eles são heterossexuais. E nenhum psicólogo ou psicanalista, ao explorar a história de um paciente, terá a idéia de procurar as causas históricas de sua heterossexualidade. Essa questão se torna pertinente somente quando a orientação sexual é percebida como anormal, ou como um déficit. Uma pessoa sã não se pergunta por que ela está bem; uma pessoa doente se interroga sem cessar sobre as causas de sua doença. Isso significa que a própria pergunta apresenta um problema: ela carrega pressupostos sobre a homossexualidade que devem ser explicitados e examinados para saber se ela é ou não legítima nestes termos. Não é de se estranhar o fato de que o próprio Freud tenha escrito: 2 Richard von Krafft-Ebbing, Psychopathia Sexualis, citado em Francis Mark Mondimore (1996). A Natural History of Homosexuality. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, p. 62. Todas as citações no texto e nas notas de rodapé foram traduzidas em francês pela autora do original e traduzidas em português pelos autores da tradução. 18 ”O estudo desse aspecto nos mostrará até onde essa questão [se se tratava de um caso de homossexualismo congênito ou adquirido] é estéril e despropositada3.” Mesmo o vocabulário associado à homossexualidade é cheio de controvérsias. É bom lembrar que, durante a Idade Média, a palavra “sodomia” referia-se a toda uma série de práticas sexuais consideradas pecaminosas que incluíam a masturbação, a felação, o coito anal, a bestialidade e o coito-interrompido — em suma, todas as práticas sexuais que não tinham como objetivo a procriação. Alguns teólogos consideravam também como sodomia o fato de um cristão ter relações com um judeu ou um mulçumano: estes últimos sendo vistos como animais, qualquer contato sexual com eles dizia respeito à bestialidade. Na era moderna, os Estados substituíram a Igreja para regulamentar, julgar e penalizar o comportamento sexual. A homossexualidade masculina tornou-se punível de castração, exílio ou de morte na maior parte da Europa, muito depois das outras práticas sexuais terem sido descriminalizadas. Foi no século XIX que apareceram os primeiros recursos para despenalizar as práticas homoeróticas — o que não impediu que Oscar Wilde tivesse sido condenado a dois anos de trabalhos forçados em 1895, por causa de sua relação com Lord Alfred Douglas. As associações homofílicas da Inglaterra e da Alemanha procuraram redefinir a homossexualidade como um fenômeno “natural” (e, portanto, não “contra-natura”), mas ainda não “normal”. A psiquiatria nascente considerou a homossexualidade como um sintoma de “degenerescência” (algumas vezes agravada pela masturbação), no mesmo plano das doenças tais como o alcoolismo ou a alienação mental — uma idéia ainda comum em nossos dias, em certos meios especialmente conservadores. Freud teve o enorme mérito de rejeitar a teoria da degenerescência neste campo como em outros. Se ele via a homossexualidade como um déficit na maturação psicossexual ela não constituía para ele uma doença. Como escreveu em Trois essais sur la théorie de la sexualité: “Vários fatores permitem ver que os invertidos não são degenerados nesse sentido legítimo da palavra: (1) Encontra-se a inversão em pessoas que não exibem nenhum outro desvio grave da norma; (2) Do mesmo modo, encontramola em pessoas cuja eficiência não está prejudicada e que inclusive se destacam por um desenvolvimento intelectual e uma cultura ética particularmente elevados. (…) (a) É preciso considerar que nos povos antigos, no auge de sua cultura, a inversão era um fenômeno freqüente, quase que uma instituição dotada de importantes funções4.” No decorrer do século XX o movimento homofílico encontrou importantes aliados entre os intelectuais. Em países como a França e a Inglaterra, pensadores, escritores e artistas renomados eram homossexuais, e personalidades tão eminentes quanto Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir deram seu apoio ao movimento em favor dos Direitos Civis para os homossexuais. Aliás, esse movimento desenvolveu-se paralelamente às grandes campanhas contra o racismo e o anti-semitismo. Estima-se que dezenas de milhares de homossexuais e lésbicas foram presos na época de Hitler; muitos dentre eles morreram nos campos de concentração. (Na verdade, a Lei alemã contra a homossexualidade que permitiu essa perseguição foi extinta em 19695.) 3 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão, Vol. XVIII. 4 Sigmund Freud (1905). As aberrações sexuais. Em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 5 Mondimore, p. 218. Na verdade, apenas a Alemanha Ocidental, em 1968, suaviza as incumbências do parágrafo 175 que outorgava penas severas às práticas homoeróticas. Entretanto, foi apenas em 1994 que a Alemanha já unificada descriminalizou os relacionamentos sexuais entre homens retirando o Parágrafo 175. Para maiores detalhes da “Cronologia dos Direitos alcançados pelos Homossexuais”, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Cronologia_dos_direitos_homossexuais#1990-1999 . [Nota dos tradutores] 19 Até mais ou menos vinte anos atrás, a psiquiatria também violou os Direitos Civis dos homossexuais, ao lhes infligir (com ou sem seu consentimento) diversos tratamentos para os “curar”. O método mais aberrante, usado nos anos cinqüenta e sessenta, era baseado no condicionamento aversivo: mostrava-se ao homossexual imagens de homens nus, ao mesmo tempo em que se aplicava um choque elétrico toda vez que aparecia uma imagem suscetível de despertar seu desejo. Mas também se tentou a castração, histerectomia, a lobotomia, e diversas drogas6. Claro, os “tratamentos” desse tipo fracassaram, e não são mais praticados atualmente. Todas as pesquisas recentes mostram que é quase impossível mudar a orientação sexual, mesmo quando uma pessoa assim o quer. Ademais, as tentativas desse tipo podem ter conseqüências graves: o homossexual que procura “ser curado” e não consegue acaba por se sentir ainda mais doente e culpado do que antes. Como explicou a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos no final de 1998, ao condenar formalmente qualquer terapia visando “curar” a homossexualidade, “a terapia reparadora pode trazer danos aos pacientes, provocando depressão, ansiedade e condutas autodestrutivas7.” O grande salto em favor da liberação homossexual deu-se a partir dos anos 60, essencialmente nos Estados Unidos e com o pano de fundo das manifestações contra a guerra do Vietnã. O catalisador foi um confronto de homossexuais com a polícia em Christopher Street em Greenwich Village, em Nova Iorque em junho de 1969. Foi a partir desse momento que começou a se difundir o uso do termo “guei” (que na Idade Média significava comediante, e no século XIX prostituto), ao invés de “homossexual”. A adoção deste termo representou um esforço para se afastar do modelo médico, e para constituir uma identidade baseada sobre o orgulho da diferença (a palavra “guei” em inglês significa “alegre”). Hoje muitos autores fazem uma distinção entre pessoas homossexuais e gueis: as primeiras têm condutas homossexuais, mas não se assumem como tais, enquanto as últimas assumem plena e orgulhosamente sua orientação. Em outros termos, se todos os gueis são homossexuais, todos os homossexuais não são gueis. A distinção é interessante, pois esclarece uma fase na construção da identidade homossexual, tanto no plano individual quanto no social. Portanto, ela tem importantes ressonâncias psicológicas, sociológicas e históricas. O debate sobre a homossexualidade permanece aberto. Não é de um interesse puramente teórico: a luta pelos Direitos Civis da população guei, as alianças que podem surgir entre essa e outras causas, a evolução da AIDS e outras questões sociais dependem da definição dada à homossexualidade. Muitos aspectos da vida pessoal estão também em jogo: como todos nós — homo ou heterossexuais — construímos nossa identidade sexual e social, como estabelecemos nossas relações amorosas e eróticas, como vivemos a amizade, como entendemos o mundo atual, tudo isso pode variar segundo a percepção que cada um de nós tem da homossexualidade. Essa percepção não deveria mais basear-se em preconceitos nem na experiência que cada um de nós pode ter, mas no conhecimento. Existe atualmente uma vasta literatura psicológica e sociológica sobre esse tema — o que não era o caso há apenas vinte anos atrás. Antes, o que se podia “saber“ sobre a homossexualidade derivava principalmente de romances ou de confissões pessoais relativamente escabrosas ou da teoria psicanalítica. E essa se baseava por sua vez em casos isolados, ou em pura especulação. O conhecimento da homossexualidade, como o da sexualidade em geral, foi revolucionado pelos estudos de Alfred Kinsey nos anos 40 e 50. Ao estudar as práticas 6 Ver John D’Emilio (1983). Sexual politics, sexual communities: The making of a homosexual minority in the United States, 1940-1970. Chicago: University of Chicago Press. 7 Decisão da American Psychiatric Association, relatada por Reuters em 15 de dezembro de 1998. 20 sexuais da população americana a partir de enquetes8 e de métodos estatísticos, ele inaugurou uma nova era nas pesquisas sobre a sexualidade. Pela primeira vez, conseguiu-se saber o que as pessoas faziam na vida real, graças a questionários precisos e não mais a interpretações ou a suposições. Como o próprio Kinsey observou na introdução à sua obra Sexual Behavior in the Human Male (1948), “antes de poder pensar cientificamente a qualquer um dos temas [associados à sexualidade], é necessário saber mais acerca do comportamento real das pessoas9.” Para estudar a homossexualidade, Kinsey desenvolveu a famosa escala que leva o seu nome. Essa contém sete categorias, indo de “exclusivamente heterossexual” até “exclusivamente homossexual” com cinco categorias intermediárias, para medir a experiência vivida dos sujeitos. Entre outras coisas, as pesquisas de Kinsey mostraram que, se há relativamente poucas pessoas nos dois extremos, há muitas, em contrapartida, nos valores intermediários. Kinsey estabeleceu que as condutas homossexuais não são de forma alguma limitadas às pessoas exclusivamente homossexuais, e que elas não podem ser consideradas “anormais”. Nessa lógica, não existe “homossexual” como tipo peculiar de pessoa, mas somente práticas homoeróticas que se encontram tanto nos heterossexuais quanto nos homossexuais. Graças à sua escala, Kinsey demonstrou que as práticas homoeróticas são, de fato, muito mais freqüentes do que se imaginava. Suas pesquisas revelaram que 37% dos homens americanos e 13% das mulheres tiveram tido pelo menos uma experiência homossexual chegando ao orgasmo. Esses números puseram fim à antiga concepção da homossexualidade segundo a qual apenas indivíduos perversos, doentes ou criminosos podiam ter relações eróticas com pessoas do mesmo sexo. Outros estudos americanos, mais recentes, chegam a números que vão de 6% da população até 17% das mulheres e 22% dos homens, para a porcentagem da população tendo tido relações homossexuais na idade adulta10. Por exemplo, uma enquête de 1994 sobre os costumes sexuais dos americanos estabeleceu que 7,1% dos homens estudados e 3,8% das mulheres tiveram pelo menos uma experiência homossexual desde a puberdade. Mas somente 2,7% dos homens e 1,3% das mulheres tiveram esses contatos no decorrer do ano anterior — isto é, em relações homossexuais relativamente atuais ou estáveis. Esses dados coincidem com o número de pessoas que se definem explicitamente homossexuais: 2,8% dos homens e 1,4% das mulheres11. São as porcentagens geralmente aceitas atualmente sobre a incidência da homossexualidade nos Estados Unidos. Mas os dados variam segundo o país: na França, por exemplo, somente 1,1% dos homens e 0,3% das mulheres tiveram relações sexuais com pessoas do mesmo sexo ao longo dos últimos doze meses12. E somente 4,1% dos homens e 2,6% das mulheres relatam pelo menos um contato sexual com alguém do mesmo sexo no decorrer de sua vida13. Os últimos três decênios viram proliferar esse tipo de estudos quantitativos, cada vez mais precisos. Os pesquisadores nesse assunto estudaram vastas amostras de homossexuais para saber como vivem e como evoluem seus casais, tanto nas suas relações cotidianas quanto nas diferentes etapas da vida. Existem atualmente livros sobre a infância, a adolescência, a vida adulta e a velhice dos homossexuais; sobre os casais que formam; sobre as suas condições socioeconômicas e sua saúde; sobre suas famílias de origem e até mesmo sobre suas preferências eleitorais. Os pesquisadores têm 8 Em português, a palavra 'enquete' geralmente se refere à pesquisa realizada pela mídia. Entretanto, em francês, a mesma palavra pode ser utilizada para descrever a pesquisa científica realizada a partir de questionários. [Nota dos tradutores] 9 Alfred Kinsey, Wardell Pomeroy e Clyde Martin (1948). Sexual behavior in the human male. Philadelphia: W. B. Saunders, p. 9. 10 Ver Edward O. Lauman, John H. Gagnon, Robert T. Michael e Stuart Michaels (1994). The social organization of sexuality: Sexual practices in the United States. Chicago: University of Chicago Press. E, Samule S. Janus e Cynthia L. Janus (1993) The Janus report on sexual behavior. New York: John Wiley and Sons. 11 Ver Lauman et al., op. cit. 12 Alfred Spira e Nathalie Bajos (1993) Les comportements sexuels en France. Paris : La Documentation française, p. 138. 13 Ibid., p. 136. 21 igualmente transcrito e reunido milhares de relatos de vida, nos quais os homossexuais falam de sua experiência pessoal, familiar e social. Todo esse corpus de pesquisas nos oferece atualmente um conhecimento da homossexualidade ao mesmo tempo vasto, preciso e confiável. Uma parte dessas pesquisas confirmou uma idéia que nasceu inicialmente no século XIX, e que foi adotada por Freud e retomada por diversas associações médicas, psicológicas e psiquiátricas de nossa época, segundo a qual a homossexualidade não é uma patologia. Essa idéia foi inicialmente demonstrada por uma psicóloga americana Evelyn Hooker em 1958. Ela aplicou uma bateria de testes psicológicos em duas amostras de homens homossexuais e heterossexuais, e mandou os resultados para vários especialistas a fim de que avaliassem a saúde mental de cada indivíduo e depois o classificassem como homo ou heterossexual. Os resultados foram surpreendentes. Os especialistas se mostraram incapazes de diferenciar os homo dos heterossexuais, e não encontraram nenhuma patologia que pudesse indicar a homossexualidade. Ademais, o nível de saúde mental é quase idêntico nos dois grupos, com uma leve vantagem para os homossexuais. Hooker concluiu que, entre outras coisas, os homossexuais eram tão “normais” quanto os heterossexuais, e que a homossexualidade, portanto, não podia ser considerada uma categoria clínica. Foi graças a estudos desse tipo, chegando sempre à mesma conclusão, e aos esforços de um número crescente de psiquiatras e psicólogos homossexuais que a Associação Psiquiátrica dos Estados Unidos riscou a homossexualidade de sua lista das patologias em 1973. Foi seguida pela Associação de Psicologia do mesmo país em 1974, e pela Organização Mundial de Saúde em 1992.14. Contudo, essas organizações reconheceram, em seus respectivos manuais de diagnóstico, que a pessoa que não aceita a sua homossexualidade pode sofrer de depressão, ansiedade e outros problemas psicológicos — mas que esses derivam de pressões familiares e sociais e de conotações negativas geralmente associadas à homossexualidade. A homossexualidade, portanto, não é mais considerada uma doença. Mas isso não quer dizer que os homossexuais não apresentam problemas psicológicos particulares. Vários estudos levantaram (pelo menos nos Estados Unidos) uma taxa de suicídio elevada entre os homossexuais, comparada com a da população heterossexual. Estimase que um terço dos adolescentes que se suicidam são jovens homossexuais. E de cada três adolescentes homossexuais, um relata ter tentado se autodestruir15. É importante destacar, contudo, que quase todas essas tentativas ocorreram entre a idade de dezesseis e vinte e um anos. Isso indica claramente que a adolescência é um período particularmente perigoso para os homossexuais: não é fácil admitir que somos diferentes nessa idade, sobretudo se essa diferença for condenada pela sociedade. Mas isso não significa que a homossexualidade seja patológica em si mesma: o problema reside na dificuldade de assumi-la frente a si mesmo e aos outros. Portanto, poderíamos dizer que a homossexualidade provoca, em certas condições, conflitos psicológicos — um pouco 14 No Brasil, em janeiro de 1985, tendo como base o parecer do Conselheiro Ivan de Araújo Moura Fé, sob o pleito requerido pelo Grupo Gay da Bahia que motivou a consulta do Ministério da Saúde do Brasil ao Conselho Federal de Medicina, esse deliberou que: “Enquanto estiver em vigor o CID-9, os casos cujo motivo do atendimento médico for a homossexualidade podem ser codificados na Categoria V 62: "Outras Circunstâncias Psicossociais"; 2) Quando o comportamento homossexual for condicionado patologicamente, o enquadramento diagnóstico deve ser feito pela condições posológicas básicas”. Anos mais tarde, e também por pressão de Associações GLBTT, o Conselho Federal de Psicologia, em 22 de março de 1999, lançou a resolução 01/99 que “estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual”, deliberando que, por exemplo, a partir do Artigo 3º “os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados”. [Nota dos tradutores] 15 P. Gibson (1989). Gay male and lesbian youth suicide. Em U.S. Department of Health and Human Services, Report of the Secretary’s Task Force on Youth Suicide. Washington, D.C., U.S. Government Printing Office. 22 como pode ser difícil ser negro ou judeu, ou pertencer a uma religião minoritária, em certos países. No que concerne ao alcoolismo nos homossexuais, chega-se a conclusões parecidas. Se, de fato, há uma incidência mais elevada de alcoolismo entre a população homossexual em geral, estudos recentes mostram que os homossexuais com menos de trinta anos apresentam taxas semelhantes à dos heterossexuais de sua idade16. Isso quer dizer que os jovens homossexuais bebem menos do que os homossexuais mais velhos, o que não seria o caso se o alcoolismo fosse de algum modo inerente à homossexualidade. Uma explicação possível é que os homossexuais criados antes da liberação guei sofreram muito mais com as pressões familiares e sociais. Portanto, aqueles que hoje estão com mais de trinta anos tiveram uma juventude mais difícil. Além do mais, durante muito tempo os únicos lugares onde os homossexuais podiam se encontrar eram os bares — o que não é mais o caso hoje, pelo menos nos países industrializados. Atualmente, existem nos Estados Unidos e na Europa, associações gueis em quase todas as grandes cidades. Novamente, constatamos a enorme importância do contexto social quando analisamos comportamentos problemáticos entre a população homossexual. É interessante ver também como o campo semântico da homossexualidade (e a sexualidade em geral) deslocou-se no decorrer da era moderna. Antes do século XVIII, a sexualidade era examinada e julgada quase exclusivamente pela Igreja. Mas o debate se estendeu aos poucos para incluir os filósofos, os cientistas, os médicos e, claro, o Estado. A homossexualidade, que ainda no início do século passado era uma questão puramente moral e judicial, tornou-se um objeto de estudo para a medicina, a antropologia, a sociologia, a história, a psicanálise, a psicologia e, enfim, a sexologia. Hoje, ela adquiriu igualmente uma significação política — e não somente para os homossexuais. A homossexualidade foi discutida nas Nações Unidas pela primeira vez na Conferência sobre a mulher em Pequim em 1995. Durante um debate caloroso que durou até quatro horas da manhã, as delegadas do mundo industrializado defenderam a livre escolha das mulheres quanto à sua orientação sexual, os representantes dos países islâmicos e católicos conservadores adotaram a posição oposta. Esses últimos sustentaram, entre outros, que era ridículo perder tempo para discutir um caso que só podia interessar a uma ínfima minoria de mulheres. As delegadas dos Estados Unidos e da União Européia retrucaram que a possibilidade de exercer livremente a sua orientação sexual era crucial para todos os Direitos da mulher. Sem o direito ao lesbianismo (isto é, a uma sexualidade independente dos homens e da procriação), as mulheres, na verdade, não teriam nenhum controle sobre sua sexualidade, e portanto sobre seu próprio corpo. Essa discussão — finalmente vencida pelos conservadores — demonstrou muito claramente o papel que a homossexualidade pode ter no debate político e social de nossa época. Atualmente, quase todas as discussões sérias sobre os Direitos Civis, a liberdade individual, a tolerância ou o pluralismo passam, em algum momento, pelo debate sobre a homossexualidade. Essa não é mais apenas uma questão de teólogos ou de padres, de juízes ou de médicos: ela é um tema de reflexão para cada um de nós. Pode-se legitimamente se perguntar por que a imensa maioria dos estudos sobre a homossexualidade se refere quase exclusivamente aos homens. Há várias explicações possíveis. Em primeiro lugar, quase todos os textos que mencionam a sodomia ou a homossexualidade — sejam eles literários, filosóficos, históricos ou científicos —, desde a Idade Média passando pelo Renascimento até a era moderna, foram escritos por homens. Não esqueçamos o fato de que a palavra escrita foi desde sempre (e continua a sê-la, em 16 D. J. McKirnan e P. L. Peterson (1989). Alcohol and drug use among homosexual men and women: epidemiology and population characteristics. Em Addictive Behaviors, 14, 545. 23 muitas sociedades) o domínio exclusivo dos homens. Historicamente, são eles que tiveram acesso à esfera pública e política, ao mundo eclesiástico e, claro, à educação. Em segundo lugar, quase todas as proibições eclesiásticas e as Leis penais contra a homossexualidade tiveram como objeto os homens. Por quê? Até uma época recente (com certeza até a época de Freud), era impensável que as mulheres tivessem uma sexualidade própria, isto é, independente dos homens. Antes dos estudos de sexólogos como Master & Johnson nos anos 60, pensava-se que o orgasmo na mulher era exclusivamente vaginal — e que, portanto, dependia da penetração. Foi apenas muito recentemente que se reconheceu a realidade do orgasmo clitoriano, e portanto de um prazer sexual feminino sem penetração. Isso ajudou a iniciar um imenso campo de pesquisas sobre a sexualidade especificamente feminina, e portanto sobre o lesbianidade enquanto categoria que vale por si mesma — e não mais como um pobre substituto do prazer “verdadeiro”. Claro, muitas pessoas vêem ainda a lesbianidade como algo que fazem as mulheres quando não têm mais alternativas ou quando ainda não encontraram um homem de “verdade” que pudesse lhes ensinar a sexualidade “adulta”. Mesmo a Rainha Victória da Inglaterra (uma mulher extremamente apaixonada, como mostram sua correspondência e seus diários íntimos, publicados há pouco tempo) recusou, diz-se, assinar um decreto de Lei contra as práticas sexuais entre mulheres, argüindo que não podia haver relações entre duas mulheres e que, portanto, não havia necessidade de proibi-la. Não hesitou, em contrapartida, em assinar uma Lei punindo duramente as práticas sexuais entre homens. Portanto, se as práticas sexuais entre os homens sempre foi mais condenada do que para as mulheres, é porque em boa parte se considerava que a sexualidade em seu conjunto era uma questão masculina. Em terceiro lugar, durante todo o século XIX e uma boa parte do século XX (quando começa o estudo científico da homossexualidade), a amizade entre mulheres foi vista como uma forma de relação normal entre seres frágeis e inocentes possuindo uma grande sensibilidade, mas desprovidos de sexualidade. Ninguém se surpreendia com relações amorosas entre mulheres, pois ninguém imaginava que essas pudessem ser sexuais. Portanto, mesmo apaixonadas, essas amizades não eram percebidas como carnais — e elas talvez não o fossem. No final das contas, muitas mulheres pensavam elas mesmas serem incapazes de uma sexualidade própria. E durante uma boa parte do século XX, enquanto a sociedade tinha aceitado a possibilidade de relações sexuais entre mulheres, supôs-se que a lésbica era apenas uma mulher “masculina”. E sempre, e ainda, a sexualidade permanecia uma prerrogativa do homem. Em quarto lugar, o feminismo (que promoveu tantas pesquisas sobre a mulher em psicologia, em sociologia e em história) guardou suas distâncias com o lesbianismo por muito tempo. Algumas figuras centrais do feminismo moderado, até hoje, consideraram (talvez com razão) que sua causa seria desqualificada se fosse identificada com o lesbianismo. Na verdade, apesar dessa distância bastante marcada, a sociedade em seu conjunto repudiou o feminismo durante longos anos, ao considerar que partia de uma rejeição do homem e, portanto, de um lesbianismo relativamente camuflado. Isto explica o porquê as autoras feministas heterossexuais tenham escrito pouco sobre a homossexualidade. Enfim, a crise da AIDS levou muitos pesquisadores, em matéria de homossexualidade, a dar a prioridade aos homens e à dinâmica do casal masculino, em detrimento da mulher e da relação lésbica. A necessidade imperiosa de entender melhor os comportamentos e a psicologia do homossexual masculino com finalidades epidemiológicas relegou ao segundo plano os estudos sobre o lesbianismo. Aliás, era esperado. As lésbicas constituem a população menos afetada pela AIDS: com efeito, a 24 natureza da relação física entre duas mulheres torna mais difícil a transmissão do vírus por via sexual. Tudo isso explica porque existe uma enorme desproporção entre as pesquisas sobre a homossexualidade masculina e feminina. Esse desequilíbrio começou a se atenuar, contudo, ao longo dos últimos anos. Pelo menos nos Estados Unidos existe hoje uma vasta bibliografia sobre a mulher e a relação lésbica. Esse corpus de observações e de pesquisas revelou, entre outras coisas, que a experiência e a significação da homossexualidade variam consideravelmente entre homens e mulheres. A dinâmica do casal é também muito diferente de acordo com o sexo. Qualquer discurso ou estudo relacionado com a homossexualidade deve, portanto, incluir uma análise de gênero, e fazer as distinções necessárias entre a homossexualidade masculina e feminina. É muito importante que os próprios homossexuais, suas famílias e seus terapeutas, se informem sobre este vasto campo de conhecimento. Em parte por causa da AIDS, em parte graças à evolução cultural de nossa época, os homossexuais tornam-se cada vez mais visíveis em nossas sociedades. Saem cada vez mais da clandestinidade e estão mais presentes na vida familiar, cultural e social. Igualmente, cada vez mais os homossexuais têm procurado uma ajuda psicoterapêutica ao invés de sofrerem em silêncio. Infelizmente, até mesmo nos países industrializados, há poucos psiquiatras, psicólogos ou psicanalistas que conhecem bem o assunto. Isto se explica, em parte, pelo fato de que muitos livros escritos em inglês não são traduzidos. Mas é preciso dizer também que todos os textos estariam longe de ser pertinentes ou aplicáveis a todos os países. Pois a homossexualidade é vivida e percebida de maneira radicalmente diferente na Ásia, na Europa, na América Latina… As estruturas e as relações familiares, os conceitos de masculinidade e feminilidade, e até mesmo as definições de homossexualidade variam imensamente. Os estudos sobre a homossexualidade, portanto, não são necessariamente exportáveis, e cabe aos psicólogos, sociólogos e pensadores de cada país levar mais adiante as observações e as pesquisas nesse domínio. Nesse ínterim, a homossexualidade continuará a ser muito mais estudada nos Estados Unidos do que em outra parte: esse país foi o lugar de nascimento da liberação guei, e continua o centro desse tipo de estudos. É a razão pela qual muitas referências desse livro são tiradas da bibliografia americana — com certeza uma limitação, mas a qual espero que encoraje os psicólogos e os sociólogos de outros países a se questionar de forma semelhante e avançar as pesquisas em suas próprias sociedades. Esse esforço no conhecimento deverá ser feito paralelamente à luta pelos Direitos Civis dos homossexuais. O empenho político dos militantes gueis deverá ser acompanhado de um vasto trabalho de pesquisa e de divulgação. Resta muito a fazer. Espero que esse livro contribua para a tarefa, ajudando as pessoas homossexuais, suas famílias e seus terapeutas a entender melhor a sua vida cotidiana e a sua psicologia. O passo seguinte será o de ampliar as redes de apoio, centros de pesquisa e de ensino e listas de especialistas para que as pessoas homossexuais possam ter acesso a profissionais competentes e sem preconceitos, nos campos da medicina, do direito e da psicologia. Como qualquer população específica, os homossexuais deveriam poder consultar profissionais que conheçam a fundo seus problemas e suas necessidades. Exatamente como as crianças, os adolescentes, as mulheres ou as pessoas da terceira idade, os homossexuais apresentam toda uma série de traços e dinâmicas específicas que merecem toda a atenção, o conhecimento e o respeito daqueles que trabalham com eles. Os homossexuais diferem dos heterossexuais em muitos pontos, e eles têm o direito de serem reconhecidos em sua diferença. 25 CAPÍTULO 2 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS BIOLÓGICOS E SOCIAIS “Será que eu sou homossexual?” É uma pergunta que se faz quase sempre com angústia. Ela tem enormes implicações em todos os domínios da vida, e para sempre. Conforme a resposta, uma pessoa se casará e terá filhos, ou não. Manterá boas relações com sua família, ou não; viverá em seu lugar de origem, ou não. A vida daquele que responde afirmativamente a esta pergunta não será mais a mesma. E é uma pergunta que não tem equivalente no mundo da heterossexualidade. Quando uma pessoa descobre ou aceita nela mesma uma identidade minoritária, ela o faz geralmente no espírito de pertencimento: quando um judeu, um negro, um árabe, se assumem (segundo o país) como membros de uma minoria, provavelmente eles conhecem o custo desta identidade — mas também seus benefícios. Podem se sentir marginalizados, mal compreendidos ou até mesmo excluídos da sociedade em seu conjunto — mas eles se integram igualmente em uma coletividade e adquirem um sentimento de pertencimento. A identidade minoritária implica, na maior parte do tempo, em um sentido de comunidade, é freqüentemente, até mesmo, motivo de orgulho. Até agora, não foi o caso para os homossexuais. Quando uma pessoa se reconhece como homossexual, não existem benefícios visíveis. Ao contrário: abra-se diante dela um futuro isolado e marginalizado que trará provavelmente conflitos com a família e a sociedade. Assumir-se homossexual não parece uma volta ao lar, mas, antes, um exílio. Além do mais, a identidade homossexual não corresponde com nenhuma experiência anterior. O negro sempre foi negro, e fez parte de uma comunidade negra; o judeu foi judeu e o armênio, armênio. Eles têm um passado familiar e social que lhes ensinou o que significa pertencer a uma minoria, e quais são as regras desse jogo. Existe neles uma certa lealdade em relação à sua coletividade, porque fazem parte dela desde sempre. Em contrapartida, o homossexual que se assume como tal não tem nem modelos, nem experiência, nem aprendizagem anteriores; desconhece as regras e não fala a língua. Descobre que ele entra subitamente em um país desconhecido, sem mapa nem indicações, no qual ele precisará viver. Mesmo se isso não é mais tão verdadeiro quanto no passado, os homossexuais que estão hoje com mais de trinta anos provavelmente viveram desse modo a descoberta de sua homossexualidade. Uma lésbica de quarenta e três anos lembra-se: “quando eu tinha dezesseis anos, procurava desesperadamente conhecer pessoas como eu. Perguntava-me: "como eles fazem para se reconhecer entre eles"?” Tinha certeza que devia haver signos ou palavras, como códigos, ou pontos de cassação específicos, para eles poderem se encontrar. Então, procurava encontrar indícios em livros ou filmes como se eu estivesse aprendendo uma língua estrangeira. E depois demorei a aprender como funcionava o mundo homossexual, quais eram as regras para paquerar e iniciar relações.” 26 Práticas, desejos e sentimentos Como se chega a se fazer esta pergunta, e em que momento? Ela surge geralmente durante a adolescência, e às vezes na idade adulta. Mas não é uma pergunta simples. Muitos meninos adolescentes têm condutas homoeróticas sem nunca se perguntarem se são homossexuais. Outros jovens de ambos os sexos, não têm essas condutas mas se fazem constantemente a pergunta. Finalmente, há adultos que nunca duvidaram de sua orientação sexual, até o dia em que se encontram numa relação homossexual que lhes parece literalmente inexplicável. Eis a razão pela qual as pesquisas contemporâneas fazem uma distinção entre as práticas, o desejo, o amor e, finalmente, a identidade ou a autodefinição guei. Examinaremos sucessivamente estes diferentes elementos da homossexualidade. As práticas No que diz respeito às práticas, é difícil definir precisamente quais são ou não as características da homossexualidade. Assim, pensou-se durante muito tempo que a sodomia (quer dizer, o coito anal) era o ato homossexual por excelência. Mas os homossexuais nem sempre a praticam, em contrapartida, ela é bastante freqüente nos heterossexuais. Por exemplo, na França 30% dos homens e 24% das mulheres dizem ter praticado pelo menos uma vez o coito anal e 15% dos homens e 13% das mulheres praticam-no regularmente17 . Além do mais, um homem que sodomiza um outro homem não se considera necessariamente homossexual. Nos países latinos, somente o homem que se deixa penetrar é homossexual; aquele que o sodomiza não se vê, e não é considerado como tal. As coisas ainda ficam mais complicadas: para muitos homens, sodomizar um outro homem não é uma prática homossexual — mas beijá-lo na boca, sim. Nessa perspectiva, só é homossexual o homem que se parece com uma mulher (seja porque ele se deixa penetrar, seja porque forma uma ligação afetiva). Contudo, esse tipo de distinção não tem importância em outras regiões do mundo. É por causa dessa variedade de critérios que alguns sociólogos distinguem dois modos de definição da homossexualidade. Partindo de uma diferença estabelecida por Freud em Trois essais sur la théorie de la sexualité, eles fazem uma distinção entre o objeto sexual e a finalidade sexual. O primeiro termo se refere ao parceiro que pode ser um homem ou uma mulher. O segundo se refere à atividade sexual que se pratica, independentemente do sexo do parceiro. Se, por exemplo, é o ato da penetração que conta, pouco importa que ele seja praticado com um homem ou com uma mulher. É o que acontece na América Latina, onde o próprio ato sexual da masculinidade é penetrar, e onde o sexo da outra pessoa é secundário. Em contrapartida, o ato característico da feminilidade é o de ser penetrado; portanto, qualquer homem que se deixa sodomizar se iguala (ou se rebaixa) automaticamente ao estatuto da mulher. E, além disso, nesse sistema, o homossexual é um homem feminino por definição, assim, o homem penetrado é logicamente homossexual, enquanto aquele que penetra permanece heterossexual. Nessa abordagem, o que define a orientação sexual é a natureza da prática sexual, e não o sexo do parceiro. Em contrapartida, nos Estados Unidos e na Europa, é o sexo biológico da outra pessoa que conta, independentemente da prática. Qualquer pessoa que tem relações eróticas com alguém do mesmo sexo é considerada homossexual; pouco importa as suas 17 Maryse Jaspard (1997). La sexualité en France. Paris : Éditions La Découverte, p. 99 27 práticas sexuais. Do mesmo modo, se se tem relações com pessoas do sexo oposto, se é heterossexual; e se se as tem com ambos os sexos, se é bissexual. O que importa, é com quem se tem relação, e não o que se faz18. Amor e desejo Vemos, portanto, que as práticas não são por elas mesmas, um critério de homossexualidade, já que não tem em todo o lugar a mesma significação. Examinemos agora outros critérios, como o amor e o desejo. Esses trazem também numerosos problemas. Em primeiro lugar, nem sempre estamos conscientes de nossos sentimentos. Será que é possível desejar ou amar alguém sem percebê-lo? Isso parece incrível, mas muitas pessoas (sobretudo mulheres) descobrem apenas no momento de sua primeira relação homossexual que elas sempre tiveram esse desejo – mas não o sabiam. Ouvimos uma delas, uma mulher que, após dois casamentos, iniciou sua primeira relação lésbica aos quarenta e três anos: “A primeira vez que dormimos juntas, soube que sempre desejara isso. Mas nunca tinha pensado nisso. Foi somente na primeira vez que eu pensei: “Então, era isso que eu estava procurando.” E depois, isso me pareceu tão natural, tão autêntico, que nunca mais tive dúvida.” Essa descrição, aparentemente simples, esconde, entretanto, um enigma profundo. Poderíamos nos perguntar se essa mulher sempre tivera desejos homossexuais sem se dar conta deles, ou se surgiram nela de repente. Ou talvez, ela tivesse uma predisposição em relação à homossexualidade que nunca se manifestara, até o momento em que a pessoa indicada apareceu? Ou ainda, foi a ocasião que faltou? Poderíamos também nos perguntar se essa história não é simplesmente fictícia, um modo inconsciente de contornar uma verdade dolorosa… Em uma palavra, nem sempre temos consciência de nossos desejos ou de nossos sentimentos; às vezes, por incapacidade em reconhecê-los, não sabemos necessariamente em que momento apareceram. Uma pessoa pode se sentir fortemente atraída por uma outra, sem ter consciência disso. E essa atração pode tomar muitas formas; sua natureza sexual pode se esconder sob outros nomes. Por exemplo, o contato físico entre homens pode ser “justificar” em certos contextos permitidos, como em certos esportes. Assim, os membros de um time de futebol podem se olhar e se tocar de um modo que seria totalmente proibido, até mesmo inconcebível, em outras situações. Pode surgir entre duas mulheres uma ligação afetiva intensa, que as levam a se ver ou a se falar todos os dias, uma intimidade muito maior que aquela que elas têm com os seus maridos. Mas se lhes perguntar por que elas se procuram tão freqüentemente, elas mencionarão alguma circunstância exterior como o fato de serem vizinhas ou amigas de colégio… duas pessoas do mesmo sexo podem dividir tudo e se tornarem indispensáveis uma para a outra, sem nunca suspeitar (e muito menos assumir) que sua relação parece, ainda que estranhamente, com o amor. O elemento que falta, e que parece ser decisivo para a maioria das pessoas, é a presença ou não da atração sexual. É ela que marca a diferença entre a amizade e o amor erótico — pelo menos em teoria. Mas como podemos saber se há, ou não, atração sexual? Um componente da atração sexual é, claro, a excitação especificamente genital. E essa não é tão evidente para as mulheres quanto para os homens, nos quais o desejo é geralmente mais localizado nos órgãos genitais; nas mulheres, ele é mais difuso e assimila-se às vezes à outras emoções. É mais fácil para os homens reconhecer que seu 18 Ver Tomás Almaguer (1991) Chicano men: A cartography of homossexual identity and behavior. Em Differences, vol. 3, n˚2; Joseph Carrier (1989). Gay liberation and coming out in Mexico. Em Gilbert Herdt [ed.] Gay and lesbian youth. New York, Haworth Press; e Annick Prieur (1998) Mema’s house, Mexico city: On transvestites, queens and machos. Chicago, University of Chicago Press. 28 desejo de contato físico é de ordem sexual; as mulheres podem confundi-lo com outras coisas. Por causa da passividade e do pudor que lhes foram inculcados desde sempre, muitas mulheres acham difícil identificar em si mesmas o desejo sexual, sobretudo se esse for proibido. É muito mais provável que elas confundirão com ternura ou até mesmo com um sentimento materno, sua atração física por uma outra mulher. Portanto, é possível que uma pessoa esteja apaixonada por uma outra, ou sinta a necessidade de tocá-la, sem perceber uma excitação genital. Pode até mesmo não ter nenhuma consciência da natureza de seus sentimentos que aparecerão sob outras formas. O amor pode se manifestar como dependência, pensamentos obsessivos, ciúme ou até mesmo como irritação ou ódio. Eis a razão pela qual os psicólogos falam da negação ou da repressão dos sentimentos proibidos: por exemplo, o amor homossexual. É perfeitamente possível que uma pessoa ame uma outra até mesmo durante muito tempo, sem se dar conta disso. Na realidade, é o que acontece geralmente com as atrações proibidas, como o desejo homossexual, incestuoso, ou adúltero. Freud escreveu, em um de seus textos mais importantes sobre a homossexualidade: “Não posso desprezar a oportunidade de expressar, de passagem, meu espanto de que os seres humanos possam atravessar tão grandes e importantes momentos de sua vida erótica sem notá-los muito; na verdade, às vezes nem mesmo possuir a mais pálida suspeita de sua existência, ou então, havendose dado conta desses momentos, enganar-se a si mesmos tão completamente no julgamento deles. (…) Tem-se de admitir que os poetas estão certos em gostar de retratar pessoas que estão enamoradas sem sabê-lo ou incertas se amam, ou que pensam que odeiam quando na realidade amam. Pareceria que as informações recebidas por nossa consciência acerca de nossa vida erótica são especialmente passíveis de serem incompletas, cheias de lacunas ou falsificadas19.” Parece, portanto, que a percepção que podemos ter de nossos próprios sentimentos ou desejos não é necessariamente confiável. Assim, nem as práticas, nem os sentimentos, nem os desejos bastam para julgar se se é homossexual ou não. Além do mais, pode haver práticas homoeróticas sem sentimentos, ou práticas sem desejo, ou sentimentos sem desejo, ou desejo sem práticas… A identidade homossexual Em todos esses casos, falta alguma coisa. Esse algo é a identidade homossexual, que compreende a consciência e a aceitação de todos os elementos já descritos. A identidade implica, portanto, uma convergência de desejos, de sentimentos, de práticas e de consciência, que culminam em uma definição e uma aceitação de si como homossexual. Ora, todos esses elementos não se manifestam ao mesmo tempo, mas geralmente em épocas diferentes da vida. E não aparecem na mesma ordem: em uma pessoa podem surgir primeiramente as práticas, depois o desejo, depois o amor; em uma outra, a ordem pode ser invertida. Não há uma seqüência nem uma progressão no tempo, que seja comum a todos os homossexuais. Ou melhor, talvez devêssemos falar de diferentes fases ou graus na homossexualidade, indo desde experiências ou desejos isolados (tais quais as vivem muitas pessoas), até uma relação amorosa e um estilo de vida abertamente homossexuais. É só quando todos os elementos se conjuminam, que podemos falar de uma identidade homossexual: só “se torna” realmente homossexual quando se atinge essa congruência interna. 19 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão, Vol. XVIII. 