Revista Tesseract ISSN 1519-2415 www.tesseract.psc.br Edição 5 - julho 2001 O MOVIMENTO COMO METÁFORA NOELIZA LIMA ‘ ...Aquele que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, pode se convencer de que nenhum mortal é capaz de guardar um segredo. Se seus lábios se calam, ele tagarela com as pontas de seus dedos, a revelação goteja de cada um de seus poros. E, portanto, a tarefa de fazer consciente os mais escondidos recessos da mente, é trabalho perfeitamente possível de realizar.’ (Freud apud. Vilete, 1997) O sujeito traz para a análise todo o seu ser no mundo. Mesmo que se reporte a coisas aparentemente banais, ou a uma dificuldade que está enfrentando, ou a uma necessidade de auto conhecimento – existe um ser que se mostra. Este revelar-se é feito verbal e não verbalmente. São sons, gestos, expressões que trazem um universo de significados à disposição do clínico. Universo não objetivo que necessita ser acolhido, acarinhado, desvendado e apresentado ao paciente na dimensão do real. O objetivo deste trabalho é comunicar como a arte, em especial o movimento e a dança são excelentes ferramentas para o desenvolvimento do indivíduo. Os pressupostos teóricos e a técnica necessitam ser melhor fundamentados em um contexto analítico, a fim de dar subsídios consistentes para outros terapeutas que se interessem pelo assunto. Pretendo mostrar de que forma o movimento constitui uma via de acesso ao inconsciente, como o analista lida com este material, o processo de formação de novas cognições e conseqüentes transformações no sistema de crenças da pessoa. Este tema será desenvolvido a partir de reflexões e exemplos, colocando o movimento como metáfora em terapia individual e de grupo. Há alguns anos o corpo tem sido utilizado na psicoterapia como forma de tratamento, Conceituação e prática introduzidas por Reich. Atualmente as formas mais conhecidas são a Bioenergética e a Biodança, cada qual com um referencial diferente. No início dos anos 50 Julien Beck criou o Living Theâtre que utilizava a expressão teatral como forma de sensibilização das pessoas a alternativas de vida. Um pouco depois psicólogos se interessaram em estudar a dança no Laban Art of Movement Center Trust (Surrey, Inglaterra) com o objetivo de vivenciar e desenvolver a expressão corporal como forma de auto conhecimento e de terapia. Este tema surgiu em minha experiência como terapeuta em 1974, quando tive a oportunidade de ser parte de um grupo de Movimento e Dança conduzido por Varda Dascal, psicóloga de nacionalidade uruguaia, que desde o início da década de 70 se dedica a este estudo, com grupos em vários países e atualmente na Universidade de Tel-Aviv. Corpo, Movimento, Expressão, Metáfora A estrutura, organização e funcionamento do corpo humano possibilitam imensa gama de movimentos. Cada mínima transferência de peso, cada virar de cabeça, um simples toque de dedos revelam aspectos da memória arquivados em conexões neuronais complexas, organizações de cognições e comportamento estruturados – que são aspectos de nossa vida interior e de nossa relação com o mundo. (Laban, Ullmann, 1978) Quando a pessoa realiza um movimento ela está trabalhando a partir de impressões gravadas no cérebro de tal modo que a qualquer mudança efetuada no movimento corresponde uma mudança na memória associativa, nas sensações, sentimentos e quadro de referência. A partir de novas formas de nos movimentarmos estamos automaticamente acionando novas conexões, estabelecendo assim um sentir, um pensar e um agir diferentes dos ocorridos até então. Se bem trabalhada esta situação, o desequilíbrio momentâneo que poderia se seguir a tal mudança é substituído pela sensação de se sentir a vontade em seu próprio corpo . Cada movimento contem os seguintes elementos a serem decompostos, trabalhados e analisados a fim de auxiliar no processo psicoterápico: *Esquema corporal *Cinestesia : Respiração, Relaxamento, Tensão, Sensação, Toque. *Dimensão: comprimento, largura, altura, profundidade *Tempo: ritmo (rápido/vagaroso) *Espaço: tamanho (grande/pequeno, aberto/fechado) *Peso , força (pesado/leve, forte/fraco), gravidade *Forma *Fluência *Esforço O nosso corpo funciona como uma orquestra em que cada instrumento pode se unir a outros