29 Hoje, o termo “guei” refere-se justamente à essa coerência e a essa aceitação da homossexualidade20. Mas isso não acontece de um dia para o outro; é o resultado de um longo percurso. É por isso que podemos dizer, com toda a certeza, que as pessoas não nascem homossexuais. A identidade guei constrói-se aos poucos; a homossexualidade não é um estado, mas um processo. Tudo isso significa que a pergunta “será que eu sou homossexual?” não terá necessariamente resposta clara nem imediata. Certas pessoas necessitam de muitos anos para terem certeza de sua orientação sexual; outras a conhecem desde o início de sua vida erótica. A evolução psicológica tem seus próprios ritmos que variam conforme o indivíduo. O mundo da subjetividade é difícil de ser compreendido e de ser expresso, sobretudo no que diz respeito ao continente obscuro da sexualidade. Quem é homossexual? Disso decorrem as dificuldades metodológicas de qualquer pesquisa sobre a homossexualidade. Se se quer, por exemplo, fazer uma enquête sobre esse assunto, a quem iremos interrogar? Àqueles que se dizem homossexuais mesmo que não tenham tido experiências reais? Àqueles que têm praticas homossexuais, mesmo que não as considerem como tais? Àqueles que têm fantasias homossexuais? Àqueles que vivem atualmente uma relação homossexual? Ou somente àqueles que apresentam todos esses elementos ao mesmo tempo? Quem pode dizer com certeza que uma pessoa é homossexual? A pergunta pode parecer simplista, mas ela é de uma importância fundamental. O fato de uma pessoa se dizer homossexual ou ser chamada assim pelos outros, é essencialmente diferente e isso tem implicações muito diversas. Quando se trata de homossexualidade, tudo o que uma pessoa pode dizer sobre ela mesma é suspeito, e tudo que se pode dizer sobre ela também o é21. Não é surpreendente, portanto, que a ciência tenha tentado, há muito tempo, identificar signos externos ou “objetivos” da homossexualidade. No fim das contas, a pergunta “será que eu sou homossexual?” diz respeito somente à experiência interna de uma pessoa. Ela não é suficiente para estabelecer um fato objetivo. Logo, o discurso científico colocou uma outra questão, que seria: “quem é homossexual?”, mas essa suscita também dificuldades enormes. De fato, será que é possível saber objetivamente se uma pessoa é homossexual, independentemente do que ela mesma venha a dizer sobre isso? A questão pode parecer secundária: no fim das contas, qual é o valor daquilo que se pode observar de fora? O importante, atualmente, é saber como uma pessoa se define a si própria. Mas essa pergunta foi, e continua sendo, crucial para certas instituições como o Estado, o status quo médico e psiquiátrico, as companhias de seguros, as escolas, o exército — e claro, para os pais de eventuais homossexuais. Em uma outra época era importante detectar os judeus por signos externos — com as conseqüências que já conhecemos. Hoje, há muitas razões econômicas e políticas para procurar sinais verificáveis da homossexualidade, se existem — por exemplo, um “gene da homossexualidade”. E há muito dinheiro investido nesse tipo de pesquisa, sobretudo nos Estados Unidos. Não é absurdo imaginar que as companhias de seguros poderiam 20 21 Nessa perspectiva, um homossexual que vive no segredo não é guei, porque sua vida pública e sua vida privada não coincidem. No campo da homossexualidade, como em todos aqueles que são condenados pela sociedade, o “quem o diz” é crucial. Os especialistas em alcoolismo, por exemplo, sabem perfeitamente que existe uma diferença enorme entre se reconhecer como alcoólatra e o fato de ser descrito como tal por outro. Acontece muitas vezes que uma esposa considere seu marido alcoólatra enquanto ele acha que bebe pouco ou “socialmente”. Não é por acaso que o tratamento do alcoolismo exige, antes de tudo, que o próprio indivíduo se reconheça como tal — que assuma sua “identidade” de alcoólatra. Nessa perspectiva, não há nenhuma dúvida que o conceito de homossexualidade tem também uma dimensão ideológica. É por isso que as perguntas “quem o diz?” e “Por quê?” são de uma importância fundamental. 30 recusar, em um futuro próximo, de custear a AIDS, argumentando que essa deriva de uma “condição preexistente”, condição objetiva — que seria, simplesmente, a homossexualidade. Além do mais, não devemos esquecer que existem ainda muitos lugares onde a homossexualidade é severamente punida: é ilegal na maioria dos países islâmicos, os antigos países comunistas e as antigas colônias britânicas22. Nessas sociedades, identificam-se os homossexuais por critérios “objetivos” como sua aparência ou suas condutas, e não pela sua autodefinição. Mesmo nos países mais liberais, podemos ainda observar que os meninos “efeminados” ou as meninas “masculinizadas” são algumas vezes estigmatizadas pelos seus amigos ou suas famílias e até mesmo submetidos a tratamentos médicos ou psiquiátricos. Nesses casos, o que está em jogo, com certeza, não é a autodefinição, mas, antes, sinais considerados como indicadores da homossexualidade. Finalmente, esses signos “objetivos” podem ser de um grande interesse para os homossexuais que tentam esconder sua orientação. Todo o homossexual se perguntou, num momento ou outro de sua vida: “será que estão percebendo?”. Diferentes concepções da homossexualidade A pergunta “quem é homossexual?”, portanto, tem enormes implicações econômicas, políticas, jurídicas, médicas e psicológicas. A resposta depende da concepção que se tem da homossexualidade — e houve muitas, desde que se começou o estudo científico da sexualidade, na segunda metade do século passado. Em termos gerais, podemos distinguir historicamente duas grandes concepções da homossexualidade. Na abordagem essencialista, a homossexualidade é biológica, congênita e natural; na perspectiva social, ela é adquirida e se desenvolve no indivíduo segundo seu contexto familiar e social. Examinaremos agora a significação e as implicações de cada um desses dois pontos de vista. Na perspectiva essencialista, a homossexualidade é um traço biológico que aparece em todas as sociedades e em todas as épocas. Nasce-se homossexual e assim se permanece, independentemente da pessoa agir como tal ou não conforme as circunstâncias da vida. Mas ninguém escolhe a homossexualidade. Nessa ótica, que dominou amplamente no decorrer desse século, a homossexualidade é uma condição ou uma patologia congênita, mas com certeza não um crime. O homossexual não é responsável por sua orientação; ele pode ser submetido a tratamento, mas não punido. A idéia de que se nasce homossexual foi adotada por numerosos profissionais da saúde há um século, e ainda predomina na cultura popular. Historicamente ela apareceu no contexto do modelo médico, simplesmente porque foi desenvolvida por médicos e pesquisadores científicos. Não é por acaso que se encontra nessa abordagem termos como “doença”, “predisposição” e “cura”. O homossexual é considerado doente, vítima da biologia que não pode modificar sua natureza porque nasceu assim. Portanto, ele merece nossa compreensão e nossa simpatia — enquanto ele não tenta propagar sua patologia. O homossexual como vítima do destino teve uma longa história nas margens da cultura moderna. Condenado ou ao vício, ou à solidão, aparece sempre nas trevas; arrepende-se de não ser normal para poder se integrar à sociedade. Essa imagem do homossexual, na verdade, predominou no cinema e na literatura até uma época recente; e ainda é válida para muitas pessoas que aceitam os homossexuais, mas que ainda vêem esta orientação sexual como patológica. 22 Colin Spencer (1998). Histoire de l’homosexualité. Paris, Le Pré au Clercs, p. 442. 31 A postura essencialista também foi adotada, em diferentes épocas, por diversos movimentos homófilos. Se a homossexualidade é um fenômeno biológico, ela é natural — como o fato de ser canhoto ou de pertencer a um certo grupo sangüíneo. Portanto, ela não é “contra-natura”, como ela o foi durante tanto tempo aos olhos do Estado, da Igreja e da ciência. Na verdade, a postura essencialista foi o primeiro argumento erguido a favor dos Direitos Civis dos homossexuais. Como escreveu Magnus Hirschfeld, um médico alemão que lutou para a despenalização da homossexualidade: “a homossexualidade não é nem uma doença nem uma degenerescência… outrossim, representa uma parte da ordem natural, uma variação sexual, assim como existem numerosas modificações análogas nos reinos animal e vegetal23.” Portanto, não atenta à ordem natural. Essa perspectiva biológica foi retomada nesses últimos anos pelo movimento guei, em particular nos Estados Unidos. Não se pode “curar” nem mudar a homossexualidade, e não se deve tentar fazê-lo, precisamente porque se trata de um fenômeno biológico tão natural quanto inevitável. A homossexualidade é uma parte essencial da pessoa, exatamente como qualquer outro traço biológico; os homossexuais, apesar de constituírem uma população específica, têm os mesmos direitos que qualquer outra pessoa. Isso constitui uma visão não mais médica, mas étnica da “naturalidade” da homossexualidade. Assim, o argumento essencialista pode ser usado tanto a favor dos homossexuais quanto contra eles. Isso ilustra, mais uma vez, como qualquer debate sobre a homossexualidade tem um fundo ideológico que muda conforme o contexto, e conforme quem fala dela. Será que estão percebendo? A perspectiva essencialista sempre se baseou no postulado de traços biológicos específicos e detectáveis — na existência de signos objetivos da homossexualidade, de ordem anatômica, hormonal ou genética. A única coisa que falta, é encontrá-los. Assim, desde os meados do século passado, os pesquisadores tentaram provar que os homossexuais têm órgãos genitais anormais (ou hipertrofiados, hipotrofiados ou deformados, como um pênis pontudo nos “pederastas ativos24”), ou então, uma morfologia corporal específica (uma distribuição de gordura feminina nos homossexuais masculinos ou um ânus em forma de funil nos “pederastas passivos25”), ou ainda anomalias na dentição, laringe, nos pés e no crescimento dos cabelos… Mas os cientistas nunca puderam verificar esse tipo de hipóteses. A única coisa que conseguiram provar foi que não existe uma morfologia típica dos homossexuais (nem das lésbicas). Até agora, não se encontrou nem uma forma “objetiva” nem mensurável de diferenciar fisicamente um homossexual de um heterossexual. A homossexualidade não se “percebe”. Mas a idéia permaneceu, sobretudo na cultura popular, exatamente como alguns mitos associados a outras minorias (por exemplo, que os negros têm pênis enormes). Os clichês, segundo os quais o homossexual é um homem efeminado, ou a lésbica uma mulher masculinizada, são tão comuns hoje no imaginário social quanto há cinqüenta anos. Ora, esses estereótipos não afetam apenas os homossexuais: prejudicam também os heterossexuais que não respeitam as aparências e os papéis ditados pela sociedade. Ainda hoje, em muitos países, os homens com cabelos compridos, os homens e as mulheres em certas profissões são automaticamente suspeitos de serem homossexuais. 23 Magnus Hirschfeld (1914). Die homosexualität des Mannes und des Weibes. Berlin, Louis Marcus. Citado em James D. Steakley (1997). Per scientiam ad justitiam : Magnus Hirschfeld and the sexual politics of innate homosexuality. Em Vernon A. Rosario [ed]. Science and homosexualities. New York, Routledge, p. 142. 24 Magnus Hirschfeld ([1922-1923], 1986). Von einst bis jetzt. Geschichte einer homosexuellen Bewegung 1897-1922. Manfred Herzer, Berlin, Verlag Rosa Winkel, p. 162-163. Citado em Steakley, op.cit., p. 136. 25 Idem. 32 Uma questão de hormônios? Uma outra variação sobre o tema da homossexualidade de origem biológica é o fator hormonal. Desde o início deste século, numerosos cientistas procuraram combinações anormais de hormônios masculinos e femininos nos homossexuais. Essa pesquisa acentuou-se depois de 1927, quando se descobriu (para a consternação de muitas pessoas) que os homens e as mulheres produzem hormônios dos dois tipos — ao mesmo tempo masculinos e femininos. Logo surgiu a idéia de uma bissexualidade hormonal, na qual é a proporção de hormônios masculinos e femininos que determinaria a orientação sexual, assim como certas condutas e certos traços de personalidade. Como o explicou um eminente endocrinologista americano, Clifford Wright: A pulsão sexual, uma das influências mais poderosas da vida… depende, provavelmente, muito, senão totalmente, dos hormônios sexuais e da atração hormonal. A atração sexual comum entre um macho normal e uma fêmea normal é provavelmente provocado pela predominância do hormônio masculino no primeiro, e do hormônio feminino na última26. Nessa perspectiva, era lógico pensar que os homens homossexuais tinham um excesso de hormônios femininos e as lésbicas um excesso de hormônios masculinos. Essa idéia sedutora por sua simplicidade, apresentava ainda outras vantagens: em particular, podia servir para provar a homossexualidade em uma pessoa independentemente de sua própria opinião. Assim, o mesmo Clifford Wright escreveu em 1939: “(…) os exames hormonais da urina são importantes para descartar [a hipótese de] a homossexualidade em um indivíduo normal, quando esse foi detido por uma ato indecente ou outra razão importante27”. Uma outra vantagem da teoria hormonal é que, enfim, oferecia um tratamento da homossexualidade. Doravante podia se curá-la, com ou sem o consentimento das pessoas: bastava ajustar seus níveis de hormônios, claro. (Teve muitas variações sobre esse tema. Assim, um médico vienense Eugen Steinach, tentou curar a homossexualidade substituindo os testículos dos homossexuais por testículos de heterossexuais28 .) Essa teoria, que nunca foi demonstrada de modo convincente, enraizou-se, ela também, na cultura popular: a homossexualidade é um caso de hormônios. Essa abordagem inscreve-se em uma outra idéia, também muito difundida, segundo a qual toda a sexualidade é um caso de hormônios. Mas esses não podem por si mesmos, produzir nem o desejo, nem as fantasias, nem as condutas e nem os prazeres sexuais. O elemento psicológico desenvolve um papel central na sexualidade como dizem os sexólogos, o órgão sexual mais importante no ser humano, é a cabeça. Em uma extrapolação um pouco extravagante da teoria hormonal, postulou-se também que os homossexuais sofrem de um “hermafroditismo psíquico”, ou ainda que formam parte de um suposto “terceiro sexo” que nem é masculino nem feminino. Cientistas também sugeriram que um homossexual pode apresentar um corpo normal, mas ter “pulsões femininas” que lhe fazem desejar outros homens (visto que o próprio da mulher é desejar o homem). Todas essas formulações se revelaram como sendo pura especulação. 26 Clifford Wright (1935). Endocrine aspects of homosexuality: A preliminary report. Em Medical Record, 154, pp.60-61. Citado em Stephanie H. Kenen. Who counts when you’re counting homosexuals? Hormones and homosexuality in mid-twentieth century America. Em Rosario, op. cit., p. 201. 27 Clifford Wright (1939). The sex offender’s endocrines. Em Medical Record, 149, pp. 399-402. Citado em Erin G. Carlston. Female homosexuality and the American medical community. Em Rosario, op. cit., p. 187. 28 Steakley, op. cit., p. 147. 33 Em busca do gene perdido É importante destacar, entretanto, que o fracasso dessas teorias não significa que não se possa encontrar um dia um componente biológico da homossexualidade. De fato, no decorrer dos últimos quinze anos apareceram vários estudos sobre possíveis aspectos genéticos da homossexualidade. Demonstrou-se, por exemplo, que os homossexuais têm muito mais chances de ter um irmão homossexual do que os heterossexuais. As lésbicas também tendem a ter mais irmãs lésbicas; mas não se achou ainda uma correlação entre os homens gueis e suas irmãs lésbicas29. Claro, o fato de que irmãos ou irmãs tenham a mesma orientação sexual não provam a existência de um traço genético comum; afinal, eles também cresceram juntos no seio da mesma família, e isto bastaria para explicar algumas semelhanças. Eis a razão pela qual a prova mais conclusiva para procurar traços genéticos comuns reside no estudo dos gêmeos. Se dois gêmeos “univitelinos”, que foram criados por pais diferentes em lugares diferentes são ambos homossexuais, então, há fortes probabilidades para que isso derive de uma herança genética comum, e não de seu meio ambiente. Pesquisas recentes sugerem que a homossexualidade pode, de fato, ter elementos genéticos importantes. Segundo um estudo de 199130 comparando cinqüenta e seis pares de gêmeos “verdadeiros” (monozigóticos) com cinqüenta e quatro pares de gêmeos “falsos” (dizigóticos) e cinqüenta e sete pares de irmãos adotivos, se um homem é homossexual e tem um gêmeo idêntico, existe 52% de chances para que esse gêmeo seja também homossexual; se tiver um “falso” gêmeo, existe 22% de chances. E se tiver um irmão adotivo (com os mesmos pais, mas não os mesmos genes), a concordância cai para 11%. Em contrapartida, um heterossexual só tem 4% de chances de ter um irmão homossexual31. A correlação entre gêmeos está, portanto, muito elevada, e parece indicar que existe um componente genético na homossexualidade. Contudo, a interpretação é essencial neste tipo de estudo. Por exemplo: se na metade dos casos o gêmeo idêntico de um homossexual é também homossexual, na outra metade não é o caso. Se a homossexualidade fosse um traço inteiramente genético, todos os gêmeos verdadeiros de todos os homens gueis seriam gueis — isso não é nem um pouco o caso, longe disso. Entre irmãos que têm genes idênticos, apenas a metade desenvolve a mesma orientação sexual. Também é importante notar que, até agora, não se estabeleceu nenhuma concordância genética para o lesbianidade, no caso de irmãs gêmeas. Claro, é possível que a homossexualidade masculina seja essencialmente diferente da feminina — mas até agora, isso também não foi provado. Existem também problemas de interpretação ou de metodologia nos estudos recentes que procuraram traços genéticos ou anatômicos próprios aos indivíduos homossexuais, independentemente de suas famílias. Assim, o pesquisador americano Dean Hamer encontrou em 1993 uma correlação entre uma certa característica genética no cromossomo X e a homossexualidade masculina32. Contudo, como o destaca um crítico do estudo, Hamer cometeu vários erros metodológicos que fazem duvidar de suas conclusões: por exemplo, encontrou a característica genética em pares de irmãos homossexuais, mas não controlou se existia também em seus irmãos heterossexuais. Portanto, é possível que todos os irmãos a tenham tido, e não somente os homossexuais. Além disso, Hamer escolheu homens que se autodenominaram homossexuais, o que 29 30 Richard C. Pillard, The search for a genetic influence on sexual orientation. Em Rosario, p. 233-237. J. Michael Bailey e Richard C. Pillard, 1991, A genetic study of male sexual orientation. Em Archives of General Psychiatry, 48, 10891096. 31 Garland E. Allen, The politics of genetic determinism. Em Rosario, p.251-252. 32 Dean Hamer, Stelle Hu, Victoria L. Manguson, Nan Hu, e Ângela M. L. Pattattucci (1993). A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Em Science, 261, 321-327. 34 torna difícil saber exatamente o que estava sendo medido pelo estudo: desejos, condutas, autodefinição33? Em um outro estudo, que teve muita repercussão em sua época, o pesquisador americano Simon LeVay, encontrou em homens supostamente homossexuais e heterossexuais uma diferença no volume de uma parte do hipotálamo (órgão que governa certos aspectos da sexualidade). Quando publicou suas conclusões em 199134, a imprensa americana anunciou a descoberta de um “cérebro guei”, em uma descrição simplista e sensacionalista. Mas o próprio LeVay, assim como outros pesquisadores, expressou reservas tanto no que diz respeito aos métodos quanto às conclusões de seu estudo. Por exemplo, a maioria desses sujeitos (todos os homossexuais e alguns heterossexuais) tinham morrido de AIDS. Aqueles que tinham sido contaminados durante um encontro sexual com um outro homem foram classificados como homossexuais. Os outros, que tinham contraído o vírus por outros meios (por transfusão de sangue, por exemplo), ou que morreram por outras razões, foram considerados heterossexuais, em uma simplificação bastante arriscada35. Novamente, falta um critério claro e validado para distinguir as duas populações. Da mesma maneira, é possível que o próprio vírus tenha afetado a neuroanatomia dos sujeitos. Enfim, LeVay não pôde estudar os tecidos correspondentes nas lésbicas. Portanto, poderíamos dizer, como LeVay o fez ele mesmo, que seus trabalhos não trouxeram conclusões definitivas; levantaram, ao invés disso, novas questões e abriram outras possibilidades de investigação. Mais uma vez, a pesquisa de uma diferença física entre homo e heterossexuais revelou-se ilusória. Em suma, é preciso interpretar todos esses estudos com muita prudência. As pesquisas em genética foram popularizadas de um modo extremamente simplista, enquanto se trata de uma ciência muito complexa, que, mesmo se ela puder explicar ou predizer traços como a cor dos olhos ou o tipo sanguíneo, não podem se aplicar a um fenômeno tão multidimensional quanto a orientação sexual. A biologia não é suficiente para explicar nem para predizer a homossexualidade. Os fatores sociais, familiares e psicológicos têm um peso certamente igual, senão superior, a qualquer componente físico encontrado até agora. É preciso também se lembrar do papel que desenvolveram na história as pesquisas genéticas desse tipo, e às quais populações elas foram aplicadas. Não é por acaso que os primeiros esforços, no século XIX, para encontrar explicações genéticas da conduta tenham tido como objeto a criminalidade. De fato, o psiquiatra italiano Cesare Lombroso (1836-1909) dedicou sua vida aos atributos físicos que supostamente existem nos delinqüentes, procurando neles malformações do crânio ou do esqueleto, ou ainda problemas de ordem neurológica. A ciência moderna refutou completamente esta teoria. Não existe nenhum meio de distinguir fisicamente um “matador em série” (serial killer) do vizinho ao lado. Mas a idéia que existam características biológicas próprias da criminalidade (ou da homossexualidade) ainda está muito difundida. Além disso, atualmente, ela se nutre de uma grande quantidade de investigações que procuram as causas genéticas de todos os tipos de traços e de condutas. É muito importante lembrar-se que esse tipo de pesquisa foi utilizado, por demasiadas vezes, para identificar, classificar e, se possível, erradicar pessoas e condutas “indesejáveis”. Portanto, devemos abordar com muito cuidado 33 34 Allen, p.254-259. Simon LeVay, 1991, “A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men”, em Science, 253, 10341037. 35 Jennifer Terry, “The seductive power of science in the making of deviant subjectivity”, em Rosario, p.284. 35 qualquer estudo que postule a existência de uma homossexualidade biologicamente dada36. A teoria essencialista não é, nem de longe, a única maneira de explicar a homossexualidade. Mas é importante (seja ela verdadeira ou falsa) porque faz parte de nosso imaginário social. Atualmente, a idéia de que se nasce homossexual, e que a homossexualidade é um atributo essencial e permanente da pessoa, generalizou-se muito além de seus méritos científicos. Tornou-se uma crença implícita, não somente para a sociedade em geral, mas para os próprios homossexuais. De fato, muitos homossexuais pensam isso, e com certeza essa idéia não lhes é benéfica. De um certo modo, o fato de dizer: “eu nasci assim, e não posso fazer nada”, simplifica e limita demais um fenômeno que é provavelmente muito mais complicado. Como vimos, o processo de construção de uma identidade homossexual é longo e difícil; dizer, no fim das contas que se nasceu assim desvaloriza o trabalho que isso implica. É como se disséssemos, depois de anos de estudos universitários: “é porque eu nasci inteligente”. O fato de que esse posicionamento tenha sido adotado por muitos homossexuais nos Estados Unidos, no decorrer dos últimos anos, talvez deva estar relacionado com a ideologia da vitimização que conheceu uma grande evolução nesse país. Nessa perspectiva, que inclui uma crença profunda na herança genética, as pessoas são amplamente determinadas por forças que ficam além de seu controle: os genes, os pais, os traumatismos… em uma contínua influência do passado sobre o presente. Incluir a homossexualidade nesse esquema, e explicá-la pela biologia, só prolonga essa ideologia fatalista e reducionista. Por outro lado, a descoberta de “genes da homossexualidade” seria extremamente reconfortante para os heterossexuais homofóbicos do mundo inteiro. Confirmaria a idéia de que os homossexuais são essencialmente diferentes deles, e que a sociedade é, de fato, dividida em dois grupos distintos: os heterossexuais, “normais”, e depois os homossexuais, “anormais”. E é muito mais reconfortante aprisionar a homossexualidade em um gene do que pensar em um potencial homossexual em todos os seres humanos. Enfim, a teoria essencialista não saberia explicar por que tantas pessoas mudam de orientação sexual no decorrer de sua vida. Se se nasce heterossexual, como se pode “tornar-se” homossexual aos quarenta anos? E se se é “naturalmente” homossexual, como se pode cair na heterossexualidade, como acontece em muitos casos? Concluindo, a teoria essencialista da homossexualidade tem implicações muito importantes, independentemente de sua exatidão científica. Mas, verdadeira ou não, só diz respeito a uma camada na arqueologia da homossexualidade. Existem outras camadas que também devemos considerar. Essas não se referem mais ao corpo, mas aos fatores sociais, familiares e psicológicos que podem afetar a orientação sexual. A teoria social da homossexualidade Isso nos leva para a teoria social da homossexualidade. Nessas perspectivas, a homossexualidade é um fenômeno histórico, tanto no plano pessoal quanto no social. Ela não constitui apenas um fato, mas uma idéia que tem sua base ideológica como outra qualquer; e só aparecem em certos contextos. Para autores como Michel Foucault, se sempre houve práticas homoeróticas, o conceito de homossexualidade aparece somente na era moderna e no mundo ocidental. É somente a partir do século XIX que indivíduos se 36 Poderíamos, claro, dizer a mesma coisa da heterossexualidade. De fato, alguns autores, postularam que a noção de uma sexualidade “natural” entre homens e mulheres não tem nada natural, nem universal, nem automático. O primeiro autor que questionou a “naturalidade” da heterossexualidade foi o próprio Freud, como veremos no capítulo sobre a bissexualidade. Ver também Jonathan Ned Katz (1995). The invention of heterosexuality. New York, Penguin Books U.S.A. 36 identificam, e são identificados pela sociedade, como seres essencialmente diferentes por conta de suas práticas sexuais. Como escreveu Foucault: “o sodomita era um relapso, o homossexual, agora é uma espécie37”. Surge assim uma homossexualidade que não é mais dada pela Biologia, mas que se constrói e se expressa por meio de um discurso, um estilo de vida, uma sensibilidade e uma comunidade que está cada vez mais consciente dela mesma. Do mesmo modo que o indivíduo reconhece e assume pouco a pouco a sua orientação, a cultura ocidental reconheceu aos poucos e, enfim, assumiu a existência de uma homossexualidade que não é uma simples referência pessoal, mas também uma identidade social: não um indivíduo, mas uma comunidade. Foi assim que se desenvolveu uma identidade guei que se traduz não somente por uma orientação sexual, mas por uma série de gostos, modos, maneiras de pensar e de viver — em uma palavra, por uma cultura — que hoje são perfeitamente identificáveis no mundo ocidental. Nessa perspectiva, a homossexualidade não é dada, mas construída, e não tem uma forma única, mas muda segundo a sociedade e o indivíduo. É determinada pelo contexto histórico, mas também pelo desenvolvimento pessoal, como veremos no capítulo seguinte. Ela é moldada aos poucos pelas relações e pelos papéis na família, durante a infância e a adolescência; e pela imagem e consciência que se tem de si mesmo como homem ou como mulher. A dimensão subjetiva Desse ponto de vista, o que conta na identidade, é o fator subjetivo: não as práticas nem os genes, mas o desejo e a aceitação desse desejo — em uma palavra, a orientação sexual propriamente dita. O homossexual não obedece cegamente à sua biologia; existe também nele uma liberdade de ação e uma busca afetiva. Entramos aqui em uma linguagem que é radicalmente diferente do discurso científico. Aqui, não há nem provas objetivas, nem signos exteriores, nem explicações biológicas que valham: o que conta é a autodefinição de cada indivíduo segundo os critérios que correspondem à sua história, tanto pessoal quanto social. Nesse nível, o que entra em jogo não é a anatomia nem os hormônios, mas coisas tão intangíveis quanto o desejo, as fantasias, e o amor — toda essa base psíquica da sexualidade humana que nunca provavelmente será explicável pela ciência. Nesse universo subjetivo (que é, diria Proust, o único mundo que nós realmente habitávamos) a homossexualidade não é somente uma questão de condutas. Engaja toda a pessoa, em toda a profundidade de seu ser: traduz-se por sentimentos, modos de pensar e de ver o mundo, gostos, reflexos e atitudes. E, claro por sonhos: há pessoas que “descobriram” sua orientação durante um sonho. Nessa perspectiva, a homossexualidade não é somente o que se faz na cama; é uma experiência total que engloba todos os aspectos da vida. É por isso que a orientação sexual é tão difícil de definir e de estudar. Mesmo em um único indivíduo, os critérios podem variar segundo a época de sua vida ou depois de um acontecimento imprevisto. É neste sentido que uma pessoa pode se considerar homossexual sem nunca ter tido relações homoeróticas. E é também que nesse sentido não se nasce homossexual: tornase. Veremos como acontece essa evolução pessoal no capítulo seguinte. Escolher a homossexualidade? Essa abordagem, que postula uma homossexualidade “cultivada” de alguma forma, é extremamente sedutora para a nossa sociedade que dá tanta importância para a 37 Michell Foucault (1976). Histoire de la sexualité. Tomo I, Paris, Gallimard, p. 59. 37 subjetividade. Em todos os domínios da vida, as pessoas rejeitam cada vez mais qualquer etiqueta que lhe seja imposta pelos outros. Isso, evidentemente não é um acaso. Vimos os horrores que podem advir de qualquer categorização “científica” das pessoas segundo sua ascendência genética, racial ou religiosa, ou segundo as suas condutas sexuais. Todas a minorias sofreram as conseqüências da classificação “objetiva”. Era inevitável que os homossexuais, bem como os negros, os judeus, e outras minorias acabassem por recusar serem classificados segundo critérios impostos pela maioria. É de fato, mais digno e mais justo que as pessoas se identifiquem elas mesmas segundo os seus próprios critérios. Hoje, pelo menos nas sociedades liberais, a idéia (ou a ilusão) de que cada um tem o direito de escolher a sua etiqueta (pessoal, profissional, religiosa e até mesmo racial) é cada vez mais difundida. Mas a orientação sexual não é algo que se possa escolher livremente — mesmo que, durante um certo tempo, muitos homossexuais tenham falado de “opção” ou de “preferência” sexual. Se fosse possível, não há nenhuma dúvida de que muitos homossexuais cessariam de sê-lo. (Existem também heterossexuais que gostariam de poder “se tornar” homossexuais. Ouvi mulheres dizerem que teriam preferido ser lésbicas, para poder prescindir dos homens — como se isso pudesse resolver todos os seus problemas!) Mas, sabe-se que as possibilidades de mudar de orientação sexual são praticamente nulas, mesmo quando os homossexuais se submetem voluntariamente a tratamentos médicos ou psicológicos. Há poucas coisas tão fortemente ancoradas na vida do que a orientação sexual. Muitas pessoas tentaram durante anos ou decênios inteiros negar ou extirpar a sua homossexualidade, sem nunca conseguir apagar o desejo físico e a necessidade afetiva de uma pessoa de mesmo sexo biológico. Essa resistência à mudança nos revela que há na homossexualidade algo mais poderoso do que uma simples preferência. A concepção social da homossexualidade, provavelmente, acentua demais os fatores subjetivos e a idéia de uma identidade escolhida ou construída. Entre outras coisas, devemos levar em consideração um fato inegável. A proporção de homossexuais na população é surpreendentemente constante através de diferentes épocas e diferentes países. As taxas de mais de aproximadamente 4% para os homens e 2% para as mulheres tendo relações e condutas exclusivamente homossexuais, praticamente não mudaram desde a época de Kinsey, há cinqüenta anos. Contudo, esse mesmo meio século viu flutuações enormes em todos os outros indicadores sociológicos, como as taxas de casamento, de divórcio, de fertilidade, etc. Apesar das vastas transformações sociais, demográficas e culturais que ocorreram no Ocidente desde a Segunda Guerra Mundial, os números da homossexualidade permaneceram mais ou menos iguais. Isso sugere que há na orientação sexual algo de irredutível que é independente do contexto histórico e social. Talvez, o mais prudente seria pensar que um dia será encontrado um componente genético ou biológico na homossexualidade, sabendo, contudo, que esse não seria suficiente para explicá-la. Do mesmo modo, parece que certas aptidões musicais são hereditárias — mas todos aqueles que nascem com elas não se tornam necessariamente músicos (e muito menos ainda bons músicos). Isto indica, então, que a predisposição não é suficiente, não garante nada, e não significa muita coisa, se não for conscientemente desenvolvida e cultivada. A identidade guei A idéia de cultivar a homossexualidade está no coração da identidade guei contemporânea. Implica, de alguma forma, o fato de escolher dia-a-dia um estilo de vida; 38 de viver publicamente o que antes era escondido; de enfrentar a discriminação social ao invés de sofrê-la passivamente. Implica também um certo orgulho, o “gay pride”, que é algo totalmente novo na história. Nunca, de fato, os homossexuais haviam assumido sua orientação com orgulho; nunca haviam exigido ser respeitados, ao invés de ser tolerados ou de provocar pena. Para viver assim a homossexualidade, cada pessoa deve desenvolver uma identidade guei passando por todas as etapas, desde a primeira tomada de consciência, a primeira experiência sexual e a primeira relação amorosa, até poder viver sua orientação com plenitude e dignidade. O objetivo não é entrar na homossexualidade como em um país estrangeiro, mas torná-la sua; não adotar, mas inventar sua própria homossexualidade. Recomendações para o trabalho terapêutico Quando se trabalha a identidade homossexual é muito importante pesquisar as razões que cada pessoa fornece a respeito de sua orientação. Essas podem se basear em conhecimentos, preconceitos, ou fantasias; podem ser verdadeiras ou falsas. Isso não importa: não se trata de procurar causas reais, o que seria de qualquer modo ilusório, levaria muito tempo e não serviria para muita coisa. O objetivo é ajudar a pessoa a desenvolver sua própria explicação e a história singular de sua homossexualidade em uma abordagem que não é científica, mas propriamente narrativa. Essa pesquisa serve também para tornar explícitas as crenças, os medos e as dúvidas, as fantasias e os desejos que a pessoa pode ter a respeito da homossexualidade, tanto em geral quanto no seu caso em particular. Permite igualmente abordar aos poucos os grandes temas da responsabilidade e da culpabilidade que examinaremos mais profundamente no capítulo 4. Esse processo permite também ao terapeuta corrigir os erros e preencher as lacunas no conhecimento, tornar explícitos os preconceitos e explorar as fantasias. Por exemplo, é freqüente os homossexuais pensarem que um de seus pais, na verdade, seja ou fosse homossexual. Ouvi coisas assim: “Eu acho que no fundo meu pai era homossexual, mas nunca assumiu”. Ou ainda: “Se minha mãe tivesse vivido em outra época, teria sido lésbica”. Sejam essas apreciações verdadeiras ou falsas, é evidente que elas têm uma enorme incidência sobre o modo pelo qual uma pessoa pensa e vive sua homossexualidade. Em uma palavra, sempre se deve ir além do fato de uma pessoa se dizer homossexual. É preciso lhe perguntar por que, desde quando, como ela sabe… destacamos novamente o fato de que não se trata de descobrir a verdade, mas construir uma narrativa pessoal. O objetivo não é o conhecimento, mas a apropriação da homossexualidade para si. 39 CAPÍTULO 3 TORNAR-SE HOMOSSEXUAL: ASPECTOS FAMILIARES E INDIVIDUAIS Vimos que a sexualidade tem muitos níveis, que vão desde o biológico até o social, antes de chegar aos níveis mais pessoais da experiência familiar e individual. É possível que a homossexualidade tenha componentes biológicos, mesmo que ainda não tenham sido encontrados; é certo que ela tem aspectos sociais e culturais; e não há nenhuma dúvida que ela abarca elementos psicológicos, tanto familiares quanto individuais. No nível psicológico, portanto, como nos tornamos homossexual? Em primeiro lugar, é importante fazer uma distinção entre a orientação sexual (o sexo para o qual sentimos amor e desejo) e a identidade sexual (o fato de assumir plenamente esta orientação). Pode haver orientação sexual, mas não identidade; é, de fato, uma situação bastante freqüente. A primeira aparece geralmente durante a infância; a segunda não pode tomar forma antes da adolescência (pois não temos a consciência de si necessária antes dessa etapa), e só pode se desenvolver plenamente na idade adulta — isto é, depois dos 20 anos aproximadamente. Gênero e orientação sexual Mais muito antes da orientação e da identidade sexuais poderem se desenvolver há, primeiramente, a consciência do gênero38: a criança sabe, desde os dois anos, que ela é de um sexo e não de outro, e que isso implica uma série de condutas. Aos três anos, no mais tardar, a criança identifica-se seja como um menino, seja como uma menina, e aprende a se comportar como tal. Isso pode parecer evidente — mas as coisas nem sempre acontecem desse modo. Há meninos que desde a mais tenra idade se sentem mais identificados com as meninas, e que preferem brincar com elas de boneca ao invés de futebol com seus colegas. Esses meninos podem desenvolver condutas, atitudes e gostos que são geralmente associados ao sexo oposto. Logo, são chamados de meninos “efeminados”. Têm uma aparência e condutas que não são as de seus colegas — e esses os identificam como diferentes, e lhes infligem, freqüentemente, todo tipo de gozação e agressões. Essa confusão de gênero não é, em si mesma, um signo precursor de homossexualidade. Mas muitos homossexuais contam que se identificaram muito cedo com o sexo oposto39. Como escreve o psiquiatra americano Richard Isay: “Todos os homossexuais que eu vi contam que eles se sentiam “diferentes” de seus pares a partir dos 3 ou 4 anos de idade. Descrevem essa sensação como o fato de terem sido mais sensíveis, mais chorões, de terem se sentido mais facilmente magoados, de terem tido interesses estéticos e de terem sido menos agressivos do que os outros meninos de sua idade. Essas diferenças fazem com que estas crianças se sintam “estranhos” em relação a seus pares e freqüentemente à sua família40.” 38 Na concepção atual, usa-se o termo “sexo” para designar as características inatas, biológicas e anatômicas do masculino (macho) e feminino (fêmea), e “gênero” para designar os papeis masculino e feminino que a sociedade atribui (e impõe) a cada sexo. O primeiro é natural, o segundo á aprendido. 39 Richard C. Pillard. The search for a genetic influence on sexual orientation. Em Rosario, Vernon A. [ed.] (1997) Science and homosexualities, New York, Routledge, p. 231-232. 40 Richard Isay. Psychoanalytic theory and the therapy of gay men. Em David McWhirter, Stephanie Sanders and June Reinisch [eds] (1990). Homosexuality/Heterosexuality: Concepts of sexual orientation. New York, Oxford University Press, p. 283. 40 Em nossa sociedade, essas condutas e atitudes são consideradas mais “femininas”, e, portanto, poderíamos dizer que houve uma certa confusão de gênero nos homossexuais que Isay descreve. Mas será que podemos dizer que essa confusão é uma característica, ou até mesmo uma causa, da homossexualidade? Será que é verdade que os homossexuais são apenas homens efeminados? Vejamos o estado atual das pesquisas nesse campo. Uma infância típica dos homossexuais? Uma equipe de pesquisadores americanos acompanhou a evolução psicossexual de dois grupos de meninos durante aproximadamente quinze anos, a partir da idade de 7 anos em média. O primeiro grupo tinha quarenta e quatro meninos cujos pais os tinham levado para consulta porque apresentavam condutas “femininas”, como brincar de boneca, preferir a companhia das meninas e se vestir como elas. A equipe também acompanhou um grupo de cinqüenta e seis meninos considerados “normais”, a fim de compará-lo com o primeiro. Ao fim de quinze anos, quase todos os meninos do segundo grupo revelaram ser quase exclusivamente ou exclusivamente heterossexuais (0 ou 1 na escala Kinsey). Em contrapartida, quase a metade dos meninos efeminados tinham se tornado quase exclusivamente ou exclusivamente homossexuais (5 ou 6 na escala Kinsey) 41. Parece assim que os meninos efeminados têm mais chances de se tornarem homossexuais. Portanto, poderíamos dizer, pelo menos em certos casos, que pode haver na homossexualidade uma certa confusão de gêneros. Contudo, é preciso amenizar estas conclusões. Em primeiro lugar, se quase a metade dos meninos efeminados se tornaram homossexuais, mais da metade se tornou heterossexual. Em segundo lugar, a tese do homossexual efeminado se aplicaria somente a alguns homens: aqueles que, ao serem adultos, apresentam atitudes ou condutas efeminadas — e isso com certeza não é o caso para todos os homossexuais. Existe, no final das contas, uma vasta proporção de homossexuais que têm uma aparência e condutas totalmente “masculinas”. Enfim, essa confusão de gênero durante a infância não parece se aplicar às mulheres: até o momento, nenhum estudo mostrou que as “meninasmachos” têm mais chances de se tornarem lésbicas. Há também um outro elemento para ser levado em consideração. Em nossa sociedade, o menino efeminado é muito mais alvo de chacota do que a “menina-macho”, e isso reforça em si um sentimento de diferença. Ele sofre provavelmente mais durante sua infância e sua adolescência: de fato, o menino efeminado se inferioriza por conta de sua semelhança com o sexo “frágil”, enquanto a menina-macho ganha em poder e em prestígio pela sua assimilação com o sexo “forte”. Ela adquire freqüentemente uma posição de autoridade e de predominância em relação às suas amizades, enquanto o menino efeminado sofre o desprezo das suas. Ademais, a menina pode brincar com meninas e meninos, sendo aceita dos dois lados, ao passo que o menino é aceito somente pelas meninas — o que só pode reforçar, mais uma vez, sua confusão e seu sentimento de ser “estranho”. É importante notar, de fato, que as meninas são em geral mais livres de adotarem condutas dos dois gêneros. Pelo menos atualmente, as meninas podem tanto jogar futebol quanto brincar de boneca. Elas podem ter aulas de dança, mas também de karatê. Em contrapartida, não é bem visto o fato dos meninos brincarem de boneca ou terem aula de dança. Como o disse sucintamente um menino de 7 anos: “Realmente não é justo. As meninas podem usar vestido ou calças, e eu só posso usar calças.” 41 Richard Green. Gender identity in childhood and later sexual orientation. Em American Journal of Psychiatry, 142, 1985, 339-341. 41 Esse fenômeno social e cultural tem implicações interessantes. O menino efeminado é estigmatizado desde a sua pequena infância como um ser à parte: seus colegas gozam dele e o rejeitam. Seus pais também o tratam de um modo especial: a mãe tende a superprotegê-lo, e o pai a se afastar dele. Essas atitudes afetarão provavelmente o desenvolvimento psicossexual da criança; será que não poderiam contribuir para a sua eventual homossexualidade? Não seria natural que um menino que só pode brincar com as meninas e que é excluído das atividades de seus colegas, acabasse por se identificar mais com as meninas? Se isso fosse verdade, veríamos como um atributo provavelmente inato (o fato de ter, por exemplo, um temperamento mais tímido, sensível) se transforma, por razões estritamente culturais, em um fator influente sobre a orientação sexual. E isso não por causa de uma homossexualidade inata, mas por causa da classificação (e da divisão) social dos gêneros. Talvez houvesse menos homossexualidade se os papéis masculino e feminino fossem menos rígidos e divididos para as crianças e os adolescentes. É possível que o fato de encorajar esses papéis nas crianças — estimulando os meninos a serem “masculinos” e as meninas a serem “femininas” — justamente para que eles não se tornem homossexuais, desenvolvam neles tendências homossexuais. Curiosamente, essa abordagem “cultural” (e provavelmente parcial) da homossexualidade masculina parece com uma das explicações psicanalíticas da homossexualidade. Segundo essa, o homossexual não teria tido modelo masculino com o qual se identificar, porque teria tido um pai distante e uma mãe superprotetora. No esquema que acabamos de descrever, o menino efeminado é com efeito isolado e afastado da companhia masculina e, inclusive, a de seu pai e de seus irmãos. De fato, certos teóricos da homossexualidade pensam que esse distanciamento ocorre justamente porque a criança é “diferente” desde o princípio; o pai tende a se distanciar justamente porque seu menino não tem as condutas ou o temperamento masculino que ele teria desejado. A teoria psicanalítica A teoria originalmente postulada por Freud é, claro, muito mais complexa. Segundo o fundador da psicanálise, a homossexualidade deriva de um complexo de Édipo mal resolvido, e, portanto, de uma suspensão do desenvolvimento psicossexual normal. Nessa ótica, todas as crianças passam por uma fase na qual estão apaixonados pela figura parental do sexo oposto. O menino, apaixonado pela sua mãe e com ciúmes de seu pai, deseja (inconscientemente) matar este a fim de ter a sua mãe só para si. Mas seu medo de ser punido (castrado) é tal que acaba por renunciar à mãe e orienta seu desejo em direção a outras mulheres. Em alguns casos, as coisas não se passam assim. E o menino se guarda em seu desejo em relação a mãe. Mas, como esse desejo é impossível de se realizar (por causa do tabu do incesto e de seu medo do pai), ele acaba por renunciar a todas as mulheres e se retrai na homossexualidade. Mas, para Freud, nem todos os homossexuais não entram nesse esquema. Em primeiro lugar, ele distingue três tipos de homossexuais ou de “invertidos”: os “absolutos” (que podem somente entrar em relação com pessoas de seu sexo), os “hermafroditas psicossexuais” (que podem ter relações indistintamente com os dois sexos), e os “ocasionais” (que estabelecem relações com pessoas de seu sexo por razões circunstanciais, como a ausência de objetos heterossexuais42). Isso significa que Freud não acredita em um só tipo de homossexualidade nem em uma causa única; seu 42 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 42 pensamento é muito sofisticado para se fechar em uma teoria absoluta, e ele formula diferentes abordagens. Assim, em diversos textos Freud desenvolveu outras teorias parciais, falando, por exemplo, de uma fixação do menino em sua mãe e de uma identificação posterior com ela (escolhendo, portanto objetos sexuais masculinos); de um pai distante e castrador; do narcisismo que faz que uma pessoa procure objetos sexuais idênticos a ela; e de um medo em relação às pessoas do sexo oposto. A experiência clínica e a reflexão teórica mostraram desde então que nenhum desses fatores (por mais convincentes que possam parecer) aparece sistematicamente em todos os homossexuais. Além do mais, se revelaram praticamente inúteis para compreender ou explicar o lesbianidade, como o notaram em várias ocasiões as críticas feministas à psicanálise. Contudo, as teorias psicanalíticas da homossexualidade tiveram uma influência enorme; permitiram o aparecimento de uma concepção da homossexualidade que predominou na cultura ocidental durante mais de meio século. Mas é importante sublinhar aqui que uma grande parte desta concepção tem muito pouco — ou nada — a ver com a visão original de Freud. Depois de sua morte em 1939, outros autores retomaram as idéias formuladas por Freud para reunir uma teoria patológica da homossexualidade, postulando que esta é uma doença mental tão grave que afeta inevitavelmente todos os campos da personalidade e do funcionamento mental. Como escreveu sucintamente um psicanalista eminente em 1956, “Não existem homossexuais sãos43”. Poderíamos também citar um outro psicanalista americano, Irving Bieber, que foi considerado durante muito tempo um especialista no assunto: “A homossexualidade adulta é um estado psicopatológico. […] A heterossexualidade é a norma biológica e, […] se não houver interferências, todos os indivíduos são heterossexuais44.” Esta visão é diametralmente oposta à opinião de Freud que nunca pensou que a heterossexualidade fosse “natural”. Como escreveu em 1915, “Em um sentido psicanalítico, o interesse sexual exclusivo do homem pela mulher constitui também um problema e não algo muito natural, baseado no fim das contas sob uma atração química45”. Ele acrescenta: “Em todos nós, no decorrer da vida, a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos [...] A psicanálise possui uma base comum com a biologia, ao pressupor uma bissexualidade original nos seres humanos (tal como nos animais46).” Não uma, mas muitas causas possíveis Parece, portanto, que não há infância “típica” dos homossexuais. Alguns homossexuais tiveram condutas ou atitudes próprias de um outro gênero, e muitos outros não. Alguns tiveram pais distantes, e outros não; uma relação próxima com sua mãe, e outros não; ou experiências traumatizantes com pessoas do sexo oposto, e outros não. Isso significa que não parece ter explicação que seja válida em todos os casos. Um esclarecimento importante: isso não significa que não exista causas psicológicas da homossexualidade. E não significa também que não se possa encontrar alguma em um 43 Edmund Bergler (1956). Homosexuality: Disease or Way of Life?, New York, Hill and Wang, p. 9. Citado em Francis Mark Mondimore (1996). A Natural History of Homosexuality. Baltimore, The Johns Hopkins University Press, p. 77. 