sem perder sua identidade. As partes podem se combinar, como os violinos na execução de alguns compassos de uma valsa, assim como o prato em um tempo do compasso, ou se congregarem todos a um só tempo. Assim também o ato de "andar" é efetuado a partir de classes de movimentos com sua própria identidade. Muitas combinações podem ser utilizadas na expressão corporal, levando em conta o pressuposto de que a cada nova combinação gestual corresponde uma nova configuração no sentir, pensar e fazer. Isto tem sido amplamente utilizado em treinamento de atores e grupos de desenvolvimento pessoal pela dança e expressão. "Neruda: Bem, quando você diz que o céu está chorando – o que você quer dizer com isto? Mário: Ora, fácil! Que está chovendo, ué! Neruda: Bem, isto é uma metáfora." ( Skarmeta, A ) Quando falamos em metáfora estamos designando uma construção literária através da qual uma idéia é substituída por /ou acrescentada de – uma expressão que confira maior beleza à descrição, conforme observamos no exemplo acima ( Flor do Lácio). Metáfora: Tropo em que a significação natural de uma palavra é substituída por outra com que tem relação de semelhança (Ferreira, 1993). Em psicoterapia a metáfora é a manifestação no real do material inconsciente, através de uma construção simbólica. Os sonhos são metáforas. Quando a adolescente diz, esperando a nota escolar: "Estou ardendo de impaciência..."- coloca seu sentimento de forma metafórica, esclarecendo ainda mais seu discurso. Se a pessoa manifesta seu desagrado através de um gesto, este gesto é uma metáfora. Segundo Dascal (1992): "As teorias tradicionais de metáforas verbais distinguem o tema do veículo da metáfora." Quando o movimento é utilizado como forma de auto conhecimento pela expressão corporal – é o veículo da metáfora. Exemplo: os membros do grupo ao realizarem a tarefa "andar no mel", refletem em sua postura peso, gravidade, esforço e limitação de movimentos . O movimento aí é o veículo da metáfora, pois leva o participante a contatar psiquicamente conteúdos inconscientes que tenham algo a ver com a experiência corporal. O terapeuta pode aprofundar o trabalho investigando o significado simbólico de difícil, pesado, restrito para as pessoas, e retornando este significado para o grupo. Neste refletir o movimento se torna não só o veículo, mas também o tema da metáfora. Uma das formas de se pesquisar é pedir ao grupo que relate sua experiência interna ao "andar no mel". Uma a uma as pessoas se manifestam verbalmente. Ou então se pergunta: "Quem quer falar sobre sua experiência?" Vamos imaginar que um homem (a quem daremos o nome de Cid ) diga que se sentiu restringido em sua expressão devido ao "mel". A terapeuta (a quem chamaremos Dra. ) terá mais de uma intervenção a sua disposição. Dra. pode perguntar o que isto tem a ver com a vida de Cid. Ele responde que se sente tolhido em sua vida profissional e afetiva. Se seguirmos este caminho ocorrerá o seguinte. Dra. pede a Cid que escolha pessoas do grupo e faça uma estátua desta restrição. Cid escolhe as pessoas e as coloca conforme a solicitação. Dra. pede a Cid que olhe a estátua e diga o que sente. Este responde: "Triste".(Neste instante ele se confronta com sua necessidade interna de espaço). A Dra. diz para Cid transformar a estátua de forma a adquirir maior liberdade, o que ele faz. Novamente é questionado sobre seus sentimentos. Cid pode neste momento ter maiores percepções ou não. Se notamos que o paciente esgota seu material, perguntamos: "Está bem para você pararmos por aqui?" Com a aquiescência do paciente podemos passar para outra pessoa, para outro tópico, ou não, conforme a disponibilidade das pessoas, do terapeuta e do tempo da sessão . O tipo de movimento feito reflete as defesas, a transferencia e o diálogo intra psíquico que o paciente está elaborando. São dados que auxiliam o terapeuta a refletir qual será sua próxima intervenção, o conteúdo desta intervenção e como será feita. O contrato antes das sessões de movimento explicita a não será permitido agressões de qualquer espécie, que não se forçará o participante em nenhum momento e que cada um irá segundo seu ritmo. Esta permissão de ir segundo sua decisão possibilita que a pessoa se expresse