44 I. Bieber, H. Dain, P. Dince, M. G. Drellich, H. G. Grand, R. H. Grundlach, M. W. Kremer, A. H. Rifkin, C. B. Wilbur e T. B. Bieber (1962). Homosexuality: A Psychoanalytic Study of Male Homosexuals. New York, Basic Books. Citado em Pillard, Richard C. (1997). The search for a genetic influence on sexual orientation. Em Rosario, Vernon A. [ed.] (1997). Science and Homosexualities. New York, Routledge. 45 Sigmund Freud (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VII. 46 Sigmund Freud (1920). Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina. Edições eletrônicas das Obras Completas de Sigmund Freud. Com comentários e notas de James Strachey. Direção da Edição Brasileira, Jayme Salomão. Coordenação da Edição Eletrônica Brasileira, Eduardo Salomão. Vol VXII. 43 dado indivíduo: cada um poderá descobrir, em sua história pessoal, um ou vários fatores descritos por Freud e seus seguidores. O que queremos sublinhar aqui, é que estas causas eventuais não são generalizáveis — isto é, não são universais. Por outro lado, a pesquisa de uma causa da homossexualidade, inscreve-se, historicamente, no modelo médico. Na medicina, qualquer doença tem uma explicação e uma evolução. Se a homossexualidade for uma patologia, deve, portanto, ter uma causa. Mas, a partir do momento em que paramos de ver a homossexualidade como uma doença, não é mais necessário procurar uma causa patógena única. Abra-se, então, a possibilidade teórica de uma grande variedade de causas e de modalidades, que não dependem mais de uma evolução patológica determinada, mas da psicologia pessoal, da família, e do contexto social e cultural. Nesse modelo alternativo, cada indivíduo constrói sua orientação sexual: não há uma causa nem uma forma única da homossexualidade. E também não há uma causa da heterossexualidade. Se pensarmos na infinidade de formas que podem assumir as relações entre homens e mulheres, e na maneira como variam segundo os lugares e as épocas históricas, parece difícil imaginar uma teoria única da heterossexualidade. Se colocarmos de lado a procriação (que não é a única razão para se ter uma relação sexual, e que acontece poucas vezes na vida), percebe-se que a relação entre homens e mulheres é infinitamente complexa; não tem um objetivo único nem uma forma típica, nem uma razão de ser universal. A relação sexual entre um homem e uma mulher pode ter como finalidade a procriação — mas pode (com certeza, na maioria das vezes) depender de outras coisas como o amor, a solidão, o poder, ou simplesmente o prazer. Contudo, quis-se que a homossexualidade tivesse uma única causa, uma única forma, e uma única teoria. Está cada vez mais claro, todavia, que ela tem mil formas, mil causas, e que pode ser dificilmente entendida por meio de uma única teoria. A construção da homossexualidade Nesta perspectiva, cada um constrói sua homossexualidade, e faz isso seguindo uma seqüência mais ou menos previsível. Parece ter, grosso modo, dois tipos de evolução. Na primeira, poderíamos dizer que a homossexualidade se desenvolve a partir de experiências objetivas: há primeiramente práticas sexuais, e depois uma consciência da homossexualidade. Essa seqüência é mais freqüente entre os homens que são muitas vezes “iniciados” na homossexualidade por meio das práticas sexuais que lhes são mais ou menos impostas durante sua infância ou sua adolescência. As mulheres, em contrapartida, tendem a “se iniciarem” por meio da subjetividade e dos sentimentos. Nessa segunda evolução (que evidentemente pode acontecer entre os homens também), a pessoa conhece primeiramente os sentimentos e o desejo, e depois põem em prática. Nos dois casos, a pessoa integra aos poucos as dimensões externas e internas, até aceitar sua orientação sexual. Aqui também geralmente há duas fases: em primeiro lugar o homossexual se assume frente a si mesmo, ao tomar consciência de seu desejo, e depois frente à sociedade quando ele se revela como tal. Em resumo, há primeiramente uma integração de práticas, de sentimentos, de desejos e de pensamentos; depois, um processo no qual a pessoa aceita sua homossexualidade para ela mesma, e depois frente à sociedade. No final dessa evolução (sobre a qual retornaremos), há uma experiência, uma afetividade, uma sexualidade e uma identidade homossexuais que vão desde a vida íntima até a esfera social. 44 Os tempos da homossexualidade Quanto tempo dura o processo? De acordo com um estudo americano realizado há vinte anos, mas que permanece revelador, os homens homossexuais tomam consciência de seus desejos homoeróticos em torno dos 13 anos de idade em média, têm sua primeira experiência homossexual em torno dos 15, sua primeira relação de casal em torno dos 22, e acabam por desenvolver uma identidade guei positiva em torno dos 28 anos. As lésbicas tomam consciência de seus desejos aos 14 anos, sua primeira experiência em torno dos 20, sua primeira relação de casal em torno dos 23 e só adquirem uma identidade lésbica positiva em torno dos 30 anos47. A construção da identidade guei dura, portanto, em média, aproximadamente quinze anos. Isso implica um longo período de confusão e de incerteza que, evidentemente, tem um custo afetivo muito elevado. Os anos que muitos homossexuais passam se perguntando e explorando sua sexualidade poderiam explicar seu isolamento e sua imaturidade em certos campos. Em inúmeros casos passaram uma boa parte de sua juventude em conflitos internos ou em relações problemáticas, engajados na difícil tarefa de compreender a sua identidade sexual. Em contrapartida, se se considerar que um heterossexual começa (por exemplo) a sentir desejos sexuais aos 12 anos, tem uma primeira experiência sexual aos 17 ou 18 anos e uma primeira relação amorosa em torno dos 18 — em um processo que dura em média seis anos —, vê-se, imediatamente, a enorme diferença entre o desenvolvimento psicossexual dos homossexuais e dos heterossexuais. Os tempos da vida são, de fato, muito diferentes para as duas populações. Uma outra diferença se deve ao fato de que, na vida dos heterossexuais, a seqüência nas relações amorosas progridem em complexidade e em profundidade, desde as paqueras da adolescência, até os amores da juventude, depois até a coabitação ou até o casamento e a paternidade, e assim por diante. As etapas da vida sucedem-se de uma maneira mais ou menos previsível; e cada uma delas prepara, de alguma forma, a seguinte. Raramente é o caso para os homossexuais. Um menino pode estar apaixonado por um outro sem nunca expressar, dividir, nem consumir seus sentimentos, passando assim ao lado da experiência tão necessária dos amores da adolescência. Uma pessoa pode viver sua primeira paixão homoerótica aos 50 anos sem ter tido a experiência que lhe permitiria situá-la e entendê-la. Duas mulheres podem começar a coabitar depois de algumas semanas sem ter passado pelas etapas anteriores que as teriam preparado para um tal compromisso. Isso significa que as etapas do desenvolvimento heterossexual não se sucedem necessariamente na mesma ordem, nem da mesma forma, entre os homossexuais. Teorias do desenvolvimento homossexual Eis a razão pela qual os teóricos da homossexualidade procuraram modelos alternativos para entender o desenvolvimento da identidade homossexual 48. Apresentarei o essencial desses modelos, acrescentando-lhes alguns elementos que me parecem indispensáveis na tarefa de constituir uma identidade homossexual saudável. Uma primeira etapa no desenvolvimento da identidade homossexual ocorre durante a adolescência, que é muito diferente entre os heterossexuais e os homossexuais. 47 J. D. Kooden, S. F. Morin, D. I. Riddle, M. Rogers, B. E. Sand e F. Strassburger (1979). Removing the stigma: Final report, task force on the status of lesbian and gay male psychologists, American Psychological Association, APA Monitor. 48 Ver sobretudo Vivienne Cass (1979). Homosexual identity formation: A theoretical model. Em Journal of Homosexuality, 4, 219-235; e Eli Coleman. Developmental stages of the coming out process. Em John C. Gonsiorek [ed] (1985). A Guide to Psychotherapy with Gay and Lesbian Clients, New York, Harrington Park Press, Inc., p. 31-43. 45 Teoricamente, essa fase (que vai geralmente dos 12 aos 20 anos) é uma etapa de transição entre a infância e a idade adulta, a qual correspondem certas tarefas do desenvolvimento. A adolescência serve para aprender várias coisas que são indispensáveis para a vida adulta. Assim, durante este período deve-se teoricamente estabelecer uma identidade sexual estável, aprender a dominar e canalizar suas pulsões sexuais e entrar em relação com o sexo oposto, desenvolver uma identidade social independente da família por meio da pertença a um grupo de pares, e começar a assimilar as regras das relações sociais e amorosas. Esse desenvolvimento, que não é nem fácil nem automático para os jovens heterossexuais, contudo, é facilitado pela sociedade. A escola, as atividades extraescolares, as festas e a cultura em geral, levam o adolescente a desenvolver as capacidades e a acumular as experiências requeridas para seu futuro enquanto heterossexual. Não lhe faltam nem as oportunidades nem os exemplos para seguir, nem o contexto social, nem os(as) amigos(as) com quem dividir esta etapa crucial. Tudo é diferente para o jovem homossexual. Em primeiro lugar, descobre aos poucos que seus desejos sexuais não se parecem com aqueles de seus colegas. Pode observar, por exemplo, que não compartilha, o interesse intenso de seus pares pelo sexo oposto. Pode pensar constantemente no seu melhor amigo, e se dar conta que sua obsessão não parece ser compartilhada. Ou pode descobrir, por meio de seus sonhos e fantasias eróticas, que sua sexualidade está tomando uma direção que não tem nada a ver com os livros que lê, os filmes que vê, as músicas que escuta. Quando o adolescente começa a descobrir estes contrastes, várias coisas se produzem que podem determinar o curso de toda a sua vida. Primeiramente, se sente diferente — e de um modo que ele sabe que é visto como ilícito, por conta dos comentários e das chacotas que ouve em relação aos homossexuais (essas falas aliás são freqüentes: 97% dos estudantes do ensino fundamental e/ou médio americanos contam que ouvem regularmente comentários homofóbicos49). Com isso, o adolescente identifica-se cada vez menos com seus colegas e cessa de pertencer verdadeiramente ao grupo. Sabe que não é como os outros. Vai às festas e toma consciência que não sente as mesmas coisas e não têm as mesmas reações que seus amigos. No cinema, sente-se mais atraído pelos atores de seu sexo. Nas aulas de educação física aprende a desviar o olhar dos corpos ao seu redor. Sabe também que não pode dividir nada de tudo isso; muito cedo, dá-se conta de que seus desejos e sentimentos não são permitidos. Começa a se sentir só e incompreendido, talvez até mesmo excluído da sociedade. A vergonha infiltra-se aos poucos em sua mente, afetando inevitavelmente sua auto-estima e sua relação com o mundo. Isola-se aos poucos, retira-se das atividades sociais com seus pares e habitua-se a esconder seus sentimentos. E afasta-se progressivamente de sua família. Se expressa menos e mostra menos de si mesmo do que o jovem heterossexual. Assim, 80% dos adolescentes homossexuais contam que vivem em um “isolamento social extremo 50”. É por conta de toda essa dinâmica que a adolescência é uma etapa particularmente difícil para os homossexuais. Durante esta fase, é possível que o jovem homossexual se apaixone por alguém de seu sexo e que sofra pela primeira vez uma das situações mais difíceis para um homossexual: gostar de um heterossexual. Há poucas coisas tão dolorosas, frustrantes e humilhantes do que desejar alguém que não tem os mesmos sentimentos, que domina a relação e que pode rompê-la a qualquer momento. Enquanto o jovem homossexual se desdobra em atenções para com o outro e sofre em silêncio por causa de sua indiferença, 49 50 Making schools safe for gay and lesbian youth: Report of the Massachusetts Governor’s Comission on gay and lesbian youth, 1993. Hetrick, Emery e Martin, A. Damien (1987). Developmental issues and their resolution for gay and lesbian adolescents. Em Journal of Homosexuality. 46 para esse último aquele não é nada além do que um amigo, pior, uma personagem ridícula. E mesmo quando há reciprocidade na amizade, esta não basta para o jovem homossexual, que deve conter seu desejo, calar seus sentimentos e esconder seu ciúme no dia em que o outro se apaixona, por sua vez, por uma pessoa do sexo oposto. É também possível que o jovem homossexual adote condutas e atitudes heterossexuais exageradas, para mostrar aos outros (e se convencer a si mesmo) de que ele é “normal”. Durante essa fase de negação, o jovem homossexual pode se engajar em relações heterossexuais superficiais e irrefletidas, com todos os riscos que isto implica para a sua saúde física e psicológica. Essas experiências pouco satisfatórias servirão, entre outras, para confirmar que ele não sente nada em relação ao sexo oposto. Na cultura popular, o homossexual é alguém que não teve relações com o sexo oposto; se as tivesse tido, ele não seria homossexual. Ou ainda, acredita-se que os homossexuais têm horror do sexo oposto. Na verdade, muitos homossexuais, homens e mulheres, fizeram um esforço para ter experiências heterossexuais — seja para experimentá-la, seja para negar a sua homossexualidade. Esse tipo de atitude é mais comum do que se imagina, e faz parte da construção da identidade homossexual. Essa tomada de consciência de sua homossexualidade não é simples; e ela é ainda mais complicada pela dificuldade que todos os adolescentes têm para entender e expressar claramente seus sentimentos. A verbalização nunca é um ponto forte entre os jovens, e menos ainda quando a cultura de seu meio não lhes oferece o vocabulário necessário e quando a sociedade censura a expressão de certos desejos e sentimentos. Como escreveu Oscar Wilde, a homossexualidade é o amor que não ousa dizer o seu nome: é imensamente difícil verbalizar e compartilhar sentimentos proibidos. Essa primeira etapa na construção da identidade homossexual é, portanto, impregnada de confusão, de dúvidas, de solidão e, muito freqüentemente, de vergonha. Em uma segunda etapa, o jovem homossexual consegue, enfim, nomear o que sente; começa a reconhecer a possibilidade de que seus desejos, fantasias e sentimentos sejam homossexuais. Começa a explorar essa idéia, e a compartilhá-la, talvez, com um confidente. A homossexualidade pode se tornar para ele uma obsessão, um eterno dilema para ser resolvido ou o tema principal da existência. É possível que procure de modo compulsivo contatos sexuais com pessoas do mesmo sexo, para ter uma noção do que é e sair, enfim, da incerteza. Freqüentemente, essas pessoas são mais velhas do que ele e serão já conhecidas como homossexuais. (geralmente pensa-se que os homossexuais adultos procuram seduzir os adolescentes; e esquecemos que, muitas vezes, são os jovens que procuram desesperadamente serem iniciados à homossexualidade pelos adultos, para aprender “como se faz”.) Ou o jovem homossexual pode iniciar relações com qualquer desconhecido, com todos os perigos que isso implica. (Estima-se, por exemplo, nos Estados Unidos, que um entre cada cinco pessoas vivendo com HIV foi infectada durante a sua adolescência51.) Essa fase de exploração pode ser muito caótica, na maioria das vezes, é atravessada por sentimentos contraditórios, desejos incontroláveis, reações impulsivas, relações curtas e instáveis, promiscuidade, momentos de êxtase seguidos de confusão e de vergonha. Os riscos da adolescência Essa fase de exploração durante a adolescência e a juventude está associada a certos riscos. Os primeiros contatos sociais e sexuais com outros homossexuais acontecem freqüentemente em um contexto que encoraja o consumo de drogas e de álcool. O jovem homossexual é particularmente vulnerável ao uso abusivo dessas 51 Dados dos Centros de Controle de Doenças Infecciosas, 1995. 47 substâncias, considerando a intensidade emocional, a confusão e a angústia que sente. O álcool e as drogas podem se transformar em hábitos devidos, por um lado, à convivência aos bares e casas noturnas GLTTB52, e, por outro lado, à evasão que oferecem. Nos Estados Unidos, estima-se que, 83% das adolescentes lésbicas consomem álcool regularmente, e 56% outras drogas; para os rapazes, os números são de 68% e de 44%, respectivamente53. Existem riscos importantes de depressão durante esta fase. De fato inúmeros estudos mostram que a taxa de suicídios é extremamente elevada entre os adolescentes homossexuais. Nos Estados Unidos, os jovens homossexuais (de ambos os sexos) representam um terço de todos os suicídios juvenis (enquanto os homossexuais constituem no máximo 5 ou 6% da população). Um em cada três homossexuais tentou se suicidar pelo menos uma vez54. É possível que muitos problemas observados entre os adolescentes (alcoolismo, uso abusivo de drogas, condutas delinqüentes, depressão) comportam um elemento de confusão a respeito de sua orientação sexual. Não se deve esquecer que, atualmente, não é fácil ser adolescente. Os jovens não têm mais tão claramente presentes os modelos, ou os papéis masculino e feminino que seus pais conheceram. Pelo menos nas sociedades industrializadas não há mais consenso a respeito das condutas esperadas por parte dos homens e das mulheres. Embora essa evolução social em direção a uma maior flexibilidade nos papéis seja positiva em muitos aspectos, ela também torna mais difícil a passagem pela adolescência (tanto para os heterossexuais quanto para os homossexuais). Mas essa etapa é sempre e ainda mais difícil para o adolescente homossexual, pois ele sabe que sua sexualidade é radicalmente diferente da de suas amizades. Portanto, é indispensável que os professores e os profissionais da saúde mental estejam conscientes dessas dificuldades, e que saibam abordá-las. Irei propor ao fim desse capítulo algumas idéias em relação a isso. Uma adolescência diferente para os homens e para as mulheres É importante notar aqui uma diferença essencial entre homens e mulheres. Os jogos sexuais são muito freqüentes entre os rapazes: olhar, comparar, tocar nos órgãos genitais são atividades comuns entre os rapazes e não são consideradas sinais de homossexualidade. Ao contrário, fazem parte de sua iniciação à masculinidade. Portanto, é permitido se olhar, se tocar e até mesmo se masturbar reciprocamente, em certos países — mas é proibido expressar sentimentos e, claro, se apaixonar, o que se aproximaria perigosamente da homossexualidade. É igualmente proibido se acariciar com carinho ou se beijar na boca, sendo considerada um sinal de homossexualidade qualquer demonstração de ternura entre rapazes. É exatamente o contrário para as moças. Durante sua adolescência, é muito freqüente que desenvolvam ligações afetivas próximas do amor. Duas moças podem passar o tempo inteiro juntas, dormir juntas, se ligar ou se escrever de modo compulsivo quando estão distantes. Mas elas, e seus pares, consideram essa ligação normal: o fato de serem melhores amigas não tem nada de estranho, e com certeza não é um sinal de homossexualidade. Elas podem se abraçar e se beijar abertamente, e até mesmo 52 53 GLTTB – gueis, lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais. Nota dos tradutores. Joyce Hunter et al. (1992) Projeto de pesquisa inédita da Columbia University. H.I.V. Center for Clinical and Behavior Studies. 54 P. Gibson (1989). Gay male and lesbian youth suicide. Em U.S. Department of Health and Human Services. Report of the Secretary’s Task Force on Youth Suicide, Washington, D.C., U.S. Government Printing Office. Ver também Andi O’Conor (1995). Breaking the silence. Em Gerald Unks (ed.). The Gay Teen, Nova Iorque, Routledge, p. 13; Gary Remafedi (1991). Risk factors for attempted suicide in gay and bisexual youth. Em Pediatrics; e Gary Remafedi (1995). Death by Denial: Studies of gay and lesbian youth suicide. Boston, Alyson Publications. 48 fazerem declarações de amor. Em contrapartida, qualquer contato sexual (isto é, genital) entre elas é rigorosamente proibido. Essa diferença crucial entre a adolescência dos homens e das mulheres tem conseqüências importantes para a sua vida amorosa e erótica posterior. É uma das razões pelas quais os homens (tanto hetero quanto homossexuais) procuram muito mais a relação sexual, e as mulheres a relação afetiva. E entre a população homossexual, os homens tendem muito mais ao contato sexual, muitas vezes anônimo; enquanto as mulheres têm tendência para se apaixonarem. Claro, em ambos os casos há uma cisão entre o sexual e o afetivo. O esforço para contornar o proibido e afastar a homossexualidade a qualquer preço tem esse custo (entre outros). E, de fato, como veremos mais adiante, os casais homossexuais masculinos apresentam, muitas vezes, uma falta de intimidade, enquanto os casais femininos apresentam problemas no campo da sexualidade. O luto da heterossexualidade É, portanto, por meio de todo um processo de exploração que o jovem homossexual começa a se identificar como tal. Mas isso implica também um luto da identidade heterossexual que lhe foi inculcada desde sempre. Com efeito, todas as crianças crescem com a idéia de que um dia vão se casar e formar uma família: é o que lhes repetem incansavelmente seus pais, a escola, a cultura e a sociedade em geral. Darse conta que isso, provavelmente, não acontecerá e que será necessário renunciar a um projeto de vida longamente preparado, é um processo extremamente lento e doloroso. Trata-se de uma perda importante; e, como em qualquer perda há um trabalho de luto a ser feito. Esse luto compreende todas as fases descritas por Elizabeth Kübler-Ross em On death and dying55. Segundo esse livro, o luto compreende necessariamente uma série de reações que são normais quando nós sofremos uma grande perda afetiva. Assim, passamos pela negação (“não é verdade, não estou acreditando”), a raiva (“como podem ter feito isso comigo”), a barganha mágica (“talvez eu pudesse fazer alguma coisa para evitar”), a depressão (“minha vida não tem mais sentido”), a culpabilidade (“deveria ter agido de outra forma”), enfim, a aceitação (“eu fiz o melhor que pude, e não há mais nada a fazer”). Na pessoa que toma consciência de sua homossexualidade, encontramos, portanto, a negação (“talvez não seja verdade”), a raiva (“por que eu?”), a barganha (“farei tudo para evitar isso”), a depressão (“nunca serei feliz”), e, enfim, se tudo der certo, a aceitação. Quanto tempo dura esse processo? Para certas pessoas, nunca tem fim — e talvez seja a diferença mais importante entre os homossexuais felizes e aqueles que nunca terminam de fazer o luto do casamento, das crianças que poderiam ter tido, e da aceitação familiar e social que nunca terão. Claro, entre esses dois extremos, há muitos homossexuais para os quais estas coisas não são importantes, e que não têm nenhum arrependimento em relação à vida heterossexual — aparentemente. Mas a maioria dos homossexuais passa por um luto da heterossexualidade, mesmo que não seja totalmente consciente. Esse luto desenvolve-se, geralmente, em etapas, e desemboca em uma aceitação da homossexualidade — mas essa aceitação é raramente inteira ou definitiva. Um certo arrependimento surge novamente nos momentos importantes da vida, e o homossexual deve então reexaminar e aceitar em novos termos sua orientação sexual. Assim, uma lésbica pode viver sua homossexualidade sem problemas durante muito tempo e, por 55 Elizabeth Kübler-Ross (1969). On death and dying. New York, Macmillan Publishing Company. [Nota dos tradutores]: Uma versão em português existe deste livro e entitula-se Sobre a morte e o morrer. São Paulo, Martins Fontes, 1992. 49 volta dos 40 ou 50 anos, sentir um arrependimento intenso em relação às crianças que poderia ter tido caso fosse heterossexual. (Esse luto das crianças pode também acontecer, claro, entre os homens.) Pode haver uma recrudescência do luto toda vez que um amigo ou um irmão se casa, ou no nascimento dos sobrinhos, ou na morte dos pais. Mesmo os acontecimentos mais felizes da vida (como os aniversários, o reveillon, as férias, os sucessos profissionais) podem ter um fundo de melancolia, porque o homossexual não pode compartilhá-los com sua família. Ainda que seja profundamente feliz em sua vida pessoal, às vezes, ele se sentirá, triste durante as celebrações mais felizes — e, muitas vezes, sem saber por quê. Portanto, é importante tomar consciência desse luto que pode durar indefinidamente ou ressurgir sob formas diferentes. Isso mudará, provavelmente, à medida que os direitos civis dessa população se estenderem: se os homossexuais pudessem se casar e adotar crianças, se gozassem de todos os direitos que são atualmente reservados aos heterossexuais, a sensação de perda, evidentemente, não seria a mesma. Enquanto isso é muito importante que cada homossexual assuma e entenda esse luto, como uma parte de sua identidade e de sua história. A reconstrução da história pessoal Um outro aspecto importante dessa fase é a reconstrução da história pessoal. É esperado que os adolescentes que descobrem neles mesmos desejos, fantasias ou sentimentos homossexuais, podem se perguntar de onde eles vêm. E ainda que não exista explicação definitiva da homossexualidade, é salutar se perguntar. De fato, a noção de identidade (que implica, no fim das contas, um conhecimento de si) exige que se pergunte a si mesmo, por que e desde quando se é homossexual — mesmo que seja impossível determiná-lo com precisão. O que conta, não é a verdade, mas a revisão da história pessoal. Esse reexame do passado é particularmente difícil para os homossexuais, porque devem procurar origens, explicações e conexões onde os heterossexuais não pensariam em se deter sobre isso. Esses últimos não têm nenhuma pergunta a se fazer a respeito de sua orientação sexual que lhes pareça natural e dada desde sempre. Ao contrário, para os homossexuais, os jogos da infância, a escola, as relações familiares, o primeiro amor, podem ter tido significações muito diferentes. O que um sente como amizade pode se tornar um sofrimento amoroso sem o que o outro perceba. Uma simples partida de futebol, talvez venha a se tornar o marco do dia em que tomaram consciência de sua diferença. Uma reunião de família da qual se sentiram excluídos, pode representar uma lembrança triste, e não alegre. E o primeiro amor tem para os homossexuais um valor significativo, pois foi, para muitos deles, a primeira revelação de sua orientação sexual. É capital identificar essas etapas, fazer as conexões e estabelecer a cronologia nesta busca de si mesmo. Assim, surge uma reconstrução da história pessoal, uma arqueologia do desejo que é muito diferente da dos heterossexuais — e que é um elemento indispensável na formação de uma identidade guei plenamente assumida. Todo mundo precisa contar para si mesmo sua própria vida, que lhe dá um sentido e uma coerência interna. Isso é particularmente importante no caso das minorias, para as quais o passado é a própria liga da comunidade. Como o entenderam muito bem todas as minorias perseguidas: para ter uma identidade é preciso ter uma história. 50 Identidade e comunidade A identidade constrói-se também se conhecendo os seus semelhantes, e nessa etapa de exploração é essencial conhecer outros homossexuais. Assim, aprende-se que não se está só, que há inúmeras maneiras de viver a homossexualidade, e que existem muitos parceiros possíveis. Entende-se também que se pertence a uma comunidade, e isso é indispensável quando se faz o luto da identidade heterossexual. Finalmente, o fato de compartilhar com outros suas primeiras experiências homossexuais é o primeiro passo em um longo trabalho de saída do armário, que analisaremos em detalhes no capítulo seguinte. Após a fase de exploração, o jovem homossexual tenta, geralmente, estabelecer uma relação de casal. Como todas as primeiras relações, essa se caracteriza por sentimentos confusos, sonhos de amor eterno, séries intermináveis de mal-entendidos, uma enorme dependência e muita idealização. Mas as coisas são ainda mais complicadas para os homossexuais. Como não há modelos de casais gueis na cultura, nem regras do jogo predeterminadas, muitas pessoas (sobretudo se antes tiveram relações heterossexuais) entram em sua primeira relação homossexual com expectativas e ilusões totalmente afastadas da realidade. Podem pensar, por exemplo, que o fato de estar com alguém do mesmo sexo fará desaparecer, como num passe de mágica, as dificuldades encontradas nas relações anteriores; ou que isso permitirá resolver todos os problemas e satisfazer todas as necessidades. Se as duas pessoas são principiantes, é provável que vivam a relação totalmente desnorteadas, interrogando-se constantemente sobre as regras do jogo: é “normal” fazer isso ou sentir isso? Nossos problemas são típicos dos casais homossexuais ou comuns a toda relação amorosa? Em certos casos, se essa primeira relação for muito dolorosa ou difícil, as pessoas renunciarão para sempre a homossexualidade, considerando que os problemas que levaram à separação são inerentes a essa. Por todas essas razões, a primeira relação homossexual apresenta muitos riscos e dificuldades e, geralmente, dura pouco tempo. (A maioria das primeiras relações heterossexuais é igualmente efêmera; mas isso não leva os jovens heterossexuais a renunciar a sua orientação sexual e nem a se dizer que a heterossexualidade é fadada ao fracasso.) Positiva ou não, a primeira relação fará avançar a construção da identidade homossexual. Após a confusão, a dúvida e as ilusões, a pessoa que inicia, enfim, uma relação homossexual na prática chega a uma melhor compreensão de seus desejos e de suas necessidades, e (sobretudo se a experiência sexual foi positiva) e sabe que ele voltará a tê-la. Abre-se assim a possibilidade de um futuro homossexual na realidade, e não mais, apenas, na imaginação. A homossexualidade proibida torna-se realizável — e isso já implica uma certa aceitação. A imagem de si começa a mudar, e descobre-se em si mesmo sentimentos e sensações desconhecidas até então. A vida social com outros homossexuais desenvolve-se. Pela primeira vez, há experiências reais e compartilhadas que podem ser elaboradas como tais. Em uma palavra, a nova identidade começa a tomar forma. A descoberta tardia da homossexualidade Essa fase de exploração e a primeira relação homossexual não acontecem necessariamente durante a adolescência. Uma pessoa pode descobrir em si mesma desejos homossexuais, ou se apaixonar por alguém do mesmo sexo a qualquer momento da vida. Uma mulher pode viver a sua primeira relação homossexual com 40 ou 50 anos após décadas de casamento (o que é mais raro entre os homens). Quando isso acontece, a pessoa pode se sentir totalmente desorientada e até mesmo apavorada com o que está 51 lhe acontecendo. Como o descreve uma mulher casada, mãe de duas crianças que aos 40 anos se apaixonou por uma outra mulher (também heterossexual até então): Passei dois meses em uma angústia apavorante. Perguntava-me: “Mas o que está acontecendo comigo? O que eu tenho?” E eu não tinha ninguém com quem falar disso. Não podia falar disso nem com ela nem com mais ninguém. Eu pensava: “Estou ficando louca”. Era uma sensação muito enlouquecedora. “Será que eu sou lésbica?” E era uma interrogação cheia de angústia, sentia que um enorme problema ia cair sob minhas costas. Além do mais, era tão forte, nunca tinha sentido algo tão forte mesmo com os homens que eu tinha amado. Eu pensava: “O que está acontecendo comigo? É terrível. O que eu vou fazer?”. Uma pessoa nessa situação pode perder o controle de si mesma e adotar de repente condutas irrefletidas, irresponsáveis, até mesmo perigosas; pode iniciar uma relação com alguém que não conhece bem, deixar seu casamento ou seu trabalho de modo intempestivo. Seu tormento e suas condutas “irracionais” levariam a muitos profissionais da saúde a diagnosticar uma crise psicótica devida a emergência de desejos homossexuais longamente reprimidos. Mas, sem chegar a falar de doença mental, talvez seja mais útil pensar em termos de “segunda adolescência”. A adolescência bifásica dos homossexuais De fato, vários autores observaram que muitos homossexuais passam por duas adolescências (ou uma adolescência “bifásica56”). Em primeiro lugar atravessam uma adolescência cronológica entre 12 e 20 anos. Mas como já observamos, não aprendem nessa fase o que eles precisariam para uma vida homossexual. Portanto, tangenciam tarefas indispensáveis para seu futuro, como a formação da identidade e a exploração do amor e da sexualidade. Essas tarefas ficam a dever: essas pessoas deverão realizar posteriormente a exploração e a consolidação de sua identidade sexual. Então, quando vivem sua primeira relação homossexual, mesmo que sejam anos ou décadas mais tarde, entram, enfim, na adolescência psicológica (e não mais cronológica), e começam a explorar sua verdadeira identidade sexual, amorosa e social. Trata-se, freqüentemente, de uma etapa de grande felicidade: a pessoa se sente liberta, e descobre uma intensidade afetiva e erótica que ela jamais acreditou ser possível. Em certos momentos sente que está vivendo uma segunda juventude, cheia de vigor e de espontaneidade. Mas ao lado dessa explosão de alegria reaparecem todas as dificuldades da adolescência: a falta de confiança em si, a impulsividade, a incerteza, a irresponsabilidade — sempre alarmantes no adulto. Essa etapa apresenta, de fato, grandes riscos; mas não devemos concluir que a pessoa está perdendo a razão (mesmo ainda que ela acredite nisso). Devemos nos lembrar que se trata de uma fase, e que a pessoa reencontrará seu estatuto de adulto quando tiver acabado de transitar por essa segunda adolescência. Então, se tudo correr bem, aceitará e consolidará aos poucos sua nova identidade homossexual. Uma identidade feliz ou infeliz? É evidente que o processo de construção da identidade guei depende, em grande parte, do contexto social e cultural. Não é praticável em todo o lugar; isso há apenas trinta anos ainda não era possível, mesmo nas sociedades mais “avançadas”. E nos países onde a homossexualidade se vive ainda nos “bas-fonds”, nas ruas e nos parques obscuros ou nas boates sórdidas e impessoais, ilegais e muitas vezes perigosas, onde os homossexuais vivem no medo e na vergonha porque a sociedade não lhes permite outra 56 Alan K. Malyon. Psychotherapeutic implications of internalized homophobia in gay men. Em Gonsiorek, p. 59-69. 52 coisa, o processo de aceitação não poderia prosperar. Então, ao invés de se forjar uma identidade guei, os homossexuais se forjam uma patologia; e tornam-se aos poucos esses seres infelizes, amargos e invejosos que povoam os textos tradicionais da psiquiatria e da psicanálise. De fato, do mesmo modo que se pode se construir uma identidade homossexual feliz, pode-se também viver sua sexualidade de um modo profundamente infeliz — o que acontece também algumas vezes, claro, no mundo heterossexual. Mas, nesse último caso, ninguém dirá que um indivíduo é infeliz porque é heterossexual. Em contrapartida, muitas pessoas consideram que os problemas psicológicos dos homossexuais estão diretamente ligados à sua orientação sexual. Essa visão das coisas é até mesmo difundida entre os profissionais da saúde mental que chegam a deformar seus critérios diagnósticos por causa de um profundo desconhecimento da homossexualidade. Já me aconteceu ouvir psiquiatras e psicanalistas dizerem que um paciente é neurótico ou alcoólatra, deprimido ou angustiado, ou ainda, que tem problemas de casal porque é homossexual — como se a orientação sexual fosse em si mesma uma causa de patologia, e não o modo de viver e de assumir essa sexualidade57. A terceira idade As pesquisas sobre o envelhecimento dos homossexuais, mesmo limitadas em razão do interesse muito recente para o tema, confirmam que a orientação sexual em si não prediz o nível de bem-estar psicológico nas diferenças etapas da vida. Em contrapartida, parece claro que os homossexuais envelhecem melhor na medida em que aceitaram e viveram abertamente sua orientação. Em especial, os pesquisadores nesse campo encontraram menos autocrítica e problemas psicossomáticos, e um nível de bemestar mais elevado entre os homossexuais na terceira idade, na medida em que se deram conta de sua orientação relativamente cedo, pertenceram a um grupo ou a uma comunidade de seus semelhantes, tiveram numerosos amigos e rejeitaram os estereótipos tradicionais concernentes à homossexualidade58. Escolher sua própria homossexualidade Aqui se oferece toda uma gama de possibilidades. Talvez não se possa escolher sua orientação sexual, mas com certeza pode-se decidir o modo como vivê-la. Na vida íntima, uma pessoa pode decidir o tipo de relações que terá: pode escolher construir uma relação de casal estável, monogâmico ou não, ou ainda ter múltiplas relações passageiras. Pode compartilhar sua vida com seu parceiro e um pequeno círculos de amigos, ou então optar pela vida social dos bares e das discotecas ou da comunidade GLBT. Pode reproduzir os papéis ou os estereótipos do casamento heterossexual ou inventar novas modalidades de relação. No aspecto público, o homossexual pode decidir viver na clandestinidade (no famoso “armário”), escondendo sua orientação até mesmo para a sua própria família, ou arriscar-se a se identificar abertamente como tal. Veremos que há, de fato, uma grande variedade de estilos de vida e de relação de casal no mundo da homossexualidade. Justamente porque não há modelos nem regras do jogo pré-estabelecidos que os homossexuais têm uma liberdade menos encontrada nos heterossexuais. Além do mais, como veremos mais adiante, muitos dentre eles afastaram-se de suas famílias de origem, e geralmente não têm crianças. Isso abre possibilidades dificilmente concebíveis no 57 American Psychiatric Association eliminou a homossexualidade de seu Código International de Doenças (CID), ou Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, em 1973. Guardou apenas a categoria de uma homossexualidade mal-assumida, isto é, vivida na vergonha ou na culpabilidade. 58 John Alan Lee (1991) [ed.] Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press. 53 mundo heterossexual. Evidentemente, essa liberdade tem também seus limites: afinal de contas, os homossexuais são obrigados, como todo mundo, a trabalhar e viver em sociedade. Além disso, a sociedade atual não dá muito espaço para a excentricidade e o nãoconformismo. O mundo globalizado do ano 2000 dita maneiras de pensar, de sentir e de viver que influenciam os homossexuais tanto quanto os heterossexuais. Mesmo as populações mais marginalizadas acabam adotando o modelo consumista de uma realização pessoal baseada nas possessões materiais. Assim, assiste-se à “yuppificação” de muitos homossexuais nos Estados Unidos: longe de serem originais ou contestadores, tornaram-se tão conformistas e convencionais quanto todo mundo. Além do mais, muitas atitudes e condutas que eram características da cultura GLBT foram adotadas pela cultura majoritária: poderíamos interpretar nesse sentido a androgenia que predomina atualmente na moda e na publicidade. Estamos muito longe das posições revolucionárias do movimento de liberação guei dos anos 70. Portanto, é nesses limites que os homossexuais de hoje podem inventar novas maneiras de viver, pensar e amar, ou adotar um estilo de vida convencional. Nos capítulos seguintes, examinaremos algumas opções que existem atualmente para os homossexuais e, veremos também os problemas que elas podem acarretar. Mas, é claro que, além da biologia, da sociedade, da história familiar e pessoal, há na homossexualidade um enorme espaço para a liberdade, a criatividade, a realização de si e, claro, a felicidade. Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico Exploração da orientação sexual nos adolescentes É muito comum os adolescentes terem dúvidas sobre sua orientação sexual. Se eles descobrem desejos homossexuais, podem se angustiar ao extremo. Portanto, é importante lhes explicar que a identidade sexual está composta de muitas camadas, como vimos nesses dois capítulos. O desejo não faz o homossexual; mesmo as práticas não bastam para isso. Não se torna homossexual do dia para a noite. Os adolescentes devem entender também que os desejos homossexuais são normais e até mesmo comuns na sua idade. E que a adolescência é feita justamente para explorar e desenvolver sua sexualidade. É primordial destacar que a sexualidade é complexa e que compreende em todos nós muitas facetas. Uma dessas facetas é provavelmente a imaginação que, longe de limitar a sexualidade, só pode enriquecê-la. As fantasias, por mais perversas que possam parecer, são como janelas que nos revelam partes desconhecidas de nossa vida profunda; como mensagens provenientes de terras inexploradas, nos devolvem uma imagem renovada de nós mesmos. Além do mais, podemos decidir o que nós vamos fazer com estas fantasias. Ninguém pode controlar seu inconsciente, mas podemos, com certeza, escolher nossas condutas. Ademais, nesse campo nada é irreversível. É preciso que os adolescentes saibam que podem transitar pela homossexualidade e depois deixá-la — coisa freqüente em inúmeros países, inclusive, claro, a Inglaterra na era moderna, onde as relações homossexuais eram “normais” entre os estudantes dos internatos. O contrário pode também acontecer: pode-se explorar a heterossexualidade, tomando o cuidado para não adquirir obrigações permanentes, e depois deixá-la. E, justamente, porque não tem nada irreversível e irremediável neste campo, nada é urgente. 54 Exploração da história pessoal Para entender um homossexual, é indispensável ver de que maneira ele elabora sua história — como descobriu e assumiu (ou não) sua orientação sexual. O terapeuta deve ajudá-lo a reconstruir todo o processo para que ele possa consolidar sua identidade e também identificar eventuais lacunas em seu desenvolvimento. Um homossexual pode parecer pouco maduro em suas relações interpessoais e limitado em sua comunicação, levando o terapeuta a diagnosticar um transtorno da personalidade (como o narcisismo), por não ter examinado em profundidade sua história individual e interpessoal. O terapeuta poderá até mesmo atribuir esse transtorno à carências ou traumatismos presentes desde a infância — quando, talvez, fosse mais útil procurar a origem do problema na adolescência ou na juventude. Mas a teoria psicanalítica leva muitos terapeutas a procurarem a origem das coisas nos primeiros anos da vida. É fácil esquecer que um homossexual pode ter tido uma infância perfeitamente “normal”, mas uma adolescência e juventude cheias de solidão, de vergonha e de inibição, que, provavelmente, bloquearam seu desenvolvimento psicossexual. Muito freqüentemente, os homossexuais não aprenderam as regras do jogo social e amoroso; não passaram pelas etapas que se seguem automaticamente entre os heterossexuais. É importante explicar ao paciente que não se trata de uma patologia, mas de uma lacuna na aprendizagem à qual se pode remediar. O luto da heterossexualidade Em qualquer fase da vida, a emergência de desejos homossexuais e a formação de uma identidade homossexual implicam a perda da identidade heterossexual. A aceitação da homossexualidade nunca é fácil; compreende sempre uma parte de confusão e de dor. É importante explorar a fundo esses sentimentos e nunca os minimizar. Muitos terapeutas “liberais” tenderão a consolar seus pacientes nesta situação, lhes assegurando que poderão ser tão felizes quanto qualquer um quando tiverem assumido sua orientação. Não é verdade. Quase todos os homossexuais, por mais assumidos que sejam, sofreram de maneira intermitente um luto da heterossexualidade. Trata-se aqui de uma perda importante: a pessoa deve renunciar, no fim das contas, a uma boa parte de seu passado e também de seu futuro, do modo como elas os via antes. Sua vida não seguirá mais o curso previsto; não satisfará mais as expectativas de sua família e da sociedade; e não sabe se poderá contar com a aceitação e o amor de seus amigos e de seus parentes. Além do mais, a pessoa ignora se poderá, um dia, ter uma relação estável e duradoura como teria sido o casamento (pelo menos em teoria); e não terá o apoio da sociedade que é tão importante para manter uma relação de casal. O terapeuta deve explorar todas as fantasias e os medos que estão associados a essas perdas sem nunca os minimizar nem os trivializar. São perdas reais, e é importante as elaborar enquanto tais. É também útil, na medida do possível, ajudar o paciente a se constituir novas redes de apoio (como veremos no capítulo seguinte), e a produzir novas expectativas e projetos de vida alternativos. O que está perdido deverá ser elaborado e eventualmente substituído aos poucos: a família, o casamento, a aprovação social deverão ser reformulados de outro modo. 55 CAPÍTULO 4 AS VICISSITUDES DO ARMÁRIO Os homossexuais se perguntam muitas vezes entre si se “saíram do armário” (do inglês, out of the closet) ou se ficaram “dentro”, isto é, se vivem sua homossexualidade abertamente ou na clandestinidade. É uma pergunta freqüente, pois importante; ela nos revela muito sobre a pessoa e seu modo de viver. Mas é demasiada simples para refletir a grande variedade de respostas possíveis: pode-se estar “fora” com seus amigos e vizinhos, e “dentro” com seus pais; ou “fora” em relação à família e os amigos, mas “dentro” no trabalho. Por outro lado, o que significa viver abertamente a homossexualidade? Afinal de contas, pode-se “dizer” que se é homossexual de muitas maneiras, e pode-se viver publicamente sua homossexualidade sem nunca dizer uma palavra sobre isso. Talvez só haja uma coisa certa em relação à clandestinidade: é que ela não tem fim. Nenhum homossexual, mesmo que tenha perfeitamente assumido a sua homossexualidade, pode dizer que ele saiu definitiva e totalmente do armário. Sempre haverá pessoas ou situações novas, nas quais ele será considerado como heterossexual até provem o contrário. E isto não é uma questão de honestidade e nem de integridade: é simplesmente porque a sociedade pressupõe, automaticamente, que todo mundo é heterossexual. Mesmo quando o homossexual se identifica explicitamente como tal, nem sempre se crê nele. Conheço homossexuais aos quais uns terapeutas asseguraram que não eram homossexuais — e até mesmo que não era possível em seu caso. E muitos homossexuais, homens e mulheres, viveram a experiência muito desagradável de terem sido perseguidos por pessoas do sexo oposto que queriam lhes provar a qualquer preço que eles não eram homossexuais de verdade. Muitos adolescentes, também, escutam de seus professores ou confidentes: “mas não, você não é homossexual”. Isso acontece exatamente como se os heterossexuais tivessem o direito de decidir quem é homossexual e quem não o é — independentemente daquilo que os homossexuais dizem a respeito deles mesmos. E, mesmo quando seus amigos e família sabem perfeitamente que uma pessoa é homossexual, eles continuarão, em muitos casos, a tratá-la como se não fosse nada disso, como se ela fosse heterossexual — mas solteira. Assim, os pais convidarão sua filha lésbica no jantar de Natal, sem convidar, nem mesmo mencionar sua companheira de vários anos. Os colegas de trabalho organizarão a festa do fim de ano sem incluir o parceiro de seu colega, mesmo que saibam da relação há muito tempo. Essa cegueira, mais ou menos consciente, mais ou menos deliberada, por parte da sociedade faz com que o homossexual permaneça fechado na clandestinidade sob muitos pontos de vista, mesmo que não o deseje. Assim, o famoso armário não serve apenas para se esconder, mas também para esconder o que a sociedade se recusa a ver. Portanto, é indispensável que os homossexuais e seus terapeutas pensem de modo profundo e contínuo sobre a realidade e as implicações da pergunta: “você está dentro, ou fora?”. O termo em inglês closet (do latim clausum, particípio presente do verbo claudere que significa “fechar”) teve muitas outras significações antes de se referir à homossexualidade clandestina. Assim, denotou um lugar fechado, privado, no qual se tem conversações secretas, ou um lugar para guardar objetos preciosos. Portanto, representa o privado em oposição ao público; um íntimo em oposição ao social; o que está escondido 56 em oposição ao que está descoberto. Como derivação desses sentidos, a expressão to come out of closet (sair do armário, às vezes reduzida à to come out) refere-se, atualmente, ao fato de assumir plenamente sua homossexualidade, tanto na esfera pública quanto na privada. Há, evidentemente, uma diferença muito grande entre assumir sua orientação sexual em um nível íntimo (com sua família e seus amigos) e fazê-lo no nível social (com seus vizinhos e colegas por exemplo). Nos países industrializados, encontra-se freqüentemente homossexuais cujos vizinhos e colegas conhecem a sua orientação sexual, enquanto a sua própria família a desconhece. Nas sociedades conservadoras (onde a família desempenha ainda um papel central), é mais freqüente que os homossexuais “saiam” na esfera íntima e se escondam na esfera pública. Os homossexuais podem escolher entre muitas opções nestes diferentes níveis, mas esses permanecem sempre ligados de uma certa maneira: como diziam as feministas, o pessoal é político; a vida privada (inclusive a sexualidade) sempre tem implicações públicas; o íntimo não pode estar separado do social. Por que dizê-lo? Por que sair do armário? Em primeiro lugar, muitos homossexuais de agora foram forçados a isso — pela AIDS. Podemos supor que uma grande proporção das vítimas da epidemia — em particular aquelas que se aproximaram de sua família — teve que revelar sua homossexualidade voluntariamente ou não. Uma grande quantidade de obras literárias testemunham o sofrimento que isso pôde implicar, mas também, em muitos casos, a aceitação que muitos homossexuais encontram junto a seus próximos. A importância dessa saída obrigatória do armário não poderia ser superestimada. Em um certo sentido, poderíamos dizer que a AIDS arrancou do armário toda uma geração de homossexuais; tornou público um modo de vida que antes era invisível; e deu o nascimento a uma comunidade inteira. Como diz Frédéric Martel: “A homossexualidade era uma aventura individual. Pela primeira vez, a AIDS deu uma história coletiva aos homossexuais59”. Dito isso, a maioria dos homossexuais não são obrigados a saírem do armário, mas têm a escolha: e trata-se aí de uma decisão que é não somente difícil, mas de uma importância capital. Muitos heterossexuais se perguntam por que seus amigos homossexuais dão tanto valor à sua orientação sexual, já que eles têm o bom senso e a discrição de guardar sua vida íntima para eles mesmos. Muitas vezes, é difícil eles entenderem porque os homossexuais sentem a necessidade de se declararem abertamente: por que eles não podem fazer tudo que eles querem, ser ou não ser, sem fazer alarde? No final das contas, os heterossexuais têm relações e problemas de casal, e não sentem a necessidade de falar interminavelmente de sua orientação sexual. Então, por que os homossexuais têm necessidade de se identificar como tais, de anunciar e explicar a todos a sua orientação, de uma maneira que possa parecer obsessiva, provocadora ou simplesmente adolescente? Essas perguntas contêm, na verdade, todos os elementos de um debate que é central para a identidade homossexual. Dizer-se homossexual De fato, por que é importante que os homossexuais se identifiquem, se nomeiem e se descrevam? Historicamente, a resposta dada pelo movimento de liberação guei sempre foi esta: é para não sermos mais identificados, nomeados e descritos pelos 59 Frédéric Martel. (1996). Le rose et le noir. Paris, éditions du Seuil, p. 355. 57 outros. Tanto a integridade pessoal quanto a luta pelos seus direitos civis exigem que os gueis se nomeiem e se descrevam em seus próprios termos. Isso pode chegar até a adoção do vocabulário pejorativo usado pela sociedade homofóbica. Não é a mesma coisa um homossexual se dizer “veado”, e um heterossexual lhe dizer. Nessa concepção, o fato de usar as mesmas palavras desarma a homofobia: se alguém me diz “veado”, respondo “sim, e orgulhoso de o ser”. (A apropriação das armas do inimigo é uma estratégia que foi usada por muitos movimentos minoritários em nosso tempo, inclusive o dos negros nos Estados Unidos. Basta lembrar que, se entre eles é aceitável se chamarem de “nigger” [preto], nunca tolerariam esse termo dito por um branco). Um outro motivo para sair do armário é o desejo de se integrar à comunidade guei. Há nos homossexuais, assim como para muitas pessoas, uma necessidade de pertença maior, pois muitos deles foram rejeitados, ou se afastaram de sua família. Então, quando um homossexual começa a assumir publicamente sua orientação e freqüentar lugares ou grupos gueis, é ao mesmo tempo para conhecer outros homossexuais e fazer parte de uma coletividade. Mas, juntar-se à comunidade guei tem também uma significação política. Os militantes gueis americanos insistem na importância de aumentar a visibilidade da homossexualidade; em sua perspectiva, os homossexuais nunca poderão assegurar seus direitos civis se não fizerem conhecer publicamente seu peso numérico e, portanto, eleitoral. Assim, há várias razões de ordem política para sair do armário. Dizer-se homossexual, é juntar-se a uma comunidade e recuperar uma identidade própria e não mais imposta: classificar-se, para não ser mais classificado. Essa estratégia, claro, tem um lado ingênuo, quiçá utópico. Paradoxalmente, os homossexuais que saem do armário são devolvidos para a sua homossexualidade: de fato, etiquetam-se, entretanto são imediatamente reduzidos a essa etiqueta. Em nossa sociedade, os homossexuais que vivem abertamente a sua orientação sabem que seus amigos e colegas heterossexuais os vêem, antes de tudo, como homossexuais: tornam-se “meu amigo veado”, “minha vizinha lésbica”, “o escritor guei”, como se a homossexualidade fosse seu atributo mais essencial. Então, identificar-se publicamente enquanto homossexual é uma faca de dois gumes: a recusa da clandestinidade só desemboca, em muitos casos, em uma nova etiqueta. É também utópico pensar que se pode sair definitivamente do armário: sempre haverá situações nas quais será preciso fingir ser heterossexual, pelo simples fato de viver em uma sociedade heterossexual. Se se procura um apartamento ou um novo trabalho, se se cultua relações profissionais, é melhor respeitar as aparências. Muitos homossexuais descrevem sua vida cotidiana como limitada em compartimentos: em certas situações, são abertos e, em outras, não; com certos amigos são sinceros e podem ser eles mesmos, e com outros não. O preço da clandestinidade O fato de se passar de uma modalidade para outra, torna-se automático com o passar do tempo: para usar uma metáfora automobilística, aprendemos a trocar de marcha toda vez que for necessário, e fazemos isso sem esforço — mas isso não significa que o câmbio não seja gasto. Alternar a sinceridade e a dissimulação implicam uma vigilância contínua e um gasto de energia psíquica muito grande — mesmo que a pessoa se assuma perfeitamente. Não é à toa que muitos psicanalistas e psiquiatras notaram uma suscetibilidade particular nos homossexuais, que às vezes interpretaram como paranóia. Muitas vezes acontece que os homossexuais observam com uma 58 atenção diferenciada as reações do outro em relação a eles. Do mesmo modo, entendese facilmente que muitos homossexuais preferem a companhia de seus semelhantes, mesmo que não tenham muita coisa em comum fora a sua orientação sexual. Podem pelo menos serem eles mesmos e falarem espontaneamente, sem esconder as suas atividades, suas relações, os seus sentimentos — em uma palavra, sua vida afetiva inteira. O preço da clandestinidade (seja ela parcial ou total), portanto, é muito elevado. Inúmeros estudos mostraram, de fato, que os homossexuais estão com melhor saúde, tanto física quanto mental, na medida em que saem da clandestinidade. Observou-se que os homossexuais que assumem publicamente sua orientação, sobretudo, para a sua família são muito menos expostos à depressão, ansiedade, e somatização; sua autoestima e sua capacidade de relação com o outro são bem mais desenvolvidas60. Por quê? O fato de esconder sistematicamente sua vida afetiva pode ter conseqüências nefastas em todos os campos e não somente na esfera privada. O homossexual que vive na clandestinidade sempre se pergunta se os outros se dão conta disso; observa continuamente seus gestos, suas palavras, suas reações. Mas, o que ele ganha em segurança, ele perde em espontaneidade e sinceridade: pode parecer superficial e rígido. Isso não afeta somente suas relações pessoais, mas também suas relações sociais e profissionais. Além do mais, às vezes sente-se culpado de mentir ou, pelo menos, de não dizer a verdade sobre si mesmo. Em alguns casos tenderá a se isolar cada vez mais (ou se esconder em relações sociais superficiais) e negar sua relação de casal se tiver uma. Por todas essas razões os autores americanos que tratam da homossexualidade pensam geralmente que é melhor viver abertamente do que viver na clandestinidade. Ademais, consideram que não se pode assumir plenamente a sua homossexualidade se esta for dissimulada, sobretudo, para a família. E um homossexual não pode, dizem eles, acessar a maturidade a não ser assumindo-se enquanto tal. Exatamente como o heterossexual só se torna verdadeiramente um adulto aos olhos de sua família e da sociedade quando funda um casal e uma família, o homossexual só se torna um adulto quando sai da clandestinidade. Sair do armário nem sempre é possível nem desejável Teoricamente, eles têm razão — mas sair do armário nem sempre é possível nem mesmo desejável nos países onde a homossexualidade é estigmatizada, e onde a família continua a desenvolver um papel central na vida das pessoas. Também, não devemos esquecer que nos países industrializados um indivíduo é protegido por toda uma série de instituições como INPS, que não existe necessariamente em países menos desenvolvidos. Nos países do terceiro mundo, por exemplo, quando se fica doente ou se perde o seu emprego, o único recurso é a família — e não se pode arriscar perder esse apoio essencial. Ademais, as garantias civis e os recursos jurídicos que nos países industrializados protegem os homossexuais da discriminação não existem aí. Uma pessoa que sai do armário nesses países arrisca a perder a sua família, a sua posição na sociedade, o seu trabalho e até mesmo a sua residência. A questão de sair ou não da clandestinidade, portanto, não tem a mesma significação nem as mesmas implicações em todos os lugares; é preciso levar em consideração a situação real de cada indivíduo. Não se pode responder a isto de modo abstrato, mesmo que o ideal fosse que cada um pudesse viver sua orientação sexual abertamente. Em especial, cada um deve avaliar os custos e os benefícios reais de sua decisão. Essa dependerá, então, de seu contexto familiar, social, cultural e profissional. 60 Ver Marcy Adelman (1991). Stigma, gay lifestyles, and adjustment to aging: A study of later-life gay men and lesbians. Em John Alan Lee, éd. Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press, Inc., p. 7-31. 59 A comunicação na família Em geral, é mais fácil sair do armário em uma família onde as coisas são ditas abertamente, onde se pode falar da vida privada e dos sentimentos. Em contrapartida, se os membros da família não têm o costume de compartilhar sua vida afetiva, é provável que o homossexual será envolvido num jogo complicado de omissões e de meiasverdades: os seus irmãos lhe pedirão, por exemplo, para não falar nada a seus pais, pois “seria um golpe fatal para eles”. Ou então, a mãe o suplicará para nunca falar ao pai, pois “isso o mataria”. Então, longe de escapar à dissimulação, o homossexual será envolvido em um sistema de mentiras ainda mais doloroso e complicado e um conflito de lealdades difícil de resolver. É também mais fácil sair do armário quando se é um filho caçula e que se tem irmãos e irmãs casados que já asseguraram a descendência e estabeleceram, de algum modo, a “normalidade” da família. Nesse campo, como em muitos outros, tudo é mais complicado para um filho mais velho. Mas a situação mais difícil é, sem dúvida, a do filho único, que carrega todas as expectativas, ilusões e projetos de seus pais, e que representa para eles a única possibilidade de ter netos. As coisas são mais simples se o filho homossexual já deixou o lar e se for independente do ponto de vista econômico: isso lhe possibilita uma certa autonomia, mas ele será, em contrapartida, cada vez mais afastado das questões familiares. Acontece, muito freqüentemente, de fato, que a família de um homossexual “esqueça” de informá-lo a respeito de acontecimentos importantes, de convidá-los para reuniões de família, ou que ela pare de consultá-lo sobre assuntos que dizem respeito a todos. O contexto social e cultural é também um fator determinante. Em uma sociedade conservadora, é perfeitamente possível que a família rejeite totalmente a homossexualidade e que chegue até mesmo a deserdar um filho homossexual. E isso não é necessariamente uma questão de nível sociocultural: a aceitação da homossexualidade não parece conhecer barreiras de classe. As pessoas ricas e educadas não parecem mais tolerantes do que as pobres, e vice-versa. (Não há também variações na taxa de homossexualidade segundo a classe social, apesar de parecer que a travestilidade — o fato, para os homens, de se vestirem como mulheres — seja mais freqüente entre as classes populares, sobretudo nos países do terceiro mundo). Sair do armário: um processo familiar Os homossexuais tentam muitas vezes adivinhar como vão reagir seus pais por meio de seus comentários acerca da homossexualidade em geral. Acho que isso não serve para muita coisa: esses comentários (positivos ou negativos) não permitem necessariamente predizer qual será a sua atitude ao saberem que seu filho é homossexual. Conheci pais extremamente liberais nesse sentido que, entretanto, rejeitaram seu filho; e outros, conservadores, que o aceitaram imediatamente. As atitudes explícitas sobre a homossexualidade não indicam muita coisa quando se trata de seu próprio filho. Em contrapartida, as regras de comunicação no seio da família sejam explícitas, sejam implícitas, podem deixar prever como a notícia será recebida. Será possível falar disso? Os pais escutam seus filhos em geral, e esse filho em particular? Como a família enfrenta os problemas? Tende ela a negociar e procurar soluções, ou ao contrário, resolver as dificuldades de um modo autoritário? Prefere ela silenciar os assuntos delicados? É fechada ou aceita facilmente pessoas e idéias novas? E, enfim, quem toma as decisões? A meu ver, essas considerações que refletem o estilo de comunicação na 60 família são os indicadores mais confiáveis para adivinhar como essa reagirá frente à homossexualidade de uma criança. É preciso também levar em conta os valores culturais locais e não tentar modificar as regras do jogo. Assim, em certas sociedades, a homossexualidade é permitida na medida em que não é explicitamente declarada; em outras, somente se o homossexual se casa e tem filhos; e em outras ainda se ele respeita as aparências. Cada sociedade tem também suas regras do jogo no que concerne à autonomia dos filhos: em certos países, esses são livres para fazerem o que quiserem depois de ter saída da casa dos pais, e em outras permanece submisso à autoridade parental independentemente de onde vivem, casados ou não. Pode-se ou não concordar com essas regras e decidir se se vai ou não respeitá-las; mas não se pode esperar de uma família ou de uma identidade que reajam segundo um sistema de valores que não é o seu. Assim, não se pode esperar que uma família árabe, japonesa ou mexicana tenha uma atitude liberal como a família americana no que diz respeito à homossexualidade. A experiência dos gueis latino-americanos nos Estados Unidos é particularmente interessante no que diz respeito a isso. Nesse país, aprende a viver a sua homossexualidade segundo critérios “liberais”; saem do armário e assimilam-se à cultura guei americana de uma maneira que lhes pareça natural nesse contexto. Mas esse processo é totalmente incompreensível para a sua família e sua comunidade de origem. A idéia de adotar uma identidade guei (como pode fazê-lo um americano branco, de classe média e urbano), e, além do mais, ficar orgulhoso disso pode ser literalmente inconcebível para uma família de origem hispânica. Como diz uma psicóloga lésbica latino-americana que vive em Boston: “a gente brinca, às vezes, dizendo que saímos do armário em inglês, mas não em espanhol61”. Além dos valores culturais da sociedade, cada família tem a sua própria história oficial sobre o filho que não é casado: ou ele é muito tímido; ou muito estudioso, ou ligado à sua família, ou tem uma namorada escondida, ou ainda não encontrou a mulher que lhe convém. A moça vive com uma roommate (colega de quarto) para dividir os custos, ou está esperando um homem que a queira. É importante analisar essa versão oficial antes de sair do armário para procurar a melhor forma de apresentar as coisas à família — e para prever a sua reação. Muitas famílias aceitarão tacitamente a homossexualidade de um filho se sua história oficial for preservada e se elas puderem continuar contando a seus amigos e vizinhos que seu filho, por exemplo, tem uma namorada em uma outra cidade. É de fato provável que os pais manterão essa história oficial, mesmo que seu filho lhes conte que é homossexual. E guardarão a esperança de que se trata apenas de uma fase passageira. É também possível que não saibam nem um pouco como reagir. Os homossexuais esquecem às vezes que, ao sair do armário, confrontam a sua família exatamente com o mesmo dilema que acabam de atravessar: assim como eles, a família não sabe muito o que dizer, nem como, nem para quem; nem mesmo se deve falar disso, ou então esconder a coisa. Assim como o homossexual teve de lutar longamente com a dúvida, a vergonha e o medo antes de se abrir com seu pais, esses deverão decidir, por sua vez, o que farão em relação ao resto da família, dos amigos, dos vizinhos e da sociedade em geral. Portanto, o homossexual que sai da clandestinidade, nunca o faz sozinho: leva com ele, de fato, toda a sua família. Poderíamos dizer que ninguém sai sozinho do armário; não é um processo individual, mas, de fato, familiar. 61 Lourdes Rodríguez citada em Alisa Valdés (1998). Coming out in Spanish. Em The Boston Globe, 23 de julho. 61 Como fazer? É por todas essas razões que é importante planejar em detalhes como, onde e quando se vai anunciar à sua família que se é homossexual. Os especialistas recomendam fazê-lo progressivamente, passando das relações sociais às relações íntimas e do mais fácil ao mais difícil. Assim, é melhor falar primeiramente, com um amigo o qual se imagina que não terá muitos problemas com isso; depois, a um primo, um tio, uma tia, depois a um irmão e uma irmã, enfim, aos pais. Isso é preferível por várias razões. Em primeiro lugar, é melhor, no início, evitar confrontos que não serviriam para nada e que poderiam exacerbar o medo ou as dúvidas. Depois, é indispensável instalar uma rede de apoio sobre a qual se poderá contar, no caso de haver problemas: quando se aventura em terreno perigoso é melhor ter aliados desde o começo. Em terceiro lugar, o fato de sair progressivamente do armário permite reconhecer o terreno, ensaiar várias vezes a cena, e prever as reações que se encontrará. Nunca se deve precipitar: é preciso planejar a coisa estrategicamente, por etapas, e escolher o melhor momento para cada passo. Deve-se contar isso a seus pais? Eis aqui uma decisão difícil, que quase todos os homossexuais devem enfrentar em um momento ou em outro de sua vida. Afinal de contas, é provável que os pais recebam a notícia com tristeza ou cólera. No melhor dos casos, refletirão sobre isso e, após algum tempo (que pode se estender de várias semanas até vários anos), acabarão por se resignar com a idéia. É provavelmente exigir demais dos pais lhes pedir para aceitar plenamente a homossexualidade, isto é, como uma opção tão desejável como a heterossexualidade; e é preciso evitar expectativas pouco realistas. A finalidade na maioria dos casos, não é uma franca aceitação da homossexualidade, mas uma relativa continuidade na vida cotidiana: que as relações familiares não se vejam demasiadamente perturbadas, que o filho ainda faça parte da família, e que os pais possam um dia aceitar sua relação de casal como as de seus outros filhos. Segundo a fórmula memorável de Jean-Louis Bory, a melhor coisa que um homossexual pode querer, talvez seja, simplesmente, o direito à “indiferença62”. O tabu familiar Muitas famílias farão de tudo para abafar o caso, comportando-se exatamente como se o filho não tivesse dito nada. Ninguém falará disso. Ninguém lhe fará perguntas, e será como se o parceiro do filho não existisse: nunca será mencionado nem convidado para as reuniões. Como o descreve uma lésbica que declarou sua homossexualidade para a sua família há alguns anos: “é como se eu não tivesse uma vida de casal, enquanto nós vivemos juntas há anos. Eles me perguntam o que farei durante as férias, ou ainda o que eu fiz durante o fim de semana, mas sempre no singular. Convidam-me sozinha para as festas de aniversário, até mesmo a minha. E depois, perguntam-me, de vez em quando, se eu não encontrei um rapaz que me agrade.” Esse tipo de reação magoa profundamente o homossexual, pois invalida totalmente uma parte central de sua vida: sua relação de casal. Mas não é apenas o parceiro que é anulado: trata-se de uma negação pura e simples dos sentimentos, das necessidades afetivas, e da vida cotidiana e social do filho ou da filha homossexual. Essa atitude é, 62 Cf. Martel, p. 119. 62 contudo, bastante comum, e é preciso ver nela uma negação maciça de uma verdade inaceitável. Então, o homossexual entra em um novo dilema. Pode seguir o fluxo, respeitar o silêncio imposto e nunca mais levantar a lebre. Nesse caso, o assunto da homossexualidade tornar-se-á tabu, com toda uma constelação de temas associados: será proibido ao homossexual falar de sua relação de casal, de suas amizades, suas atividades sociais e até mesmo de seus projetos futuros. Mas esse silêncio não é neutro; ao contrário, muitas vezes é carregado de insinuações ou críticas implícitas que falam da homossexualidade, mas indiretamente. Por exemplo, se o filho desenvolve atividades, idéias, valores ou gostos diferentes dos de sua família, será por causa “dessas pessoas que você freqüenta”. Se fracassar em algum projeto, será por causa “desse estilo de vida que você leva”. Se tiver dificuldades de qualquer ordem, sua homossexualidade será implicitamente a culpada. É evidente que essas atitudes não invalidam somente a experiência afetiva, social e profissional do filho homossexual: serve também para infantilizá-lo. O homossexual não é considerado um adulto que possa ter gostos, valores, projetos, modos de viver ou de pensar próprios: não tem opinião independente, mas está à mercê de “influências” mais ou menos nefastas. (Os heterossexuais reconhecerão facilmente este discurso, que escutam quando têm a infelicidade de se casar com alguém que não é aceito pela sua família). Em uma palavra, o filho homossexual é tratado como se fosse apenas uma criança. O fato de permanecer solteiro só reforça essa percepção: aos olhos de sua família o filho homossexual nunca atinge a maioridade. Dada essa dinâmica, é fácil entender porque tantos estudiosos notaram uma certa “imaturidade” no homossexual em suas relações familiares. Isso pode ser verdadeiro, claro; mas cada lado tem uma parte de responsabilidade. Se muitos homossexuais não atingem certas etapas do desenvolvimento, é também verdadeiro que suas famílias os tratem muitas vezes como crianças. Tudo isso deriva de uma homossexualidade conhecida, mas não reconhecida, da qual se sabe que existe sem nunca dela falar. O tabu familiar implica em muito mais do que em um simples silêncio. Como qualquer tabu, engloba uma série de interditos e elimina do mapa afetivo, continentes inteiros da experiência pessoal. Muitos homossexuais que sofrem dessa invalidação perpétua sem nada poder fazer a respeito acabam por se afastar de sua família: não percebem de sua parte nenhum interesse, nenhuma compreensão, e finalmente muito pouco amor. Alguns deles resolvem lutar contra o tabu, exigindo de sua família que ela respeite sua orientação — ou que, pelo menos, aceite falar dela. Esse caminho pode levar a uma série de reclamações e ao ressentimento dos dois lados, até que alguém ceda — mais provavelmente o filho do que os pais. No final das contas, esses últimos não têm que se esforçar para perpetuar o silêncio: só têm que continuar a se calar. É muito mais arriscado e difícil tomar a iniciativa de romper o silêncio do que permanecer nele confortavelmente instalado. Ademais, é fácil para os pais dizer que na sua idade não podem mais mudar seu modo de pensar — como se as pessoas de idade fossem incapazes de assimilar idéias ou experiências novas. O filho que tenta transgredir o tabu estará, portanto, sempre em uma posição de fraqueza e deverá se perguntar, após algumas tentativas, se vale à pena insistir nisso. Se o homossexual permanece muito ligado à sua família, acha insuportável a falta de aceitação e continuará a procurar, interminavelmente, uma aprovação que talvez nunca a terá. Poderá até mesmo, nesse caso, tornar-se um filho modelo em outros campos, esforçando-se de qualquer modo para ser atento e generoso com sua família. O estereótipo do homossexual como um “mau filho” não corresponde necessariamente à 63 realidade, mas antes, ao grande melodrama da homossexualidade tal qual é vivido por muitas famílias. O filho insistirá em procurar a aprovação familiar, sobretudo se sempre teve medo de ser rejeitado por seus pais — o que é freqüentemente o caso para os meninos “efeminados” com pais distantes ou que o desprezam. Mas, mesmo em geral, se teve pais pouco afetuosos ou reprovadores que não lhe deram o amor incondicional tão necessário às crianças, sempre procurará sua aceitação. O problema, nesse caso, não é a homossexualidade, que só é um pretexto a mais para criticar o filho; o verdadeiro problema é a relação entre os pais e seu filho, e falta de autonomia desse último. Nesse tipo de situação, é indispensável que o homossexual inicie uma psicoterapia para que ele possa, enfim, se separar de seus pais, afetivamente falando, e consolidar uma identidade e uma auto-estima próprias. O tabu familiar é uma reação bastante comum diante da homossexualidade de uma criança. Mas podem existir outras mais extremas. Ainda acontece, em muitos países, que o filho homossexual seja deserdado e banido da família para sempre. Se for adolescente, seus pais podem ameaçar, punir, ou submetê-lo a um tratamento psiquiátrico, ou mudá-lo de escola e até mesmo de cidade para afastá-lo das “más companhias”. Isso significa que o jovem homossexual que se abre para os seus pais corre riscos reais; nem sempre é uma boa idéia, mesmo que sinta a necessidade disso. Em certos casos, o fato de se declarar homossexual, longe de ser um ato libertador, pode ser uma forma de autopunição — uma maneira inconsciente de se fazer rejeitar mais uma vez. Eis a razão pela qual é essencial examinar a fundo suas razões, suas expectativas e seus objetivos antes de tomar uma decisão a esse respeito. O preço da mentira Diante desses riscos, muitos homossexuais escolhem nunca se abrirem para seus pais. As conseqüências podem ir do cômico até o trágico. Certos homossexuais fazem de conta que vivem sós enquanto vivem em casal há anos: tem dois números de telefone e o parceiro sai quando os pais vêm visitar seu filho. Certos homossexuais inventam-se relações heterossexuais, aparecem regularmente com uma mulher a tira-colo, e se criam uma reputação de grandes sedutores. Há também, claro, muitos homossexuais que se casam e têm filhos para manter o mito de sua heterossexualidade frente aos outros e a eles. Em todos esses casos, os homossexuais se condenam a uma vida de falsificação, a um sistema de mentiras que será cada vez mais difícil de se sustentar. Aqueles que não se casam e levam uma vida “heterossexual” acharam que a fachada se torna cada vez mais frágil com a idade: é fácil para uma pessoa jovem, homem ou mulher, levar uma vida social de solteiro. Isso se torna cada vez mais difícil em torno dos quarenta anos e, quando se chega aos cinqüenta, isso parece totalmente anormal aos olhos da sociedade. É fácil evitar as perguntas ou os boatos quando se é jovem; mas depois dos quarenta, quando todos os outros já casaram e tiveram filhos, o mito da heterossexualidade tornase mais difícil de se manter. A mentira tende a se complicar com o tempo e não a se simplificar. No que concerne aos homossexuais que se casam, é evidente que eles se expõem a muitas infelicidades. Inúmeros homossexuais fazem isso não para dissimular sua verdadeira orientação, mas para mudá-la: esperando que o casamento os “cure” de seus desejos inaceitáveis. Mas isso quase nunca acontece, e acabam caindo em uma assexualidade mais ou menos frustrada, ou acabam procurando aventuras clandestinas 64 com todos os riscos que isso implica. E encontram-se envolvidos, de qualquer modo, em uma rede de mentiras. Quando o homossexual pergunta a si mesmo se deve ou não sair do armário, deve avaliar o que isso lhe custará em fazê-lo ou não. Geralmente pensa-se na primeira pergunta, e não na segunda. Ora, o fato de esconder indefinidamente sua orientação sexual também tem um preço muito elevado. É importante se lembrar que a mentira não é estática: tem tendência em aumentar, em extensão e em profundidade, e acaba por invadir todos os campos da vida e se infiltrar em todas as relações pessoais. Só por essa razão já seria melhor viver fora do armário do que permanecer fechado nele, na medida do possível. Os riscos reais e o custo da mentira são os dois critérios mais importantes para serem considerados quando um homossexual se pergunta se deve ou não falar com sua família. Se o fato de continuar na clandestinidade vai o engajar em uma rede de mentiras indefinida, talvez valesse à pena correr o risco. Mas se o homossexual não precisar mentir demais porque vive longe de sua família ou que sua opinião lhe é indiferente, é possível que o risco não compense. Pode também, claro, existir reações mais positivas. Em meios relativamente liberais, sobretudo na Europa e nos Estados Unidos, a homossexualidade é hoje mais aceitável. Após um tempo de reflexão, os pais se dão conta que não vão poder mudar a orientação sexual de seu filho, e decidem aceita-la. Podem ver, graças a um número crescente de celebridades gueis, que existem muitos homossexuais felizes e prósperos. Podem ler obras recentes sobre a homossexualidade e observar que esta não é mais considerada uma doença, ou um crime, nem uma coisa vergonhosa. Compreenderão igualmente que não são responsáveis pela orientação sexual de seus filhos. Essa visão menos carregada de culpabilidade e de preconceitos poderá os levar a concluir que a melhor coisa para se fazer, é amar seu filho ou sua filha e tentar facilitar-lhe as coisas. Aliás, isso não é tão difícil: bastará convidar o parceiro de vez em quando, perguntar sobre ele, ou pelo menos se referir a ele como uma presença real na vida de seu filho. A maioria dos homossexuais, parece-me, só querem um mínimo de cortesia para se sentir aceitos pelas suas famílias. Nos Estados Unidos, sobretudo, a liberação guei teve tanta influência que todo esse cenário é perfeitamente possível. Em outros países ele é menos e talvez nunca o seja. Mesmo nesses países, é importante, contudo, que os homossexuais saibam que existem outras maneiras de viver e de assumir a homossexualidade. A culpabilidade nos pais O que acontece em uma família quando um dos filhos anuncia que é homossexual? Evoca-se freqüentemente o sentimento de culpabilidade que os pais podem sentir. Essa idéia é muito exagerada, e deriva em grande parte da visão melodramática da homossexualidade que predomina na cultura popular. A imagem da mãe horrorizada que se lamenta, que se esvai em lágrimas: “mas o que eu fiz?”, é uma cena clássica na grande tragédia da homossexualidade — mas tem, acho eu, muito pouco a ver com a realidade. No fundo, os pais não se sentem realmente responsáveis pela orientação sexual de seus filhos — mas temem, talvez, que as pessoas pensem isso. Então, representam perfeitamente diante de amigos, médicos e padres. Na verdade, é muito mais comum que os pais acusem as “más companhias” de terem corrompido seu filho. Longe de se criticar, geralmente é pela culpa dos outros que perderam seu filho ou sua filha. A sensação de perda é real, mas não necessariamente a culpabilidade. Claro, um terapeuta que trabalha com pais de homossexuais deve explorar com eles esse tema, e lhes explicar que a homossexualidade não é “culpa” de ninguém. Mas valorizar demais 65 uma suposta culpabilidade pode desviar a atenção de problemas mais imediatos (e importantes), como decidir qual a atitude eles irão adotar em relação a seu filho. Isso pode também aumentar a culpabilidade sentida pelo filho, que vê seus pais se mortificarem por causa dele — o que, no fim das contas, não serve para ninguém. Por outro lado, não esqueçamos que o discurso da culpabilidade, de onde vier, é sempre uma forma de manipulação. Em contrapartida, é essencial examinar com os pais os seus sentimentos de perda. Não é que esteja perdendo seu filho, claro; mas devem renunciar, subitamente, a toda uma série de projetos e ilusões aos quais se apegaram e cultivaram durante longos anos. É natural que eles passem por uma etapa de luto semelhante à do filho quando esse tomou consciência de sua homossexualidade. E esse processo compreenderá, da mesma forma, elementos de negação, de ira, de depressão, de culpabilidade… até eles chegarem, se tudo acontecer bem, à aceitação. Parece-me que a relação entre os pais e seus filhos homossexuais seria menos sofrida se eles pudessem dividir esse luto, que no fim das contas, é real para os dois lados. Promover esse diálogo, na medida do possível, é uma tarefa importante para o terapeuta. Mas, em todo o caso, é indispensável que o filho entenda o luto de seus pais, e que lhes dê o tempo de aceitar uma realidade que lhe causou, para ele também, problemas, dúvidas e confusão durante muito tempo. O papel do homossexual na família O homossexual declarado ocupa um lugar muito específico em sua família de origem. Como observamos acima, em muitos casos, tentará recuperar o amor ou a aprovação de seus pais tornando-se um “filho modelo” em outros campos. Esse fenômeno será exacerbado se o homossexual viver em um país do terceiro mundo onde os filhos só se tornam realmente independentes no momento de seu casamento. Em geral, o filho homossexual é o único que não se casa. Isso significa que nunca perderá seu estatuto de filho; nunca se tornará esposo nem pai, e, portanto, não acederá ao estatuto de adulto em que isso implicaria. De algum modo, permanecerá para sempre um filho. Isso, claro, não se limita aos homossexuais; em muitas famílias, os filhos solteiros têm que permanecer ao lado de seus pais e sempre estarem à disposição da família. É o caso da tradicional “solteirona”, eternamente disponível, que deve estar pronta para cuidar de seus pais em sua velhice, e de seus sobrinhos quando precisam. Mas essa situação ainda é mais difícil para os homossexuais justamente porque, na verdade, não são solteiros, mesmo que seus pais os considerem como tais. Têm na maioria das vezes, relações de casal e uma vida social importante; e não são mais livres ou disponíveis do que seus irmãos e irmãs casados. O estatuto exato do homossexual freqüentemente é objeto de conflitos e malentendidos. Os outros membros da família esperam dele que venham os ver, ou que os ajude economicamente: “Já que você é solteiro e não tem obrigações”. Então, ele se sente obrigado a ceder e, se não ceder, se sente culpado. Tudo isso pode causar sérios problemas para o homossexual em sua relação com sua família, e claro, com seu parceiro. Sua relação de casal pode ser seriamente afetada pela sua ligação com sua família de origem, pelas expectativas dessa. Por outro lado, toda essa situação mantém o homossexual em um papel familiar mais ou menos infantil, que pode inibir sua capacidade de autonomia e seu desenvolvimento pessoal. O outro armário: a orientação sexual do terapeuta O profissional da saúde mental que trabalha com homossexuais, deve, em algum momento, examinar a sua própria orientação, qualquer que seja. O fato de ser 66 heterossexual, frente a essa população, é problemático — mas o fato de ser homossexual também. Se o terapeuta é heterossexual, exceto se tiver uma fé cega em sua própria sabedoria, ser-lhe-á necessário enfrentar seus preconceitos e, freqüentemente, sua ignorância e, se for homossexual, deverá decidir se deve ou não comunicar sua orientação e sua experiência pessoal a seus pacientes. Muitos terapeutas, sobretudo se forem jovens, dirão que não têm nenhum preconceito em relação à homossexualidade. Isso não é verdade. Dizer: “Eu vejo o homossexual exatamente como qualquer um”, constitui uma postura falaciosa, mesmo que a intenção seja boa. Por um lado, ninguém tem uma atitude neutra em relação à homossexualidade: se se é homossexual, se é afetado pelo assunto porque se é homossexual; e se se é heterossexual, porque se é heterossexual. Por outro lado, os homossexuais não são “como qualquer um”. A identidade homossexual tem traços específicos que podemos achar bons ou ruins, mas que são sempre presentes. Quando as pessoas afirmam que não têm preconceitos, muitas vezes querem dizer que não têm preconceitos negativos; mas até mesmo aqueles que parecem positivos (por exemplo, “são pessoas totalmente normais”), contém toda uma série de pressuposições. Entre outras, implicam muitas vezes uma visão normativa da maneira que se deve conduzir uma pessoa ou um casal “normal” — isto é, que é heterossexual. Por definição, estejamos ou não contentes com isso, a “normalidade”, na sociedade atual é a heterossexualidade; e considerar o homossexual como “normal”, portanto, é assimilá-lo a modelos heterossexuais que não lhe são necessariamente aplicáveis. Quando dissemos que uma relação entre duas mulheres parece com um casamento, nós a reduzimos e a simplificamos, tirando-lhe os atributos específicos que examinaremos no capítulo 7. Claro, muitos homossexuais gostariam, acima de tudo, de serem considerados como “normais” — e são precisamente aqueles que não aceitam totalmente sua orientação sexual. Seguir o fluxo e se apropriar da idéia de que os homossexuais são “como qualquer um” podem até mesmo levá-los a pensar que eles devam estar muito mal — porque no fundo não se sentem “como todo mundo”, mas diferentes. Insistir sobre o fato que eles são iguais invalida a consciência deles mesmos. O objetivo terapêutico, não é, portanto, fazem com que se sintam “normais”, mas que assumam e apreciem sua diferença. Será que é preciso ser homossexual para trabalhar com homossexuais? Os profissionais da Saúde Mental — os psicólogos, os psiquiatras, os psicanalistas, etc. —, que trabalham com homossexuais deveriam eles próprios ser homossexuais? Isso pode parecer uma questão retórica, mas os teóricos da homossexualidade continuam a se questionar. Portanto, vale a pena examiná-la de perto. As pesquisas a esse respeito nos Estados Unidos revelam que, na sua vasta maioria, os homossexuais preferem que seu terapeuta seja homossexual. Por quê? Em primeiro lugar, porque não é necessário dar ao terapeuta homossexual lições sobre o meio guei, nem sobre as práticas sexuais gueis, nem sobre os preconceitos que os homossexuais encontram no dia-a-dia. Há, portanto, um elemento de eficiência: ninguém gosta de gastar tempo em sua consulta para explicar ao terapeuta coisas que ele deveria saber. Nesse sentido, a população homossexual têm os mesmos direitos que qualquer população específica. Assim, os alcoólatras têm o direito de se tratar com pessoas que conhecem a fundo sua problemática. Mas isso não se aplica apenas às populações doentes: as pessoas de idade devem poder consultar profissionais que conhecem os 67 problemas (e os recursos) específicos da terceira idade. E ninguém duvida que é preciso levar as crianças em psicólogos ou psiquiatras que sejam especializados na infância. Isso ainda é mais verdadeiro quando se trata de populações minoritárias que foram, historicamente, objetos de preconceitos, ódio, discriminação, ou perseguição. A questão que se coloca, pois, é esta: será que é preferível que um terapeuta que trabalha com judeus seja ele mesmo judeu? E a resposta seria: sim, se o seu judaísmo fosse um problema ou um tema central para a pessoa que consulta. Não se o seu judaísmo nunca foi um problema para ele ou deixa-o totalmente indiferente. Do mesmo modo, seria preferível que um terapeuta que trabalha com negros seja ele mesmo negro. Sim, se o fato de ser negro for um tema importante na vida da pessoa. Portanto, é preferível que o terapeuta que trabalha com homossexuais seja homossexual? Sim, se a homossexualidade for para o indivíduo que consulta uma parte essencial de sua identidade pessoal. Ora, no estado atual das coisas, para a grande maioria dos homossexuais sua orientação é, de fato, uma parte central de sua vida. Não é à toa que os homossexuais falam tanto, entre eles, de sua experiência enquanto homossexuais: quando e como se deram conta disso, como foi sua primeira relação, como saíram do armário, como suas famílias reagiram, como é a sua relação de casal. São temas recorrentes nas reuniões sociais dos gueis; e não é porque os homossexuais são mais obcecados do que qualquer outro, mas porque esses temas continuam a ser atuais e importantes até mesmo para aqueles que assumem plenamente sua orientação sexual. Em segundo lugar, é difícil para um homossexual ter uma confiança plena em um terapeuta heterossexual (mesmo que não conheça com certeza sua orientação sexual, tenderá a considerá-lo heterossexual até que prove o contrário, simplesmente porque é sabido que há muitos poucos terapeutas gueis.) E os homossexuais conhecem perfeitamente os preconceitos que podem ter um psiquiatra, um psicanalista ou um psicólogo heterossexual. Portanto, serão atentos a cada reação do terapeuta, tentarão constantemente adivinhar a opinião que ele tem deles, e procurarão, claro, “inocentar-se” o máximo possível, em uma busca da aceitação mais uma vez. Terão, neste caso, uma certa reticência em falar de suas práticas sexuais, dos detalhes de sua vida de casal, ou de seus próprios medos, ou dúvidas a respeito da homossexualidade. É possível que, algumas vezes, sintam vergonha, insegurança, ou simplesmente desconfiança. Nenhum desses elementos contribui para uma boa relação terapêutica. Um problema freqüente dos homossexuais em tratamento com heterossexuais, é que esses não compreendem, ou não valorizam seus sentimentos. Uma lésbica conta: “Eu tinha uma relação de casal há muitos anos, e estava em psicoterapia há quase dois anos. Eu gostava da minha terapeuta, era muito aberta e eu pensava que ela não tinha problema com a homossexualidade. Mas um dia, ela me falou, a respeito de minha amiga: ‘Bem, o que eu estou entendendo, é que vocês são boas amigas e que às vezes têm relações sexuais.’ Eu fiquei em estado de choque, de repente me dei conta que ela não tinha entendido nada durante os dois anos anteriores”. Podemos observar aqui um fenômeno bastante comum, que é a desqualificação do amor entre os homossexuais: o que eles estão vivendo não é amor, mas uma combinação mais ou menos superficial, mais ou menos satisfatória, de sexo e de amizade. Assim, quando o homossexual diz que está apaixonado, o terapeuta entende dependência ou exageração neurótica. Talvez pudéssemos falar de uma pretensão ao monopólio do amor por parte dos heterossexuais, no qual a única ligação autêntica é aquela que existe entre um homem e uma mulher: o que podem sentir duas pessoas do mesmo sexo é apenas um pálido reflexo do verdadeiro amor. 68 Um outro problema bastante freqüente, embora menos aparente para os homossexuais em terapia com heterossexuais, é que esses têm intenções de conversão mais ou menos conscientes — isto é, a de mudar a orientação sexual de seu paciente. Isso não é necessariamente verbalizado, nem explicitado, mas aparece antes como uma série de convicções sobre a homossexualidade em geral ou sobre a pessoa em particular. Como descreve a lésbica citada acima: “Minha psicóloga não pensava que eu fosse realmente homossexual. Um dia, depois de dois anos de terapia, ela me disse que, se pelo menos tivesse recebido um tratamento apropriado durante a minha adolescência, eu não seria lésbica. Eu me senti muito mal, totalmente incompreendida, e resolvi, a partir desse dia, não mais lhe falar nem de minha relação de casal, nem da minha homossexualidade. Trabalhamos outras cosias, de modo muito produtivo, mas nunca mais falei com ela desses assuntos.” Essa mulher foi depois em tratamento com uma psicanalista heterossexual mais aberta. Ela conta: “Era muito liberal, não tinha nenhum problema com a homossexualidade. Mas pensava que era uma preferência, que se podia escolher sua orientação. Eu tentava lhe explicar que não a vivia nem um pouco como uma escolha, mas como uma parte de mim mesmo. Passamos horas a fio a debater sobre isso, e, enfim, chegamos a um acordo: eu era lésbica por natureza, mas eu podia escolher meu modo de vivê-la. Era também muito importante para ela procurar as causas de minha homossexualidade — coisa que não me interessava em especial. O principal para mim era viver melhor, e ela finalmente concordou em abandonar essa questão das causas. E depois eu acho que um terapeuta homossexual teria entendido melhor os problemas que tive com minha identidade, minha família e a sociedade, a respeito da homossexualidade”. Vemos que esses “erros de leitura” e esses preconceitos teóricos acrescentados a uma certa ignorância bem intencionada, podem ter grandes conseqüências para o homossexual que está em tratamento com um heterossexual. Aos poucos, o paciente perde confiança e espontaneidade; para de falar das coisas que lhes são de fato importantes; começa a calar seus sentimentos reais e, em casos extremos podem até mesmo chegar a duvidar deles. É evidente que nada disso deveria acontecer em uma psicoterapia bem manejada, qualquer que seja a orientação sexual do terapeuta. Mas muitos homossexuais contam que tiveram esse tipo de dificuldade. É provável, contudo, que o problema não resida na heterossexualidade dos terapeutas, mas em uma simples falta de conhecimentos. Na maioria dos países (com a notável exceção dos Estados Unidos, graças aos esforços incansáveis de um grupo de psicanalistas e de psicólogos que trabalham nisso há vinte anos), aprende-se muito pouco sobre a homossexualidade nos institutos de formação em psicanálise, terapia de casal e de família, etc. E, muito freqüentemente, se o tema é abordado mais profundamente, é de modo muito breve e no quadro da psicopatologia ou das perversões sexuais, em paralelo com os temas como o travestismo, o fetichismo ou a pedofilia. Podemos pensar que isso mudará aos poucos; mas, por enquanto, na maioria dos países, o ensino sobre a homossexualidade é insuficiente e pouco útil em um contexto de tratamento. Em conclusão, penso que é preferível no estado atual das coisas, que os terapeutas que trabalham com homossexuais sejam da mesma orientação sexual. Essa opinião (com certeza para ser debatida) vai ao encontro de duas grandes tradições da psicoterapia. A primeira deriva de uma visão patológica da homossexualidade e afirma que o terapeuta homossexual é, por definição, alguém que sofre de uma desordem mental grave. Ora, uma pessoa doente não deve tratar outros doentes: exatamente como 69 o terapeuta que trabalha com psicóticos não deve ser ele próprio psicótico, aquele que trabalha com homossexuais não deve ser homossexual. É, nessa lógica que muitos institutos de formação em psicanálise continuam a recusar a admissão aos candidatos homossexuais. Como dizia há alguns anos uma psicanalista mexicana, membro da Associação Internacional de Psicanálise: “Não pode haver psicanalista homossexual — isso não existe. Por definição, qualquer candidato admitido à formação é uma pessoa essencialmente sã”. Esse tipo de atitude não é mais, claro, tão comum atualmente — pelo menos explicitamente. Não é mais a norma em todos os países, nem em todos os institutos. Por exemplo, a American Psychiatry Association resolveu em 1991 não mais discriminar os candidatos à admissão levando-se em conta a sua orientação sexual. Mas a evolução neste campo é muito lenta. Uma outra tradição muito generalizada nas profissões da saúde mental, é que não é necessário que um terapeuta conheça em sua própria pessoa, a problemática de seus pacientes. Esse ponto de vista deriva em grande parte do modelo médico, no qual ele é perfeitamente lógico: de fato, não é necessário que um médico sofra, ou tenha sofrido, de uma úlcera para poder tratar um paciente com úlcera. Essa idéia se estendeu no campo da saúde mental, na qual ela, talvez, não seja mais tão aplicável. Nessa ótica, um psicólogo não precisa ser “idoso” para trabalhar com a terceira idade, nem ser divorciado para tratar de divorciados, nem ter filhos para trabalhar com mães de família. Poderíamos contestar que talvez isso não seja necessário… mas desejável em certos campos, como o da homossexualidade. A questão não é tanto o fato de que a população homossexual apresenta traços ou problemas específicos (embora isso seja em parte verdadeiro), mas que até o momento muito pouco desse assunto foi estudado e ensinado. A experiência pessoal, portanto, é indispensável para compensar as lacunas no conhecimento. Vamos torcer para que os psicólogos, psiquiatras e psicanalistas sejam um dia melhor preparados; assim, não será mais necessário eles serem homossexuais para ajudar essa população específica. Os terapeutas gueis devem revelar sua orientação? Isso não significa que os terapeutas homossexuais não tenham problemas para tratar os homossexuais. Deparam-se também com uma série de dificuldades que merecem reflexão. Em primeiro lugar, é desejável que um terapeuta guei se revele como tal? Essa pergunta contém uma outra, que examinaremos a seguir: um terapeuta homossexual pode, ou deve, viver na clandestinidade? Pessoalmente, penso que não. Para ajudar seus pacientes homossexuais, o terapeuta homossexual deve se assumir plenamente. Se em sua vida pessoal ainda tem medo ou vergonha, poderá dificilmente levar seus pacientes a ter uma aceitação positiva de sua orientação sexual. Ele deve também conhecer, em sua própria pessoa, o custo e os benefícios da identidade homossexual e, acima de tudo, ter desenvolvido nele próprio uma certa coerência interna. A coincidência entre aquilo que se pensa, que se sente, que se diz e que se faz — poder dizer aquilo que se pensa e aquilo que se sente, e agir em decorrência disso — assim como a honestidade, são atributos essenciais em qualquer terapeuta, qualquer que seja sua orientação sexual ou sua abordagem teórica. Não que um terapeuta deva encarnar a sabedoria, mas a integridade e a honestidade são indispensáveis em uma boa relação terapêutica. E essa relação está no cerne de qualquer tratamento psicológico. Um psiquiatra ou um psicólogo pode ter todos os defeitos próprios do gênero humano; só é preciso que seja íntegro e honesto para fazer bem o seu trabalho. Isso não significa, claro, que deva comunicar a seus pacientes 70 sua vida privada; mas se ele se respeita, dificilmente poderá manter escondida sua verdadeira identidade. Isso implica em alguns problemas. Em primeiro lugar, o terapeuta guei que está fora do armário será visto com uma certa desconfiança por seus colegas e pelas associações profissionais. Esses tenderão a considerá-lo neurótico, provocador, ou agressivo se ele for “abertamente” guei, e talvez pensem que ele esteja em uma situação delicada para tratar ao mesmo tempo os pacientes homossexuais (porque ele o é) e os heterossexuais (porque ele não o é). Será preciso também que o terapeuta tome muito cuidado com suas relações sociais. Pode ter dificuldades se freqüenta lugares ou participe de reuniões nas quais corre o risco de encontrar pacientes. Esse dilema, importante nas sociedades onde a população guei é muito reduzida, existe também nas comunidades maiores. Terapeutas gueis em cidades como Nova Iorque e São Francisco escreveram a respeito desse problema que suas relações sociais (ou sexuais) lhes colocam no interior de sua própria comunidade, onde podem, a qualquer momento, darem de cara com pessoas que foram, são, ou serão um dia seus pacientes. O dilema então se coloca desse modo: o terapeuta pode evitar a vida social guei (e sofrer o isolamento que isso implica), ou então correr o risco de expor sua vida privada a pessoas com quem ele deve, contudo, manter relações estritamente profissionais. Isso não representa apenas um problema para o terapeuta, claro, mas também para seus pacientes: ninguém gosta de socializar-se com o seu terapeuta e de se sentir observado por ele. Essas dificuldades, muito mais raras no meio heterossexual, dada a sua vastidão de opções de socialização, ainda não foram resolvidas de uma maneira satisfatória pelos especialistas no assunto. Cada terapeuta deve, portanto, resolver esse dilema segundo seus próprios critérios e segundo as circunstâncias. Ajudar melhor os seus pacientes homossexuais Supondo, portanto, que o terapeuta homossexual saiu do armário, voltamos para a nossa questão inicial: é desejável que um terapeuta homossexual se revele como tal? A resposta rápida é que não poderá evitá-lo. O terapeuta guei que trata de homossexuais será conhecido e recomendado como tal. Contudo, existem alguns que recusam revelar sua orientação sexual a seus pacientes — e isso provavelmente em nome da neutralidade terapêutica que lhes foi inculcada ao longo de sua formação. Mas pode, aqui também, surgir problemas que não foram previstos pelos seus mestres. Acho que os terapeutas que dissimulam sua orientação para manter a neutralidade, tão necessária em outras situações, estão perdendo uma chance de ajudar melhor seus pacientes homossexuais. Primeiramente, o homossexual que procura uma ajuda psicológica necessita de um interlocutor que ele perceba como válido, que o escute e que lhe fale em seus próprios termos — e ele tem direito a isso. Um dos principais problemas dos homossexuais, é que lhes faltaram interlocutores dos quais eles respeitem a opinião, e que os entendam com empatia e compreensão. O terapeuta pode ter um papel reparador extremamente importante ao lhes oferecer a escuta, plenamente assumida e respeitosa de alguém que conhece sua condição. É crucial que esses pacientes saibam que aí existe uma experiência comum, mesmo que a história ou as circunstâncias pessoais sejam diferentes. Em segundo lugar, é essencial para os homossexuais vencer a vergonha: e o paciente sabe, se estiver em tratamento com um terapeuta guei, que esse passou também pelas dúvidas e medos da adolescência, venceu as dificuldades da clandestinidade, e viveu as vicissitudes do casal homossexual. Isso lhe facilitará a tarefa 71 para falar de sua própria experiência, sem sentir a necessidade de se “desculpabilizar” ou de se justificar. O fato de viver publicamente sua orientação traz, contudo, certos riscos para o terapeuta. À parte os problemas profissionais já mencionados, ele corre o risco de se tornar um objeto de conquista para seus próprios pacientes. Na medida em que o terapeuta é percebido como uma pessoa equilibrada e positiva (mesmo que na verdade não o seja), e de uma certa forma como uma figura de autoridade, pode muito facilmente tornar-se para seus pacientes um objeto de admiração, de disputa, e, claro, de sedução — elementos que afetarão a relação e o trabalho terapêutico. Os psicanalistas que conhecem bem os riscos da transferência, são mais bem equipados para enfrentar esse tipo de situação — mas ela é ainda mais complicada quando se trata de um paciente homossexual e de um terapeuta de um mesmo sexo. Infelizmente, existe entre os homossexuais uma tal necessidade de modelos positivos, que o terapeuta guei pode se ver preso em dinâmicas de sedução muito mais delicadas do que aquelas que se apresentam habitualmente com os heterossexuais. Finalmente, o terapeuta guei tem a obrigação de se manter informado no vasto campo das pesquisas sobre a homossexualidade — tarefa difícil porque se trata de um campo relativamente novo, e porque poucas obras especializadas são traduzidas. Todo ano aparecem novas teorias e explicações da homossexualidade que, verdadeiras ou falsas, merecem um exame aprofundado. Todo ano sabe-se mais sobre o ciclo vital dos homossexuais e sobre os problemas específicos que os afetam (inclusive, claro, a AIDS no caso dos homens). O terapeuta deve também se manter continuamente atualizado sobre as tendências sociais e culturais que dizem respeito aos homossexuais e a legislação sobre o assunto que evoluem muito rapidamente em inúmeros países. Finalmente, parece-me que o terapeuta que trabalha com homossexuais deve examinar cuidadosamente todos os seus preconceitos, suas pressuposições, e suas verdadeiras intenções em relação a seus pacientes. Caso ele seja homossexual, deverá também se manter informado sobre as pesquisas atuais e os fenômenos sociais e culturais que afetam essa população. Temas de reflexão e recomendações para o trabalho terapêutico O trabalho com o adolescente homossexual Um estudo dirigido pelo Institute for the Protection of Lesbian and Gay Youth (Instituto para a Proteção das Jovens Lésbicas e Gueis) na cidade de Nova Iorque concluiu em 1987, que o principal problema para essa população é o isolamento, e enumerou três tipos: o isolamento social (os jovens homossexuais sentem que não podem falar com ninguém); emocional (sentem-se afetivamente separados de sua família e de seu contexto social); e cognitivo (eles têm pouco acesso a uma informação confiável sobre a homossexualidade e lhes faltam modelos63). O segundo problema mais comum é o medo de ser rejeitado pelos pais. O terceiro é a incidência, extremamente elevada, de condutas autodestrutivas que vão, desde o abuso de álcool ou de outras drogas até as tentativas de suicídio. O terapeuta que trabalha com essa população deve, portanto, ficar particularmente atento a esses riscos. Em especial, sempre deve verificar se não há problema de alcoolismo ou toxicomania. 63 E. S. Hetrick e A. D. Martin (1987). Developmental issues and their resolution for gay and lesbian adolescents. Em Journal of homosexuality, 14 (1/2), 25-43. Citado em Kristine L. Falco (1991). Psychotherapy with lesbian clients. New York, Brunner/Mazel, Inc., p. 155. 72 Exercícios para ajudar o jovem homossexual a sair do armário O terapeuta pode ajudar o jovem homossexual a: – Imaginar uma grande variedade de conseqüências possíveis caso ele saia do armário. O que poderia acontecer de pior? E de melhor? E de mais provável? É útil projetar todas essas opções no futuro: em dois, cinco, dez anos… E caso continue a se esconder, como o jovem homossexual imagina a sua situação familiar em dois, cinco, dez anos…? – Se o jovem homossexual resolver não sair do armário, ajudá-lo a imaginar as implicações e as ramificações da mentira: quais formas ela irá tomar no futuro, e o que ele deverá fazer para mantê-la? E o que significaria dizer a verdade? Quais são as verdades mais importantes que o jovem homossexual gostaria de revelar sobre ele mesmo? Qual imagem ele procura projetar? Por quê? – Explorar maneiras ou modos de limitar as conseqüências da saída do armário; planificar o processo passo a passo, fazendo repetições detalhadas. – Construir uma rede de apoios: ajudar o rapaz ou a moça a detectar e a se aproximar dos amigos ou parentes que poderiam apoiá-lo ou apoiá-la em caso de problemas com seu pai ou sua mãe. – Visualizar um futuro ideal enquanto homossexual. Qual imagem tem o paciente do homossexual feliz? Qual aparência ele tem, como se veste, que tipos de relações tem, como vive? Se o paciente se tornar um homossexual feliz, como será ele em dois, cinco, dez anos? Exercícios para promover uma identidade guei positiva – Identificar os estereótipos: explorar com o paciente tudo aquilo que ele sabe sobre a homossexualidade, desde a sua infância. Será que ele pensa que um homossexual pode ser equilibrado e feliz? Por que sim, por que não? Será que ele pensa que relações entre pessoas do mesmo sexo podem ser equilibradas e duráveis? Por que sim, por que não? E o que ele gostaria de pensar sobre isso? – Começar a desenvolver o conceito de papel em oposição ao de identidade. Explicar que todos nós representamos vários papéis nas diferentes situações de nossas vidas, mas que isso não nos impede de sermos, no fundo, a mesma pessoa com uma identidade equilibrada e constante. No campo da homossexualidade é perfeitamente possível se apresentar e se conduzir enquanto homossexual em certas situações, e em outras não — e de fazê-lo bem, sem nunca esquecer contudo que permanecemos sempre a mesma pessoa. – Visualizar em detalhes os diferentes papéis que podem ser necessários nos contextos da família, da escola ou do trabalho, entre amigos ou com o parceiro. Esses exercícios servem para combater a sensação de fragmentação que muitos homossexuais têm. Com efeito, muitos deles dizem: “Sinto-me dividido, puxado para os dois lados; na casa dos meus pais devo ser uma pessoa, no trabalho uma outra, e ainda uma outra com os meus amigos…”. Nesse campo, como em qualquer trabalho terapêutico, é indispensável promover a integração e construir uma identidade coerente. Finalmente, é muito importante colocar a homossexualidade em perspectiva: explicar que a orientação sexual não é tudo, e que ela não deveria afetar as outras vertentes da vida. O desenvolvimento pessoal tem muitas facetas, e o adolescente pode continuar funcionando e trabalhando nos outros campos, mesmo que nesse momento aí sua orientação sexual seja pouco clara ou problemática. Isso quer dizer também que, nas sessões terapêuticas, não é bom falar somente, ou sempre, da homossexualidade (mesmo que o paciente o deseje), é preciso integrar outros temas e projetos de vida além 73 dessa questão. É importante não se fixar na obsessão da pessoa em luta com sua identidade sexual; continuar a cultivar os outros aspectos da vida, e, na medida do possível, manter intacta a estrutura do cotidiano. Recomendações gerais homossexuais para o terapeuta que trabalha com É muito importante: – Tomar consciência dos preconceitos e dos estereótipos geralmente associados à homossexualidade (quer se concorde ou não com eles), e examiná-los de uma maneira crítica; – Não cair na armadilha de procurar as causas da homossexualidade. Em primeiro lugar, até agora nenhuma das inúmeras teorias nesse campo foi provada. Em segundo lugar, o fato de procurar causas implica que a homossexualidade é uma patologia que precisa ser explicada; em contrapartida, ninguém se pergunta por que as pessoas são heterossexuais. Em terceiro lugar, procurar razões pode desviar a atenção das tarefas a cumprir na vida atual, ou servir como pretexto para não mudar seu modo de pensar; – Nunca tentar modificar a orientação sexual do paciente, mesmo que este o deseje. Os estudos a respeito indicam que isso não somente é impossível, mas que qualquer tentativa nesse sentido pode ser extremamente perigosa. Até mesmo a American Psychiatry Association recentemente se posicionou contra aquilo que se chama de “terapias de reversão da homossexualidade”. O objetivo é mais o de ajudar a pessoa a aceitar a sua orientação sexual e de ter uma vida satisfatória na homossexualidade; – Nunca se permitir uma tentativa de sedução. Nesse contexto, sedução não se refere somente ao plano sexual, mas a qualquer esforço, consciente ou não para “encantar” o paciente, sobretudo quando se é de sexo oposto. Alguns terapeutas homens caem na armadilha de querer demonstrar às lésbicas que os homens não são maldosos, e as terapeutas do sexo feminino, em certos casos, tentam provar aos homossexuais masculinos que não há nada a temer na mulher… A intenção aqui, de “consertar” a relação do paciente com o sexo oposto, talvez seja louvável, mas é falaciosa. A homossexualidade não deriva de uma hipotética rejeição ou de um medo do sexo oposto que precisa ser revertido. 74 CAPÍTULO 5 HOMOFOBIA INTERIORIZADA A maioria dos homossexuais na sociedade atual, mesmo que se aceitem como tais, carregam em si um conflito existencial permanente. A homofobia interiorizada não tem fim: ela ressurge, sobre diferentes formas, ao longo do ciclo vital. Complica a percepção que o homossexual tem de si mesmo e dos outros; colore todas as suas relações interpessoais assim como o seu projeto de vida e sua visão de mundo. Constitui provavelmente a diferença subjetiva mais importante entre homossexuais e heterossexuais. A palavra “homofobia” significa medo ou rejeição da homossexualidade. Esse medo pode parecer instintivo, como o medo do fogo, mas não o é. Constitui mais um fenômeno cultural que está longe de ser universal, e que reveste diferentes formas e significações segundo o contexto. Nas sociedades pré-modernas, como o vimos, as pessoas não eram classificadas segundo suas condutas sexuais; portanto não havia rejeição da homossexualidade como tal. E até mesmo hoje, em certos países a homofobia aplica-se somente aos homens, e não às lésbicas; ou somente aos homens que se deixam penetrar; ou somente aos homens que se vestem como mulheres. Em outras palavras, se existe uma definição única da homossexualidade, também não há da homofobia. Sua significação muda conforme a época e o lugar; trata-se portanto de um fenômeno social e cultural. A homofobia não é nem instintiva, nem natural, nem universal… nem inevitável. Lembramo-nos que as relações homoeróticas, longe de sempre serem condenadas, foram amplamente aceitas e até mesmo admiradas em certas sociedades, como na Grécia antiga. Mas esse fato cultural tinha também suas regras do jogo. O jovem adolescente que se deixava penetrar por um homem mais velho, assim recebendo virilidade e sabedoria, não devia de modo algum permanecer passivo na vida adulta; devia, por sua vez, assumir o papel ativo digno de um homem maduro. Portanto, se havia crítica, era somente dirigida ao homem que transgredia certas regras; mas as relações homoeróticas como tais eram amplamente praticadas e admitidas. Em contrapartida, em outras sociedades, como na América Latina atual, existem outras regras do jogo e, portanto, outras definições da homofobia. Assim, o homem que penetra um outro homem não é considerado um homossexual — e, portanto, não é objeto de homofobia. Isso não é o caso, em contrapartida, para o homem que se deixa penetrar: como ele se rebaixou ao papel da mulher, é visto como um homossexual, e desprezado como tal. Homofobia e confusão dos gêneros Poderíamos, portanto, aprimorar nossa definição, e dizer que a homofobia não é somente o medo ou a rejeição ligados à relação sexual homoerótica, mas também ligados à confusão dos gêneros. Assim, em certos países, o problema não é que um homem penetre um outro: o problema, é ser penetrado — quer dizer, que um homem possa se assemelhar à “uma mulher”. Do mesmo modo, em muitas sociedades, não é a lesbianidade que é reprovada, mas o fato de que uma mulher possa se comportar “como um homem”. Mesmo na pornografia, a homossexualidade deve respeitar os gêneros para ser admitida. Assim, as relações sexuais entre mulheres são perfeitamente toleradas enquanto essas são “femininas”: nos filmes pornográficos vê-se mulheres de uma 75 feminilidade exagerada, mas nunca lésbicas de aparência masculina — que são, entretanto, também freqüentes no mundo real. E nos filmes para homossexuais, os protagonistas são sempre homens mostrando a mais robusta virilidade — mas nunca “queens” nem homens efeminados, que geralmente aparecem como personagens risíveis nas comédias de massa. Portanto, o medo da homossexualidade recobre um outro que é muito mais arcaico e universal: o medo da confusão dos gêneros. Esse medo, que um homem possa deixar de ser homem, ou uma mulher deixar de ser mulher, tem, provavelmente, raízes muito profundas na cultura humana, tanto individual quanto coletiva. Portanto, é importante fazer uma distinção entre a rejeição da homossexualidade e aquela da confusão dos gêneros que é mais arcaica. Muitos preconceitos derivam desse último elemento, mais do que do primeiro. Ouve-se freqüentemente heterossexuais dizerem – após terem conhecido um homossexual – coisas do tipo: “É curioso, eu achava que eram todos efeminados; ora, esse parece totalmente masculino.” Ou então, referindose a uma lésbica: “Mas ela é muito bonita, parece uma mulher de verdade!” Portanto, é indispensável que homossexuais e heterossexuais entendam que a homossexualidade nada tem a ver com o sexo biológico, e que ela não o afeta de modo algum. Mas sexo e gênero não são a mesma coisa; e observamos que uma parte desse modo depende justamente da confusão, bastante geral entre esses dois conceitos. O sexo se refere a certas características biológicas: nasce-se macho ou fêmea, com os atributos físicos correspondentes. A noção de gênero, em contrapartida, compreende toda uma série de atitudes, idéias, sentimentos, e condutas que se aprende desde a infância, e que constituem a identidade e o papel masculino ou feminino. Um homem pode ser masculino ou não, mas sempre permanece homem; uma mulher, mesmo masculina, permanece sempre mulher. Assim, um homem que se deixa penetrar por um outro homem pode ser considerado (e ele mesmo se considerar) como menos masculino — mas nem por isso deixará de ser homem. E uma mulher que gosta de mulheres pode ser percebida como “masculina” — mas sempre será mulher. Isso é particularmente importante para os homossexuais que sofrem freqüentemente em sua auto-estima justamente porque se consideram menos homens ou menos mulheres. Todas essas idéias e todos esses preconceitos constituem o que chamamos hoje de homofobia. Essa, como se vê, não se limita de modo algum aos heterossexuais. Os homossexuais são igualmente expostos a estas preconceitos, e isso desde a sua mais tenra idade (e muito antes de ter consciência de sua orientação sexual). A homofobia está em todo o lugar na cultura, tanto nas brincadeiras e fofocas quanto nos filmes, nos livros, etc. Ora, o que acontece quando uma pessoa é exposta, desde sempre, a uma certa idéia? Acaba por interiorizá-la: torna-a sua, adota-a sem mesmo se dar conta disso, como tantas outras idéias que acabam por fazer parte de sua educação. Então, a homofobia torna-se “natural”: torna-se um valor implícito e inconsciente, gerando reações imediatas, automáticas e, aparentemente, instintivas. A homofobia nos heterossexuais A homofobia preenche várias funções importantes nos heterossexuais. Legitima sua própria orientação sexual; faz-lhes sentir que seus valores morais e seus costumes sexuais são naturais e até mesmo superiores; permite a eles se sentirem orgulhosos de sua masculinidade ou feminilidade. Sejam ou não felizes em suas relações amorosas, desfrutem ou não de sua vida sexual, pelo menos eles têm a satisfação de se sentirem “normais”. A homofobia tem, portanto, como função primordial a de “normalizar” a 76 heterossexualidade, e de lhe dar um verniz de superioridade moral que, talvez, não existisse em outra situação. Os homossexuais são sempre os outros Mas ela também tem uma outra função essencial: permite ao heterossexual negar em si próprio qualquer desejo homoerótico, embora, tenhamos todos (ou melhor, porque temos todos) tendências nesse sentido. Isso nada tem de surpreendente: é o que acontece com todos os desejos que são proibidos pela sociedade. Lançados para fora, são depositados nas minorias como os homossexuais, os judeus, os negros, etc. A projeção é um mecanismo de defesa inconsciente pelo qual atribuímos a outras pessoas os traços, as emoções, ou os pensamentos que não podemos aceitar em nós mesmos porque são incompatíveis com nossos valores morais ou nossa auto-imagem. Portanto, ao invés de reconhecê-los em nós, colocamo-los no exterior. Por exemplo, investimos os outros com as tendências ou desejos homossexuais que não podemos ou não queremos ver em nós mesmos: a projeção homofóbica faz com que os homossexuais sejam sempre os outros. Assim, a homofobia “salva” o heterossexual da homossexualidade. Esse mecanismo explica também o fenômeno coletivo do bode expiatório, pelo qual a sociedade atribui certos traços que não aceita nela mesma à uma pessoa ou a um grupo de pessoas. É assim que funciona a homofobia no plano social: os homossexuais, sobretudo se forem muito visíveis, servem de bodes expiatórios para a sociedade heterossexual majoritária. Isso explica porque a liberação guei é sistematicamente acompanhada de uma reação em sentido contrário. Um paradoxo, e um dilema, desse movimento, é precisamente o fato de que quanto mais os homossexuais tornam-se visíveis, mais eles se tornam um alvo de maior identificação para a projeção homofóbica. Isso em parte explica que nos Estados Unidos a liberação guei acompanha-se de uma homofobia cada vez mais explícita, organizada e militante. A homofobia serve também para banalizar a homossexualidade. Com a repetição de estereótipos e simplificações, caricatura-a e a transforma em uma paródia da sexualidade “natural” e do amor “verdadeiro”. O casal homossexual, sobretudo se for de idade (o que traz ainda outros preconceitos), é percebido como um tipo de pastiche gracioso do “verdadeiro casal” que, claro, é heterossexual. Essa banalização serve para despojar a homossexualidade de seu caráter radicalmente estranho e diferente. É reconfortante quando se pensa na homossexualidade, de ter em mente um filme tão divertido e inofensivo quanto A gaiola das loucas. A homofobia nos homossexuais A homofobia desenvolve um papel muito diferente nos homossexuais. Suas formas e manifestações podem mudar no decorrer do ciclo vital, mas sempre será presente de um modo ou de outro — pelo menos na sociedade atual. Pode parecer estranho o fato de que um homossexual possa ter preconceitos ou sentir uma certa rejeição da homossexualidade, mas é um fenômeno muito generalizado. A homofobia não se expressa necessariamente de uma forma direta (o que torna difícil a sua identificação); outrossim, ela toma formas indiretas que eu tentarei descrever agora. Freqüentemente acontece, por exemplo, que os homossexuais desconfiem de seus próprios desejos ou sentimentos: esses podem lhes parecer perversos, sujos ou até mesmo perigosos. Em casos extremos, podem até mesmo lhes parecer estranhos, como impulsos que não lhes pertencem — que não vêm do interior, mas do exterior. Tudo isso pode, evidentemente, ter conseqüências muito graves. O fato para uma pessoa de rejeitar 77 sistematicamente seus próprios desejos ou sentimentos acabará, com o tempo, afetando suas relações com os outros e com ela mesma, sua vida sexual, e até mesmo a sua saúde física. Esse processo pode chegar à repressão habitual de certas emoções, provocando problemas importantes para as relações sociais e a intimidade. Os homossexuais que sofrem de um grau elevado de homofobia interiorizada podem, por exemplo, serem incapazes de expressarem seu amor para uma pessoa do mesmo sexo — mesmo que vivam com ela, ou tenham uma relação com ela, de vários anos. Pode lhes parecer normal que outros (por exemplo, sua família) critiquem ou ignorem seu parceiro; e eles mesmos podem relegar sua relação de casal para um plano muito secundário, ao fazer projetos de futuro sem levá-la em conta. Não é raro encontrar nos homossexuais (sobretudo masculinos) uma profunda ambivalência no que concerne o casal: sua atitude implícita poderia se resumir: “Tenho um amigo, mas não é realmente meu parceiro”. Essa rejeição das emoções, dos desejos e das necessidades em si mesmo podem se generalizar e se estender à vida afetiva inteira, e não somente ao amor e à sexualidade. Uma pessoa que questiona ou que reprime desde sempre aquilo que surge nela espontaneamente, pode chegar a desconfiar de todos os seus desejos e sentimentos. Em minha experiência terapêutica, freqüentemente eu ouvi homossexuais dizerem coisas assim: “Eu sabia que eu não devia fazer isso. Uma vozinha me disse que não era uma boa idéia, mas eu não dei bola.” Poderíamos nos perguntar quantas condutas autodestrutivas nos homossexuais não derivariam, em parte, dessa desconfiança para com a sua própria intuição, e sua repressão habitual de seus mais profundos sentimentos. Uma emoção que é freqüentemente reprimida é a cólera. Não esqueçamos de que os homossexuais são objetos de agressões contínuas. Quer o admitam ou não, não conseguem esquecer as gozações, as piadas, as etiquetas e as desvalorizações relativamente constantes e conscientes às quais são expostos no cotidiano. A pergunta que se coloca não é a de saber se tudo isso os afeta ou não — pois é evidente que sim —, mas a de saber o que fazem com a cólera que normalmente deveriam sentir. Do mesmo modo, o que eles fazem com a cólera que sentem, às vezes, contra eles mesmos, porque são diferentes? A resposta, é que eles tendem a reprimir ou a deslocar essa cólera. Assim, existem homossexuais para os quais é muito difícil ficarem bravos: sempre gentis, sempre benevolentes, tendem antes à depressão. (Não esqueçamos que a cólera negada ou reprimida e voltada para si próprio pode se transformar em depressão que é, às vezes, interpretada como um tipo de cólera contra si mesmo.) Ou então, essa cólera pode se manifestar por meio de condutas autodestrutivas — que infelizmente são bastante freqüentes no meio homossexual. Existem também homossexuais que expressam essa cólera sem causa identificável, e que se tornam habitualmente irritáveis, impacientes, ou intolerantes. Qualquer que seja a forma que ela adota segundo a estrutura da personalidade e o contexto social de cada um, devemos sempre procurar a presença mais ou menos reprimida de uma cólera longamente acumulada. É importante tomar consciência dela e canalizá-la corretamente. Todas as emoções, todos os desejos, as fantasias e as necessidades que são sistematicamente reprimidas podem se tornar uma substância tóxica no funcionamento mental e físico se não forem devidamente detectadas e trabalhadas. 78 A sensação de estar em desvantagem Um outro problema que pode derivar da homofobia interiorizada é uma imagem de si desvalorizada: muitos homossexuais consideram-se de uma certa forma limitados, tanto no plano pessoal quanto no plano social ou até mesmo profissional. Essa sensação difusa de estar em desvantagem é raramente verbalizada como tal, e não é necessariamente consciente. Mas é muito comum e pode assumir inúmeras formas. Começamos por uma idéia que certamente chocará muitos leitores: há um “quê” de verdade nessa sensação de desvantagem. Em primeiro lugar, muitos homossexuais cresceram e viveram em um certo isolamento afetivo e social; e isso só pode limitar seu desenvolvimento social e profissional. Não é surpreendente, no fim das contas, o fato de que os membros de uma minoria marginalizada achem, às vezes, difícil estabelecer contato com a maioria. É uma conseqüência natural da marginalização, e isso reflete também as diferenças reais entre os estilos de vida homossexual e heterossexual. Há, de fato, muitos campos afetivos e sociais que não são partilhados. Assim, os heterossexuais tendem a compor suas relações sociais em torno de certos pontos comuns como o casamento, as crianças, as escolas, as relações de família, etc. — assuntos que não afetam do mesmo modo os homossexuais. Portanto, existe uma certa distância social real que poderíamos qualificar de inevitável por conta das diferenças objetivas entre o ciclo vital das duas populações. Em segundo lugar, como dissemos no capítulo 3, muitos homossexuais nunca aprenderam certas competências sociais que são próprias da cultura heterossexual. Uma delas, a facilidade em estabelecer contato com pessoas do sexo oposto, é de uma importância capital — embora isso talvez valha mais para as lésbicas do que para os homossexuais masculinos. É interessante notar que esses, geralmente, mantém boas relações com as mulheres, enquanto as lésbicas, muitas vezes, têm dificuldades para fazerem amizades com os homens. Essa diferença provavelmente tem raízes psicológicas e sociais. Em geral, os homossexuais têm uma melhor relação com sua mãe, do que as lésbicas com seu pai, por razões complexas que não examinaremos aqui. É possível também que uma certa sensibilidade feminista tenha um papel nisso: muitas lésbicas não têm nenhuma vontade de manter relações sociais com os homens. Apesar de tudo isso, o resultado final é que as lésbicas tendem a ter menos contato com as pessoas do sexo oposto do que os homossexuais masculinos. Ora, na sociedade atual, é muito importante ter boas relações com os detentores do poder, que geralmente são os homens. Esse fato não afeta tanto os gueis, que continuam a ser homens, e, portanto, são mais bem colocados na hierarquia social. Mas afeta de outra forma as lésbicas, que geralmente não são casadas e têm poucas relações sociais com os homens; portanto, podem estar ainda mais marginalizadas do que os homens frente ao mundo do trabalho e do poder. Mas, além dessa distinção entre homens e mulheres, é provável que os homossexuais, em geral, estejam em uma posição de fraqueza relativa em certas áreas da vida profissional e social. A sensação de desvantagem que eles podem sentir corresponde, portanto, em parte, a uma realidade objetiva. Contudo, a homofobia interiorizada agrava as coisas. Não é difícil encontrar homossexuais que não chegam tão longe em seus estudos ou em sua profissão quanto o deveriam. Vemos, muitas vezes, eles duvidarem deles mesmos, de suas capacidades ou de suas ambições: tendem a ser menos seguros de si do que os heterossexuais, pois interiorizaram certos estereótipos associados à homossexualidade. Em particular, a visão da homossexualidade como um fracasso, uma limitação ou um defeito pode ressoar neles de muitas formas, em 79 diferentes níveis. Poderíamos nos aventurar a dizer que todo o homossexual, em um dado momento, sentiu-se ser menos: menos homem ou menos mulher, menos dotado para a vida social ou profissional, ou menos apto para a felicidade. E mesmo que ele tenha atribuído outras causas a esses sentimentos, devemos considerar a homofobia interiorizada como um componente possível. Paradoxalmente, essa sensação difusa de inferioridade ou de insuficiência pode provocar um esforço continuo para compensar o “defeito” da homossexualidade em outras áreas da vida. O homossexual pode (inconscientemente) tentar provar que é “aceitável” apesar de tudo, segundo o critério da sociedade heterossexual. Essa supercompensação pode levá-lo a se tornar demasiadamente perfeccionista e exigente com ele mesmo: ele pode sentir que não está “à altura” em inúmeros campos. Como qualquer minoria discriminada, tentará constantemente provar que pode satisfazer as demandas da maioria. Muitos homossexuais acabam assim imitando condutas ou atitudes heterossexuais em seu estilo de vida, a distribuição dos papéis em seu casal, etc. A mesma dinâmica de supercompensação pode levar o homossexual a tentar sempre se mostrar no seu melhor ângulo possível. Será para ele, então, difícil mostrar (ou até mesmo reconhecer) seus limites, pois “se eu fracassar, as pessoas pensarão que é por causa de minha homossexualidade”. Outras manifestações da homofobia interiorizada Uma outra manifestação dessa insegurança de base é uma relativa fraqueza nos limites interpessoais. Muitos homossexuais são, de fato, “demasiados bons”: sempre atentos aos desejos ou às necessidades dos outros, eles têm uma certa dificuldade em afirmar ou defender as suas. Acostumados, por outro lado, a esconder ou minimizar seus desejos, podem ter dificuldade para expressá-los. É assim que muitos homossexuais mantém relações de casal pouco satisfatórias: falta nelas os limites que estão no cerne de qualquer relação profícua e que permitem as pessoas dizerem: “Eu não concordo”, ou: “Não quero”. Ademais, eles podem acreditar que não encontrarão mais ninguém que possa os amar, se por acaso venham a se separar de seu parceiro atual. Essa desvalorização de si, essa falta de limites podem, portanto, servir para manter relações que, em outro caso, não sobreviveriam. Uma outra manifestação importante da homofobia interiorizada é uma certa disposição para a vergonha. Muitos homossexuais tiveram vergonha de sua orientação sexual em algum momento de sua vida. Mesmo que não sintam mais essa vergonha no presente continuam freqüentemente a ser particularmente susceptíveis. Em casos extremos, eles se sentirão observados e julgados pelos outros, mesmo que não o sejam. Às vezes, podem se sentirem excluídos, debochados, ofendidos ou desprezados, mesmo que isso não seja o caso, e apresentar um grau elevado de susceptibilidade em suas relações interpessoais. Quando certos psiquiatras e psicanalistas falavam (e alguns ainda falam) de tendências paranóicas nos homossexuais, provavelmente eles se referiam em parte a essa extrema susceptibilidade64. Mas essa pode também ser interpretada como uma manifestação da homofobia interiorizada — e é importante trabalhá-la nestes termos, antes de concluir que existe uma patologia tão grave quanto a paranóia. 