livremente. Exemplo: Uma moça em um grupo relatou que criar a partir do som estava difícil. Devido a esta permissão e ao seu próprio processo interno ela tentou a experiência de joelhos, conseguindo aumentar seu espaço. Neste "voltar ao engatinhar" houve a possibilidade de uma retomada no desenvolvimento e de uma expansão de consciência. Relato de Um Trabalho Individual Rico (nome fantasia) tem 12 anos e uma história de perdas. Foi primeiramente entregue para adoção. Aos 3 anos sua mãe adotiva teve uma recidiva de câncer e faleceu em dois anos, quando Rico tinha 5 anos. Quatro anos após o pai se casa novamente, apresentando ao garoto a tarefa de se relacionar com a terceira mãe. Rico veio para a psicoterapia com a queixa de dificuldades escolares. O que se observa a nível familiar é que ele não se sente aceito pela nova mãe, sendo o relacionamento mutuamente difícil . Rico chega à sessão e lhe é proposta uma tarefa que ele aceita: a partir de um som fazer movimentos ou inventar uma dança. No início apresenta certa inibição. A questão, quando uma pessoa apresenta dificuldade em criar um movimento , é se vou me deter na dificuldade em realizar de pronto a tarefa ou se prossigo (porque a postura retraída ou outros elementos que aparecem podem ser trabalhados e eventualmente é o que faço). No caso em questão decido prosseguir, propondo a brincadeira da marcha. Logo o menino "se solta". É uma expressão idiomática que significa "estar livre e leve". Estamos portanto frente a uma metáfora da linguagem e uma metáfora do movimento. A forma solta de se relacionar com o corpo, espaço e música nos remete ao universo do sujeito. Os significados etimológico e psicológico semelhantes. Naquele momento o movimento proporciona a sintonia entre manifesto e latente. Continuando a sessão peço que Rico efetue um movimento ou dança ao som de uma musica de compasso longo. Ele executa movimentos circulares de braços e pernas, dentro de um espaço de cerca de metro e meio, movimentos estes que parecem uma busca – não chega a ser uma elaboração completa. Fica neste processo cerca de 5’. Parece não conseguir criar além disto. Pergunto com o que se parece esta dança. Rico diz que se parece com medo. Peço para ele criar algum outro movimento ou brincadeira que pareça com o que ele sente. Rico constrói uma cama com as almofadas, deita-se nela e pede um cobertor. O interessante é que a cama tem bordas, como um berço. Pergunto se aí dá para ele criar um movimento. É então que ele consegue se exprimir de uma forma total. O movimento tem começo, meio e fim. Depois de uns minutos diz que está cansado. E relaxa. É comum em momentos de dificuldade em se exprimir pelo movimento que descubramos que executar o movimento em um estágio anterior de desenvolvimento é mais fácil. Rico foi ao colo materno para criar. Através desta regressão conseguiu atravessar uma barreira. O caso de Rico nos fornece algumas reflexões a respeito da utilização do movimento como metáfora: - O tipo de movimento descrito como "livre e leve" se refere a alterações do movimento em espaço, fluidez e peso. Primeiramente o menino estava fechado , e depois se mostrou aberto. Uma pessoa que tem uma história de perdas pode se fechar a diversão e carinho. O movimento fechado do início cedeu lugar ao movimento aberto no final. Uma conexão neurológica não utilizada ou pouco utilizada foi colocada em ação. Isto proporciona um acesso mais fácil no futuro a este processo cognitivo. o Se definirmos um sistema de crenças como um conjunto de sensações, sentimentos, pensamentos e ações, podemos dizer que o garoto em questão está começando a mudar o seu sistema de crenças, do qual faz parte a ruptura na expressão de emoções – relacionada a perda – e a demanda pelo encontro de alguém que lhe confira identidade – através da relação afetiva. A análise está lhe fornecendo o continente para esta busca. A análise do movimento como mediador do discurso necessita por parte do terapeuta o desenvolvimento de algumas habilidades, tais como: conhecimento de expressão corporal e formas de dança, disposição física para tal trabalho, curiosidade e intuição para relacionar os vários elementos que surgem no processo e conteúdo do paciente e finalmente uma base teórica na qual se fundamentar. É uma abordagem criativa que a todo momento oferece novos conhecimentos acerca do ser humano, pois são várias as possibilidades de intervenções terapêuticas no decorrer do processo, verbais ou não verbais. O que mais me tem chamado a atenção neste trabalho é de quanto necessitamos de tato e delicadeza ao lidar com o corpo e os movimentos de uma pessoa, e de quanto os membros do grupo aprendem a lidar com os mesmos elementos de acolhida uns com os outros. Como método de terapia em grupo favorece a integração grupal, aumenta a receptividade do paciente a seus próprios conteúdos psíquicos e consequentemente aos dos colegas. Como abordagem individual fornece um "setting" de acolhimento e sustentação ao paciente e uma forma diferente de lidar com problemas. Como se trabalha verbal e não verbalmente há riqueza de conteúdo, aberto a reflexão e pesquisa. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS DASCAL,V, (1992), Movement Metaphors:Linking Theory and Therapeutic Practice, In Stamenon M., Current Advances in Semantic Theory, Amsterdan, John Benjaming. FAGES, J.B. (1975), Para Compreender Lacan, Rio de Janeiro, editora Rio. FERREIRA, B. Holanda, (1993), Mini Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, editora Nova Fronteira. LABAN, Rudolf, (1978), Domínio do Movimento, São Paulo, editora Summus, Org. Ullmann, L.. SKARMETA, A,(1996), O Carteiro e o Poeta, Rio de Janeiro, editora Record,1996, pp.20. VILETE, Edna, (1997), Observação da Relação Mãe-Bebê, Método Esther Bick in : Coletânea de Artigos, 1° Simpósio Brasileiro, Unimarco Editora. NOTAS NOELIZA LIMA é psicóloga, psicoterapeuta, professora universitária. Mestre em Psicologia (PUC-Campinas – 2000) e Especialista em desenvolvimento de pessoas e grupos (IPPEM – B. Aires – 1982). Contato para workshops: ngroupsy@yahoo.com Revista Tesseract ISSN 1519-2415 www.tesseract.psc.br Edição 5 - julho 2001 editoras@tesseract.psc.br
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O Movimento Como Metáfora

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Terapia Pela Dança e Movimento Supervisão: Varda Dascal - Tel Aviv. Trabalho de Mestrado em Psicologia PUC-Campinas, atualizado.

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Revista Tesseract ISSN 1519-2415 www.tesseract.psc.br Edição 5 - julho 2001 O MOVIMENTO COMO METÁFORA NOELIZA LIMA ‘ ...Aquele que tem olhos para ver e ouvidos para ouvir, pode se convencer de que nenhum mortal é capaz de guardar um segredo. Se seus lábios se calam, ele tagarela com as pontas de seus dedos, a revelação goteja de cada um de seus poros. E, portanto, a tarefa de fazer consciente os mais escondidos recessos da mente, é trabalho perfeitamente possível de realizar.’ (Freud apud. Vilete, 1997) O sujeito traz para a análise todo o seu ser no mundo. Mesmo que se reporte a coisas aparentemente banais, ou a uma dificuldade que está enfrentando, ou a uma necessidade de auto conhecimento – existe um ser que se mostra. Este revelar-se é feito verbal e não verbalmente. São sons, gestos, expressões que trazem um universo de significados à disposição do clínico. Universo não objetivo que necessita ser acolhido, acarinhado, desvendado e apresentado ao paciente na dimensão do real. O objetivo deste trabalho é comunicar como a arte, em especial o movimento e a dança são excelentes ferramentas para o desenvolvimento do indivíduo. Os pressupostos teóricos e a técnica necessitam ser melhor fundamentados em um contexto analítico, a fim de dar subsídios consistentes para outros terapeutas que se interessem pelo assunto. Pretendo mostrar de que forma o movimento constitui uma via de acesso ao inconsciente, como o analista lida com este material, o processo de formação de novas cognições e conseqüentes transformações no sistema de crenças da pessoa. Este tema será desenvolvido a partir de reflexões e exemplos, colocando o movimento como metáfora em terapia individual e de grupo. Há alguns anos o corpo tem sido utilizado na psicoterapia como forma de tratamento, Conceituação e prática introduzidas por Reich. Atualmente as formas mais conhecidas são a Bioenergética e a Biodança, cada qual com um referencial diferente. No início dos anos 50 Julien Beck criou o