64 Por exemplo: “Eu nunca conheci [um homossexual] que não apresentasse traços paranóides. Todos são excessivamente suspeitosos, tenebrosos e desconfiados… senti durante anos que essa conduta era engendrada por nossa civilização, na qual os homossexuais são tratados como párias. Contudo, estou convencido que isso é apenas parcialmente verdadeiro. A maioria desses traços se deve a fixações sádico-anais e a regressões.” A. A. Brill. “Homoeroticism and paranoia”. Em American Journal of Psychiatry, 13, 1933, 957=974. Citado em Erin G. Carlston. “Female homosexuality and the American medical community. Em Vernon A. Rosario (ed). Science and homosexualities. New York, Routledge, 1997, p. 188. 80 “Não sou homossexual como os outros” Um outro fenômeno interessante que deriva da homofobia interiorizada, é a idéia que muitos homossexuais têm sobre a homossexualidade nos outros. Freqüentemente escuta-se os homossexuais falarem da “maioria dos homossexuais” como se eles mesmos não o fossem. Essa atitude pode representar uma maneira muito salutar de se distanciar de certas idéias pré-concebidas, e de rejeitar os estereótipos. Mais ela coloca também um dilema, pois eles são, no fim das contas, tão homossexuais quanto os outros. Essa dicotomia, esse equívoco que consiste em dizer: “Eu sou um deles, mas não sou um deles”, é mais uma manifestação da homofobia interiorizada. É uma atitude que merece ser analisada, assim como quando um homem diz: “Eu não sou como os outros homens”, ou uma mulher diz: “Eu não sou uma mulher típica.” Em todos esses casos, há um questionamento dos estereótipos ou das idéias normativas sobre como “deveriam” ser um homossexual, um homem, uma mulher. É importante explicitar os conflitos subjacentes e resolvê-los, para desenvolver uma identidade que seja plenamente integrada. Poderíamos também nos perguntar se o ciúme, tão comum nos casais homossexuais, não deriva, em parte, dessa mesma homofobia interiorizada. O estereótipo da promiscuidade homossexual é tão comum, que muitos homossexuais acreditam nele, mesmo que não se identifiquem com ele. Muitas vezes, um homossexual é fiel, mas considera que seu parceiro não o é, “porque os homossexuais são desse jeito” ou porque “o meio é podre”. É o que os psicólogos chamam de “dissonâncias cognitivas”, que consistem em ter duas convicções contraditórias ao mesmo tempo. E essa situação tende a provocar uma ansiedade e uma incerteza crônicas. Essa ambivalência que faz com que “Eu sou um deles, mas não como os outros” é mais um reflexo da homofobia interiorizada. Aliás, vale se perguntar qual é a origem dessa concepção da promiscuidade homossexual tão generalizada em nossa sociedade. Antes da liberação guei dos anos 70, o homossexual era visto como um doente que, tal qual um vampiro, procurava continuamente novas vítimas para satisfazer seus desejos incontroláveis. Eternamente frustrado e solitário, ele representava um perigo para a sociedade por causa de seu gosto pela promiscuidade predadora. Essa imagem dominou a cultura popular até os anos 70 (e, em certos meios, até hoje). Depois veio a liberação guei que coincidiu com a revolução sexual e se tornou um elemento central dela. Durante os anos 70, homossexuais e heterossexuais se dedicaram à experimentação do amor livre, do casal aberto, dos casais a três (ménages à trois) e outros jogos sexuais. Mas os homossexuais (que não foram nem mais nem menos frívolos do que os heterossexuais) foram julgados à parte. Enquanto todos esses divertimentos sexuais foram considerados como uma fase passageira na evolução dos costumes ou como um passatempo juvenil para a geração do pós-guerra, nos homossexuais foram percebidos como um atributo essencial. Onde os heterossexuais foram rebeldes, contestadores, gaiatos e boêmios, os homossexuais adquiriram uma nova série de etiquetas muito menos engraçadas e, além do mais, permanentes: frívolos, degenerados, impulsivos, confusos, e, evidentemente, incapazes de controlar seus desejos ou de manter uma relação amorosa durável. Em uma palavra, os heterossexuais dessa geração casaram-se e tiveram filhos, enquanto os homossexuais permaneceram… homossexuais. 81 E depois chegou a tragédia da AIDS. Identificada no início como uma doença homossexual, foi percebida pela sociedade bien-pensante65 como um castigo divino ou biológico da promiscuidade e da imoralidade dos homossexuais. Pouco importava que a AIDS fosse também tão perigosa para os heterossexuais, ou que atingisse muito mais a população heterossexual em inúmeros países: a etiqueta permaneceu e foi sobreposta aos estereótipos que já existiam. A promiscuidade dos últimos decênios Isso não significa, claro, que os homossexuais sejam particularmente castos. Os números medindo os contactos sexuais entre homens homossexuais são, às vezes, difícil de acreditar. Estima-se que os membros de certas comunidades gueis importantes, em grandes cidades como Nova Iorque ou São Francisco, tinham em média 1 ou 2 encontros sexuais por dia antes do flagelo da AIDS. À parte qualquer consideração moral, como explicar isso? Várias interpretações são possíveis. Poderíamos fazer uma análise sócioeconômica e notar que os homossexuais do mundo industrializado usufruem rendas mais elevadas do que a média, pois não têm mulheres nem crianças dependentes. Portanto, eles seriam particularmente expostos ao consumismo desenfreado, do qual as conquistas sexuais em série são uma forma exacerbada. Poderíamos desenvolver uma análise feminista, e dizer que a promiscuidade é uma questão de homens: nessa ótica, a sexualidade homossexual nos mostra o que é a sexualidade masculina quando não há mulher para “domesticá-la” e lhe dar um conteúdo afetivo, e quando não há família para manter o homem em casa. É também possível que os homens possam ter com outros homens condutas sexuais que as mulheres não admitem. Em muitos países, a liberação sexual nunca chegou às mulheres, e estas cresceram em meio a uma moral sexual tradicional. Assim, em muitas sociedades, o sexo oral e anal, a masturbação, e talvez, outras formas de estimulação sexual não são atividades aceitáveis para as mulheres (exceto para as prostitutas, que são pagas justamente para esse tipo de serviços). E nas sociedades mais liberais, as mulheres podem agora dizer não às atividades que não querem. Então, os homens encontram, talvez, com outros homens opções sexuais que não estão normalmente a seu dispor66. É também provável que os homossexuais se sintam mais livres do que os heterossexuais, não tendo que se preocupar com uma gravidez, nem com um eventual casamento forçado. Portanto, a variedade, a freqüência e a liberdade relativas da relação sexual homoerótica poderiam contribuir para explicar a promiscuidade nos homens homossexuais. Poderíamos também falar de uma hipotética necessidade no homem de acumular continuamente conquistas sexuais, homo — ou heterossexuais. Nessa visão, a autoestima e o poder diante dos seus pares dependeriam de sua capacidade de conquista. Do mesmo modo, poderíamos também aludir às tendências autodestrutivas que se observa, às vezes, nas minorias estigmatizadas e marginalizadas, e que podem se manifestar por vários tipos de condutas perigosas. Ou então, adotando um ponto de vista histórico, poder-se-ia dizer que a promiscuidade generalizada é típica de certas épocas: nessa 65 "Bien-pensant(e)” é uma expressão francesa usada de forma irônica ou pejorativa para designar quem pensa "comme il faut" [como se deve], isto é, de acordo com um sistema tradicional de caráter religioso, social ou/e político. Em outros termos, um equivalente em português seria “os donos da verdade” ou, sem manter o caráter irônico, os “moralistas”.[Nota dos tradutores] 66 Isso não constitui, claro, uma explicação da homossexualidade masculina. A teoria segundo a qual as pessoas se tornam homossexuais por falta de opções heterossexuais, talvez seja válida nas prisões ou nos seminários, mas, com certeza, não na sociedade em seu conjunto. Basta lembrar que a prostituição existe até mesmo nas sociedades mais “fechadas”, assegurando uma opção heterossexual contínua — e que existe também uma prostituição masculina, o que não seria o caso se os homens preferissem sempre ter relações sexuais com as mulheres. 82 ótica, os homossexuais só aproveitaram, graças à sua relativa liberdade, de uma dessas fases históricas de libertinagem67. Mas não sou capaz de tirar uma conclusão única disso. Precisaria ser especialista em várias áreas — a psicologia, a sociologia, a biologia, a história, a análise ideológica, etc. — para poder explicar um fenômeno tão complexo. Em contrapartida, precisaria ser muito inocente para dizer, simplesmente, que a promiscuidade homossexual existe porque os homossexuais são assim. Essa generalização, entretanto, disseminou-se na cultura, e serve para manter toda uma constelação de estereótipos associados à homossexualidade. Além disso, a idéia de uma promiscuidade inerente à homossexualidade não leva em conta o fato de que muitos homossexuais não são promíscuos, e que as lésbicas em geral mantém relações senão estáveis, pelo menos monogâmicas. Mas o estereótipo permanece intacto, não somente nos heterossexuais, mas também nos homossexuais; e como tal, faz parte da homofobia interiorizada. É por isso que muitos homossexuais dizem que não são “típicos”, e que não gostam de ser caracterizados como tais. Eles conhecem tão bem, quanto os outros, os estereótipos, mas esses não correspondem à sua realidade vivida. Então, são homossexuais… mas não como os outros. Esse tipo de ambivalência pode exacerbar uma crise de identidade, ou mesmo de casal: freqüentemente um dos dois parceiros considera-se “atípico” e, ao mesmo tempo, acha que o outro é, no fundo, “como todos os outros homossexuais”. A promiscuidade, a instabilidade, a frivolidade existem tanto nos homossexuais quanto nos heterossexuais. Mas, entre esses últimos, ninguém pensa em dizer que isso se deve à sua orientação sexual. No caso dos homossexuais, em contrapartida, é a primeira explicação que vem à mente. Falando dos estereótipos, não podemos deixar de lado o sentimento de rejeição, até mesmo de repulsão, que muitos heterossexuais sentem em relação às práticas sexuais dos homossexuais. Em primeiro lugar, é importante fazer uma distinção entre o que os homossexuais fazem na cama e o que as pessoas imaginam. Por exemplo, segundo uma crença bastante difundida, as lésbicas usariam consolos para terem relações sexuais e os homossexuais praticariam sempre a penetração anal. Como o veremos mais adiante, esses estereótipos não correspondem sempre à realidade. Mas seja lá o que for, o importante é que nenhuma prática sexual é em si mesma mais ou menos “repugnante” do que outra; a sexualidade homossexual não é nem mais nem menos estética do que a dos heterossexuais e, com certeza, não há nada que os homossexuais possam fazer na cama que não possa ser feito também pelos heterossexuais. Mas pode-se negar que existe na cultura uma rejeição generalizada em relação à sexualidade homossexual, tributável à persistência dos estereótipos que acabamos de descrever e, portanto, à homofobia. As “perversões” sexuais Além das condutas sexuais cotidianas dos homossexuais e das lésbicas, existem outros estereótipos que derivam da homofobia. Assim, certas “perversões” sexuais são freqüentemente consideradas como características ou até mesmo exclusivas da homossexualidade. É o caso do sadomasoquismo, que se tornou famoso por causa do couro e das correntes que lhes são associados no imaginário social. Mas o sadomasoquismo, geralmente relacionado com a homossexualidade masculina, existe também nas relações heterossexuais. 67 Examinaremos mais adiante a sexualidade coletiva e a promiscuidade nos estabelecimentos especializados, a partir dos anos 70, assim como as modalidades das relações sexuais homoeróticas. 83 O mesmo se aplica para a pedofilia. Inúmeros estudos mostraram que essa envolve, na maioria das vezes, homens que abusam sexualmente de meninas, e muito menos de meninos. A maioria dos casos de pedofilia é, portanto, de natureza heterossexual — e envolve quase sempre homens. Os casos de mulheres abusando de menores — sejam meninas, sejam meninos — são raríssimos. A pedofilia aparece, portanto, como uma desordem sexual dizendo mais respeito aos heterossexuais do que aos homossexuais — isto é, muito mais para ser relacionada com o gênero do que com a orientação sexual. Contudo, essa categoria de práticas sexuais é freqüentemente associada à homossexualidade, como mostra claramente o uso das palavras “veado”68 ou “pederasta” para se referir aos homossexuais. Homens violentos, mulheres delicadas Um outro estereótipo que tem, contudo, uma parte de verdade é o da violência nas relações sexuais entre homens. Os médicos relatam muitos casos de lesões anais nos homossexuais masculinos. Em particular, a inserção de todo o tipo de objetos no ânus pode ser não somente dolorosa, mas ainda muito perigosa. Seria preciso se perguntar, contudo, se esse tipo de prática decorre realmente da homossexualidade em si, da sexualidade masculina, ou ainda de outra coisa. Por exemplo, é muito comum que essas práticas aconteçam sobre a influência de certas drogas ou do álcool — sem os quais elas seriam muito dolorosas, até mesmo impossíveis. Essas condutas deveriam, portanto, ser relacionadas (pelo menos em parte) com o uso abusivo de drogas e de álcool que permite justamente atividades sexuais que de outro modo seriam pouco suportadas69. De fato, diversas drogas são utilizadas em certos meios gueis para estimular a energia sexual, distender os esfíncteres e atenuar a dor. Portanto, é possível que a violência sexual entre homens derive não da homossexualidade enquanto tal, mas, antes, de uma certa subcultura guei que se desenvolveu no decorrer dos anos 80 e 90. Um outro fato interessante é que as relações eróticas entre mulheres são muito menos chocantes para os heterossexuais do que as entre homens. No cinema, por exemplo, o público se mostra geralmente mais incomodado ou indignado por dois homens que se beijam do que por duas mulheres. Por quê? Sem dúvida a sexualidade masculina é percebida como mais ameaçadora, e a feminina, por razões ideológicas, mais “passiva” e, portanto, inofensiva. Reencontra-se aqui a idéia de que a “verdadeira” sexualidade reside nos homens: as mulheres não teriam sexualidade independente do homem. A relação erótica entre mulheres é delicada e suave, uma versão “light” do verdadeiro sexo; nos homens ela é agressiva, quase animal. Essas duas representações exageradas da homossexualidade são estereótipos que ajudam os heterossexuais a “catalogar” a homossexualidade segundo critérios simplistas e, até mesmo, caricaturais. Poderíamos dizer simplesmente que elas não correspondem à realidade, e deixá-las de lado, senão fossem tão perigosas, mas esses clichês contribuíram muito para o ódio e a violência contra os homossexuais. Quando um homem estupra uma lésbica, às vezes é para que ela conheça “o verdadeiro sexo”. Quando um bando de jovens ameaça, bate ou mata um homossexual, freqüentemente é “porque eles gostam disso”. Existem, de fato, clichês que matam — e os mais perigosos são, provavelmente, aqueles que têm a ver com a sexualidade. A homofobia assume muitas formas; mas não devemos esquecer que ela não constitui apenas um modo de pensar. É também uma fonte de violência. 68 Aqui a autora utiliza a abreviação da palavra pederasta. Isto é, “pede” que, em francês quer dizer "veado". No caso, não há equivalente em português, já que pederasta não é um atributo de uma orientação sexual específica, e sim uma prática sexual entre um homem adulto e um infante do sexo masculino. [Nota dos tradutores] 69 Entrevista com o Dr. Victor Simon, Paris, 24 de novembro de 1998. 84 Diferentes modos de ser homossexual Examinamos algumas das manifestações da homofobia interiorizada. Poderíamos agora nos perguntar como os homossexuais integram esses modelos e estereótipos. Não há dúvida que os homossexuais, tanto quanto os heterossexuais, aprendem a interpretar os papéis que as sociedades lhes impõem e espera deles. Exatamente como os jovens heterossexuais assimilam as condutas, as atitudes e a linguagem corporal própria dos papéis heterossexuais, os homossexuais apropriam-se aos poucos das condutas, dos gestos e dos papéis que são considerados “típicos” da homossexualidade. Não é surpreendente que exista no mundo globalizado atual um estilo guei perfeitamente definido que compreende uma maneira de se vestir, de falar, de se mover, e toda uma série de gestos e de gostos imediatamente identificáveis quase em todo o lugar. Contudo, esse “estilo guei” nem sempre foi o mesmo, e é muito interessante ver como evoluiu durante os últimos vinte anos. Antes, os homens que assumiam sua homossexualidade eram afetados e, até certo ponto, efeminados. Mas desde os anos 80 apareceu uma tipologia radicalmente diferente. Hoje o homossexual não tem mais nada de efeminado. Ao contrário, com seus cabelos curtos, seu bigode, seu corpo musculoso por conta de suas idas cotidianas à academia, e sua jaqueta de couro preto, ele apresenta uma virilidade acentuada. Não duvido que esse estilo, por sua vez, passará de moda. Mas, o importante, é que os homossexuais aprendam a serem homossexuais de uma certa forma — e que essa forma mude justamente porque é aprendida e não inata. Evidentemente, nem todos os gueis adotam o estilo guei — longe disso. Mas, quando o fazem, mesmo que vivam em países diferentes, tendem a se parecer muito — e é estranho, se pensarmos na enorme diversidade de culturas no mundo e nas numerosas formas que a masculinidade assume em diversos países. O homem heterossexual francês tem uma linguagem corporal muito diferente da do homem americano; mas um homossexual francês se parece muito na sua maneira de se vestir, de se mover e de se expressar, com um guei americano. Podemos deduzir disso que existe algo que parece com uma linguagem, ou com uma série de códigos partilhados entre homossexuais no mundo ocidental. E podemos supor que essa linguagem é aprendida, como qualquer linguagem. Estereótipos globalizados e locais Assim como os heterossexuais aprendem um modo particular de serem heterossexuais de acordo com o seu contexto cultural, os homossexuais assimilam formas socializadas para expressarem sua orientação sexual. Mas o que eles aprendem exatamente? Em primeiríssimo lugar, interiorizam estereótipos. Assimilam imagens da homossexualidade que atualmente fazem parte de uma cultura globalizada compreendendo certas modas e uma linguagem corporal específica. Mas aprendem também os estereótipos em vigor em seus próprios países. Por exemplo, se a sociedade local considerar que os homossexuais são efeminados, os homossexuais adotarão gestos e maneiras efeminados. Se se considerar típico o fato dos homossexuais adorarem ópera, encontraremos uma proporção desmedida de homossexuais fanáticos por ópera. Do mesmo modo, se a cultura local pensa que as lésbicas são mulheres altamente refinadas e sensíveis, encontraremos homossexuais excessivamente sofisticadas e femininas. Se se pensar, ao contrário, que elas são homens que não deram certo, então, as lésbicas, nessa sociedade, tenderam a apresentar condutas e atitudes masculinas. 85 Eis, aliás, a razão pela qual os homossexuais são mais estereotipados ou mais reconhecíveis como tais, nos países onde os papéis masculino e feminino são mais diferentes e estereotipados — isto é, nas sociedades “machistas”. Os homossexuais tendem a serem mais visíveis, mais “diferentes”, nos países do terceiro mundo, enquanto que nos países industrializados eles se misturam muito mais na população geral. Assim, o homossexual dinamarquês se parece com qualquer dinamarquês; no México isso já é menos verdadeiro. Essa análise se estende também às classes sociais. Quanto mais se sobe na escala socioeconômica, menos a homossexualidade é visível. Em uma palavra, ela se camufla melhor. Assim, em uma certa visão das coisas, um homem rico que gosta de arte e que tem um estilo de vida refinado é apenas um homem culto; mas um pobre que gosta de arte e que cultua um refinamento “fora de contexto” é, provavelmente, homossexual. A categorização da homossexualidade segundo a qual são os heterossexuais que “decidem” quem é homossexual e quem não o é (ver o Capítulo 4), tem provavelmente um componente de classe social; e as formas da homossexualidade têm, de fato, além de suas conotações locais, uma dimensão socioeconômica. Aliás, é uma das razões pelas quais a travestilidade (a forma mais extrema do homem efeminado) é muito mais comum nas classes populares do que nas médias ou elevadas. (É preciso se lembrar igualmente que a travestilidade é freqüentemente associada à prostituição e que essa aparece mais nos pobres). A homofobia aprendida Mas os homossexuais, onde quer que estejam, não aprendem apenas a linguagem corporal ou os modos que a sociedade lhes impõem. Aprendem também (mais ou menos, conforme o país) que os homossexuais são inconstantes, instáveis, impulsivos, e todos os estereótipos derivados da homofobia. Então, exatamente como os heterossexuais aprendem a interpretar os papéis de amante, esposo e pai, e assimilam as regras do jogo do casamento feliz e da família unida, os homossexuais aprendem o jogo da conquista sexual, da promiscuidade, do casal infiel, dos dramas do ciúme, etc. Em uma palavra, interiorizam e interpretam os papéis e as condutas que a sociedade espera deles. É difícil entender que esses papéis e condutas são aprendidos e não inatos; imitados, e não naturais; sociais, e não individuais. Desprender-se dos estereótipos interiorizados é uma tarefa difícil, e é provável que poucos homossexuais possam conseguir isso sozinhos. Mas tal tarefa é absolutamente necessária para desenvolver uma identidade homossexual positiva. A criação de uma identidade própria, isto é, a individuação em qualquer campo que seja, implicará sempre um questionamento dos estereótipos. O questionamento dos estereótipos Desde os anos 60, os homossexuais repensaram todos os estereótipos anteriores da homossexualidade, assim como os heterossexuais se afastaram dos modelos tradicionais da masculinidade, da feminilidade e do casal. É assim que os hippies mostraram que os cabelos curtos não são nem “naturais” nem inevitáveis para os homens. E as mulheres aprenderam, graças ao feminismo, que elas não são de modo algum condenadas pela natureza a serem esposas e mães submissas; agora elas sabem que podem aspirar a papéis diferentes daqueles que lhes são ditados pelos homens. Da mesma forma, os homossexuais devem aprender a se desprenderem dos papéis e dos estereótipos que a sociedade lhes impôs. Os homossexuais não são “naturalmente” instáveis, nem inconstantes, nem ciumentos, nem hipersexuados; e é indispensável que 86 eles possam ver essas etiquetas com um olhar crítico, para se libertarem delas. É a única solução verdadeira para a homofobia interiorizada. Na verdade, algo desse tipo já está acontecendo em inúmeros países. Muitos homossexuais preferem hoje o estilo masculino e zombam da imagem clássica do homossexual efeminado. E (em grande parte por causa da AIDS) exploram cada vez mais alternativas para a promiscuidade e procuram formar casais estáveis. Afastam-se assim dos estereótipos anteriores. Da mesma forma, quando as lésbicas deixam de se vestir e de se comportar como homens, elas rejeitam implicitamente o clichê da lésbica como homem que não deu certo. Esse trabalho iconoclasta evidentemente não se limita aos homossexuais; os heterossexuais também repensam todos os modelos recebidos. Poderíamos dizer, nesse sentido, que a moda da androgenia dos anos 90 representa um esforço para se libertar dos papéis e das aparências tradicionais da masculinidade e da feminilidade para criar um estilo de vida mais livre. Isso nos leva a um paradoxo: em um sentido, para ser um homossexual verdadeiramente “assumido”, não é preciso ser mais, mas sim menos “homossexual”. Nessa perspectiva, a medida que os estereótipos tradicionais desaparecerem, as diferenças sociais entre homo — e heterossexuais tenderão a diminuir também. Mas, enquanto esse objetivo (provavelmente utópico) não for atingido, cada indivíduo terá que dar conta esse questionamento. Acho que todo o homossexual deve analisar os estereótipos que o governam, desprender-se daqueles que não lhe convém, e desenvolver uma maneira de viver sua orientação sexual livremente — tanto em sua vida pessoal quanto em suas relações de casal e em sua posição em relação à sociedade. Muitos homossexuais já o fazem. Em número crescente, tomam suas distâncias em relação à cena guei, deixam de freqüentar os bares, e entram em relações estáveis. Claro, essa opção apresenta ao mesmo tempo vantagens e desvantagens. Leva a uma individuação e a uma estabilidade afetivas maiores, mas também implica uma solidão maior. Perde-se aí um certo sentido da comunidade que é um apoio importante para muitos homossexuais. Com efeito, os casais estáveis que deixam de freqüentar a “cena” vivem relativamente isolados dos outros homossexuais. Mas desprender-se dos estereótipos sempre teve um custo, e a sociedade atual oferece poucas soluções de substituição. É possível que um dia os homossexuais possam viver mais abertamente, sem ter que ir a lugares especializados para se conhecer e se reunirem entre si. Houve, certamente, um enorme progresso neste sentido durante os anos 90. Cada vez mais, os homossexuais podem se encontrar em lugares que não são bares ou discotecas, mas academias, espaços culturais ou de lazer. Aos poucos, os preconceitos e os estereótipos estão cedendo; e podemos esperar que um dia as terríveis barreiras entre homo e heterossexuais venham a cair. A homossexualidade desaparecerá, então, enquanto critério para classificar os indivíduos. Não mais se dirá das pessoas que, antes de qualquer coisa, elas são homossexuais, exatamente como o fato de ser judeu ou negro não é mais a definição central imposta aos membros dessas populações. A homossexualidade tornar-se-á uma característica entre outras, como o fato de ter os olhos azuis ou de gostar de futebol. Aliás, parece haver uma evolução natural neste sentido, tanto no nível individual quanto no social. Depois de uma pessoa ter aceitado bem a sua homossexualidade, essa perde, aos poucos, a sua importância e torna-se, enfim, um elemento da vida entre tantos outros. Deixa de ser o fator principal na imagem que se tem de si mesmo. O homossexual maduro, para quem a sua orientação não é mais problema, torna-se paradoxalmente “menos” homossexual: menos obcecado, menos interessado pelo mundo guei, menos 87 dispostos a socializar com desconhecidos apenas porque são da mesma orientação sexual; como os heterossexuais adultos, aos poucos, ele deixa de ver todo mundo em função da sexualidade. Neste sentido, a homossexualidade tende a desaparecer nos indivíduos, e nas sociedades, que atingiram a maturidade. A homofobia no terapeuta Enfim, analisamos o problema da homofobia no terapeuta, tanto de seu ponto de vista quanto do de seu paciente. O estranho, é que é totalmente possível que nenhum dos dois perceba essa homofobia. Sob o véu da neutralidade e de um saber supostamente especializado, o terapeuta pode pensar e dizer quase qualquer coisa no campo da homossexualidade sem nunca ser questionado. Ouvi muitos terapeutas expressarem-se sobre esse assunto não somente com a maior ignorância, mas sem se dar conta de seus preconceitos e ainda menos de sua falta de conhecimento. Escutei terapeutas confundirem homossexualidade, transexualismo e travestilidade; ter como certo que qualquer homossexual masculino teve um pai distante, certificar que a homossexualidade tem causas hormonais, e que um dia será curável como tantas outras doenças; pretender poder detectar um homossexual a léguas de distância, a partir de seu ar efeminado e seu tom de voz. Conheço um médico que, convidado para assistir um curso sobre a homossexualidade, recusou dizendo: “Eu já sei tudo que eu quero saber sobre isso”. Mas o terapeuta homofóbico não se caracteriza apenas por seus preconceitos e sua ignorância. A diferença mais importante entre um terapeuta homofóbico e um outro que não o é reside na sua interpretação da psicopatologia e nos seus critérios diagnósticos. Para o terapeuta homofóbico, o diagnóstico principal sempre será a homossexualidade: que um paciente seja deprimido, tenha uma personalidade paranóide, ou seja alcoólatra, sempre será uma conseqüência da homossexualidade. E essa será para ele o problema central. Como o vimos, os homossexuais conhecem problemas psicológicos específicos; a diferença reside em sua interpretação. Por exemplo, se um terapeuta tradicional recebe um paciente homossexual deprimido que tem dificuldades em identificar e expressar seus sentimentos, que estabelece relações curtas e instáveis, que é inseguro e parece incapaz de levar a cabo seus projetos de vida, ele poderá considerar que esse paciente sofre de uma depressão superposta a uma personalidade limítrofe (boderline), com traços esquizóides e paranóicos. Talvez ele tente, então, desenvolver nesse paciente as áreas de sua vida livres de conflito, deixando de lado sua homossexualidade e, centralizando o trabalho terapêutico nas partes “saudáveis” de sua personalidade — isto quer dizer, nas partes que não apresentam problema. Nessa ótica tradicional, de nada serve trabalhar a homossexualidade enquanto tal; seria uma perda de tempo, já que se trata de um problema sem solução. O objetivo terapêutico será, antes, ajudar a pessoa a viver a sua vida sem ser demasiadamente afetada pela homossexualidade — em uma palavra, a fazer como se ela fosse heterossexual. (Se isso parece exagerado, e provavelmente será o caso para os leitores desse livro, lembramos que muitos homossexuais passam anos em psicoterapia sem aprofundar, até mesmo sem abordar, o assunto de sua homossexualidade.). Essa abordagem é totalmente contra-indicada. O fato de isolar a homossexualidade das outras áreas da vida e tentar desenvolver essas como se aquela não existisse, só pode exacerbar a sensação de compartilhamento ou de fragmentação que já evocamos. 88 Um terapeuta sensível às particularidades da identidade homossexual nunca deixará de lado a homossexualidade: procurará, ao contrário, explorar o processo de construção dessa identidade no paciente, desde seus primeiros desejos, e experiências até a explicação e a concepção que ele tem disso atualmente. Examinará a imagem que esse paciente tem de si mesmo e a que ele mostra aos outros, e o ajudará a tomar consciência de sua homofobia interiorizada. Irá levá-lo a entender como aprendeu a negar ou a esconder seus desejos e seus sentimentos — por razões legítimas, mas a um custo elevado. Tentará desenvolver no paciente uma forma de comunicação mais pessoal e íntima, mas somente em situações sem risco e com interlocutores apropriados. Explorará com o paciente suas expectativas e seus preconceitos no que concerne à relação de casal, e lhe perguntará até que ponto ele realmente tentou manter uma relação estável, ao invés de ter se afastado toda a vez que os problemas surgiram. O objetivo em uma tal terapia não será o de separar o paciente de sua homossexualidade, mas, ao contrário, ajudá-lo a integrar essa em uma identidade completa e não mais fragmentada. Em uma palavra, trata-se de construir uma nova imagem de si que inclui a homossexualidade de uma maneira aceitável para cada indivíduo, e não para a sua família ou para a sociedade. Essa abordagem é radicalmente diferente da psicoterapia tradicional: o objetivo não é o de viver feliz apesar da homossexualidade, mas, de fato, graças à homossexualidade. Exercício para detectar e trabalhar a homofobia interiorizada, individualmente ou em terapia – Imagine o que dizem a respeito de você os heterossexuais próximos a você: colegas de classe ou de trabalho, seu patrão, etc. Segundo você, sua homossexualidade é muito importante para eles? O que eles sabem, o que eles dizem, sobre seu estilo de vida, sobre sua relação de casal, sobre sua personalidade e seus gostos? O que você gostaria que eles dissessem? – Será que você fala muito ou muito pouco da sua vida pessoal com seus conhecidos, tanto homossexuais quanto heterossexuais? Por quê? – Quando você encontra novas pessoas, que não sabem que você é homossexual, que impressão você tenta lhes passar? Você tenta esconder ou, ao contrário, revelar a sua orientação sexual, e como? – Você acha que as pessoas podem adivinhar que você é homossexual? Se sim (ou se não), por quê? – Você preferiria ser heterossexual? Se sim, ou se não, por quê? – Você já se perguntou, alguma vez, se realmente você é homossexual? Se sim, em que momentos de sua vida? – Imagine uma conversação durante a qual sua mãe comunica à sua amiga que você é homossexual. Como ela irá dizer isso? Como ela irá explicar sua homossexualidade? Faça o mesmo exercício com o seu pai, seus irmãos e irmãs, um amigo de infância. (Imaginar o que dizem os seus próximos a respeito de si mesmo é um exercício projetivo que visa revelar o que se pensa na verdade a respeito de sua homossexualidade.). – O terapeuta deve trabalhar o tema da cólera com o paciente: ela é bem dirigida e expressa? Ajudá-lo a explicitar contra quem ele sente cólera, no que concerne a sua homossexualidade: será que ele encontrou o apoio ou a compreensão que estava esperando por parte da sua família e dos seus amigos? Será que ele brigou algumas vezes com eles a respeito disso? Por que sim, ou por que não? 89 Para detectar a homofobia no terapeuta – Pergunte ao terapeuta se ele trabalhou com muitos homossexuais, e se achou neles traços comuns. Se ele responder em termos de psicopatologia, troque de terapeuta. Se ele disser que ele pode “curar” a homossexualidade (ou ao contrário, que a homossexualidade não é “curável”), saia correndo. – Pergunte ao terapeuta qual é, segundo ele, a causa da homossexualidade. Se ele disser que sabe, é porque ele não conhece as pesquisas atuais. (A melhor resposta é que existem muitas causas possíveis — ver os capítulos 2 e 3 —, mas que nada ainda foi provado de forma definitiva; Há, provavelmente, uma combinação de fatores, não uma explicação única). – Se o terapeuta disser que trabalha com os homossexuais exatamente como se eles fossem “normais”, escolha outro terapeuta. Se disser que trabalha com eles como se fossem heterossexuais, já é uma resposta mais aceitável — mas que revela, assim mesmo, certo desconhecimento do assunto. É importante se lembrar que o homossexual tem o direito de ser tratado por alguém que conheça a fundo a sua problemática, exatamente como as crianças, as pessoas de idade, os alcoólatras e outras populações ditas com necessidades especiais. Exercícios para ajudar o terapeuta e a família do homossexual a detectar a sua própria homofobia – Examine cuidadosamente suas reações ao corpo e à linguagem corporal do homossexual: o que você sente ao ver seu rosto, sua boca, suas mãos, seu modo de se vestir e de se mover? Tome consciência do conjunto de suas reações, associações e fantasias. O que eles provocam em você: repulsão, curiosidade, cólera, medo, ternura, piedade, atração? – Lembre-se de experiências ou de desejos homossexuais que você pode ter tido. Lembre-se de tudo que você sentiu e pensou. Como você interpreta isso agora? – Se você nunca teve desejos nem experiências homossexuais, pergunte a você por que. Será que foi porque você é “normal”? Porque você nunca teve a oportunidade? O que você teria sentido, pensado e feito se a ocasião tivesse aparecido? – Pergunte-se como você sabe o que você sabe a respeito da homossexualidade. Faça uma lista dos homossexuais que você conheceu, dos boatos que você ouviu, dos filmes que viu, etc. A que conclusão essas experiências te levaram a respeito da homossexualidade e de você mesmo? – Imagine que você esteja vivendo em uma sociedade na qual é preferível ser homossexual. As pessoas unem-se heterossexualmente apenas para se reproduzir. É vergonhoso ser heterossexual, e o fato de mostrar isso em sociedade é um sinal de depravação. Como você se sentiria em tal sociedade? 90 CAPÍTULO 6 O CASAL HOMOSSEXUAL EM GERAL O casal homossexual partilha muitas características do casal heterossexual. Mas, apresenta também um certo número de diferenças que tentarei agora descrever. Neste capítulo, examinarei alguns elementos comuns aos casais homossexuais masculinos e femininos: depois analisarei os dois tipos de casa de um modo mais detalhado nos capítulos seguintes. Uma razão de ser diferente A razão de ser e a significação do casal homossexual são muito diferentes das do casal heterossexual. Não existem os fundamentos jurídicos nem econômicos do casamento; é uma relação que não é reconhecida pela sociedade ou pelo Estado. Não tem como objetivo o de fundar uma família nem de formalizar uma união amorosa aos olhos da sociedade. Também não procura legitimar nem regularizar as relações sexuais. Não tem nenhum objetivo dinástico, no sentido tradicional de dar uma descendência ou de consolidar alianças econômicas ou políticas. Portanto, não tem nenhuma das funções tradicionais associadas ao casamento heterossexual. Seu principal fundamento e sua razão de ser são de ordem afetiva. Duas pessoas homossexuais que se comprometem a viver junto e a formar um casal estável o fazem unicamente porque se amam – ou se dão bem, pelo menos. O fato de que a função central do casal homossexual seja de ordem afetiva explica ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza. É em parte por isso que esse casal tem tanta dificuldade para se legitimar aos olhos da sociedade — e é também isso que lhe dá uma intensidade e uma margem de liberdade pouco freqüente no casal heterossexual. No que consiste essa liberdade? Quando duas pessoas se unem somente por razões afetivas, sua relação é de certa forma mais autêntica. Ninguém os obriga a ficar junto: não precisam manter a relação para as crianças, nem para as aparências, nem por causa de pressões familiares. Podem sempre se separar: e é isso, de fato, a principal explicação da instabilidade no casal homossexual. Não é porque os homossexuais são instáveis ou pouco maduros, como geralmente se supõe; é porque suas relações são livres de qualquer pressão social. Às vezes, separam-se aliás com demasiada facilidade, sem se esforçar como o faria um casal heterossexual para resolver seus problemas. O casal homossexual é também mais livre porque não está preso às expectativas e aos estereótipos que enquadram o casamento heterossexual. Por exemplo, a divisão forçada entre os papéis masculino e feminino, contra a qual o feminismo tanto lutou, não existe no casal homossexual — ou, com certeza, não no mesmo grau. Contudo, o casal do mesmo sexo não é também totalmente livre: como o casal heterossexual, é influenciado por fantasias, desejos e necessidades que são mais ou menos conscientes, mais ou menos comunicáveis. E, como o casal heterossexual, não é apenas formado por duas pessoas, mas por um conjunto de representações e estereótipos. Os estereótipos e a homofobia interiorizada O estereótipo que mais afeta o casal homossexual deriva da homofobia interiorizada. De fato, é “sabido” que as relações homossexuais são predestinadas ao fracasso: elas não podem ser nem estáveis, nem duráveis, nem mesmo felizes, “porque 91 os homossexuais são assim”. Ciúme, imaturidade, instabilidade, promiscuidade: eis alguns dos clichês que são aplicados ao casal homossexual de uma forma ainda bastante comum. Essa visão, que talvez refletisse uma certa realidade no passado, deve agora ser atualizada e qualificada. Em primeiro lugar, as pesquisas realizadas nos países industrializados revelam que há muito mais casais homossexuais estáveis e de longa duração do que se pensava. O problema, é que não se os via porque eles viviam na clandestinidade; hoje em dia tendem a se mostrar muito mais, e portanto, a aparecer nas pesquisas70. Em segundo lugar, certos problemas que se pensava característicos do casal homossexual são também comuns nas relações heterossexuais. A infidelidade, a falta de engajamento e um individualismo são fenômenos sociais que hoje ameaçam todos os casais. Antes, eram menos visíveis, ou tinham menos conseqüências sociais. Mas não se deve esquecer que nesse momento a metade dos casamentos nos Estados Unidos acaba em divórcio, assim como o terço dos casamentos na França. A idéia que a instabilidade do casal homossexual deriva da homossexualidade é, portanto, uma explicação falaciosa. Entretanto, não podemos negar a importância psicológica destes estereótipos, mesmo que atualmente sejam obsoletos. Ainda podem prejudicar muito, sobretudo quando os próprios homossexuais os interiorizaram. Como eles se manifestam na prática? Podem se traduzir por dúvidas ou por um certo fatalismo quanto à viabilidade do casal: quando dificuldades aparecem, é freqüentemente mais fácil para um homossexual abaixar a guarda do que fazer o esforço necessário, já que ele é convencido de que as relações gueis são sempre efêmeras. Ou pode atribuir à homossexualidade problemas que não tem nada a ver com ela, como dificuldades de comunicação. Em certos casos, negligenciará a relação e achará natural ir sozinho às reuniões familiares ou sociais, porque lhe parecerá lógico que seu parceiro não seja convidado. Ou então, rejeitará a idéia de um engajamento em longo prazo, duvidando no fundo que a relação possa ser duradoura. Quantas disputas de ordem econômica ou jurídica (em torno das despesas, do casal, da propriedade, dos testamentos) não derivam dessa dificuldade em conceber uma relação de longo prazo? Quantas coisas não são ditas, negociadas, resolvidas, por conta dessa recusa em imaginar um futuro junto? É preciso fazer aqui uma distinção: os casais homossexuais têm problemas reais que podem os desestabilizar, mas acontece a eles também de sabotarem suas relações porque não acreditam nelas. O casal invisível O problema real mais importante nos casais homossexuais, masculinos ou femininos, talvez seja o de sua invisibilidade: vivem à margem das normas sociais, sem poder se apresentar nem se expressar enquanto casal porque a sociedade não reconhece sua relação de casal, e nem mesmo aceita a sua existência. O que significa para um casal a impossibilidade de se mostrar publicamente? Para se ter uma idéia disso, basta imaginar o que seria para duas pessoas casadas saírem, irem ao restaurante ou ao cinema, visitarem suas famílias ou vizinhos, sem poderem se tocar, nem se deram a mão, nem se olharem com ternura, nem expressarem sua união conjugal de nenhuma forma. Não poderiam falar de sua vida cotidiana, nem de suas atividades comuns, nem de seus projetos de futuro, nem, claro, de sua relação. Aos poucos se acostumariam a uma certa discrição, a uma certa distância; aprenderiam a 70 John Alan Lee (1991). Gay midlife and maturity. New York, Harrington Park Press. 