Living Theâtre que utilizava a expressão teatral como forma de sensibilização das pessoas a alternativas de vida. Um pouco depois psicólogos se interessaram em estudar a dança no Laban Art of Movement Center Trust (Surrey, Inglaterra) com o objetivo de vivenciar e desenvolver a expressão corporal como forma de auto conhecimento e de terapia. Este tema surgiu em minha experiência como terapeuta em 1974, quando tive a oportunidade de ser parte de um grupo de Movimento e Dança conduzido por Varda Dascal, psicóloga de nacionalidade uruguaia, que desde o início da década de 70 se dedica a este estudo, com grupos em vários países e atualmente na Universidade de Tel-Aviv. Corpo, Movimento, Expressão, Metáfora A estrutura, organização e funcionamento do corpo humano possibilitam imensa gama de movimentos. Cada mínima transferência de peso, cada virar de cabeça, um simples toque de dedos revelam aspectos da memória arquivados em conexões neuronais complexas, organizações de cognições e comportamento estruturados – que são aspectos de nossa vida interior e de nossa relação com o mundo. (Laban, Ullmann, 1978) Quando a pessoa realiza um movimento ela está trabalhando a partir de impressões gravadas no cérebro de tal modo que a qualquer mudança efetuada no movimento corresponde uma mudança na memória associativa, nas sensações, sentimentos e quadro de referência. A partir de novas formas de nos movimentarmos estamos automaticamente acionando novas conexões, estabelecendo assim um sentir, um pensar e um agir diferentes dos ocorridos até então. Se bem trabalhada esta situação, o desequilíbrio momentâneo que poderia se seguir a tal mudança é substituído pela sensação de se sentir a vontade em seu próprio corpo . Cada movimento contem os seguintes elementos a serem decompostos, trabalhados e analisados a fim de auxiliar no processo psicoterápico: *Esquema corporal *Cinestesia : Respiração, Relaxamento, Tensão, Sensação, Toque. *Dimensão: comprimento, largura, altura, profundidade *Tempo: ritmo (rápido/vagaroso) *Espaço: tamanho (grande/pequeno, aberto/fechado) *Peso , força (pesado/leve, forte/fraco), gravidade *Forma *Fluência *Esforço O nosso corpo funciona como uma orquestra em que cada instrumento pode se unir a outros sem perder sua identidade. As partes podem se combinar, como os violinos na execução de alguns compassos de uma valsa, assim como o prato em um tempo do compasso, ou se congregarem todos a um só tempo. Assim também o ato de "andar" é efetuado a partir de classes de movimentos com sua própria identidade. Muitas combinações podem ser utilizadas na expressão corporal, levando em conta o pressuposto de que a cada nova combinação gestual corresponde uma nova configuração no sentir, pensar e fazer. Isto tem sido amplamente utilizado em treinamento de atores e grupos de desenvolvimento pessoal pela dança e expressão. "Neruda: Bem, quando você diz que o céu está chorando – o que você quer dizer com isto? Mário: Ora, fácil! Que está chovendo, ué! Neruda: Bem, isto é uma metáfora." ( Skarmeta, A ) Quando falamos em metáfora estamos designando uma construção literária através da qual uma idéia é substituída por /ou acrescentada de – uma expressão que confira maior beleza à descrição, conforme observamos no exemplo acima ( Flor do Lácio). Metáfora: Tropo em que a significação natural de uma palavra é substituída por outra com que tem relação de semelhança (Ferreira, 1993). Em psicoterapia a metáfora é a manifestação no real do material inconsciente, através de uma construção simbólica. Os sonhos são metáforas. Quando a adolescente diz, esperando a nota escolar: "Estou ardendo de impaciência..."- coloca seu sentimento de forma metafórica, esclarecendo ainda mais seu discurso. Se a pessoa manifesta seu desagrado através de um gesto, este gesto é uma metáfora. Segundo Dascal (1992): "As teorias tradicionais de metáforas verbais distinguem o tema do veículo da metáfora." Quando o movimento é utilizado como forma de auto conhecimento pela expressão corporal – é o veículo da metáfora. Exemplo: os membros do grupo ao realizarem a tarefa "andar no mel", refletem em sua postura peso, gravidade, esforço e limitação de movimentos . O movimento aí é o veículo da metáfora, pois leva o participante a contatar psiquicamente conteúdos inconscientes que tenham algo a ver com a experiência corporal. O terapeuta pode aprofundar o trabalho investigando o significado simbólico de difícil, pesado, restrito para as pessoas, e retornando este significado para o grupo. Neste refletir o movimento se torna não só o veículo, mas também o tema da metáfora. Uma das formas de se pesquisar é pedir ao grupo que relate sua experiência interna ao "andar no mel". Uma a uma as pessoas se manifestam verbalmente. Ou então se pergunta: "Quem quer falar sobre sua experiência?" Vamos imaginar que um homem (a quem daremos o nome de Cid ) diga que se sentiu restringido em sua expressão devido ao "mel". A terapeuta (a quem chamaremos Dra. ) terá mais de uma intervenção a sua disposição. Dra. pode perguntar o que isto tem a ver com a vida de Cid. Ele responde que se sente tolhido em sua vida profissional e afetiva. Se seguirmos este caminho ocorrerá o seguinte. Dra. pede a Cid que escolha pessoas do grupo e faça uma estátua desta restrição. Cid escolhe as pessoas e as coloca conforme a solicitação. Dra. pede a Cid que olhe a estátua e diga o que sente. Este responde: "Triste".(Neste instante ele se confronta com sua necessidade interna de espaço). A Dra. diz para Cid transformar a estátua de forma a adquirir maior liberdade, o que ele faz. Novamente é questionado sobre seus sentimentos. Cid pode neste momento ter maiores percepções ou não. Se notamos que o paciente esgota seu material, perguntamos: "Está bem para você pararmos por aqui?" Com a aquiescência do paciente podemos passar para outra pessoa, para outro tópico, ou não, conforme a disponibilidade das pessoas, do terapeuta e do tempo da sessão . O tipo de movimento feito reflete as defesas, a transferencia e o diálogo intra psíquico que o paciente está elaborando. São dados que auxiliam o terapeuta a refletir qual será sua próxima intervenção, o conteúdo desta intervenção e como será feita. O contrato antes das sessões de movimento explicita a não será permitido agressões de qualquer espécie, que não se forçará o participante em nenhum momento e que cada um irá segundo seu ritmo. Esta permissão de ir segundo sua decisão possibilita que a pessoa se expresse livremente. Exemplo: Uma moça em um grupo relatou que criar a partir do som estava difícil. Devido a esta permissão e ao seu próprio processo interno ela tentou a experiência de joelhos, conseguindo aumentar seu espaço. Neste "voltar ao engatinhar" houve a possibilidade de uma retomada no desenvolvimento e de uma expansão de consciência. Relato de Um Trabalho Individual Rico (nome fantasia) tem 12 anos e uma história de perdas. Foi primeiramente entregue para adoção. Aos 3 anos sua mãe adotiva teve uma recidiva de câncer e faleceu em dois anos, quando Rico tinha 5 anos. Quatro anos após o pai se casa novamente, apresentando ao garoto a tarefa de se relacionar com a terceira mãe. Rico veio para a psicoterapia com a queixa de dificuldades escolares. O que se observa a nível familiar é que ele não se sente aceito pela nova mãe, sendo o relacionamento mutuamente difícil . Rico chega à sessão e lhe é proposta uma tarefa que ele aceita: a partir de um som fazer movimentos ou inventar uma dança. No início apresenta certa inibição. A questão, quando uma pessoa apresenta dificuldade em criar um movimento , é se vou me deter na dificuldade em realizar de pronto a tarefa ou se prossigo (porque a postura retraída ou outros elementos que aparecem podem ser trabalhados e eventualmente é o que faço). No caso em questão decido prosseguir, propondo a brincadeira da marcha. Logo o menino "se solta". É uma expressão idiomática que significa "estar livre e leve". Estamos portanto frente a uma metáfora da linguagem e uma metáfora do movimento. A forma solta de se relacionar com o corpo, espaço e música nos remete ao universo do sujeito. Os significados etimológico e psicológico semelhantes. Naquele momento o movimento proporciona a sintonia entre manifesto e latente. Continuando a sessão peço que Rico efetue um movimento ou dança ao som de uma musica de compasso longo. Ele executa movimentos circulares de braços e pernas, dentro de um espaço de cerca de metro e meio, movimentos estes