92 vigiarem seus gestos, suas palavras e seus olhares. Vistos de fora, pareceriam rígidos, pouco afetuosos, estranhamento inibidos. Como o diz uma mulher de quarenta e quatro anos, que foi casada durante vinte anos antes de se engajar em uma relação homossexual: “Uma desvantagem da relação lésbica é o fator externo, o fato de ter que lutar constantemente contra um ambiente hostil: é preciso se perguntar sempre que importância lhe dar, e como fazer. É desagradável, isso vos tira uma mobilidade externa que os casais heterossexuais têm muito naturalmente”. A invisibilidade na qual tantas minorias vivem é a condição habitual do casal homossexual e o distingue. Se os homossexuais tendem a procurar a companhia de outros homossexuais, não é para organizar orgias, como muitos heterossexuais o supõem. É simplesmente a fim de poder falar de sua vida em termos normais, como todo mundo. O isolamento social do casal homossexual Uma outra dificuldade real com que o casal homossexual se defronta é o isolamento. Para começar, a maioria dos homossexuais estão mais ou menos distantes de suas famílias de origem. Claro, é também o caso para muitos heterossexuais: à medida que as pessoas crescem, tornam-se cada vez mais independentes de seus pais e de seus irmãos e irmãs. É o ciclo natural da vida. Mas os casais heterossexuais conseguem substituir de uma certa forma sua família de origem ao fundar seu próprio núcleo familiar com seus próprios filhos; continuam vivendo em um ambiente familiar que catalisa e revitaliza o casal, que lhe oferece algo para se ocupar e para ter do que falar. E se for verdade que as crianças dependem de seus pais, é também verdade que os pais precisam de seus filhos para alimentar a sua relação de casal. Isso não quer dizer que as pessoas têm filhos para preservar seu casamento, mas simplesmente que os filhos têm essa função, entre outras, no sistema familiar. Essa dimensão perde-se na relação homossexual. O universo dos pais, dos irmãos, dos filhos, que constitui a contracena de qualquer casamento desaparece. O casal deve se bastar a si mesmo. Eis a razão pela qual é indispensável que o casal homossexual cultive uma vida social, constituindo aos poucos aquilo que chamamos de uma família de eleição — isto é, uma rede de amigos que possa, se não substituir, pelo menos servir de paliativo para a ausência da família. Aonde os heterossexuais podem contar com um conjunto de suportes afetivos, econômicos e práticos, os homossexuais vivem uma série de carências. Isso se entende facilmente se examinarmos o que talvez seja o símbolo mais consagrado da relação heterossexual: o casamento. Quando um homem e uma mulher se casam, adquirem imediatamente toda uma série de apoio e de certidões que o ajudaram a existir enquanto casal. De um ponto de vista jurídico, obtêm automaticamente um conjunto de garantias legais que vão desde o INSS e os direitos de propriedade e de herança até vantagens fiscais importantes. Economicamente falando, o jovem casal recebe presentes que o ajudarão a mobiliar a sua casa e a começar a vida a dois, e que podem ser desde uma cafeteira até um carro. De um ponto de vista emocional, ao se casar os dois obtém o apoio de ambas as famílias — talvez não ilimitado, mas ainda assim estará disponível em caso de necessidade. Doravante, cada qual poderá contar não somente com sua própria família, mas também com a de seu (sua) parceiro(a). Ao oficializar sua união, o casal heterossexual entra em um mundo afetivo, familiar e social que sempre será um apoio – ou pelo menos uma presença. 93 Nada de tudo isso acontece quando duas pessoas do mesmo sexo decidem de viver junto. Devem partir do zero, freqüentemente a despeito da oposição das duas famílias. Não receberão nem presentes, nem empréstimos, nem vantagens fiscais, nem INSS. E de um ponto de vista emocional, longe de festejar publicamente sua união, em muitos casos será preciso escondê-la ou disfarçá-la. Não terão nem noivado nem festividades de casamento, nem lua-de-mel, e não receberão a visita das duas famílias para conhecer a casa. Aos poucos, tomarão consciência de todas essas coisas que fazem falta; é natural, é inevitável. E, em uma evolução também natural, procurarão ou inventar-se-ão substitutos. A família de eleição Portanto, não é surpreendente que a amizade desenvolva um papel central no mundo homossexual: os homossexuais dividem seu tempo livre com os amigos e não com a família. Visto de fora, esse fenômeno pode dar uma impressão de frivolidade ou de imaturidade: de fato, muitos heterossexuais parecem pensar que os homossexuais pulam de uma festa à outra, e que passam seu tempo a se reunir com seus amigos. Como o disse uma psicanalista: “Os homossexuais são muito gregários; procuram-se continuamente e sempre querem se reunir, como se fosse um tipo de clube social.” Evidentemente, isso é um exagero; mas, ainda que não o fosse, não se poderia esquecer o fato de que essa atividade social intensa equivale a passar o tempo com a família. E, no fim das contas, ninguém pensa em criticar os heterossexuais por passar uma boa parte de seu tempo livre com suas famílias. A amizade não é somente importante na vida dos homossexuais: muitas vezes é indispensável, como o descobriram tragicamente os doentes de AIDS. Muitos deles procuraram a ajuda de sua família e encontraram apenas críticas e rejeições. Foram obrigados a criar e desenvolver redes de apoio no cerne da comunidade guei, e de se tratar entre eles, porque ninguém mais o queria fazer. E se esta situação dramática representa um extremo, esse isolamento é partilhado, embora de uma forma atenuada, pela maioria dos homossexuais. Eis a razão pela qual é essencial que os casais homossexuais cultivam amizades, e desenvolvam na medida do possível famílias de eleição. O ciclo vital Uma outra diferença importante entre os casais homossexuais e heterossexuais é que para estes últimos a vida se divide, naturalmente, em uma série de etapas dadas tanto pela biologia quanto pela sociedade. Cada fase é inaugurada com um acontecimento maior tal qual os noivados, o casamento, a lua-de-mel, a compra de uma casa, o nascimento das crianças, etc. Dois jovens se casam, fundam um lar e tem filhos; depois esses crescem e vão embora, e criam, por sua vez, uma família. Vem, depois, a terceira idade, e depois a morte, em um ciclo vital que se desenvolve quase automaticamente. Todas essas etapas servem para pontuar a vida: dão uma ordem e um ritmo ao ciclo vital no plano pessoal, familiar e social. E cada acontecimento-referência reflete a inserção social do casal: é celebrado como um fato maior que não concerne apenas a dois indivíduos, mas à sociedade como um todo. Pois os acontecimentos importantes na vida de um casal heterossexual são também atos públicos. A cada passo, há uma ratificação do caráter social da relação. E a cada etapa, existem redes de apoio para o casal: a família, os amigos, as escolas, as leis e a cultura em geral encorajam a continuidade no ciclo vital do casal. Além do mais, cada acontecimento-referência tem regras pré-estabelecidas: todo mundo sabe o que significa 94 uma festa de noivados ou um casamento, e como se comportar nelas; sabe-se como é preciso reagir, o que é preciso dizer, e até mesmo sentir. De modo figurado, poderíamos dizer que o casal que começa a vida a dois recebe, desde o início, um manual de utilização completo. Não é o caso para o casal homossexual, para o qual não existem acontecimentosreferência, nem ratificação social, nem apoios, nem manual de utilização. Por isso a idéia, cada vez mais comum no mundo industrializado de inventar equivalentes para isso. A luta dos homossexuais em certos países para obter o direito de se casar, de ter ou de adotar filhos e toda uma série de garantias jurídicas e sociais, não é apenas uma questão de direitos civis. É também um esforço para entrar no projeto de vida, no ciclo vital, da sociedade em seu conjunto. A dimensão do futuro Pois todos os casais têm necessidade de um projeto de vida, de uma projeção em direção ao futuro que une as duas pessoas além do momento presente. Poderíamos dizer que as relações precisam não somente de um espaço, mas também de um tempo que lhes pertença: um lugar, mas também um futuro partilhado. Isso é quase automático na relação heterossexual. Em contrapartida, o casal homossexual não tem projeção em direção ao futuro: é um órfão da temporalidade. Em muitos casos, é apenas instalado no presente e nas vicissitudes da vida cotidiana. O contrato não diz “até que a morte nos separe”, mas simplesmente: “por quanto nos sintamos bem juntos”. Ora, qualquer relação que está ancorada só na vida cotidiana é necessariamente frágil; por falta de engajamento tende a se dissolver. Quando a lua-de-mel está próxima ao fim, a relação também. Portanto, um casal que não tem a visão do futuro dada pelo casamento e pelos filhos deve inventá-la de uma outra forma. É assim que vemos, freqüentemente os casais homossexuais estáveis formarem projetos de trabalho, sociedade em comum. Essa situação, que não é muito freqüente nem talvez recomendável para os casais heterossexuais por causa dos conflitos familiares que dela pode resultar, não é uma má opção para os casais homossexuais. Qualquer projeto em comum necessita diálogo, paciência e perseverança — elementos que o casal heterossexual aprende e pratica todos os dias (mais ou menos) graças aos filhos. Podem não estar de acordo, mas, no final das contas, o casal é obrigado a se aliar, pois o cuidado dos filhos o exige. Esse processo, pelo qual as duas pessoas aprendem a se entender em torno de um projeto em comum, serve para sedimentar sua relação através dos anos; é o que faz amadurecer um casal. Nas relações homossexuais, é preciso outra coisa. O único equivalente viável (a não ser que se adote filhos) é um projeto em comum de longo prazo. O fato de se divertir junto não é suficiente; quando o casal deixa de se divertir por uma razão ou outra, tende a se dissolver. Os casais homossexuais, portanto, têm interesse em pensar no futuro, quando a euforia inicial começa a declinar. A semelhança… Além dessas diferenças no ciclo vital, a relação homossexual apresenta também uma estrutura e dinâmicas específicas. Em primeiro lugar, há o fato inegável da semelhança. Em um casal heterossexual, as duas pessoas são visivelmente diferentes uma da outra, e receberão, além de tudo uma socialização distinta desde o início. Não somente não se parecem do ponto de vista física, mas também tem maneiras divergentes de pensar, de sentir e de falar. Os homens e as mulheres têm modos específicos de se 95 expressar, de ver o mundo, e de formar relações, como os mostraram vários autores71. Em razão de tudo isso, os homens e as mulheres sabem de antemão (ou aprendem) que devem fazer um certo esforço para se compreender mutuamente. Aprendem a respeitar suas diferenças e serem pacientes, mesmo quando não estão de acordo. No casal homossexual o outro é parecido desde o início — e é fácil pensar que ele vê as coisas da mesma forma. Observa-se no casal freqüentemente uma certa ausência de diferenciação: Um “sabe” o que o outro pensa, adivinha o que vai dizer e, o conhece melhor do que a si mesmo. Nos casais do mesmo sexo, às vezes, um acaba as frases do outro ou fala no seu lugar. Existe uma tendência natural em supor que ele terá os mesmos gostos, necessidades ou desejos. Isso pode dar margem à expectativas telepáticas pouco realistas e a uma certa recusa da diferença. Como o descreve uma lésbica: “Às vezes, não nos demos conta daquilo que se exige. Há uma tal identificação, uma tal comunicação, a outra é tão parecida, que às vezes nos irritamos quando ela não tem a mesma reação. Por que ela não pensa igual? Por que ela não sente as coisas do mesmo modo? Por que ela não me entende?” Essa ausência de diferenciação freqüentemente foi interpretada como um fenômeno patológico: alguns autores na psicanálise, em particular, viram aí as conseqüências naturais de um narcisismo suposto dos homossexuais e de sua eterna imaturidade. Mas enquanto os homossexuais seriam incapazes de individuações em todas as áreas da vida, e narcisistas em suas relações interpessoais — o que não é o caso. É o que mostraram os inúmeros estudos psicológicos que tentaram encontrar uma diferença na saúde mental ou na estrutura da personalidade dos homossexuais… e que nunca conseguiram isso, como foi dito no capítulo 1. Então, essa indiferenciação reflete uma dinâmica de casal mais do que uma psicopatologia individual. A distinção é importante, como ela pode sê-lo quando examinemos o funcionamento do casal heterossexual. Por exemplo, uma mulher pode se mostrar infantil, dependente e submissa quando está com o seu marido, enquanto ela é forte, competente e independente longe de sua presença. Será que se trata então de uma patologia pessoal, ou de uma dinâmica de casal? Mesmo que a resposta não seja evidente, está claro que é preciso levar em consideração as duas hipóteses, e não apenas a da patologia pessoal. Dito isso, não há nenhuma dúvida de que a indiferenciação é um dos riscos mais importantes da relação homossexual — exatamente como o seu contrário (a falta de comunicação) é uma das dificuldades mais freqüentes no casal heterossexual. Isso não significa, contudo, que a relação seja fadado ao fracasso — nem em um caso nem em outro. É simplesmente uma dinâmica à qual é preciso ter cuidado. O casal heterossexual deve fazer um esforço para se aproximar e o casal homossexual deve fazer um esforço para se diferenciar, em especial deve estar muito atento às pressuposições e à “telepatia!”. Isso se aplica à comunicação, aos gostos, à maneira de pensar e de sentir das duas pessoas. Mas os problemas podem também surgir no campo sexual. Se eu sou uma mulher e durmo com outra mulher é fácil eu supor que essa terá a mesma sensibilidade erótica do que eu; no final das contas, nós não temos a mesma anatomia? Mas as coisas não se passam assim na realidade. Cada indivíduo tem um erotismo próprio que se desenvolveu nele desde sua infância. Esse erotismo depende do contato físico que teve com seus pais, seus irmãos e suas irmãs, da maneira com a qual sua família expressava o amor ou a agressão, daquilo que ele pôde observar na relação entre seus pais e de suas próprias experiências 71 Ver, por exemplo, Deborah Tannen (1990). You just don’t understand. New York, Ballantine Books. 96 anteriores no campo sexual. Cada corpo tem sua própria arqueologia do desejo e da sexualidade. Portanto, não existe uma sensualidade feminina ou masculina que seja genérica ou generalizável. Tal mulher poderá quase ter um orgasmo quando for acariciada nos seios e outra não sentirá nada. Uma mulher poderá desejar a penetração vaginal, e a outra não. Uma poderá amar o sexo oral, e a outra não. Da mesma foram, certos homens desejam ser penetrados analmente e outros não. Cada corpo tem sua sensibilidade, seu ritmo, e até mesmo seu modo particular de expressar o desejo e o prazer sexuais. Portanto, nada podemos supor nesse domínio; e aqui também, as duas pessoas devem se dar a permissão de explicitar suas diferenças. Na relação homossexual, é bom ser próximos, mas não idênticos. … E a diferença Uma dinâmica comum mas pouco estudada no casal homossexual é a da rivalidade, que pode ser mais ou menos visível, mais ou menos consciente. Poderíamos pensar que há uma certa rivalidade em todas as relações amorosas, mas isso não é necessariamente o caso. Por exemplo, um homem e uma mulher não vão pensar em se comparar no domínio físico: não se perguntarão qual é o mais bonito, nem o mais musculoso, nem o mais musculoso, nem o que está mais bem vestido, nem o mais sexy. Também não tenderão a se medir em relação ao gênero — qual dos dois é mais masculino ou feminino — pois essas diferenças são dadas pela biologia. Da mesma forma, no campo do trabalho, é “normal” que o homem tenha mais sucesso e ganhe mais dinheiro (problemas surgem somente quando a mulher ganha mais ou tem uma posição superior; nesse caso, pode existir uma certa rivalidade.) Existem entre os homens e as mulheres uma série de diferenças biológicas, culturais e sociais, que são ou parecem ser “naturais”. Portanto, há em geral no casal heterossexual um acordo implícito sobre qual dos dois é mais forte ou mais competente em tal ou tal domínio da vida. É “normal” que o homem seja talentoso para certas coisas e a mulher para outras. Isso dá espaço para uma divisão do trabalho que é bastante difundida no mundo atual segundo a qual, por exemplo, o homem trata dos aspectos práticos da vida em casal e a mulher dos seus aspectos pessoais e afetivos. Em geral, o casal heterossexual funciona na complementaridade mais do que na rivalidade. Isso não é o caso na relação homossexual, na qual a similaridade biológica torna possível todo o tipo de comparações. A semelhança favorece à competição, consciente ou não. Ora, de duas pessoas, sempre há uma que é mais atraente ou sedutora, mais forte ou sã, mais rica ou reconhecida. Como o expressa uma lésbica de quarenta e dois anos: “Acho que há uma competição bastante importante. Nós somos duas mulheres, afinal de contas, e sempre a gente se pergunta quem é a mais magra ou a mais bonita.” Por outro lado, as duas pessoas em questão não são as únicas a se compararem: seus amigos e pais pensarão (e dirão): “Essa é mais bonita do que a outra”, ou “Ele é o mais efeminado”, ou “Parece que é ele quem ganha mais dinheiro”. Tudo isso pode estimular ciúmes e ressentimentos que afetam necessariamente a comunicação e a solidariedade no casal. Além do mais, vê-se com bastante freqüência casais homossexuais formados por duas pessoas muito diferentes do ponto de vista social, econômico e profissional. Isso implica sempre uma certa assimetria que pode, por sua vez, promover inveja e rivalidade. A diferença de idade entre os dois membros de um casal homossexual conta muito mais do que no mundo heterossexual. Que um homem tenha quinze anos a mais do que sua mulher não chega a ser um grande problema precisamente porque não há 97 comparação entre eles; mas, se ele tiver quinze anos a mais do que seu parceiro masculino, a comparação é inevitável. É difícil reconhecer esse tipo de dinâmica quando se está envolvido. Aliás, muitas vezes se pensa que não deveria haver rivalidade, nem desigualdade, nem conflitos de poder, entre dois amantes. Entretanto, eles existem. Quantos problemas dos casais homossexuais não se devem a esta tendência para a comparação? Quantos sentimentos de inferioridade ou de superioridade, de insegurança, de frustração ou até mesmo de ódio, não derivam, de fato, de uma rivalidade escondida? É indispensável para o sucesso do casal que suas duas partes possam reconhecer suas forças e suas fraquezas respectivas. No casal formado por duas pessoas do mesmo sexo, é inevitável que uma seja mais forte em certos domínios, e a segunda em outros; e é melhor assumir esta realidade do que tentar aparar as arestas, como freqüentemente têm tendência a fazê-lo. Em termos simplistas, é muito mais são admitir que um dos dois maneja melhor o cortador de grama, se é igualmente reconhecido que o outro maneja melhor o computador. A divisão do trabalho na relação, bem explicitada e negociada, pode ajudar a neutralizar os efeitos negativos da rivalidade. Inveja e ciúmes Um outro problema freqüente dos casais homossexuais é o do ciúmes. Claro, esse pode surgir em qualquer relação humana — mas aqui há um elemento complicador que geralmente não é reconhecido como tal: a inveja. No casal guei, uma coisa é quando outros homens olham meu parceiro e tentam seduzi-lo — o que pode muito naturalmente me tornar ciumento. Mas, uma outra coisa é quando eu me pergunto por que é ele que as pessoas estão olhando e não a mim; isso provocará em mim, não somente ciúmes, mas inveja. Podemos, portanto, supor que aonde encontramos ciúmes em uma relação homossexual, encontraremos também inveja. Mas essa geralmente não é assumida, porque não se tem o costume de pensar nesses termos e é extremamente humilhante reconhecer que não se é apenas ciumento, mas também invejoso. Ora, é importante fazer e explicitar a distinção. O ciúme é muito menos perigoso quando se consegue detectar e assumir seu componente de simples inveja — e trabalhá-lo enquanto tal. “Mas” e “menos” homossexual Às vezes acontece na relação homossexual que um dos dois considere que o outro é o “verdadeiro” homossexual. Em muitos casos, parece existir um acordo tácito acerca de quem é “mais” e quem é “menos” homossexual, classificação que pode parecer absurda à primeira vista. Várias explicações são possíveis. Uma primeira, aplicável tanto aos casais masculinos quanto femininos, é que uma das duas pessoas se identifica como homossexual “desde sempre”, enquanto a outra está vivendo sua primeira relação homoerótica, ou simplesmente é mais jovem. Pode também ter aí outras explicações, diferenciadas conforme o gênero. No casal masculino, pode haver uma distinção segundo os papéis sexuais: o homem ativo é “menos” homossexual, enquanto o passivo é mais — porque o fato de ser penetrado o assimila ao sexo feminino e torna-o um “verdadeiro” homossexual. De acordo o meio social e cultural, pode haver outros critérios de definição. Muitos homens consideram que o ato sexual em si não os tornam homossexuais — mas os sentimentos amorosos sim. Os beijos, as carícias, a ternura são “coisas de mulheres” que marcam um limite entre homossexualidade e heterossexualidade. Então, aquele que sente e expressa 98 amor é homossexual; o outro, que recebe afeição mas não a retribui, não o é. E mesmo que os dois homens reconheçam o caráter homossexual de sua relação, acontece que um acha isso natural enquanto o outro considera que é uma coisa passageira que ele faz por necessidade, por interesse, ou enquanto espera encontrar uma mulher. Do mesmo modo, um pode desenvolver um papel “masculino” e, portanto, se achar “menos” homossexual, enquanto o outro, mais “feminino” é evidentemente “mais” homossexual. Portanto, há nos homens vários critérios possíveis para estabelecer o que constitua ou não uma relação homossexual. Esses critérios derivam ou de certos estereótipos de gênero, ou das práticas sexuais de cada um, ou do grau de homofobia interiorizada. Mas em todos os casos, essa distinção entre “mais” e “menos” homossexual mina a relação. É como se o “menos” homossexual não conseguisse integrar realmente o casal: sempre está de passagem. Tenderá à se engajar menos, fará menos esforços para cultivar a relação, não se sentirá responsável por ela, e acusará o parceiro “mais” homossexual pelos problemas que poderão surgir na relação. E é geralmente ele acabará com ela. Essa distinção é menos perceptível nas mulheres. Em primeiro lugar, a divisão dos papéis sexuais não é tão freqüente na relação lésbica, já que a penetração desenvolve um papel menos central. Claro, certas lésbicas gostam de ser penetradas (com a mão ou um objeto), e outras não — mas nem por isso elas se consideram “mais” ou “menos” homossexuais. Contudo, existem outros critérios: uma das duas parceiras pode ser mais “masculina” e se sentir “mais” homossexual, enquanto aquela que é mais “feminina” se vê como “menos” homossexual. Essa diferença será traduzida menos por práticas sexuais diferentes do que pela aparência física: roupas, linguagem corporal, e atitudes tipicamente “masculinas” ou “femininas”. São então certos estereótipos que determinam qual é a “mais” ou “menos” homossexual no casal. Quaisquer que sejam os critérios, em todas as relações onde encontramos essa “distribuição” desigual da homossexualidade, encontraremos sempre na pessoa “menos” homossexual homofobia interiorizada e projeção: uma das duas pessoas achará mais difícil aceitar sua homossexualidade, e portanto a projetará na outra. É isso que às vezes permite dizer coisas assim: “A lésbica, não sou eu, é ela”. É natural que tenha em cada casal uma pessoa mais velha, ou que tenha mais experiência homossexual, ou que aceita melhor a sua orientação. É ela que adotará o papel de “verdadeira” homossexual. A outra, sobretudo se for sua primeira relação dessa natureza, poderá até mesmo se dizer que, se ela é homossexual é por causa de sua parceira. Tenderá a acusar a “verdadeira” homossexual pelos problemas que aparecem na relação, ou mesmo pelas suas próprias dificuldades na vida. É nesse momento que aparecem frases do tipo: “Se eu não tivesse te conhecido, eu estaria tranqüilamente casada, teria filhos, e levaria uma vida normal.” Esse raciocínio se nutre, além do mais, de uma certa concepção das causas da homossexualidade. Muitas pessoas pensam, de fato, que não se torna homossexual por si mesmo, mas porque se é iniciado, ou induzido, por outra pessoa. A história clássica, em sua versão masculina, desenvolve-se da seguinte forma: um jovem adolescente cai nas mãos de um homossexual mais velho do que ele, que o violenta, compra seus favores, o chantageia, condenando-o, assim, à homossexualidade. Na versão feminina, a moça mais nova é encantada com uma mulher mais velha que se aproveita de sua inocência ou de sua solidão para desviá-la de seu destino original. Essa visão tragicômica de uma homossexualidade que seria transmitida como uma doença infecciosa é ainda bastante difundida tanto nos homossexuais quanto nos heterossexuais. Uma de suas conseqüências é precisamente a idéia segundo a qual há sempre em um casal uma pessoa “mais” homossexual que perverte aquela que o é “menos”. Essa distribuição da homossexualidade pode minar seriamente a relação, pois implica também em uma distribuição desigual e injusta da responsabilidade, engajamento 99 e do trabalho no casal. Ela pode parecer objetiva, já que haverá sempre uma pessoa que aceitará melhor a sua homossexualidade; contudo é preciso ver aí uma manifestação da homofobia interiorizada. Pois, no final das contas, não pode haver apenas um homossexual em uma relação homossexual: quaisquer que sejam os critérios, sempre serão dois. Mas o que eles têm em comum? Um problema análogo surge quando duas pessoas estabelecem uma relação somente porque elas têm a mesma orientação sexual. Alguém jovem, que conhece poucos homossexuais, pode muito facilmente se apaixonar por uma pessoa com a qual ele não tem nada em comum. Muitos homossexuais têm em sua juventude relações desse tipo, superficiais e, contudo, muito dolorosas; aposta-se toda a sua paixão e toda a sua esperança, faz-se qualquer coisa para preservá-la, para gritar, no final, como Swann: “Dizer que perdi anos de minha vida, que quis morrer, que eu tive meu maior amor, para uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo!” Infelizmente, exceto nas grandes cidades européias ou americanas, é tão difícil encontrar homossexuais no contexto da sociedade heterossexual que muitas pessoas freqüentam lugares gueis especializados. O problema, é que a maioria desses lugares, sobretudo os bares, reúnem um grande número de pessoas que não têm absolutamente nada em comum fora a sua orientação sexual. Isso dá margem à relações superficiais e, geralmente, efêmeras. Mais ou menos saído do armário Muito freqüentemente, um dos dois membros de um casal homossexual é mais aberto do que o outro no que concerne à sua homossexualidade. Por exemplo: de um lado, a família está sabendo e do outro não; os amigos e os colegas de um conhecem a relação, enquanto o outro a dissimula. E se toda a relação clandestina é difícil, ela é muito mais quando esta clandestinidade não é partilhada. Ao invés de serem aliadas, as duas pessoas encontram-se em uma situação antagônica que tenderá a separá-las. Em geral, a pessoa que está ainda “no armário” procura se esconder ou disfarçar a relação frente à sua família e à sociedade. O Tempo todo, ela precisa inventar novas artimanhas para apresentar o seu parceiro, falar dele ou o incluir nas atividades familiares ou sociais, sem nunca revelar a verdadeira natureza de sua relação. Uma jovem lésbica conta: “Eu sempre levava minha parceira nas festas familiares nas quais a apresentava como uma colega de escola. Um dia, minha mãe me pegou de lado e me disse que essas reuniões eram somente para a família, isto é, meus pais e meus irmãos – com, claro, suas respectivas esposas. Então, não levei mais minha parceira, e aos poucos deixei de participar das atividades da família.” Por sua vez, a pessoa que se assume melhor pode legitimamente se sentir excluída, ou se cansar da clandestinidade que lhe é imposta em nome das aparências. Nesse tipo de situação, as regras do jogo são estabelecidas por aquela que deve manter o segredo: é ela que decide onde, quando e como o casal se encontra, com quem mantêm relações, e a quem se confia. Aquela que deve obedecer a todas essas disposições chega às vezes a se interrogar: “Se você me amasse de verdade, não teria vergonha de nossa relação.” A pessoa que tenta dissimular a relação e encontrar um equilíbrio entre sua família e o seu parceiro, freqüentemente se sente também não compreendida e dividida. É obrigada a visitar a sua família ou passar as férias com ela; mas deve deixar seu parceiro 100 para fazê-lo. Ela se sente culpada por isso, mas não quer perder a aceitação de sua família. Se seu parceiro a repreende por isso, ela se sentirá duplamente sozinha e presa em um dilema sem solução. Nesses casos, é indispensável que cada um respeite a situação familiar e social do outro. Cada pessoa tem sua própria história, e essa não pode ser mudada por decreto. Nem todo mundo pode se encontrar na mesma etapa da vida, nem assumir do mesmo modo sua homossexualidade, nem ter o mesmo grau de autonomia em relação à sua família ou à sociedade. Nem todos os homossexuais podem sair da clandestinidade, muito menos ao mesmo tempo, e muito menos ainda por obrigação. Não deve existir imposições nessa área, e a concordância nem sempre é possível. A solução adotada por muitos casais é simplesmente a de se instalar longe de suas famílias, em cidades grandes onde terão menos problemas. Claro, isso nem sempre é possível. Esse tipo de mobilidade é muito mais fácil nos países industrializados, onde os jovens deixam o lar familiar relativamente cedo e podem se deslocar com maior facilidade. A forte concentração de homossexuais em cidades como São Francisco ou Nova Iorque, se deve sem dúvida, em parte, ao afluxo de jovens que querem viver livremente sua orientação, longe de suas famílias de origem. Todos esses problemas são mais ou menos inerentes à relação homossexual e exigem uma atenção constante. Por conta deles, muitos casais se separam, às vezes sem se darem conta de que se trata de dinâmicas de relação e não de defeitos pessoais. A tendência natural é a de se dizer: “Não faz meu tipo”, ou ainda: “Essa relação não está funcionando”, sem entender que essas dinâmicas tendem à se repetir caso não sejam devidamente entendidas e resolvidas. O que complica as coisas, é o fato de não estarmos acostumados a considerar a especificidade da relação homossexual; tentamos, antes, transpor nela as dinâmicas do modelo heterossexual. Muitos homossexuais (e seus terapeutas) baseiam-se em “receitas” próprias do casal heterossexual. Ora, esse tem uma estrutura, razões de ser e dinâmicas muito diferentes, não aplicáveis à relação homossexual. Os pontos fortes da relação homossexual Em contrapartida, o casal homossexual dispõe de recursos importantes que são pouco encontrados no casal heterossexual. Entre outros, oferecem uma liberdade individual, uma comunicação e uma solidariedade muito particulares. Muitos heterossexuais (sobretudo as mulheres) devem renunciar a um certo desabrochar ao se casarem: as imposições afetivas, econômicas e sociais limitam sua liberdade de movimento e suas possibilidades de estudar, de trabalhar, ou de manter atividades fora da família. Os homossexuais são muito mais disponíveis. Assim, uma grande diferença entre seus casais e os dos heterossexuais reside no seu acesso ao tempo livre. E isso representa um potencial de amadurecimento e de desenvolvimento pessoal (por exemplo, acadêmico ou profissional) que é mais frágil na relação heterossexual (sobretudo, repito, para as mulheres). Sem dúvida é isso que explica a sensação de ser “muito mais eles mesmos” descrita pelos homossexuais quando comparam a sua experiência atual com as relações heterossexuais que tiveram antes. Como conta uma lésbica de 50 anos, que foi casada durante 20 anos: “Na relação homossexual, há muito mais espaço para si. Em minhas relações heterossexuais, sem dúvida, eu era muito valorizada, mas não me viam como a pessoa que eu sou de verdade. Havia um acordo implícito entre o meu marido e eu; era preciso que eu amputasse partes de mim mesma para que a relação funcionasse bem. 101 Agora, eu consegui retomar atividades e interesses que eu tinha abandonado durante muito tempo.” Essa sensação de liberdade, de poder ser si mesmo, tem muito a ver com o estilo de comunicação mais aberto. O que isso significa? Todos os casais, homossexuais ou heterossexuais mantêm uma comunicação contínua — mesmo quando eles não se dirigem a palavra. Por definição, qualquer interação entre duas pessoas é uma forma de comunicação, e segue regras que são próprias à sua relação específica. Assim, o filho se dirige para seu pai segundo certas normas que regem onde, quando, e como ele pode falar com ele, e a respeito do quê; mas ele segue outras regras com sua mãe, e outras ainda com os seus professores, vizinhos ou amigos. Desde a infância, aprendemos a nos dirigir a muitas pessoas de acordo com normas que refletem relações de parentesco, o grau de intimidade, e a hierarquia que existe em cada caso. Em especial, existe toda uma série de regras que governam as relações entre os dois sexos. A relação entre os homens e as mulheres — amorosa, erótica, amigável, profissional ou familiar — é sujeitada a modelos de comunicação que limitam extremamente as possibilidades de uma amizade ou de uma intimidade real. Essas regras implícitas estipulam que o homem deve ser ouvido quando fala de si mesmo, mas não a mulher; que ele pode interromper sua mulher, mas não deve ser interrompido; que é ele quem decide de que assunto se pode discutir; e que sua mulher deve ouvi-lo atentamente e de maneira respeitosa. Eis, então, inúmeras barreiras que inibem seriamente a comunicação entre os dois sexos. Aliás, os jogos da sedução e do poder, assim como diferenças psicológicas importantes, fazem com que as relações entre homens e mulheres sejam freqüentemente rígidas e superficiais. Muitos casais heterossexuais, sobretudo se estiverem juntos há muito tempo, são prisioneiros de estereótipos desse tipo — mesmo, muitas vezes, sem querê-lo. Não é por acaso que os homens têm geralmente outros homens como melhores amigos, e as mulheres outras mulheres. O casal homossexual é muito mais livre: não está preso ao modelo de comunicação homem-mulher que limita tanto a intimidade no casal heterossexual. Como explica uma lésbica de quarenta e quatro anos, que foi heterossexual em sua juventude: “Eu posso sentir prazer tanto em uma relação sexual com um homem quanto com uma mulher. Mas eu escolhi tê-las com as mulheres muito cedo, por razões afetivas. É muito mais fácil viver com uma mulher. De início, eu me sentia mais próxima dos homens; desde a minha infância, eu preferia brincar com os meninos. Durante a minha adolescência, eu ficava o tempo todo com eles; suas atividades e sua companhia me pareciam muito mais interessantes, porque eles são mais livres. Mas um problema sempre voltava: assim que eu começava a sair com um rapaz, a relação mudava. De repente, não havia mais amizade. Via-me relegada ao estatuto de namorada, enquanto eles continuavam saindo com os seus amigos. Então, ganhava uma relação sexual, mas perdia a amizade e a camaradagem. Com as mulheres, a relação sexual é do mesmo modo satisfatória, e além disso eu posso ter o resto: posso ter sexo e amizade. As mulheres não deixam você em casa quando saem para se divertir com as amigas.” Uma outra modalidade de comunicação Muitos homossexuais encontram em suas relações de casal uma franqueza e uma camaradagem que são raras nas relações heterossexuais. Muitas vezes acontece que dois amantes homossexuais sejam também os melhores amigos entre si — o que tem vantagens e desvantagens. Por um lado, essa amizade intensa cria laços mais íntimos, igualitários e solidários; mas, por outro lado, pode dar lugar a uma dependência e a um 102 isolamento excessivos. As duas pessoas se bastam uma a outra, e satisfazem a maioria de suas necessidades afetivas na relação de casal. O casal homossexual se distingue também pela equidade e a reciprocidade na relação. Claro, sempre há assimetrias no poder, como em todas as relações humanas. Mas não são dadas pelos papéis masculinos e femininos, como no casal heterossexual. As desigualdades de poder não provêm do gênero, mas de diferenças mais “reais” como a idade, o temperamento, ou o nível social. Isso é evidente, sobretudo, entre as mulheres que, na maioria das vezes, ocupam uma posição de fragilidade no casal heterossexual. Quando elas constituem uma relação amorosa com uma outra mulher, elas descobrem uma igualdade, um respeito e uma reciprocidade, que não conheciam. Mas os homens também percebem e apreciam essa diferença entre as relações homossexuais e heterossexuais. Como diz um homossexual: “Não gostaria de me responsabilizar por uma mulher que dependesse de mim. É quase sempre impossível ter uma relação de igualdade com uma mulher, e agora estou acostumado com uma transparência e uma franqueza que eu não teria se eu fosse heterossexual.” Sexo, amor e amizade O papel central da amizade no mundo homossexual pode também trazer problemas. A liberdade de explorar modalidades diferentes de relação, sem as imposições da heterossexualidade, pode dar lugar a uma grande confusão. Em particular, os limites entre sexo, amor e amizade não são nem um pouco claros no mundo homossexual — o que permite uma grande criatividade, mas também muitos desentendimentos. Em outras palavras, os heterossexuais fazem distinções muito nítidas entre esposos, amantes, amigos e família. Muito cedo, aprendem as regras que governam cada tipo de relação e se acostumam a distinguir os sentimentos que correspondem a cada uma dela. Assim, eles não mantém (geralmente) relações sexuais com seus amigos nem com sua família. Nada disso acontece com os homossexuais, em muitos casos. Tanto as mulheres quanto os homens têm, às vezes, relações sexuais com os seus amigos (ou os parceiros de seus amigos), inclusive aqueles que eles consideram como a sua “família”. Até mesmo se falou de um sumiço do tabu do incesto na cultura guei, sobretudo a masculina: é “normal” que dois melhores amigos, que se amam como irmãos, tenham entre eles contatos sexuais esporádicos72. Nesse contexto de pós-liberação guei, a relação erótica tem um sentido muito diferente daquele que existe entre os homens e as mulheres. Não é necessariamente um sinal de amor, nem de intimidade, nem de engajamento. A relação sexual pode ser um modo de se conhecer, de aprofundar uma amizade, ou de passar um bom momento entre amigos. Ela tem um sentido lúdico e uma dimensão de camaradagem que não tem paralelo nas relações heterossexuais. Claro, comporta também riscos importantes, tanto físicos quanto psicológicos. Essa categoria da amizade erótica (ou do sexo amigável) se generalizou, sobretudo, entre os homens, para quem a sexualidade não está necessariamente ligada a uma intimidade emocional. O movimento de liberação guei abriu para eles um conjunto de modalidades sexuais e afetivas que parecem coincidir com os seus desejos e suas necessidades. As coisas não se deram assim tão bem para as mulheres. As lésbicas usufruem, hoje, de uma liberdade sexual que as mulheres nunca haviam conhecido antes. Nisso elas são muito mais libertas do que as heterossexuais, porque podem ter relações 72 Ver John De Cecco (ed.) (1988). Introduction. In: Gay relationships, New York, Harrington Park Press. 