que parecem uma busca – não chega a ser uma elaboração completa. Fica neste processo cerca de 5’. Parece não conseguir criar além disto. Pergunto com o que se parece esta dança. Rico diz que se parece com medo. Peço para ele criar algum outro movimento ou brincadeira que pareça com o que ele sente. Rico constrói uma cama com as almofadas, deita-se nela e pede um cobertor. O interessante é que a cama tem bordas, como um berço. Pergunto se aí dá para ele criar um movimento. É então que ele consegue se exprimir de uma forma total. O movimento tem começo, meio e fim. Depois de uns minutos diz que está cansado. E relaxa. É comum em momentos de dificuldade em se exprimir pelo movimento que descubramos que executar o movimento em um estágio anterior de desenvolvimento é mais fácil. Rico foi ao colo materno para criar. Através desta regressão conseguiu atravessar uma barreira. O caso de Rico nos fornece algumas reflexões a respeito da utilização do movimento como metáfora: - O tipo de movimento descrito como "livre e leve" se refere a alterações do movimento em espaço, fluidez e peso. Primeiramente o menino estava fechado , e depois se mostrou aberto. Uma pessoa que tem uma história de perdas pode se fechar a diversão e carinho. O movimento fechado do início cedeu lugar ao movimento aberto no final. Uma conexão neurológica não utilizada ou pouco utilizada foi colocada em ação. Isto proporciona um acesso mais fácil no futuro a este processo cognitivo. o Se definirmos um sistema de crenças como um conjunto de sensações, sentimentos, pensamentos e ações, podemos dizer que o garoto em questão está começando a mudar o seu sistema de crenças, do qual faz parte a ruptura na expressão de emoções – relacionada a perda – e a demanda pelo encontro de alguém que lhe confira identidade – através da relação afetiva. A análise está lhe fornecendo o continente para esta busca. A análise do movimento como mediador do discurso necessita por parte do terapeuta o desenvolvimento de algumas habilidades, tais como: conhecimento de expressão corporal e formas de dança, disposição física para tal trabalho, curiosidade e intuição para relacionar os vários elementos que surgem no processo e conteúdo do paciente e finalmente uma base teórica na qual se fundamentar. É uma abordagem criativa que a todo momento oferece novos conhecimentos acerca do ser humano, pois são várias as possibilidades de intervenções terapêuticas no decorrer do processo, verbais ou não verbais. O que mais me tem chamado a atenção neste trabalho é de quanto necessitamos de tato e delicadeza ao lidar com o corpo e os movimentos de uma pessoa, e de quanto os membros do grupo aprendem a lidar com os mesmos elementos de acolhida uns com os outros. Como método de terapia em grupo favorece a integração grupal, aumenta a receptividade do paciente a seus próprios conteúdos psíquicos e consequentemente aos dos colegas. Como abordagem individual fornece um "setting" de acolhimento e sustentação ao paciente e uma forma diferente de lidar com problemas. Como se trabalha verbal e não verbalmente há riqueza de conteúdo, aberto a reflexão e pesquisa. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS DASCAL,V, (1992), Movement Metaphors:Linking Theory and Therapeutic Practice, In Stamenon M., Current Advances in Semantic Theory, Amsterdan, John Benjaming. FAGES, J.B. (1975), Para Compreender Lacan, Rio de Janeiro, editora Rio. FERREIRA, B. Holanda, (1993), Mini Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, editora Nova Fronteira. LABAN, Rudolf, (1978), Domínio do Movimento, São Paulo, editora Summus, Org. Ullmann, L.. SKARMETA, A,(1996), O Carteiro e o Poeta, Rio de Janeiro, editora Record,1996, pp.20. VILETE, Edna, (1997), Observação da Relação Mãe-Bebê, Método Esther Bick in : Coletânea de Artigos, 1° Simpósio Brasileiro, Unimarco Editora. NOTAS NOELIZA LIMA é psicóloga, psicoterapeuta, professora universitária. Mestre em Psicologia (PUC-Campinas – 2000) e Especialista em desenvolvimento de pessoas e grupos (IPPEM – B. Aires – 1982). Contato para workshops: ngroupsy@yahoo.com Revista Tesseract ISSN 1519-2415 www.tesseract.psc.br Edição 5 - julho 2001 editoras@tesseract.psc.br
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