103 eróticas inteiramente livres de qualquer obrigação jurídica ou emocional, e sem temer gravidez e nem doenças sexualmente transmissíveis. Mas essa liberdade parece provocar muitos problemas. É possível que ela seja ainda muito nova, ou que as mulheres não tenham ainda aprendido, como os homens, a dissociar a sexualidade do amor — mas o novo sistema não parece funcionar tão bem para elas. As relações sexuais entre amigos, o casal aberto, os jogos eróticos em grupo, coisas que não são problemas para os homens, tendem a provocar conflitos quando acontecem entre lésbicas. É fácil atribuir os dramas, o ciúmes, as paixões intensas e as rupturas abruptas, que são tão freqüentes entre as lésbicas, a uma falta de maturidade psicológica. Acredito que esses problemas surgem, em parte, porque as mulheres não têm ainda o costume da liberdade afetiva e sexual da qual elas experimentam entre elas; e isso produz uma certa confusão dos sentimentos e das condutas. Assim, elas se acham apaixonadas quando não o estão de verdade, tornam-se ciumentas sem razão, e tentam se impor esquemas tradicionais que não têm nada a ver com elas. Penso que isso acontece sobretudo quando as mulheres tentam adotar atitudes “masculinas” que são mais próximas da conquista e da possessão do que de uma autêntica intimidade. A liberdade sexual parece ter um custo muito elevado para as mulheres — não porque elas são menos maduras ou “razoáveis” do que os homens, mas porque os homens têm muito mais experiência nesse campo. A possibilidade de escolher o seu parceiro e seu estilo de vida é tão nova que as mulheres ainda não desenvolveram regras de jogo viáveis. Não é à toa que os casais homossexuais femininos se assemelham mais ao modelo do casamento heterossexual do que os masculinos, como veremos no próximo capítulo. As definições tradicionais do sexo, do amor e da amizade mudaram muito desde a liberação guei, embora com melhores resultados para os homens. Os limites entre essas diferentes modalidades não são tão claros em comparação há apenas vinte anos atrás. A homossexualidade contemporânea modificou o mapa das relações humanas, deixando aparecer continentes até então desconhecidos. Em particular, a amizade substituiu a família em muitos casos; e, sobretudo entre os homens, às vezes, ela tem uma dimensão sexual. Ocorre, freqüentemente, que examantes homossexuais, homens ou mulheres, permaneçam amigos — fato menos habitual no mundo heterossexual. Quando um casal heterossexual se separa, as duas pessoas, em geral, não têm mais nada para se dizerem, enquanto os homossexuais fazem a transição mais facilmente entre as duas modalidades de relação. Na mesma lógica, os amigos tornam-se ocasionalmente amantes. A amizade entre homens e mulheres Um fenômeno interessante no universo guei, e que é raro entre os heterossexuais, é a amizade entre homens e mulheres. Os homossexuais, em particular, desenvolvem muitas vezes ligações profundas e devotadas com as mulheres, qualquer que seja a sua orientação. Isso pode parecer estranho. Os homossexuais, supostamente, odeiam ou têm medo das mulheres, enquanto, em muitos casos, sentem e manifestam em relação a elas uma afeição e uma consideração que se nota raramente entre os heterossexuais. A amizade entre os dois sexos sempre foi difícil. Os parâmetros da relação heterossexual raramente permitiram uma aproximação amigável; o contato entre homens e mulheres se desenvolve, na maioria das vezes, sob o signo da sedução, da possessão e do poder. A homossexualidade contemporânea, oriunda da revolução sexual, da liberação guei e do feminismo, está mudando esses modelos rígidos. A partir do momento em que 104 não há mais jogos de poder e de sedução, porque o homossexual não está preso à dinâmica da conquista, um entendimento muito diferente torna-se possível. Claro, muitos homens homossexuais e heterossexuais ainda são misóginos — mas é seu machismo que está em causa e não a sua orientação sexual. É possível que os homossexuais que se aproximam das mulheres tenham, eles mesmos, uma sensibilidade mais “feminina”. Mas isso prova, de fato, que os papéis estão mudando: graças à enorme evolução social dos últimos decênios, os homens podem se permitir serem mais femininos, e as mulheres mais masculinas — abrindo, assim, novas possibilidades de aproximação. O que conta, no fundo, é a dissolução dos papéis, o apagamento das definições, e a descoberta de novas formas de relação entre os seres humanos. A comunicação e a afeição que observamos entre os homens e as mulheres na cultura guei são apenas uma pequena amostra do que seria uma relação mais autêntica “de pessoa para pessoa”, entre os dois sexos. Os riscos da inovação Toda essa fluidez apresenta também grandes riscos. Observamos muita flexibilidade, mas também muita incerteza; criatividade, mas também confusão; inovação, mas também perigos reais. No universo guei, todas as significações tradicionais do masculino, do feminino, do amor, da amizade, da lealdade, são transformadas. E isso acaba por tornar as relações precárias. O fato de que uma amizade possa se erotizar não contribui para a estabilidade dos casais nem dos sentimentos. Muitos casais se separam precisamente por conta desse tipo de equívoco. As relações são, às vezes, sabotadas por amigos ou ex-amantes que não respeitam a intimidade do casal. Ou ainda, uma das duas pessoas dorme com outra, sem dar importância ao caso até o momento em que seu parceiro o repreende amargamente — mas o mal está feito. Ou então, dois amigos iniciam uma relação sexual porque se dão bem, e depois se arrependem de não terem deixado as coisas como estavam. Muitas vezes ouvi homossexuais dizerem: “Eu não sei se eu o amo como amigo ou como amante; eu me divirto bastante com ele, mas eu não tenho certeza dos meus sentimentos.” Às vezes, essa falta de clareza dá lugar a atitudes equívocas ou a condutas inapropriadas, que não correspondem a uma realidade afetiva. Em uma perspectiva tradicional, poderíamos dizer que os homossexuais controlam mal seus impulsos, toleram pouco a frustração e têm pouca consideração pelos outros. Mas é preciso se lembrar que esses tipos de conduta têm uma dimensão social e histórica importante. Os homossexuais estão atualmente na vanguarda de uma imensa transformação da sexualidade humana. Os antibióticos, a contracepção, a revolução sexual, o feminismo e a liberação guei, acabaram por trazer uma liberdade sexual total, que nunca tinha sido vista na história. E são os homossexuais que são os mais bem colocados para explorar e cultivar as novas formas de relação que surgiram daí. Mas isso não é fácil, e o preço a pagar é muito elevado. Reinventar o casal O casal homossexual, talvez ainda mais do que o heterossexual, mudou muito ao longo dos últimos trinta anos. Ele não tem mais um formato único, se é que alguma vez o teve. Cada casal deve inventar suas próprias regras do jogo, e isso o obriga a fazer um esforço sempre renovado para comunicar e se entender. Na relação homossexual, nada é dado. É preciso fazer um trabalho contínuo para negociar e renegociar os papéis e os costumes que estruturam tão naturalmente o casal heterossexual. Como diz um homem guei de quarenta e cinco anos: “A grande força do casal guei reside no fato de que se está sempre reinventando o casal. Tem-se uma enorme liberdade para redefinir o tempo 105 todo quem se é, sem nunca se entediar. Há uma interrogação constante e um não conformismo que faz com que nunca nos deixemos acomodar. Não existe contrato, nada está certo; então, se é livre para se entender e se mostrar como realmente se é de verdade, e para conhecer o outro como ele é de verdade”. A aceitação social do casal homossexual Observa-se hoje uma aceitação recente do casal homossexual na sociedade heterossexual. Não é mais surpresa que um casal guei ou lésbico assista aos casamentos, às reuniões de amigos, às reuniões do pessoal do trabalho. Essa aceitação progressiva é muito benéfica, tanto para os heterossexuais quanto para os homossexuais. Não há dúvida de que a tolerância e o respeito para com os homossexuais progrediram muito. Mas o que os heterossexuais aceitam cada vez mais, não é necessariamente a homossexualidade em si. Estão dispostos a tolerar indivíduos e casais homossexuais desde que se assemelhem ao modelo heterossexual. Se a relação for antiga; se o casal homossexual for estável e monogâmico; se sua sexualidade for discreta; em resumo, se o casal homossexual for bem-comportado, será tolerado pela sociedade heterossexual. Isso parece um pouco com a situação dos negros americanos em uma certa época: quanto mais eles adotavam os modos de pensar e de falar da sociedade branca, mais eram aceitáveis por ela. Mas o preço a pagar era elevado: a identidade cultural negra, tão rica e variada começou a se perder. Finalmente, nos anos noventa, muitos jovens negros recusaram continuar no caminho da assimilação, e empreenderam um vasto trabalho para reencontrar a especificidade de sua identidade e de sua cultura. Acontece alguma coisa parecida hoje com os homossexuais. Existe um processo de assimilação indubitavelmente positivo, mas que limita de uma certa forma o enorme potencial de exploração e de inovação que acabamos de descrever. Infelizmente, somente um tipo de casal homossexual tornou-se aceitável — aquele que imita o casal heterossexual. A questão aqui não é de saber se esse modelo ainda está válido — embora esteja em franca decadência a mais ou menos vinte anos. O problema, é que a estrutura e as regras do casamento heterossexual não correspondem às dinâmicas e às necessidades concretas do casal homossexual. Aliás, é muito provável que quanto mais o casal homossexual tente imitar o modelo heterossexual, ou até mesmo aquele do casal heterossexual tradicional, mais dificuldade ele sentirá. Atualmente, os casais que adotam os velhos esquemas dos papéis masculino e feminino, ou as definições consagradas do amor e da amizade, do casal e da família expõe-se a muitos desentendimentos e a muitas decepções. O casal homossexual tem muitas qualidades próprias, e pode desenvolvê-las na medida em que se desprende das normas antigas. A amizade, a liberdade, a solidariedade, o desenvolvimento pessoal, a busca de novas modalidades afetivas e sexuais são os vários pontos fortes que distinguem e enriquecem os casais homossexuais. Disso resulta uma grande variedade de formas de relação. Por exemplo, cada vez mais os homossexuais praticam o que poderíamos chamar de “monogamia consecutiva”, adotada igualmente por muitos heterossexuais em nosso tempo. Nesse esquema, não se trata mais de ter uma relação importante e monogâmica na vida (como no casamento tradicional), mas antes uma série de relações que correspondem às diversas etapas do ciclo vital. Têm-se assim, amores e engajamentos diferentes durante a juventude, a idade adulta e a velhice. Essa idéia reflete fenômenos sociais reais: a esperança de vida cada vez mais longa, a disponibilidade generalizada da contracepção, e a evolução dos costumes. Os heterossexuais adotam cada vez mais esse modelo, sobretudo nos países 106 industrializados, mas o fazem de uma forma terrivelmente dolorosa: por meio de uma série de divórcios. Os homossexuais, em contrapartida, podem se permitir relações sucessivas sem magoar ninguém. Não tenho a intenção de defender aqui qualquer tipo de relação que seja, mas sim apontar que a evolução social e cultural permite uma grande variedade de casais, tanto heterossexuais quanto homossexuais. Esses, em particular, têm o privilégio de poderem explorar e desenvolver novas modalidades, caracterizadas por uma flexibilidade maior, um entendimento mais recíproco e melhores chances de alcançar a felicidade. Temas de reflexão para consolidar o casal homossexual — Quando você está em um contexto heterossexual, o que você faz para dissimular (ou revelar) sua relação de casal? — Qual é, para cada um de vocês, sua família de eleição? E para os dois, enquanto casal? — Elaborar projetos comuns para seis meses, para um ano, dois anos, dez anos… — Em que vocês são parecidos, e no quê são diferentes? — Em que campos existe rivalidade entre vocês? — Em que campos existe inveja? — Um de vocês é “mais” homossexual do que o outro? Por quê? — Um de vocês está mais fora do armário? Como isso afeta a relação? — Exprimir e comparar suas expectativas em relação ao que é ou deveria ser, uma relação homossexual em nossa época. — Exercícios contra o equívoco nos sentimentos: examinar suas definições da amizade, da família, do amor e do erotismo, da fidelidade e da lealdade. Segundo sua própria experiência, o que acontece quando se mistura sexo e amizade? Como você faz a distinção entre o amor entre amigos, o amor entre irmãos, o amor entre amantes? — Se vocês fossem um casal heterossexual quem seria o homem e quem a mulher? Por quê? — Se vocês fossem um casal heterossexual, como seria o seu casamento? Em que seria diferente de seu estilo de vida atual? — Se os homossexuais pudessem se casar, você o faria? Por que sim, por que não? 107 CAPÍTULO 7 O casal homossexual feminino A dimensão social e ideológica Antes de examinar a dinâmica interna do casal lésbico, é importante situá-lo em seu contexto social e ideológico. A história da homossexualidade nos ensina que o casal homossexual mudou muito ao longo do tempo. Não há formato de casal masculino ou feminino que seja universal ou permanente — e ainda menos para o casal lésbico, por causa das transformações radicais no estatuto e na condição da mulher no decorrer desse século. O casal lésbico tal qual o conhecemos hoje no Ocidente torna-se possível somente a partir do momento em que duas mulheres podem decidir não se casarem, viverem juntas e ganharem sua vida independentemente dos homens, o que, há apenas cinqüenta anos, não era verdadeiramente pensável nem possível para a maioria das mulheres. O casal lésbico depende de uma liberdade de escolha e de uma autonomia em relação aos homens que a maioria das mulheres atingiram apenas recentemente, e somente nos países industrializados. O casal lésbico, portanto, tem a sua origem nas transformações sociais, econômicas e jurídicas que revolucionaram a condição das mulheres durante a era moderna. Mas depende igualmente da ideologia que enquadrou (e em parte guiou) essas transformações. Atualmente, o movimento lésbico não poderia estar separado do movimento das mulheres, nem da liberação guei, nem da revolução sexual dos anos 70. É aí que se encontram as bases ideológicas da identidade lésbica contemporânea. Em primeiro lugar, a idéia de uma afetividade e de uma sexualidade feminina independente dos homens: nem a identidade, nem a maturidade, nem a felicidade, nem o desejo, nem o prazer sexual da mulher dependem do homem. Depois, a idéia de que a mulher não precisa se casar nem ter filhos para se realizar plenamente. Enfim, a idéia de que duas mulheres podem sobreviver do ponto de vista material e emocional sem o apoio de um homem. Todas essas concepções que refletem evidentemente mudanças sociais e econômicas reais, constituem o fundo ideológico da identidade e do casal lésbicos contemporâneos73. Não se pode examinar a dinâmica da relação entre mulheres independentemente dessa ideologia. Até mesmo as jovens lésbicas do ano 2000 são frutos do feminismo, da revolução sexual e da liberação guei, embora elas não estejam sempre dispostas a reconhecer sua herança. Mas, mesmo que não tenham nenhuma consciência disso, o fato de que elas possam ir a um café gerenciado por mulheres, que elas possam encontrar ali outras lésbicas com quem poderão ter uma relação sexual e, eventualmente, decidir morar junto, tudo isso era literalmente inconcebível antes das grandes transformações que ocorreram a um quarto de século antes mesmos delas nascerem. E essa dimensão ideológica tem implicações psicológicas muito importantes, ainda que não sejam sempre conscientes ou visíveis. 73 Para uma história detalhada do Movimento Lésbico e das idéias que lhe embasam, ver Marie-Jo Bonnet (1995). Les relations amoureuses entre les femmes, Paris, éditions Odile Jacob. 108 A recusa da dominação masculina O casal lésbico contemporâneo fundamenta-se em um fato que não poderia ser superestimado: duas mulheres que vivem juntas são, por definição, mulheres que escolherem serem independentes dos homens — tanto do ponto de vista sexual quanto afetivo, econômico e social. É fácil dizer, mas difícil fazer. O fato de duas representantes do “sexo frágil” poderem se libertar totalmente dos homens é radicalmente novo e continua impensável para muitas pessoas. De fato, muitas vezes é isso que traz problemas aos heterossexuais, homens ou mulheres, quando eles pensam na lesbianidade. Eles não acham tão surpreendentes duas mulheres terem relações sexuais, nem mesmo elas se apaixonarem uma pela outra; o que eles acham realmente incompreensível, é que elas possam viver sem os homens (enquanto elas poderiam muito bem encontrá-los, se pelo menos fizessem um pequeno esforço…). E, além disso, como elas podem renunciar ao casamento e aos filhos? É por causa dessa recusa em se submeter às regras do jogo da sociedade heterossexual que a relação lésbica é profundamente subversiva 74. Ao tornar os homens supérfluos ela remete em questão todo o sistema de poder e as relações entre os sexos, que estão na base da sociedade tal qual a conhecemos. Portanto, não há nada surpreendente no fato de que a lesbianidade seja tão freqüentemente desvalorizada ou minimizada: para muitos autores clássicos da psicologia e da psicanálise, a relação amorosa entre duas mulheres é essencialmente infantil e pouco digna de atenção. No melhor dos casos, é um passatempo inofensivo e divertido ao qual as mulheres se dedicam, esperando encontrar um homem, assim ascendendo à sexualidade verdadeira. Atualmente, a identidade lésbica não é somente uma orientação sexual, mas também uma recusa das regras do jogo estabelecidas pelos homens. Isso é freqüentemente confundido com um ódio em relação aos homens, em uma dessas misturas fáceis de ideologia e de psicologia baratas que são utilizadas para desqualificar as minorias. Com efeito, toda a ideologia feminista vem abaixo se se considerar que ela só reflete ressentimento contra os homens e que ela é assunto de mulheres “malcomidas”. No caso da homossexualidade, essa idéia assume a forma de um velho clichê: o da lésbica que tem medo do homem, um pouco como os cachorros raivosos têm medo da água. Ora a identidade lésbica não decorre de uma conduta de fuga, mas de uma série de escolhas. A escolha da lesbianidade E são escolhas difíceis. Afinal de contas, mesmo nos países industrializados são os homens que governam e que decidem quase tudo. A ascensão profissional de uma mulher depende, ainda, na maior parte do tempo, de um homem. São eles que estabelecem as regras do jogo, nas esferas privadas e pública. Quando duas mulheres se libertam desse sistema e dizem, ao menos implicitamente, que elas não têm mais nem necessidade nem vontade de tomar parte dele, assumem uma posição política e também existencial. Ao recusar a via fácil do casamento de conveniência, elas escolhem se afirmar responsáveis por seu destino e lutar contra os preconceitos ainda muito disseminados. Isso tem um preço incontestável. Em primeiro lugar, econômico: o casal lésbico é, dentre os três tipos de casais (heterossexual, homossexuais masculino e feminino), aquele que tem o nível de vida menos elevado. Em geral, as mulheres ganham menos do que os homens: nos Estados Unidos, elas ganham em média 70% daquilo que ganham 74 Para uma análise feminista de a revolução sexual lésbica ver Sheila Jeffreys (1995) The lesbian heresy. Spinifex. 109 os homens para o mesmo trabalho, e na França, aproximadamente 80%. Em um casal constituído por duas mulheres, a diferença de rendas em relação aos outros casais tornase considerável. A isso é preciso acrescentar as dificuldades práticas que duas mulheres que vivem sem a companhia masculina podem encontrar em uma sociedade feita prioritariamente pelos, e para, os homens. Existem ainda muitas áreas aonde os homens circulam mais facilmente do que as mulheres. As lésbicas de hoje superam geralmente essas dificuldades da vida cotidiana desenvolvendo capacidades tradicionalmente “masculinas”, que vão desde o bricolage75 até as finanças da casa passando pela mecânica. E se houver trabalhos pesados para fazer, elas o fazem. Quando os heterossexuais afirmam que as lésbicas são “masculinas” muitas vezes é isso que eles querem dizer. Mas não é que elas sejam masculinas por natureza, nem que elas queiram imitar os homens; simplesmente aprenderam por necessidade a fazer muitas coisas que sempre foram consideradas masculinas. É importante notar também que a imensa maioria das lésbicas trabalha e é independente do ponto de vista econômico: são, em todo o caso nos países industrializados, mulheres competentes e autônomas, exercendo freqüentemente profissões liberais. A maior parte do tempo, estudaram mais do que as heterossexuais: uma pesquisa nos Estados Unidos mostrou que dois terços delas tinham feito estudos universitários76. Tudo isso só pode ter efeitos positivos sobre seu amor próprio e seu grau de bem-estar geral. Uma imagem mais precisa do casal lésbico contemporâneo começa a se desprender: muito freqüentemente, tratam-se de duas mulheres que trabalham, que são auto-suficientes, e que se sentem orgulhosas disso. Ademais, tal casal é caracterizado por uma relativa igualdade entre os pares, se comparado com o casal heterossexual. Isso já indica que o velho estereótipo de uma mulher dominante e de uma outra submissa no casal feminino é obsoleto: a lésbica de hoje não se deixará dominar nem por uma mulher e nem por um homem. Haverá, muitas vezes, brigas, como acontece quando não é uma única pessoa que toma todas as decisões sozinha. E já podemos supor que, essas duas mulheres, irão se expressar com mais liberdade do que um casal heterossexual, e que esse fato, às vezes, irá produzir faíscas. A intensidade afetiva O traço mais marcante do casal lésbico é, de fato, a sua intensidade afetiva. Todas as emoções — o amor, o êxtase, o desejo, o ódio, o ciúme, a cólera — se desenvolvem de um modo que pode parecer desmedido, até mesmo irracional. Como diz uma moça que tem relações homossexuais e heterossexuais: “Às vezes eu preciso me distanciar um pouco de minha amigas lésbicas. Tudo é tão intenso para elas, com seus dramas e suas discussões, que às vezes eu tenho necessidade de me retrair em minhas amizades masculinas. É mais fácil com eles, podemos ter conversações normais sobre qualquer coisa, sobre trivialidades, sem entrar em análises profundas da relação.” Esse lado dramático do casal lésbico integra-se perfeitamente em um velho estereótipo sobre as mulheres em geral: quando juntas, revelam fatalmente sua natureza “histérica” e “irracional”. Se não há um homem que as ajude a racionalizar, elas são completamente dominadas pelas suas emoções. Essa visão das mulheres, contudo, é apenas uma redução simplista de um fenômeno muito mais complexo. 75 No Brasil, a idéia de bricolage está associada ao artesanato, enquanto técnica de produção. Todavia, na França ela diz respeito a toda e qualquer pequena reforma ou atividade na residência que vão desde consertar a pia a colocar uma estante na parede, por exemplo. Trata-se de uma ocupação muito comum, geralmente desenvolvida nos finais de semana. [Nota dos tradutores] 76 JoAnn Loulan (1990). The lesbian erotic dance. San Francisco, Spinsters Book Company, p. 200. 110 O que acontece entre as mulheres, e particularmente no casal lésbico, não é o fato de que os sentimentos sejam desmedidos; é que eles são expressos, enquanto não o são geralmente no casal heterossexual, nem na sociedade em seu conjunto. Não é o fato de que as mulheres tenham um “excesso” de emoções, mas elas falam delas muito mais do que os homens quando elas têm a chance para tal. E é o que acontece, precisamente, no casal lésbico. Gênero e modalidades de relação Mas não é apenas uma questão de liberdade de expressão. Inúmeros psicólogos e lingüistas estabeleceram que as mulheres e os homens têm modos muito diferentes de formar, de compreender e de conduzir suas relações interpessoais. Em seu clássico livro In a different voice, a psicóloga americana Carol Gilligan, por exemplo, estudou como e por que os dois sexos são tão diferentes nessa área. Retomando outros trabalhos sobre a infância (e em especial as teorias de Margaret Mahler), Gilligan explica que a formação da identidade do gênero (que se finaliza aos três anos) é muito diferente nos meninos e nas meninas. Nos dois casos, a relação primária durante este período implica a mãe, já que é ela que cuida das crianças. Mas as meninas, reconhecendo-se nela, desenvolvem sua identidade feminina em um contexto de identificação e afinidades: tornam-se moças com sua mãe. Os meninos, em contrapartida, devem se distinguir dela; sua identidade masculina se desenvolve, portanto, em um contexto de contraste e de separação, e eles se tornam moços contra sua mãe. Isso explica porque os dois sexos vivem de modo tão divergente todas as suas relações ulteriores. Segundo Gilligan: “Como a masculinidade é definida por meio da separação enquanto a feminilidade é definida por meio da união, a identidade […] masculina é ameaçada pela intimidade, enquanto a identidade […] feminina é ameaçada pela separação. Assim, os homens tendem a ter dificuldades com as relações, enquanto as mulheres tendem a ter problemas com a individuação77.” Isso significa que, nas relações interpessoais, as mulheres dão uma grande prioridade à intimidade, à comunicação afetiva e à cooperação. Funcionam bem em grupo, e tendem a formar elos horizontais (baseados na semelhança e igualdade), mais do que verticais (baseados na diferença e hierarquia). Isso se vê desde a infância: os especialistas nesta área observaram que as meninas brincam, na maior parte do tempo, de jogos onde não há nem vencedor nem perdedor: amarelinha, pular corda, casinha, boneca78… As mulheres procuram preservar a relação, mais do que o poder: em uma discussão, é mais importante para elas continuar falando do que ter razão. As mulheres têm também uma grande capacidade para a empatia, isto é, a faculdade de se colocar no lugar do outro: é a famosa “sensibilidade feminina”, que faz com que a mulher se identifique tão facilmente com alguém que sofre. Os homens, em contrapartida, valorizam a autonomia, a competição e a neutralidade afetiva (que eles chamam, freqüentemente, de “objetividade”), e têm uma grande capacidade para a individuação. Tendem a formar relações verticais mais do que horizontais e a se definir a partir das diferenças em relação aos outros. Vêem freqüentemente suas relações interpessoais em termos de poder: o mais forte ganha, o mais fraco perde. Eles têm também um sentido muito nítido dos limites e de seu espaço pessoal. Nas mulheres, os limites interpessoais são mais vagos (ou simplesmente menos importantes): tendem mais à identificação, até mesmo à fusão com o objeto amado, enquanto os homens preferem guardar um pouco de distância. As mulheres se sentem 77 78 Carol Gilligan (1982). In a different voice. Cambridge, Mass., Harvard University Press, p. 8 Ver Janet Lever (1976). Sex differences in the games children play. In Social problems, 23, pp. 478-487. 111 ameaçadas pela separação, que elas vivem como um abandono, enquanto os homens temem mais a fusão e a dependência que sentem como uma perda de identidade. Essa teoria foi retomada por inúmeros autores, sob diferentes formas79, para explicar diversos problemas que podem surgir na relação heterossexual. Mas pode igualmente nos servir para entender certas dinâmicas da relação homossexual, tanto nos homens quanto nas mulheres. Em particular, nos ajuda a entender a intensidade da qual estávamos falando mais acima. As mulheres têm necessidade dessa comunicação afetiva constante, que lhes faz falta tão freqüentemente em suas relações com os homens. Assim, quando estão entre elas, e, ainda mais se formar um casal, elas falam muito mais do que os homens, de tudo o que elas sentem: delas mesmas; da natureza de sua relação; e de todos os problemas que podem aí aparecer. Onde o diálogo seria interrompido em um casal heterossexual, porque o homem se cansaria disso, as mulheres continuam esmiuçando; e, em caso de briga, farão de tudo para restabelecer a comunicação e a conexão afetiva. Onde um homem tomaria distância para acalmar os espíritos, elas tentam se reaproximar para consertar a relação. A empatia e a superproteção Mas essa comunicação constante não serve apenas para manter uma proximidade afetiva. Um outro traço característico das mulheres, se acreditarmos nas pesquisas, é sua disposição particular para a empatia. Essa não é necessariamente inata: ensina-se às meninas desde a sua mais tenra idade, a cuidar dos outros. Quando brinca de boneca, de casinha, ao cuidar de seus irmãozinhos e irmãzinhas, elas aprendem a detectar e a satisfazer as necessidades afetivas dos outros; na verdade é seu primeiro treino para a maternidade. Mais tarde, quando elas se casam e têm filhos, já têm o costume de pensar nos outros, de se identificar com eles, de sentir seus sofrimentos e suas preocupações. São aptidões que as ajudarão a cumprir as tarefas difíceis do casamento e da maternidade. Mas o que as lésbicas fazem de toda essa aprendizagem? Em uma palavra, elas fazem com sua parceira exatamente o que teriam feito com sua família: cuidam dela, se preocupam com ela, procuram adivinhar e satisfazer suas necessidades afetivas. Eis a razão pela qual se observa, às vezes, um tipo de superproteção recíproca nos casais lésbicos em que as duas mulheres se tratam com afabilidade como se fossem crianças delicadas, embora sejam, na verdade, adultas perfeitamente competentes. Elas podem adotar atitudes quase maternais uma em relação a outra, subordinando suas próprias necessidades ou desejos àqueles de sua parceira. Além do mais, em nossa sociedade, as mulheres não estão muito acostumadas a expressar claramente suas próprias necessidades ou desejos. Sempre dispostas a reconhecê-las na pessoa amada, freqüentemente não as vê nelas próprias, ou então as deixam de lado. Isso faz parte da socialização das mulheres desde a sua infância: enquanto os meninos podem berrar até obterem o que eles querem, as meninas devem esperar com bons modos a vez delas. Então, quando duas mulheres se apaixonam, elas fazem exatamente isso: em muitos casos, cedem o lugar para a outra; escutam com atenção e empatia, mas falam pouco de suas próprias inquietações. Essa tendência tem um preço terrivelmente elevado para a relação, como o veremos um pouco mais adiante. 79 Ver, por exemplo, Deborah Tannen (1990) You just don’t understand. New York, Ballantine Books; e John Gray (1992) Men are from mars, womem are from venus. New York, Harper Collins. 112 A identificação perfeita Mas, no início, a comunicação parece total. Toda essa empatia e essa atenção constituem uma experiência amorosa extraordinária para as mulheres, sobretudo aquelas que estão acostumadas, desde sempre, a dar mais do que receber. De repente, recebem de uma outra pessoa o que sempre foi exigido delas pela sua família, pelos homens e pela sociedade em geral. Elas se sentem compreendidas e adoradas como nunca foram. Sua companheira sempre está disposta a escutá-las, a amá-las, a cuidar delas. Como exprime uma mulher de quarenta e quatro anos, que recentemente teve sua primeira relação homossexual: “Eu não sabia que se pudesse ser tão próxima de uma outra pessoa. Eu me dei conta que eu sempre quis exatamente isso, sem nunca suspeitar disso. Nunca havia falado tanto em toda a minha vida: no final de uma semana eu me sentia com ela como se eu a conhecesse desde sempre.” Esse entendimento profundo, essa identificação completa explicam por que tantas mulheres que se apaixonam por uma outra mulher estão dispostas a cometer loucuras, apenas quinze dias depois após o início da relação. Uma piada muito apreciada no meio lésbico americano expressa o fato da seguinte forma: “A primeira vez que uma mulher vem na sua casa, ela chega com uma mala. A segunda vez ela desembarca com um caminhão de mudança.” Isso não surpreende: essa comunicação é, de fato, para muitas mulheres, aquilo com a qual elas estavam sonhando desde sempre. A palavra chave, que eu encontro sistematicamente nas mulheres que descrevem sua primeira relação homossexual é “a escuta”: “Eu nunca tinha me sentido escutada dessa forma.” É uma experiência tão inédita e tão maravilhosa que uma mulher pode, naturalmente, estar disposta a sacrificar tudo para prolongá-la. Por isso, as uniões súbitas, os projetos de vida instantâneos que vemos às vezes surgir entre duas mulheres que mal se conhecem. Os perigos dessa identificação imediata são evidentes. Podem levar a decisões impulsivas, desentendimentos surpreendentes e decepções terríveis. Mas ela apresenta também riscos em longo prazo na relação que dura por mais de dois ou três anos. Esse entendimento profundo, quase telepático, é tão fácil e tão reconfortante que se finda por se acostumar a ele — e a esperar por ele. Não poderia haver melhor receita para a desilusão: quando a outra mulher não está disponível, ou não lê o pensamento de sua companheira, essa pode muito naturalmente se sentir incompreendida, excluída ou totalmente abandonada. A tendência à fusão Mas, sobretudo, essa identificação sem limites acaba por desenvolver no interior do casal lésbico uma forte tendência à fusão. O diálogo e o entendimento tão intensos provocam uma relação simbiôntica que coloca em perigo a autonomia e até mesmo a identidade de cada indivíduo. Muito mais do que em outros casais, as duas pessoas caem em um mimetismo inconsciente que engloba sua aparência física, sua linguagem corporal, seu modo de falar e de se vestir; além do mais, dividem freqüentemente roupas ou acessórios. Aos poucos elas abandonam os amigos, os interesses e os passatempos que tinham antes de se conhecer, adaptando-se uma à outra em uma intimidade e um isolamento recentes. Elas vão juntas à toda parte e passam todo o seu tempo livre juntas, mais do que o fazem os casais heterossexuais ou homossexuais masculinos, que guardam geralmente amigos e atividades fora de sua relação. As conseqüências dessa simbiose galopante são múltiplas e, em casos extremos, podem ser muito destrutivas. As duas mulheres se sentem obrigadas à se contar tudo, dividir tudo, convencidas que não deve existir segredos entre duas pessoas que se amam. Se uma delas faz alguma coisa sem a outra, como, por exemplo, sair com amigos, 113 ela se sente culpada e preocupada com aquela que ficou sozinha em casa. O ciúme que observamos tão freqüentemente no casal lésbico, o sentimento de posse e a necessidade de controlar os movimentos da outra não correspondem (como se podia pensar) a uma imitação de mau gosto da dominação masculina, mas antes essa simbiose invasora que impede a autonomia. Com efeito, com algumas exceções, qualquer tentativa de ter amigos ou atividades próprias é vivida pela outra como uma traição e um abandono, freqüentemente com muito medo. Instaura-se então um tipo de vigilância permanente e recíproca, que faz com que as duas mulheres (e muitas vezes uma mais do que a outra) se sintam observadas, aprisionadas, violentadas em sua intimidade. Tudo isso leva, claro, a uma dependência cada vez maior: não esqueçamos que simbiose reproduz a ligação com a mãe, e portanto tem um caráter profundamente regressivo. De fato, não é raro ver que as duas mulheres (ou uma dentre elas), que são maduras em todas as outras áreas da vida se comportam como crianças quando estão juntas. Adotam voz infantil para se falar, ou se lembram que é preciso por um casaco antes de sair, parecem incapazes de decidir o que for sem consultar sua parceira. Às vezes uma adota atitudes maternais e a outra desenvolve o papel da criança (travessa, impulsiva, inocente…) que deve ser sempre chamada à atenção. Mãe e filha É evidente que a ligação amorosa entre duas mulheres contém elementos da relação primária entre mãe e filha. Isso se via, sobretudo antigamente, quando às vezes havia uma diferença de idade importante no casal. Historicamente, essa diferença tem tendência a desaparecer: atualmente as mulheres que formam casais são, em geral, senão da mesma idade, pelo menos da mesma geração. Contudo, não há necessidade de uma diferença de idade para reproduzir a relação mãe-filha. Essa pode tomar a forma de condutas ou atitudes maternais de um lado e infantis do outro, os papéis sendo distribuídos de modo definitivo: se uma mulher adota o papel da criança, há chances para que ela o conserve, mesmo que ela mude de parceira. Se a outra mulher gosta de seu papel maternal, não terá problemas: as duas estarão de acordo em relação as regras do jogo. Mas se uma delas não está de acordo, ou tem problemas com sua verdadeira mãe que nunca foram resolvidos, então, interações muito nocivas e até mesmo perigosas podem aparecer — exatamente como isso pode acontecer em um casal heterossexual, se um dos dois tem ainda contas para acertar com os seus pais. No casal lésbico, o risco é que a mulher em questão projete na sua companheira todas as emoções que, na verdade, sente em relação à sua mãe: amor, dependência, ciúme, raiva e ódio etc. Mas como no caso, a outra mulher não é a sua mãe e não tem as reações esperadas (sejam elas amorosas, estremecidas, punitivas ou indiferentes), a mulher-criança forçara a situação, terá condutas cada vez mais infantis, até suscitar a reação desejada — ou acabará abandonando a luta, com toda a frustração e a raiva que isso pode implicar. Assim é que ouviremos comentários do tipo: “Nunca presta atenção em mim, nunca é disponível para mim, só pensa nela mesma, não me ama mais.” Por seu lado, a mulher-mãe pode insistir para “reformar” sua parceira, tentando fazer com que ela mude seus costumes ou se cuide por ela mesma; muitas vezes a escutamos dizer coisas do gênero: “Se pelo menos ela começasse a trabalhar”, “Se pelo menos parasse de beber”, “Se pelo menos cuidasse um pouco da limpeza da casa”. Isso pode provocar uma luta de vontades contínua na qual a mãe tenta controlar a filha, que então se rebela, em um ciclo extremamente rígido e doloroso. Se essa dinâmica, mãefilha não for detectada e corrigida, pode causar a ruptura. Mas como ela é difícil de se 114 perceber quando estamos envolvidos, é possível que as duas mulheres simplesmente cheguem à conclusão de que são incompatíveis e decidam se separar. Autonomia e intimidade Essa dinâmica pode também estar presente em um casal heterossexual, claro, e com os mesmos perigos. Mas é particularmente perniciosa quando se trata de duas mulheres, por causa da tendência à fusão que faz com que elas não se deixem em paz. Nas relações heterossexuais, as diferenças entre os sexos permitem um pouco de distância quando esta for necessária. Na verdade, em todos os casais, existe uma alternância de aproximação e distanciamento: os momentos de grande intimidade estão seguidos por uma retirada temporária na qual cada um reencontra seu espaço. Depois, quando as duas pessoas sentem a necessidade ou a vontade, elas se reaproximam novamente em um movimento cíclico que poderíamos chamar de “respiração natural do casal”. Essa alternância acontece continuamente; é necessária à sobrevivência da relação, sobretudo durante certas fases dessa. É o que acontece quando “a lua-de-mel” inicial, que pode durar desde alguns meses até dois ou três anos, chega ao seu fim. Em toda a relação de casal, acontece um momento em que as duas pessoas (ou uma dentre elas) se cansam da intensidade afetiva e sexual da primeira fase, e decidem aos poucos voltar para uma vida mais “normal”: rever os amigos, retomar as atividades que se deixou de lado por causa da relação amorosa. No casal heterossexual, freqüentemente é o homem que sente essa necessidade de reatar com a vida profissional e social que tinha antes, e a mulher se adapta a isso porque é “normal” que o homem se volte novamente para o mundo. No casal lésbico, quando uma das duas mulheres começa a emergir da “lua-demel” a outra vive isso, em muitos casos, como um abandono. Mesmo que as duas sintam essa necessidade ao mesmo tempo, freqüentemente elas têm muito medo disso: “Talvez a gente não se ame mais. No início, passávamos dias inteiros na cama, e agora parece que ela se entedia comigo… parece que ela gostaria mais de estar em outro lugar.” Podem então surgir dúvidas, suspeitas, ressentimentos, que muitas vezes permanecerão sem serem expressas. Cada mulher se perguntará se a outra sente a mesma coisa, sem, contudo, querer lhe fazer a pergunta por medo de magoá-la, ou de ser magoada… É nesse momento então que se torna absolutamente necessário para as duas mulheres tomarem um pouco de distância e reencontrarem sua vida individual — em uma palavra, de tomar um pouco de ar fresco. Mas isso é muito difícil depois de tal proximidade — sobretudo se não se quer magoar a outra, e quando não se tem o costume de expressar as suas necessidades afetivas. Assim, o casal começa a se sufocar: as duas mulheres se sentem invadidas e começam a se irritar por qualquer motivo — mas não entendem o que lhes acontece e podem, menos ainda, discutir sobre isso. Muitas vezes o casal se separa nessa fase que segue a lua-de-mel e durante a qual as duas pessoas deveriam recuperar uma certa autonomia e retomar uma vida normal. Se isso não acontecer, porque é proibido se separar e porque a autonomia é vista como traição, sérios problemas podem aparecer. Nessa luta frustrada para escapar da sufocação veremos, muitas vezes, raiva, separações e reconciliações abruptas e, claro, relações fora do casal. Esse tipo de problema não se limita ao início da relação. Mesmo nos casais que estão há muito tempo juntos, se as duas mulheres não encontram um equilíbrio entre a autonomia e a intimidade, observaremos um ciclo exacerbado de afastamento e de reaproximação: períodos de grande proximidade seguidos por fases de distanciamento, 115 até mesmo de separação, e depois por novas reconciliações… esse movimento de pêndulo pode provocar um certo gasto na relação. O declínio da relação sexual Essas dificuldades no domínio da autonomia explicam em grande parte os dois problemas mais importantes no casal lésbico. Esse tem a taxa de separação mais elevada e a duração mais curta (cinco ano em média80) de todos os tipos de casais, e numerosos autores assinalaram que a causa mais freqüente disso é o declínio da relação sexual. JoAnn Loulan, uma psicóloga americana que estudou muito o casal lésbico, assinala uma redução de 75% na atividade sexual depois de três anos de relação 81. É três vezes mais do que o número equivalente entre os casais heterossexuais82. Se as mulheres em uma relação homossexual têm relações sexuais mais de dez vezes por mês em média durante o primeiro ano, entre o segundo e o terceiro ano esse número cai para cinco vezes por mês; a partir do quarto ano têm relações sexuais duas ou três vezes por mês — e em uma proporção importante dos casos, os números continuam a abaixar depois83. Isso quer dizer que muitos casais lésbicos, praticamente, cessam as relações sexuais depois de alguns anos. As pesquisas revelam que a freqüência das relações sexuais femininas é muito inferior àquela das relações heterossexuais ou homossexuais masculinas. A relação lésbica é a menos sexual de todas, e é muito interessante se perguntar por quê. Será que essa sexualidade espaçada corresponde ao desejo real das mulheres quando não há homens para influenciá-las, ou então será que há algo particular no casal lésbico? Uma sexualidade feminina menos “sexual”? Existem cada vez mais indicações sobre o fato de que as mulheres geralmente são menos interessadas em sexo do que os homens. Sabe-se que os homens têm mais pensamentos e fantasias sexuais84, que eles se masturbam muito mais85, e que eles são mais conscientes de seu nível de excitação fisiológica86. Além do mais, uma recente pesquisa nos Estados Unidos revela que um terço das mulheres não têm vontade de terem relações sexuais; 26% não têm orgasmos e 23% não têm nenhum prazer na relação sexual. Os números são muito diferentes para os homens, dentre os quais somente 14% não têm vontade de ter relações sexuais, e dentre os quais 8% não encontram nenhum prazer nelas87. Se em um futuro próximo a pesquisa confirmar essas diferenças entre a sexualidade masculina e feminina, poderemos entender melhor o que acontece na relação lésbica — que nos dá uma preciosa idéia daquilo que desejam e fazem as mulheres independentemente dos homens. 80 81 Ver Partners task force for lesbian and gay couples. In Partners National Survey of Gay and Lesbian Couples, 1995. JoAnn Loulan, op. cit., p. 157 82 Maryse Jaspard (1997) La sexualité en France. Paris, éditions la Découverte, p. 93. 83 Ver JoAnn Loulan (1987) Lesbian passion: loving ourselves and each other. San Francisco, Spinsters/Aunt Lutte. 84 À pergunta “Com que freqüência você pensa em sexo?”, 54% dos homens americanos respondem: “Todos os dias, ou várias vezes por dia”; somente 19% das mulheres trazem a mesma resposta. Robert T. Michael; John H. Ganon; Edward Laumann; Gina Kolata (1994) Sex in América. New York, Warner Books, p. 156. 85 A pesquisa ACSF (Analyse des comportements sexuels en France) relata que duas vezes mais homens do que mulheres se masturbam. Ver Mayse Jaspard, op.cit., p. 99-101. 86 Em uma experiência muito interessante conduzida por Julia Heiman, apresenta-se a homens e mulheres vídeos de sexo explícito e se mede seu grau de excitação sexual a partir de suas reações fisiológicas. Homens e mulheres apresentam o mesmo grau de excitação fisiológica. Mas interrogados sobre sua experiência subjetiva, todos os homens que se excitaram estão consciente disso e o dizem, enquanto apenas a metade das mulheres tomaram consciência de seu próprio estado fisiológico. Margaret Nichols (1987) Lesbian sexuality: Issues and developing theory. In Boston Lesbian Psychologies Collective. Lesbian Psychologies: Explorations and challenges. Illinois, University of Illinois Press, p.105. 87 Journal of the American Medical Association, 281, 537-544, 10 February 1999. 116 A dinâmica sexual do casal Mais é preciso igualmente levar em consideração uma série de características da relação lésbica enquanto tal para explicar o declínio da união sexual. Em primeiro lugar, as mulheres não são acostumadas a tomarem a iniciativa. Lembremos-nos que a sexualidade feminina passa por toda uma socialização que começa muito antes da puberdade. Ensina-se às meninas a calarem os seus desejos e a subordiná-los aos dos meninos. Desde sua infância aprendem a não aborrecerem os outros (e sobretudo os homens) com suas próprias necessidades. Depois, no campo do amor e da sexualidade, aprendem a esperar que o homem dê o primeiro passo: mesmo atualmente, não é muito bem visto que uma mulher “persiga” um homem, ou que tome a iniciativa caso queira dormir com ele. Esse sistema funciona mais ou menos bem quando há um homem para fazer isso em seu lugar; mas o que acontece se não houver homem, como na relação lésbica? Normalmente as mulheres não desenvolvem um papel ativo na sedução, e isso se constata em muitos casais lésbicos. Cada uma espera para ver se a outra está com vontade ou não, sem querer insistir demais; ou então a intimidade assume a forma da conversação contínua da qual já falamos. E, além disso, existem fatores puramente fisiológicos: muitas mulheres não têm vontade de terem relações sexuais durante ou nos dias que precedem suas menstruações; quando o casal é constituído por duas mulheres, isso elimina de uma só vez uns dez dias por mês. Não se deve esquecer também o papel da homofobia interiorizada. É muito mais fácil manter uma relação sexual “proibida” se for o outro que toma a iniciativa. Até um certo ponto, é preciso ter assumido sua homossexualidade e aceito a sua parte de responsabilidade na relação antes de poder se doar realmente e expressar o seu desejo sem inibição. Um outro fator muito importante na sexualidade das lésbicas, é que 90% delas tiveram antes relações com homens; um terço delas foram casadas88. Se atualmente elas estão em relações homossexuais, é sem dúvida porque essas relações não foram inteiramente satisfatórias: muitas dessas mulheres talvez tivessem relações sexuais com homens por obrigação, por interesse, ou para negar sua homossexualidade. Em todo o caso, muitas dessas mulheres se acostumaram a terem relações sexuais sem prazer, ou a reprimirem seu verdadeiro desejo: distanciadas de sua sexualidade terão, naturalmente, dificuldades para gozarem dela plenamente, ou para tomarem iniciativa em questões sexuais, em suas relações homossexuais posteriores. Amor e sexualidade O amor e a sexualidade estão muito intimamente ligados para as mulheres, muito mais do que para os homens. Esses podem iniciar mais facilmente uma relação sexual e se satisfazer com ela sem estarem apaixonados; assim, uma pesquisa recente na França revela que os homens têm relações sexuais com a sua parceira mais de uma vez por semana89, mesmo que não sejam “nem um pouco apaixonados” por ela. Essa distinção entre a ligação sexual e afetiva é bem menos influente para as mulheres, provavelmente por causa de uma concepção da sexualidade que lhes é inculcada desde a infância: as meninas aprendem que só se pode fazer amor com alguém quando se é apaixonado por esta pessoa. Essa identificação do amor com a sexualidade tem conseqüências importantes para todas as mulheres, mas sobretudo para as lésbicas. Em primeiro lugar, muitas mulheres tendem a se apaixonarem assim que vivem uma relação sexual satisfatória: a 88 89 Ver Margaret Nichols. Algumas das idéias que seguem são tiradas dessa excelente análise da sexualidade lésbica. Pesquisa ACSF, citada em Maryse Jaspard, p. 94. 117 intimidade física parece desencadear nelas fantasias de amor de um modo quase instantâneo. Quando duas mulheres se encontram e têm relações sexuais, há um tipo de reação em cadeia que faz com que elas levem a relação muito a sério, muito rapidamente. Mas isso não quer dizer que elas sejam realmente feitas para se entender; e muitos casais fracassarão simplesmente porque se uniram demasiadamente rápido. Uma segunda conseqüência dessa identificação entre amor e sexualidade, é que a relação sexual é muito vulnerável aos problemas que podem aparecer em outros campos. Em geral, uma mulher que está aborrecida não tem vontade de ter relação sexual, enquanto os homens parecem achar mais fácil manter as coisas separadas. Eis a razão pela qual os terapeutas de casal vêem freqüentemente relações heterossexuais em que tudo está indo mal, exceto a relação sexual que se mantém praticamente intacta. Em um casal lésbico, os problemas de ordem afetiva invadem muito mais a relação sexual. Assim, duas mulheres que tiveram uma discussão param de ter relações sexuais — às vezes durante semanas. Isso não ajuda a resolver os problemas nem a manter a relação sexual. Enfim, essa confusão entre amor e sexualidade faz com que as mulheres não tenham pequenas aventuras fora do casal como os homens, mas grandes paixões: serão ligações sérias que colocarão o casal em perigo, e não somente relações passageiras que poderiam eventualmente revitalizá-lo. Fusão e sexualidade Mas a razão principal do declínio da relação sexual no casal lésbico parece ser a tendência à fusão. Vários elementos estão em jogo. Há, em parte, claro, o tabu do incesto: não se tem relação sexual com a mãe. Mas, acredito que essa interpretação, cara aos psicanalistas, deve ser relativizada. Se o fator principal fosse o tabu do incesto, pesaria muito mais desde o início da relação — o que não é o caso. E, além disso, seria necessário explicar porque existem tantos casais lésbicos que vão bem, durante muitos anos, com relaç